Na era em que já não se escrevia -
porque não se sabia
e porque não era possível -,
quando se queria mascar
roíam-se as unhas do mindinho
e durante muito tempo
rolavam rolavam
entre língua e dentes.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
domingo, 25 de dezembro de 2016
desabrocham murchas
saltar todas as listas como cavalos barreiras
e abrir este rectângulo cortado branco
e sujá-lo de regras de teclas descifradas
dizer que não fiz tudo o que me passou pela gana
que ficaram só esboçadas todas as cartas, os gestos,
os obrigadas, as desculpas, os barcos de papel com as
palavras,
pôr as músicas, cantar, ler poemas, comprar bilhetes para
longe,
soprar amor
essa coisa que nego e renego e só quero como qualquer pedra
do chão
que não sei fazer
saltar as listas e vir para aqui fazer mais uma vez o inútil
tentar o que mais uma vez não conseguirei
explicar que tinha tanta cor para pintar e sou sempre só um
bloco cinzento
essa garganta que esconde o calado à força
essa prisão das paredes gélidas inflamadas
saber dizer a perda a incapacidade e as dores ridículas
saber dizer mas para quê
a vida fugiu-me e corre corre já não sei se a vejo ainda
mas será que existiram esses mundos subterrâneos de homens
pequeninos
essa opália, essa liberdade de bater a porta de casa dos
pais,
essa liberdade de ter amigos havia amigos? houve?
aquelas pedras do chão como a nossa alcatifa
aquelas ervas daninhas como as nossas plantas
aquelas canetas e isqueiros como oxitocinas de utilidade
pública
esta terra como a nossa casa e agora?
incomoda-me este silêncio
é bola preta que cresce como no miyazaki
até àquele tanque de preto a transbordar de borbulhas
e não quero ver a cena e fecho os olhos à cassandra
mas de que serve fechar-lhe os olhos
não sei o humano que parava os olhos nas coisas e nos outros
que queria ouvir-lhes as palavras
entender-lhes os tremores, as raivas, as maravilhas
acompanhar-lhe os pensamentos
desviar-lhes as rotas
sorrir como se fosse a primeira vez
o cenário e mundo inóspito vazio
os perdidos e não achados
o sem sentido de tudo isto
o cansaço de sísifo
o dramático
a farsa
(e o minúsculo) não
enquanto
os écrãs com novos donos de scoobydoos de caleiras sobre as
orelhas
a cantar músicas de natal congregadoras da farsa
em competição
continuam para sempre ligados eternamente ligados
com as pilhas duracel
e duram e duram e duram
as baratas
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
adenda fim do dia
Nunca quem dera jamais parar de escrever, sempre no seguimento da linha e fugindo a todo o direito. Indo para letras. Do outro lado do relvado.
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Varfarina de amêndoa
Varfarina de amêndoa
antera e borbórea
relenta de séries bastantes
assente em bicos micos
e pastos assados
sedenta de gamos
Assombreada e solarina
estende o braço rumo
curando pregos
e estívias
e segue o sono rulante
em vez do açor
Basta que masta açougue
relíquia de quília sebanta
logo o colo pinta manta
e antera e borbórea
a varfarina de amêndoa
sermina, cortina e diz
antera e borbórea
relenta de séries bastantes
assente em bicos micos
e pastos assados
sedenta de gamos
Assombreada e solarina
estende o braço rumo
curando pregos
e estívias
e segue o sono rulante
em vez do açor
Basta que masta açougue
relíquia de quília sebanta
logo o colo pinta manta
e antera e borbórea
a varfarina de amêndoa
sermina, cortina e diz
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
disto
deixem-me outra vez respirar a escrever
garras que desprendem garças impávidas
geradoras da mais rouge raiva ao mata à rabia
imagens chatas de cheias de pintinhas linhas tracinhos
confetti de lixo desnecessário tudo fora do armário
berloques cinzentismos cactos embalsamados
que bolha que saco que sarna na perna cruzada
voltar à pasta de papel com penas de pistacho
rir sem querer pela página abaixo e desmanchar
roubar este tempo só para só tempo este roubar
a braços irritados de arrancar ervas daninhas
sonhar as noites quentes a cidade ainda nossa
dar forma à fossa à impossível ponta de ar aqui
murguriar burtir-se sarracer ampinigar
garras que desprendem garças impávidas
geradoras da mais rouge raiva ao mata à rabia
imagens chatas de cheias de pintinhas linhas tracinhos
confetti de lixo desnecessário tudo fora do armário
berloques cinzentismos cactos embalsamados
que bolha que saco que sarna na perna cruzada
voltar à pasta de papel com penas de pistacho
rir sem querer pela página abaixo e desmanchar
roubar este tempo só para só tempo este roubar
a braços irritados de arrancar ervas daninhas
sonhar as noites quentes a cidade ainda nossa
dar forma à fossa à impossível ponta de ar aqui
murguriar burtir-se sarracer ampinigar
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
liberdade
A menina pires passou anteontem no Bairro Alto, na Travessa André Valente, e pelo cheiro a escape suspeitou que naquela ruela tinha nascido um grande poeta. Nessa tarde, descobriu na internet que era mesmo assim: Bocage ali à luz foi dado.
