domingo, 30 de novembro de 2014

menina, não se pode andar com os pés em cima dos sofás...



devias ter mais atenção
ao que dizes

dentro da cabeça uma lista de ordens e deveres
e dentro da caixa fechada o vulcão

cuidado com o vulcão e as populações à volta
sempre a deslocarem-se às previsões da lava!

um dia de sol interrompe éticas e bondades
confundidas com alegrias verdadeiras
enquanto se atira para o fundo do buraco a não-vida
que é uma espécie de vida mas meio morrida
- escolheste?

tem de ser diz o chefe de quem todos precisam para saber o que fazer

e o chefe não sabe mas diz
tens de fazer assim
porque foi assim que aprendi
e que toda a humanidade...

'pera lá!
toda a humanidade?
carago!
desde quando?

precisar da história para a contar de outra maneira
eis um pequeno dilema
que não interessa ao menino jesus mas devia interessar

deitar fora a história não posso
porque sou antes de ter nascido
e há uma ligação
(sobre a legítima hipótese nihilista discutiremos no próximo episódio)

uma data de enganos a que chamam
cultura
pois cultura seria passagem consciência luta emancipação
em relâmpagos de amor e conhecimento
com a forma indecisa e excessiva da liberdade

mas não se pode andar com os pés em cima dos sofás!
a não ser que o educador ande equivocado
e confunda a liberdade com o seu medo
tanto tanto
que o medo engole a liberdade e faz dela um tapete
para as glórias dos imperadores
(migalhas chovem sobre os cérebros desligados dos seus fervorosos apoiantes)

viram?
é o que dá liberdade a mais
e a polícia, não faz nada?
escândalo!
título de jornal!
(sim, ainda há jornais)

a meus olhos, lençóis de comentadores inevitabilíssimos do regime!
- muitos, até que o pensamento coza

santo deus!
nossa senhora!
(o deus e a senhora não foram convidados para este beberete mas são frequentemente invocados)
 
que palavras restam?
duas ou três, não sei bem quais
deve ser aquela do respeito
e a outra da humildade
mais a paciência, tem de ser
santa, santa...

senta, bobi, senta!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Portaria nº 215/2011 de 31 de Maio (Permitido Fafá)


A Fafá é um cão de assistência
quando falta um efe aos outros
e dizem os editais
proibida a entrada a animais

A Fafá é um cão bonsai
que não tem de se podar
e dizem os editais
proibida a entrada a animais

A Fafá é permitida
a Fafá é consentida
Fafá não late demais
à Fafá falta-lhe o rabo
prefere álcool a nabo
e assiste os animais

há uma ou duas semanas

Que noite tão linda. Caralho.
Que noite tão saborosa.
Se, nas cidades, o ser humano se guiasse pela natureza, só se saía à noite em noites assim. Guardavam-se estas para isso, fossem
sextas, quintas ou terças.
Diferente mais quente
o vibrar das cordas
e a única altura em que sorrimos por a rua ser anónima e cosmopolita
u-tópica
Era regressar assim à inês
com um sentar na pedra
e um sacar de caderno
esquecer o medo
improvisar

E em segundos
ter de achar sítio pra fazer chichi.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

tentativas

Na minha casa suja
corroo fel verde no estômago
reviro as regueifas pra dentro do avesso
sibilantes secas e ranger da madeira
dor que não se diz
raiva medo nojo ódio
pontapés de pés entumescidos de imóveis
gritos a rasgar peitos de não saírem
o tudo perdido
o só
cresce o umbigo pra dentro da barriga
acende-se o ardor desse cancro que se cria
quer-se morte

não se sabe dar ao corpo
a roda e o joão e o calor
aprendidos nos primeiros livros


