O mundo ao ar livre
cheio de luz, com calor de sol
comove até ao craquelé do seco barro medulóide
trava passos
paraliza pensamentos
dá-se todo
e agride-me
como se dissesse
aqui é que é a vida, o que fazes desse lado?
E a custo
a passos de homem na lua
consigo finalmente alcançar
a salvadora porta do túnel do metro
direcção retour à la normale
luz eléctrica de buraco
o tempo a passar a vida
outra vez a fugir.
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quinta-feira, 31 de maio de 2018
levantar e fazer acontecer
levantar e fazer acontecer sim
mas com sol é que isso é fácil
a rapariga já velha dos caracóis castanhos
arranca uma flor da laranjeira azeda
eu penso pela primeira vez
que dão jeito aos donos dos cafés
os trocos dos arrumadores de carros
(fio de comunidade)
e no metro continua em loop
a voz ensurdecedora que grita avisos da polícia
mas o sol brilha por cima
e alguns levantam-se e fazem acontecer
mostrando que só depois da fotossíntese
é que isto vai lá
mas com sol é que isso é fácil
a rapariga já velha dos caracóis castanhos
arranca uma flor da laranjeira azeda
eu penso pela primeira vez
que dão jeito aos donos dos cafés
os trocos dos arrumadores de carros
(fio de comunidade)
e no metro continua em loop
a voz ensurdecedora que grita avisos da polícia
mas o sol brilha por cima
e alguns levantam-se e fazem acontecer
mostrando que só depois da fotossíntese
é que isto vai lá
e amanhã direi
e amanhã direi
que dormi bem quentinha
em mais uma noite de angústia do mundo
de gritos, frio, arrepios, miséria, morte,
injustiças de cassandra
puxadas a ferro das entranhas
e respondidas com as entranhas
que besuntam de ferro a vida
- impermeavelmente.
e tudo será mentira
como os passos que oiço cá dentro de casa
e que me dizem
não poderem ser reais.
não poderem ser reais, dizem
vários tempos no mesmo espaço
que dormi bem quentinha
em mais uma noite de angústia do mundo
de gritos, frio, arrepios, miséria, morte,
injustiças de cassandra
puxadas a ferro das entranhas
e respondidas com as entranhas
que besuntam de ferro a vida
- impermeavelmente.
e tudo será mentira
como os passos que oiço cá dentro de casa
e que me dizem
não poderem ser reais.
não poderem ser reais, dizem
vários tempos no mesmo espaço
São as coisas que eu ouço sempre
São as coisas que eu ouço sempre
Das duas uma
ou vive alguém cá comigo
ou tenho ouvido de tísica
e isto é silêncio para os outros
Das duas uma
ou vive alguém cá comigo
ou tenho ouvido de tísica
e isto é silêncio para os outros
segunda-feira, 11 de julho de 2016
terça-feira, 28 de junho de 2016
terça-feira, 21 de junho de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Ninguém mas muita gente
Vais aqui e acolá
Para trás e para a frente
Pôr o arroz a cozinhar
Tiras pratos e panelas
Agarras a cafeteira com uma mão
Corres a todas as janelas
E segues para outra divisão
Lavas a loiça
Varres em todos os sítios o chão
Pões na máquina os cortinados
Que já muito sujos estão
Escreves uma carta
Colas no envelope o selo
A tua imensa electricidade
Chega até ao cabelo
Não sei de quem estou a falar
Mas deve haver tanta gente assim!
... com esta electricidade
Lavar chão, cozinhar, enfim
Não conheço ninguém assim
Mas muita gente há-de haver
Só vão para o seu jardim
Quando em casa nada houver para fazer
[Este texto foi feito dia 22 de Abril de 1993, quando andava na Escola Marquesa de Alorna, no 5º ano. Sempre que leio este texto apetece-me acrescentar:
Já agora
Que estou a comer pão de ló
Confesso que a pessoa em que estava a pensar
Era sem mais nem menos... a minha avó.]