Então a menina pôs-se a ler e a pensar em belas ideias: Bocage esteve preso vários anos pela Inquisição, mas os seus versos, esses, ninguém os pode prender.
"Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:
Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!"
Fechou o livro de sonetos, e decidiu que ia ser livre. E pensou que ser livre incluía fazer escolhas, decidir e fazer, errar e acertar, pois o deixa-andar não faz pessoas livres e a liberdade não descende dos céus (aqui discordando ligeiramente com o poeta). Como o tema era vasto, ficou por aqui e foi beber um chá (que é um excitante barato), lembrando-se daquela rua e do cheiro a parque de estacionamento automóvel.
Então a menina pôs-se a ler e a pensar em belas ideias: Bocage esteve preso vários anos pela Inquisição, mas os seus versos, esses, ninguém os pode prender.
"Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:
Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!"
Fechou o livro de sonetos, e decidiu que ia ser livre. E pensou que ser livre incluía fazer escolhas, decidir e fazer, errar e acertar, pois o deixa-andar não faz pessoas livres e a liberdade não descende dos céus (aqui discordando ligeiramente com o poeta). Como o tema era vasto, ficou por aqui e foi beber um chá (que é um excitante barato), lembrando-se daquela rua e do cheiro a parque de estacionamento automóvel.
terça-feira, 6 de setembro de 2016
domingo, 4 de setembro de 2016
sem mexer uma palha
"depois de comer
nem um sobrescrito ler"
então a silhueta foi dormir a sesta
e a menina ficou acordada
sem mexer uma palha
"se é que isso é possível",
ficou ela a pensar para consigo
sem nada fazer
nem um sobrescrito ler"
então a silhueta foi dormir a sesta
e a menina ficou acordada
sem mexer uma palha
"se é que isso é possível",
ficou ela a pensar para consigo
sem nada fazer
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
a via da arte sensível
com mãos nuas apesar daqueles dedos
na competição - que pena - endurecidos
porque o caminho da suavidade não chegou
e ainda não pode ser o nosso
(perdoem-nos vocês que serão ágeis
a derrubar com alavancas do futuro)
foi bonito aquele yuko ainda assim
que nos faz ver que o peso é leve e é possível
de cada vez fazer virar o equilíbrio
e não se trata bem de dar a outra face
mas fazer com os mais fracos outra força
que é capaz do movimento impossível
na competição - que pena - endurecidos
porque o caminho da suavidade não chegou
e ainda não pode ser o nosso
(perdoem-nos vocês que serão ágeis
a derrubar com alavancas do futuro)
foi bonito aquele yuko ainda assim
que nos faz ver que o peso é leve e é possível
de cada vez fazer virar o equilíbrio
e não se trata bem de dar a outra face
mas fazer com os mais fracos outra força
que é capaz do movimento impossível
quinta-feira, 21 de julho de 2016
terça-feira, 12 de julho de 2016
Poema do poste com flores amarelas
Vieram os operários, puseram o poste de ferro na berma do passeio
e foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam “que chatice de poste”,
mas o poeta sorria para as flores amarelas.
e foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam “que chatice de poste”,
mas o poeta sorria para as flores amarelas.
António Gedeão
segunda-feira, 11 de julho de 2016
terça-feira, 28 de junho de 2016
terça-feira, 21 de junho de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
n'oje
sarna
coxa
tu magreza
ossos restos
vida acesa em palavras fumo ossos bichinhos
impaciência, bichinhos
inconstância, a severos açores
argmassa do que resta
foi ruminado ruminamos estamos ainda aqui
restos de toques de garras
sentimos já para nada
ardilamos sempre sempre ao lado do
voo de esperança que não espera e perde
perdida
em lama de tempo imundo
sexta-feira, 17 de junho de 2016
A menina pires reescreveu um soneto ao jantar
Magoam-me de acusação e despedida
Magoam-me de acusação e despedida
como se todo o esforço dos meus braços
não fossem erros vossos, homens baços,
e a minha falta a tua, toda a vida.