*


desde quando este chorar louco
que não se pode explicar
e atrás da porta o papão da razão
a soluçar a saber do meu atraso de amanhã
ou a falta de cérebro por um dia

quando as chaves da jaula
quando o riso nunca

néstias réstias empeste-as
empreste-as más
ou então beber a loucura por uma vida
uma noite
de constelações

já descarreguei
a aplicação das estrelas


*


deixem-me
mini-choques
eléctricos ardentes
latejar de células
excitadas extenuadas
acabadas de ressequidas
de absorvidas

deixem-me
paz tréguas
espaço léguas
o fresco leve dia
que já não há
rugas, buracos de dores
em luta
contra o coração
sapos, açaimes, adiamentos
fugas, cimentos cinzentos
monstros

eu tinha uma espada que derreteu

terça-feira, 30 de setembro de 2014

com que mundo sonho quando estou acordado

[para o desafio da Casa da Achada - Centro Mário Dionísio]

os sonhos que eu tenho são tantos
medonhos ou em esperanto
de espanto
sem santos
sonhos em que são as mãos das gentes
a construir pingentes dentes lentes
e também têm diluente
para apagar o por-si-só
para apagar o com-dó
para apagar este nó
do dia cinzento
e também têm fermento
de fazer crescer relações amizades construções sem piedade
com vontade 
nada por rotina amorfa  se for assassina e coxa 
mas por rotina do encontro
e também têm confronto
muitas discussões acesas murros nas mesas
brilho nos olhos

olhos de maçariku
mijar fora do penico
pra ter um penico – no quarto
pra lutar contra o penico – da praxe
pra ver se depenico o macho
e se o despacho até ser história

quando sonho acordada estou desanimada
mas quando sonho acordada vejo outra estrada
quando sonho acordada estou bué irritada
mas se sonho acordada…
se sonho acordada não sonho a dormir
se sonho acordada não vivo sem sonhar
se a vida tem sonhos porquê separar a falta de vida e a vida a fazer
juntamos eu, tu, ele, pele com pele
pêlo com pêlo
- isto é um sonho
mas podemos fazê-lo -
e a tua cena e o meu combate
a lua, a pequena, o papel mate
os gritos da gente com casa e da casa com gente
não nos roubem a rede nem a semente
comprimidos no lixo, não somos doentes
não quero mais pra trás, quero lá à frente
traz a frigideira, eu levo um pente
sonha comigo, vais estar presente?

depois sinto-me sozinha de repente
(mas isto é sonho ou é acordada?)
e por isso não durmo  só fumo
não como  só um gomo
não mijo  só finjo
não aqueço  só deixo amargura
encarapaço a ternura
apodreço por dentro, escura
e a pincelada discrepante o riso dissonante o poeta ao viandante
está sempre ao virar da esquina, sonho
cor amarelo espesso e vivo, sonho
toque nos ombros psst psst dança, sonho
frase ingénua duma criança, sonho
e os reguilas dos putos o lodo dos xutos
não te deixes cair em tentações melancólicas
acrescente-se melodramancólicas
acrescente-se alcoólicas
acrescente-se apostólicas
ou pistólicas ou bucólicas

sonho com saber se te vou ter comigo
no meio do perigo
sem abrigo, a experimentar
esta outra forma que desenhámos
mais um tentar que ainda não tentámos
mais um gritar que ainda vivemos existimos resistimos
no meio do laranja psd e do ps laranja
no meio da canja da galinha dos ovos de crise
untada com creme Grise, perfumada com Breeze
segurada por teasers, bastões e detenções
barreiras e fronteiras, prisões
preços terços e prestações
eu não sonho a prestações vai-se-me a cabeça rolando
ruminando rodando os filmes da insónia
nitrato de amónia
são quatro da manhã e eu quero dormir e só sei
sonhar acordada

por isso é difícil adormecer

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

sublimação em sol

Os meus dedos são agulhas de lã na noite amarela do jardim sonhado.
Dão pontos ao rasgar dos beiços na palavra salgada,
pulsante.
Sou pessoa toda agora mas só mexo a língua.
Não fico,
não voo,
não olho nem rio,
só espalho.
Os meus dedos no baloiço são agulhas de lã num jardim sonhado.
O músculo não vejo, tresvejo.
Uma chaleira pressionada a transformar o assobio,
um cesto cheio de lixo.