Para trás e para a frente
Pôr o arroz a cozinhar
Tiras pratos e panelas
Agarras a cafeteira com uma mão
Corres a todas as janelas
E segues para outra divisão
Lavas a loiça
Varres em todos os sítios o chão
Pões na máquina os cortinados
Que já muito sujos estão
Escreves uma carta
Colas no envelope o selo
A tua imensa electricidade
Chega até ao cabelo
Não sei de quem estou a falar
Mas deve haver tanta gente assim!
... com esta electricidade
Lavar chão, cozinhar, enfim
Não conheço ninguém assim
Mas muita gente há-de haver
Só vão para o seu jardim
Quando em casa nada houver para fazer
[Este texto foi feito dia 22 de Abril de 1993, quando andava na Escola Marquesa de Alorna, no 5º ano. Sempre que leio este texto apetece-me acrescentar:
Já agora
Que estou a comer pão de ló
Confesso que a pessoa em que estava a pensar
Era sem mais nem menos... a minha avó.]
terça-feira, 24 de agosto de 2010
poema para o desenho dois de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
o mais terrível dos manuéis
tinha um barco no mar
para andar aos anéis
nada de cores garridas
em tábuas de madeira
e remos de pás compridas
só a cor do sangue dos outros
e a cruz das chagas obscuras
mais moderno que mofo
a caravela o mar agitava
direito por linhas tortas
a corda o mastro compassava
queria o mundo para si
queria a terra em guerra
e um pelouro no Mali
tinha um barco no mar
para andar aos anéis
nada de cores garridas
em tábuas de madeira
e remos de pás compridas
só a cor do sangue dos outros
e a cruz das chagas obscuras
mais moderno que mofo
a caravela o mar agitava
direito por linhas tortas
a corda o mastro compassava
queria o mundo para si
queria a terra em guerra
e um pelouro no Mali
poema para o desenho um de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
abracadabra o porteiro
dá livre entrada ao álbum tapado
dobradiça marionete
o dedo aponta imporante
entre
a cara quadrada
o nariz de vinho
a roupa que farda a portagem
a entrada tem portão
mas o patrão é do povo
é jardim de animais
ou revista de família
o autor das peças fadado para a talha
o porteiro abracadabra
assinala a entrada
agradecia que evitassem de bater com a porta
dá livre entrada ao álbum tapado
dobradiça marionete
o dedo aponta imporante
entre
a cara quadrada
o nariz de vinho
a roupa que farda a portagem
a entrada tem portão
mas o patrão é do povo
é jardim de animais
ou revista de família
o autor das peças fadado para a talha
o porteiro abracadabra
assinala a entrada
agradecia que evitassem de bater com a porta
terça-feira, 17 de agosto de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
amarguras
amarguras de não pensar, escreveres de entontar, amarguras de não ter forças, cansaços de não dormir, tristezas da falta de ideias, certezas de bons amigos, boas conversas à volta, facto de não entrar, gostos de almofadas e lençóis, preferências de companhias, irritações de fígados mal tratados, olhos bonitos no mundo, penas de não passar forças, letras tortas de cansaços e alcoóis, medos de já não saber ortografia, pesos de avôs e pais, vontades de não querer pensar em futuros, falta de forças para imaginar futuros, os porquês de pensar imenso, invejas de gatos e tartarugas, lembranças de inquéritos mal feitos para resultados duvidosos, quases de fechar de olhos, determinativos a mais, tendências de encher páginas, satélites que já não sei quais são, palavras escritas como falcidadez, amores de fugir, imagens de respirar nas cabeças, plurais intrigantes, auto-reflectir a mais, deveres por cumprir, cadernos como psicólogos, estalos que daria a quem diz isto ou aquilo, manias de encontrar sentidos, medos de gentes intrusivas, medos dos pensamentos terríveis, amor.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
transbordo
Rio largo de profundis
mar do Nilo a transbordar
chaga ferida em sangue
tão cedo não vai sarar
Das escarpas afiadas
saem uivos de agonia
mas os que sofrem mais
são os que têm afonia
Sem saber gritar errar
embrulham o desespero
sabem limpar o cantinho
não usam o verbo quero
Choram mágoas de arrepios
cospem pisam e recalcam
e respiram sós no mundo
sem saber por onde galgam
Fecham pesados os olhos
de cansaço ao fim do dia
almejam esquecer os horrores
dos uivos de agonia
mar do Nilo a transbordar
chaga ferida em sangue
tão cedo não vai sarar
Das escarpas afiadas
saem uivos de agonia
mas os que sofrem mais
são os que têm afonia
Sem saber gritar errar
embrulham o desespero
sabem limpar o cantinho
não usam o verbo quero
Choram mágoas de arrepios
cospem pisam e recalcam
e respiram sós no mundo
sem saber por onde galgam
Fecham pesados os olhos
de cansaço ao fim do dia
almejam esquecer os horrores
dos uivos de agonia
terça-feira, 23 de junho de 2009
Desarrumação
A desarrumação é Dada.