Hei-de cantar-vos a revolta um dia,
quando a noite que carrego for futuro
do sol que me esvazia como um furo,
e chegar outra cidade menos fria.
Entretanto, deixai que ache injusto:
até que o furo feche e rache o busto,
seja o álcool noutra mesa bem queimado.
A minha cor é verde, a raiva sabe:
que o combate dentro dela nunca acabe,
e transborde até deixar de ser lixado.
O original de Carlos de Oliveira:
Acusam-me de Mágoa e Desalento
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'
terça-feira, 10 de maio de 2016
fado amorrinhado
eu morro que na barriga
uma cócega de falta
até me fica uma volta
nos gestos até me fica
até me fica de falta
eu nos gestos na barriga
uma cócega de volta
e morro que até me fica
uma cócega de falta
até me fica uma volta
nos gestos até me fica
até me fica de falta
eu nos gestos na barriga
uma cócega de volta
e morro que até me fica
não leias isto
ir
não sei para onde ir
imagino-te
a ti
tu estarás noutro mundo
outro
não leias isto
não leias
A sombra fica
Há dias em que a sombra nos deixa e vai ver o rio. Outros em que fica parada
sem saber onde ir. À espera que a luz dê a sua volta. Hoje é um dia desses.
Sou eu que vou, e a sombra fica. Fica mal desenhada, porque a luz é muita mas indecisa. Fica espalhada na mesa e no chão, tristonha, junto ao caixote. Fica aqui, quieta, sobre um copo de café de plástico e um rascunho.
Eu vou, saio à procura do lugar impossível no mundo que amo e não me deixa amar. Hoje é desses dias, estúpidos dias sem noite, em que a sombra fica e eu vou.
sem saber onde ir. À espera que a luz dê a sua volta. Hoje é um dia desses.
Sou eu que vou, e a sombra fica. Fica mal desenhada, porque a luz é muita mas indecisa. Fica espalhada na mesa e no chão, tristonha, junto ao caixote. Fica aqui, quieta, sobre um copo de café de plástico e um rascunho.
Eu vou, saio à procura do lugar impossível no mundo que amo e não me deixa amar. Hoje é desses dias, estúpidos dias sem noite, em que a sombra fica e eu vou.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
a casa pelo telhado

a casa pelo telhado
que ideia!
sabes que é impossível
que ideia!
o carro à frente dos bois
que ideia!
a omelete sem ovos
que ideia!
e se te disser que não há tempo para analisar tudo
e tens de jogar?
e se te disser que há saltos na aprendizagem?
que pode haver a imperfeição provocada
que as fronteiras se podem passar
que há memória transitiva
que há cooperação
que há línguas diferentes
e se te disser que não é impossível
e que tenho os pés na terra quando digo que não é impossível voar?
a casa pelo telhado
que ideia!
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Depois de passar anos à procura do barbeiro...
O Barbeiro, pela Ronda dos Quatro Caminhos
– Diga lá, ó senhor Gato:
Porque tem esses bigodes?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mos quis cortar.
Disse que gato sem bigodes
Mais parecia um pinguim,
Que a bigodes tão bonitos
Não era de se dar fim.
– Diga lá, senhor Leão:
Porque tem esse cabelo?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mo quis cortar.
Disse que leão careca
Mais parecia uma avestruz,
Que leão só fica bem
De cabeleira ou capuz.
– Diga lá, ó senhor Bode:
Porque tem essa barbinha?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não ma quis cortar.
Disse que bode sem barba
Mais parecia um chimpanzé,
Que bode só fica bem
De barba grande e boné.
encontrei-o aqui
– Diga lá, ó senhor Gato:
Porque tem esses bigodes?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mos quis cortar.
Disse que gato sem bigodes
Mais parecia um pinguim,
Que a bigodes tão bonitos
Não era de se dar fim.
– Diga lá, senhor Leão:
Porque tem esse cabelo?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mo quis cortar.
Disse que leão careca
Mais parecia uma avestruz,
Que leão só fica bem
De cabeleira ou capuz.
– Diga lá, ó senhor Bode:
Porque tem essa barbinha?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não ma quis cortar.