Marta Raposo

terça-feira, 9 de setembro de 2014

outro assobio da Marta

 
A propósito da "libertação em lá", a Marta Raposo mandou ainda este desenho-assobio. A menina pires nem pediu autorização para publicar. Esperemos que a sua amiga Marta não se zangue.
 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ali se do outro lado da silhueta


recebi uma carta da Marta Raposo:

E ainda assim
o teu braço é uma colher de pau a (re)escrever nos espaços;
a abrir os cofres das dores ouvidas,
saboreadas.

Gesto latente
que não dá as costas
nem aos espelhos, nem aos cansaços.


e a Marta também pintou:


 

desconstruído

nascer
crescer iludir
dar
sentir

ter
vomitar
chegar a ter
querer

bolha
paredes sabão
tudo
drogas
amigos amor afecto construção
cores artes canções objectos
morte separação desinteresse
vida lodo

bicho
vergonha
fotografias
futuro
medo
estrelas
dinossauros

viscoso pútrido

terça-feira, 26 de agosto de 2014

libertação em lá

A minha mão é uma faca de aço na luz vermelha da sala acordada.
Dá de comer ao cuspir dos beiços o doce gelado,
provocante.
Sou pessoa toda diferente mas só mexo as orelhas.
Não fujo,
não paro,
não calo nem caio,
só limpo.
A minha mão na cadeira é uma faca de aço numa sala acordada.
Os pés não os vejo, tresvejo.
Uma tampa depressiva que não cala o assobio,
um chapéu cheio de pedras.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

prisão em si

O meu braço é uma colher de pau na sombra azul da cozinha adormecida.
Dá de beber ao sorver dos beiços o ácido abrasivo,
paralisante.
Sou pessoa toda igual mas só mexo os olhos.
Não articulo,
não ando,
não tujo nem mujo,
só sujo.
O meu braço na cama é uma colher de pau numa cozinha adormecida.
A cabeça não a vejo, tresvejo.
Uma panela de pressão já sem fôlego pró assobio,
uma lata cheia de sopa.

domingo, 10 de agosto de 2014

Traficante de sonhos

O Maçariku gostava de máquinas. Máquinas de luz, de imagem, de som. Câmaras, projectores, gravadores e até instrumentos musicais que não sabia tocar. Dava aos amigos, mostrava, usava, trocava nas feiras. A feira da ladra de Lisboa em primeiro lugar, claro. A feira já não será a mesma sem o Maçariku, esse passador de coisas e de ideias. E as coisas para ele não eram só objectos para coleccionar - tinham ideias lá dentro. Trocar, passar, presentear. Traficante de sonhos e de objectos, contrabandista de ferramentas de transformação para dar sentido a um mundo onde não se pode passar sem um bocadinho de tristeza. Mas não é tristeza para ficar parado. Pode ser uma caixinha de música para ajudar nos combates.

Uma maneira de estar
O Maçariku ensinou de tudo a toda gente. Mas ensina-se uma maneira de estar? Uma maneira de estar intensamente na vida, sem separar acção e pensamento, sem desligar as técnicas das ideias, sem opor a militância e o sonho, sem apartar as pessoas e as máquinas, as crianças e os adultos, os vinhos e as letras, sem saber afastar a cultura da política e amizade da luta. Saber fazer e dar sentido a esse fazer. Contra o empobrecimento da vida, ele provocava. Militante, mas antimilitarista (o "Tropa Não!"). Pela diferença, anti-racista. Contra os chefes, antifascista. Pela igualdade, mas nunca a das paisagens lisas, porque ele era adversário da "normalidade". Podia dizer "o que tem de ser tem muita força", mas cinismo não, cinismo nunca. Rugosas cidades de antagonismo e solidariedade, de combates e passagens, de barricadas e revoluções, de amigos e de toda a gente ainda por conhecer, de cafés e ruas, e ruas e ruas e ruas. Lisboa, como a palma da sua mão.