Tem bicos, tem cores, tem rugosidades diferentes umas das outras. Tem palavras e tem sons. Tem instrumentos de muitos tipos, tem zumbidos e vozes de vários animais. A desarrumação é ruidosa.
Tem o que caíu e o que se colocou. O que lá está pela beleza e o que lá está porque se jantou. O tambor ao lado da estante, a estante ao lado do copo, o copo ao lado da camisola, a camisola ao lado do prego, o prego ao lado da cama, a cama ao lado do globo, o globo ao lado do sono, o sono ao lado da tesoura. A tesoura dentro da canção. O cartão do maço a fazer de filtro de cigarro, o dinheiro dentro do Capital, o bilhete picado colado na porta.
A desarrumação fala. Nunca está calada.
A desarrumação tem falta de amnésia.
A desarrumação tem bicos. Tem madeira, tem papel, tem alumínio; tem quadrados, tem esferas, tem bolsas de ar; brinquedos, talheres, sapatos, peças, fragmentos, Tem livros inteiros e cascas de banana que apodrecem rodeadas de moscas-moscatel.
A desarrumação é um espaço vivido. Há pequenas clareiras para pôr cada pé. Pode encher-nos a cabeça com coisas a mais. Pode sufocar-nos. Ou pode fazer sentir-nos em casa. Exactamente na nossa sala.
Tem bicos, tem cores, tem rugosidades diferentes umas das outras. Tem palavras e tem sons. Tem instrumentos de muitos tipos, tem zumbidos e vozes de vários animais. A desarrumação é ruidosa.
Tem o que caíu e o que se colocou. O que lá está pela beleza e o que lá está porque se jantou. O tambor ao lado da estante, a estante ao lado do copo, o copo ao lado da camisola, a camisola ao lado do prego, o prego ao lado da cama, a cama ao lado do globo, o globo ao lado do sono, o sono ao lado da tesoura. A tesoura dentro da canção. O cartão do maço a fazer de filtro de cigarro, o dinheiro dentro do Capital, o bilhete picado colado na porta.
A desarrumação fala. Nunca está calada.
A desarrumação tem falta de amnésia.
A desarrumação tem bicos. Tem madeira, tem papel, tem alumínio; tem quadrados, tem esferas, tem bolsas de ar; brinquedos, talheres, sapatos, peças, fragmentos, Tem livros inteiros e cascas de banana que apodrecem rodeadas de moscas-moscatel.