Disse que bode sem barba
Mais parecia um chimpanzé,
Que bode só fica bem
De barba grande e boné.
encontrei-o aqui
terça-feira, 18 de agosto de 2015
defesa de Glenn Gould contra Sokolov
fui tirar os pontos
seja como for
desaparecerão quando a pele se encontrar
e eu com ela me encontrar
e for possível escrever
escrever por exemplo sobre a antítese entre Sokolov e Glenn Gould
para defender o segundo, é claro
que soube que a aura tinha caído
e entendeu que a gravação era um processo colectivo
e que se podia cortar e colar para a música chegar mais longe
antes do copypaste
e apesar de tudo escolhe-se
opção difícil, armadilhada
e fiquei com três buraquinhos
(ou serão seis?)seja como for
desaparecerão quando a pele se encontrar
e eu com ela me encontrar
e for possível escrever
escrever por exemplo sobre a antítese entre Sokolov e Glenn Gould
para defender o segundo, é claro
que soube que a aura tinha caído
e entendeu que a gravação era um processo colectivo
e que se podia cortar e colar para a música chegar mais longe
antes do copypaste
depois da música concreta
e da fixação dos sons ser possível
relação dialética com a tecnologia
desenvolvendo uma nova técnica
isto é, uma relação nova entre os
seres e os materiais
e entre os humanos
com a ferramenta que se interroga em
acto
para não ser por ela dominado
a questão é política, portanto
porque a forma de construir e usar
é parte da transformação ou mais do
mesmo
da justeza ou do engano
(e nada é só justo ou só engano
mas o pianista russo que diz que em arte
só tem valor o que não é reprodutível
está enganado)
e apesar de tudo escolhe-se
escolhe-se ainda o que é preciso,
o que a pele no outro deseja e escuta
e no terceiro buraquinho ama
opção difícil, armadilhada
- mas ou é isso, ou nada.
como são tolas as pessoas
1.
como são tolas as pessoas
como são tolas as pessoas
que fazem crer às outras que são unas
e de fora parecem realmente
mas lá por dentro dilaceradas como tu
porque é raro encontrarem-se as coisas
com as ideias
como dois amantes
e os dois lados de ser e não ser
e as vidas diferentes que vivemos
e que queríamos que fosse uma só
uma só
2.
e entretanto acção e sonho
como irmãos
rompem diques ou então
acumulam energia como barragens
e fazem saltar até as pedras
que atingem os fantasmas levantados
e por eles passam como passam os
passados repassados
pelos véus das aparências da
história histérica
simplificada, porque o essencial não
se conta
fica atrás, escondido
foi a
dúvida
e o que sem querer recusaste
3.
já era tempo de te escrever outra vez
minha irmã
ou fazer aquele monte de canções
desoladas
muito tristes e engraçadas
para crianças que entendam o que a
vida pode ser
e mulheres e homens que não tenham
desistido de sentir
a beleza da jangada e da casa lá em
cima
contigo brincando na árvore e nas
ameias
de um castelo inventado para ser
atacado
e defendido dos brutamontes com
armadilhas de piratas
ardilosa combatente
astuta coruja
silenciosa e nua
tu és bela e vermelha
à bengala
À bengala ele diz coisas baixinho que não se percebem bem
mas anda, parece, com agilidade, até. E depois de o ver perdi-o. Achei que estava no autocarro, sim era um autocarro e era amarelo, pelo menos parecia amarelo. Era, era. Amarelo, mas com publicidades, não se via bem lá para dentro. Podia ser um eléctrico. As portas abriram. Não, ele ia em pé, agarrado ao varão do autocarro, era um autocarro era. Ele murmurava palavras, pareciam palavras, eram de certeza, mas não se ouvia o que era, não se ouvia bem. Parecia ser uma bengala, mas depois estranhei, andar assim tão bem. Pode ser só de apoio. Ele se calhar caíu, partiu uma perna e agora só tem medo. É um apoio, ele andava bem, até muito bem, pareceu-me. Não coxeava. Saiu. Andava bem, sim, muito ágil. Tinha um chapéu, sim agora estou a lembrar-me do chapéu. Acinzentado? Sim, com uma risca, aquilo deve ter um nome, uma risca de chapéu com aba. Não era aba larga, era aba curta, pareceu-me aba curta, até tinha a aba levantada um pouco, de lado talvez, mas podia não ser de propósito, sim, tinha a aba levantada de lado. Sim, bengala tenho a certeza. Não sei se era fato. Era cinzento, o chapéu, sim, o chapéu era cinzento, disso tenho a certeza. Não era fato, era talvez uma camisola grossa avermelhada. Vermelho escuro, quase acastanhado, cor de tijolo escuro, não sei, mais vinho talvez. Não cambaleava, não, até andava bastante direito, sem ser demais. Não vi bem a cara. Era um homem, sim, não há dúvida. De sapatos, sim, vi a bengala castanha.
mas anda, parece, com agilidade, até. E depois de o ver perdi-o. Achei que estava no autocarro, sim era um autocarro e era amarelo, pelo menos parecia amarelo. Era, era. Amarelo, mas com publicidades, não se via bem lá para dentro. Podia ser um eléctrico. As portas abriram. Não, ele ia em pé, agarrado ao varão do autocarro, era um autocarro era. Ele murmurava palavras, pareciam palavras, eram de certeza, mas não se ouvia o que era, não se ouvia bem. Parecia ser uma bengala, mas depois estranhei, andar assim tão bem. Pode ser só de apoio. Ele se calhar caíu, partiu uma perna e agora só tem medo. É um apoio, ele andava bem, até muito bem, pareceu-me. Não coxeava. Saiu. Andava bem, sim, muito ágil. Tinha um chapéu, sim agora estou a lembrar-me do chapéu. Acinzentado? Sim, com uma risca, aquilo deve ter um nome, uma risca de chapéu com aba. Não era aba larga, era aba curta, pareceu-me aba curta, até tinha a aba levantada um pouco, de lado talvez, mas podia não ser de propósito, sim, tinha a aba levantada de lado. Sim, bengala tenho a certeza. Não sei se era fato. Era cinzento, o chapéu, sim, o chapéu era cinzento, disso tenho a certeza. Não era fato, era talvez uma camisola grossa avermelhada. Vermelho escuro, quase acastanhado, cor de tijolo escuro, não sei, mais vinho talvez. Não cambaleava, não, até andava bastante direito, sem ser demais. Não vi bem a cara. Era um homem, sim, não há dúvida. De sapatos, sim, vi a bengala castanha.
sem adjectivos
Desde que perdi o adjectivo que as
coisas deixaram de ser. Agora perco-me nas ruas e vou sempre dar a
casa magoando os dedos. Estou a falar a sério. Não é brincadeira
nenhuma esta letra. É o raio posto na estátua, a queda dos astros.
Gostava de ser como as pedras, ter tempo. Mas queria dormir menos do
que os gatos. Sinto-me uma rocha de esferovite a perder nacos de
razão com as formas da roda. Que calor. A minha réstia de procura
não anula, não arrasa, não alisa o mundo em explicação e slogan.
Tenho de resistir, mas também tenho de cantar o mundo e a
possibilidade do encontro sem o jugo da pressa e da submissão. Nem
tudo passa por eles. Senão, de que vale rir?
sexta-feira, 31 de julho de 2015
nem eu
fumo chocolate café
os pombos cheios de moscas
sangrar seco branco peganhento
jorrar continuar ondas divergentes ácidas de transpirar
fumo chocolate café
morte não pensada
os pombos cheios de moscas
as moscas cheias de patas e asas e baratas
sem chão
esguio frio arrepiado
esfolar-se a pele com antílopes
sangrar seco branco bacalhau
como é que se diz
isto de estar parado imóvel sem conseguir estado de polícia
de choque
jorrar expulsar ondas divergentes ácidas
morte na barriga
onde a borracha a tecla de água rás
quinta-feira, 23 de julho de 2015
detritos
menina pires,
deixe lá a sombra um bocadinho
e olhe à sua volta:
não vê que os pombos estão a ficar malucos
com as migalhas dos folhados de salsicha?
não vê que os ratos estão a ficar zonzos
com os queijos de cura prolongada?
não vê que os urubus estão a ficar passados
com os cadáveres da autoestrada?
não vê que os abutres estão a ficar tolinhos
com os sarcófagos dos prazeres?
não vê que as hienas estão a ficar loucas
com as carcaças dos reformados?
não vê que as moscas estão a ficar tontas
com as fezes de cagané?
desculpe, mas é.
deixe lá a sombra um bocadinho
e olhe à sua volta:
não vê que os pombos estão a ficar malucos
com as migalhas dos folhados de salsicha?
não vê que os ratos estão a ficar zonzos
com os queijos de cura prolongada?
não vê que os urubus estão a ficar passados
com os cadáveres da autoestrada?