A desarrumação é um espaço vivido. Há pequenas clareiras para pôr cada pé. Pode encher-nos a cabeça com coisas a mais. Pode sufocar-nos. Ou pode fazer sentir-nos em casa. Exactamente na nossa sala.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
com gente
não queria saber das casas
se não houvesse pessoas nas casas
não queria saber das casas
se as casas não tivessem pessoas
queria saber do copo e da telha
e dos raios encurtados do som
e fim
depois vinham ideias, palavras,
matemáticas e maus fígados
e muitos outros dos seres bípedes
daqui
isso de casas sem gente
eu sei lá o que isso é
se não houvesse pessoas nas casas
não queria saber das casas
se as casas não tivessem pessoas
queria saber do copo e da telha
e dos raios encurtados do som
e fim
depois vinham ideias, palavras,
matemáticas e maus fígados
e muitos outros dos seres bípedes
daqui
isso de casas sem gente
eu sei lá o que isso é
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Faculdade fechada
Faculdade fechada
trancas à porta
daqui não se passa
nem pé d'aluno nem pé de beata
nem pé de ganhão
a garra que se finca hoje
deixará história mesmo sem vitória
arranhará gravatas
rasgando a pelica
e a faixa atravessa-se e grita
e os tambores que não vêm?
onde estão os tambores?
alguém esganiça a voz
outro responde para trás
a beata empenha-se
um táxi buzina para não atropelar a bailarina
a discussão cai na poça
pois
os tambores, os tambores
que falta, os tambores!
trancas à porta
daqui não se passa
nem pé d'aluno nem pé de beata
nem pé de ganhão
a garra que se finca hoje
deixará história mesmo sem vitória
arranhará gravatas
rasgando a pelica
e a faixa atravessa-se e grita
e os tambores que não vêm?
onde estão os tambores?
alguém esganiça a voz
outro responde para trás
a beata empenha-se
um táxi buzina para não atropelar a bailarina
a discussão cai na poça
pois
os tambores, os tambores
que falta, os tambores!
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
a rocha grande, o atalho,
a grande plantação de malmequeres,
o alcatrão demasiado liso,
um farol a apontar para trás
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
o lixo, a pergunta, a esquizofrenia,
a polissemia das ideias,
o regato fresco em horas de sol,
a cancela e o cartaz a dizer:
«detido pelos detentores»
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
o ar, os aviões, as nuvens
as cavernas de estalactites
até ao coração quente da terra
e buracos negros
a rocha grande, o atalho,
a grande plantação de malmequeres,
o alcatrão demasiado liso,
um farol a apontar para trás
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
o lixo, a pergunta, a esquizofrenia,
a polissemia das ideias,
o regato fresco em horas de sol,
a cancela e o cartaz a dizer:
«detido pelos detentores»
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
o ar, os aviões, as nuvens
as cavernas de estalactites
até ao coração quente da terra
e buracos negros
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
C. C.
Apague o seu cigarro e entre.
Venha calçado.
Tape várias partes do corpo.
Traga dinheiro ou um cartão bancário.
Apague o seu cigarro e entre.
Deixe o cão na rua.
Se não tiver telemóvel traga trocos para as cabines.
Ande.
De trás para a frente, de um lado para o outro.
Não se sente nas escadas.
Não corra nos corredores.
Coma e compre.
Beba e babe-se.
Saia e acenda o seu cigarro.
Venha calçado.
Tape várias partes do corpo.
Traga dinheiro ou um cartão bancário.
Apague o seu cigarro e entre.
Deixe o cão na rua.
Se não tiver telemóvel traga trocos para as cabines.
Ande.
De trás para a frente, de um lado para o outro.
Não se sente nas escadas.
Não corra nos corredores.
Coma e compre.
Beba e babe-se.
Saia e acenda o seu cigarro.
Revolução
É o melhor para a saúde
É o melhor para o amor
É o melhor para a alegria
Veja isto por favor
Tem abertura fácil
Tão prática e barata
Tem muitas cores
Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar
É útil, excitante, indispensável
É urgente, importante, homem e mulher
Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar
É o melhor para o amor
É o melhor para a alegria
Veja isto por favor
Tem abertura fácil
Tão prática e barata
Tem muitas cores
Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar
É útil, excitante, indispensável
É urgente, importante, homem e mulher
Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar
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