não vê que os abutres estão a ficar tolinhos
com os sarcófagos dos prazeres?
não vê que as hienas estão a ficar loucas
com as carcaças dos reformados?
não vê que as moscas estão a ficar tontas
com as fezes de cagané?
desculpe, mas é.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
terça-feira, 2 de junho de 2015
quarta-feira, 27 de maio de 2015
duas pedrinhas
duas pedrinhas
a tocar numa base de granito
podem fazer do cinzento música
e ser muito estimulante
para o ouvido
mas três gigantes
a pisar as casas todas
como dantes
não é nada simpático
e para quem lá vive
não é prático
já as cinco pontas
de uma estrela decidida
com a ajuda de uma amiga
(e de um espelho)
podem dar outra luz
à estrada
a tocar numa base de granito
podem fazer do cinzento música
e ser muito estimulante
para o ouvido
mas três gigantes
a pisar as casas todas
como dantes
não é nada simpático
e para quem lá vive
não é prático
já as cinco pontas
de uma estrela decidida
com a ajuda de uma amiga
(e de um espelho)
podem dar outra luz
à estrada
visão lateral
As mulheres desenvolvem mais a visão lateral do que os homens. Por isso, quando vão ao Galeto, não olham só para a televisão.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Apocalipo de cola
A esta hora, a depressão imensa cai-me por dentro. Os pratos por lavar, mesas com papéis e comida, cotão na cama gritam-me no estômago a angústia. A testa aperta, o coração mirra, tu estás em coma, a dormir. Não oiço nada, o que oiço apago a borracha. As aparas da borracha são brancas. Quero desistir, perdi as forças.
O cérebro muito racional e científico fala-me em voz grave. É fome, é sono, trabalho a mais, cigarro a mais. E o super-cérebro ou alter-cérebro pergunta: e a solidão? Andas a ver demasiados anúncios de cerveja, diz o cérebro. Não percebes nada do mundo, só olhas para ti, responde o outro, o alter. Ou super.
Autodestruo. Os olhos, a boca, os pulmões, o estômago. A pele. Os dentes. A caveira cava-me e abre orelhas, olheiras, alheiras, alheias, areias, áreas e árias. As tépidas mentes doentes do ente. Tusso para sempre. Comem-me a carne as pulgas.
Outra estratosfera diz que a culpa é da hora. A que começou a escrever. Horas, hei-de esfaquear-vos. Para que precisamos de horas e de que elas sejam diversas? Venham ser diversos os segundos. Mas desisto de discussões e lutas. Felizmente, durmo.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
quarta-feira, 6 de maio de 2015
O livro de ontem à noite (para publicar amanhã)
Como escrever a andar
como quem come o impossível
o andar-ritmo, estilo, tipo
e a voz alta a ditar as regras
o individualismo desuniversal
a coisa só-si
a ser aberta-fechada, malcriada
e o travão-apagão visitante
como fazer assim o que se quer
como quem come o desistente
sonolento de saudades e na goela anti-partos
carapaças linhas duras
a mão desvia o padrão azul
a mão cai depois e não sabe
a mão ganha cabeça
Apanhado em flagrante num instinto comunitário
o gato senhor de si vira a cabeça
finge dormir de orelha alerta
dá o flanco de costas.
Os gritos de cio ou abandono
são iguais aos de crias humanas largadas nas bermas das estradas.
Como pode um preso libertar outro preso?
O gato não ronrona esta noite
ganha torcicolos
sobressalta
regurgita
não era a distância
entre nós e o barco
éramos nós o barco
e o nós era outro e já não se via
numa espécie de miopia
daí talvez os gritos de gato voador
ouvidos mais acima
ouvidos-alerta do gato do sexto
e o escrever a voar
e, pois canté, os nós eram só eu
ilha extinta pela distância
inventa-me um título
mas não me perturbes
coça-me o testículo
mas não me masturbes
quarta-feira, 29 de abril de 2015
A morta-viva convida
| Morro a 1 de Maio. Se me tens algum carinho, não me
evoques. Não me chores. Não me metas na gaveta do lembras-te quando. Se
nostalgia for o sentimento que fica depois de mim, esta viagem de 9 anos
não valeu a pena. Preferia deixar-te o sabor amargo de algo inacabado. Não para que me continues. Antes para que te dê asas à vontade de experimentar. Para que te anime a levantares-te contra quem te oprime, a inventar formas de estar e viver livres de poder, a remar contra a corrente do capital, a criar, enfim, a tua própria utopia. Só assim, só se a minha morte te elevar os níveis de raiva e de sonho, só se mil novas experiências de liberdade se erguerem, só assim, repito, terá valido a pena. Se a cidade arde por falta de espaços de partilha, que se criem esses espaços. E que se veja a cidade a arder. Despeço-me. Até nunca. O colectivo que me gere diz até já. 12:09 okupação da praça (sofás, loja livre, jogos, morfes...) 16:00 início das hostilidades musicais 18:00 abertura da sala cinematográfica -Recycled Maddona – vivafilmes -O Que É a Arte? – Pedro Rocha -Saturado (2009 - 20 minutos) – Tiago Afonso -Histórias do Fundo do Quintal (2012 - 13 minutos) – Tiago Afonso -AS Troianas (2014 - 6 minutos) – Tiago Afonso -Osu#2 (2003 - 10 minutos) - colectivo osu PALCO SALÃO (termina quando tiver de terminar) Grito! https://www.facebook.com/Gritoinvicta?fref=ts Self-rule https://www.facebook.com/selfruleband?fref=ts Cabeça de Martelo https://www.facebook.com/CabecaDeMartelo?fref=ts Erro Crasso https://www.facebook.com/ErroCrasso?fref=ts Txuvasko https://www.facebook.com/pages/Txuvasko-PUNK/496982673717269?fref=ts Katana https://www.facebook.com/pages/KATANA/1460310104221389?fref=ts Anarchrist https://www.facebook.com/anarchrist01?fref=ts Atrofio https://www.facebook.com/atrofio.banda?fref=ts Insurratos https://www.facebook.com/Insurratos?fref=ts Discórdia https://www.facebook.com/discordiapunkpt?fref=ts Nostragamus https://www.facebook.com/nostragamus.pt?fref=ts Come Cacos https://www.facebook.com/come.cacos.5?fref=ts Um Trinco no Mamilo https://www.facebook.com/umtrinco.nomamilo?fref=ts Estado de Sítio https://www.facebook.com/estadodesitiopunx?fref=ts GG Ramone https://www.facebook.com/events/1599645870275506/ PALCO JARDIM (termina às 22:00) Dokuga https://www.facebook.com/dokugapunx?fref=ts Morto Coltese https://www.facebook.com/mortocoltese?fref=ts Time Shifter https://www.facebook.com/timeshiftermusic?fref=ts Quarteto RESIST! https://www.facebook.com/pauloalexandrejorge?fref=ts Rap Riça&kass https://www.facebook.com/rica.boeing?fref=ts Lost Gorbachev https://www.facebook.com/pages/lost-gorbachevs/143045739094283?fref=ts PERFORMANCES Thomas Bakk NU (Nuno Pinto) https://www.facebook.com/projecto.momo.9?fref=ts VJ Mutante (Noé) (Set Punk & Alternativo da Pesada) António Pedro Ribeiro (poesia) Ana Afonso / Ana Ribeiro (música e poesia) Cortina de Fogo (por Cortês Rafael) |
quarta-feira, 22 de abril de 2015
cergal
A ser a não ser a ti aqui e em vez do complicado mínimo sem
saber da pressa disto sem saber pensar outra coisa com televisão assim porqû
Sem ter aqui no peito ou tendo menos no telefone da linha
não vista não separante por ver animais bestas e anúncios sempre a livrar da
depressão e solidão
Sem ter o sentido sempre a correr sem manias tidas com
sprays com vagas de ondas abertas a bater à porta do écrã pausa
Na espera que esmera à toa à tona a livrar barcos em verdes
que não estufas frias
Fantasmas farófias azeites nas barbas assilabar a voz
repentinamente sofrer
Salgas pastos aranhas quem sabe talvez depois e nunca nunca
a ser a saber quando ficar não querer ficar assim
Argonautas sensóveis rupestres guizos de malhas precianas
Bastar a errar a mesma a mesa assentar a cabeça docemente no
mar
Grés
quarta-feira, 8 de abril de 2015
correspondência
e se depois
e como
como não
como não se sim ou sim se não
o erro se fosse uma mulher era a mãe da revolução disse ele
brain damage
hic hic hic
fluido rosa
falar pela rua aos tropeções
como comprar o comprimido-de-parar-o-cérebro
azul verde azulado azul azul
cheira a primavera disse ela
e ela mergulhou
antigamentes inexistentes irrecuperáveis
ei-los
cheiros
falar pela rua sempre será o melhor de tudo
mas o desfoque do olhar a viseira
medos automatismos rotinas fugas conservações
corpos definhantes sérios adultos feios cinzentos a serem os
nossos
e ter afastado tudo
e pensar que os outros cada um também afastou tudo de si e
ficámos maples sozinhos em salas rodeados de nada
segunda-feira, 6 de abril de 2015
não esquecer
So
keep fightin' for freedom and justice, beloveds,
but don't you forget to have fun doin' it.
Lord, let your laughter ring forth.
Be outrageous, ridicule the fraidy-cats,
rejoice in all the oddities that freedom can produce.
And when you get through kickin' ass
and celebratin' the sheer joy of a good fight,
be sure to tell those who come after
how much fun it was."
but don't you forget to have fun doin' it.
Lord, let your laughter ring forth.
Be outrageous, ridicule the fraidy-cats,
rejoice in all the oddities that freedom can produce.
And when you get through kickin' ass
and celebratin' the sheer joy of a good fight,
be sure to tell those who come after
how much fun it was."
Molly Ivins, from "The Fun's in the Fight" in Mother Jones, 1993
sexta-feira, 13 de março de 2015
triunvirato
o triunvirato
fez um ultimato
de sentido exacto:
que trates de ti
que saias daí
um ponto no i
vais ligar?
vais resistir?
resistir é vencer
diz o outro
que és também tu
e eu por mim
digo assim:
que posso perceber
tudo querer
mandar às favas
esquecer
enrodilhar
perecer
mas que consegues muito mais que isso
que caramba não és só um chouriço
mas belo mago de ideias
e cheio de viço
que força é
não ser dominado
pelo rosé
que força há
em beber sumo
de maracujá
que estamos contigo
a tirar-te os olhos
do umbigo
que há ainda muito por ler
por contar criar fazer
que te queremos connosco
porque nos puseste aqui
precisamos de ti
momentos que tais
a derradeira hipótese de mudar isto
de não ter de ser aos ais
saltar pra fora do loop
que a ti nem o álcool te engrupe
ver um espectáculo da Seivatrupe
nem que o espectador ao lado apupe
que há quem se preocupe
contigo
não saber do dia e da hora?
borriés daí pra fora!
terça-feira, 10 de março de 2015
vá brincar
posso tratar-te por tu a ti que actuas
ou divas devem divagar em vénias
certas de sobressaírem silhuetas soçobradas
arrastadas com árida e ácida ânsia
de lugares livres e liguarudos
posso atuar-te a ti que atuas
esquecendo esquifes espartilhos
e os altos belos bicos desses botins
acetinados sem sina mas com ensejo
do altivo altar das palmas e louros
posso babar-me berrar beber bocejar
e porquê pedir-te permissão
será do mar amarelo da voz de marmeleira
ou quê
na novela e fora dela, filhos por você
ou divas devem divagar em vénias
certas de sobressaírem silhuetas soçobradas
arrastadas com árida e ácida ânsia
de lugares livres e liguarudos
posso atuar-te a ti que atuas
esquecendo esquifes espartilhos
e os altos belos bicos desses botins
acetinados sem sina mas com ensejo
do altivo altar das palmas e louros
posso babar-me berrar beber bocejar
e porquê pedir-te permissão
será do mar amarelo da voz de marmeleira
ou quê
na novela e fora dela, filhos por você
segunda-feira, 9 de março de 2015
não escrever
escrever sempre sobre este momento que não há nem entre a sala de jantar e o corredor nem no mármore das trilobites, esconder caderno depois e antes mas isso era dantes quando havia ar entre as trilobites, grafites em estojos, agora só a fingir que é prosa poesia disfarçada e de coração nas mãos a correr antes do soar do trinco ou do correr na calha das calhas da porta, e por lá não entra mais aquele que não entra nunca, escrever sempre sobre este que não entra nunca e sempre força à filme que filma a dobradiça em espasmos de pancadas, sempre força e não o queremos deixar entrar porque assim era assim era assim, gritar de insuficiência ingorância e perda do lugar espaço espaço lugar momento sítio de isto sítio de aqui poder ser ali poder fazer sair, buracos de luz eléctrica branca penas águas humidades ecos de metal pouco sal calcarite, pontos de fuga loucos amenos são barcos e algas verdes arcos de chorões e passagens em cavernas e caminhos de terra e madeira e o sol quente sem ferir os olhos, calha da porta
quarta-feira, 4 de março de 2015
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