Com o corpo todo
Rigorosamente desobediente, o Maçariku falava uma língua só dele, cheia de interjeições, olhares, esbracejares, esgares, gritos, uivos, sussurros. Ele gritava com o corpo todo para nos acordar. Mas sussurrava as palavras mais importantes. Não sabia esconder o seu olhar atento por detrás do cabelo (que olhos bonitos!), nem a barba escondia o seu sorriso aberto, desafio constante ao mundo tristonho.

Levanta a pedrinha
Antagonista revolucionário das opções fechadas, das dominações fora e dentro da cabeça, dos caminhos fáceis do marketing. Fazemos então muito mais, muito mais transformador. E convidamos aqueles também, provocamos aqueloutros também, vamos conhecer gente que faça. Que saiba fazer porque vive. Que saiba pensar porque faz. "Levanta a pedrinha, oooooo!..." Porque, para além da amizade, era a transformação do mundo nas lutas da história o critério da sua indisciplinada disciplina. Nas lutas grandes e pequenas. E as pequenas são enormes, decisivas, entusiasmantes e belas.

Maçarico
Um pássaro das regiões costeiras? Um jovem que ainda não sabe tudo? Uma ferramenta com chama? Sabe-se lá. A gente só sabe que a sua última máquina parou - o coração. A vida vai: "Bute, bute!"

Maçariku

 
Naquela altura eu não sabia bem se se dizia filmagem ou filmação. Eu votava BCG.
Tinha febre e fizemos o guião de um filme e nunca fizemos o filme.
Vontade sempre de dar tudo, promessas atrás de promessas, quem dá também tira.
A idade foi de ouro até chegar à prateleira.
Tira-me esse cabelo da frente dos olhos ternos, vivos, atira-o para o lado, andar gingão.
As mãos que se davam às conversas, aos cigarros, às máquinas de filmar, ao prego e aos ombros dos outros. Aos nossos ombros.
Murcham corações. Atordoam-se antenas.
À procura da vibração das cordas da tua voz, da voz, da voz, da tua voz de encher espaços. À procura, à procura, à procura. E a puta da vida que não se rebobina.
As feridas demasiado grandes de sangue encarnado vivo, a tua cor, o vermelho, o oito, a bola preta, as contas redondas, tudo apalavrado.
O homem dos sete instrumentos, o soldadinho, os artesãos e militantes e clandestinos, velhos, de rugas, dificuldade de andar, com quem querias aprender tudo, para quem olhavas com os tais ternos olhos. Mas só querias viver até aos cinquenta, tu, o pescador de mar e de lixo.
E os tantos que ensinavas ficam como, agora? As crianças que ainda não sabem nada, os adolescentes que precisam de desprezo, os atados que têm de se desatar para fazer alguma merda interessante deste mundo.
Emprestavas com um v na volta, de vítor. Do viriato que era chato. Da vida, tão alegre e destemida como outra coisa qualquer. Os beijos no sítio do costume, as voltas ao bilhar grande, ou então uma curva. A fita do vhs.
Dá-me medo de escrever, posso perder-te mais assim. Mas se não escrever?
Os olhos dos mais novos iguais aos dos mais velhos. E os dos gatos, dos cães, horas a brincar, anedotas, gozos, distribuidor de risos. Era uma vez um cão que só tinha três patas, ao fazer chichi, caiu.
Fazer quase tudo o que se quer como se quer. Queres apostar?
Pôr tudo a andar, construir coisas. Ser bastidores, estrutura, a força, a base, o motor. Pedir e forjar amor. Discutir e não ceder. Teimar com e sem razão, teimar sempre. Com quem se ama, sempre.
Acumular pó, máquinas, quadros e bocados de pedra ou de metal que ninguém sabe o que são. Espreitar de curiosidade, chamar um cúmplice, mais vivos os olhos, mãos a falar. Coleccionar de tudo. Dar e tirar, trocar. Fiar. Focar.
Dobrar combates com um isqueiro ou uma garrafa de cerveja. Despachar as coisas, meter as mãos, resolver. Sozinho e com outros. Não embirrar à partida, só embirrar depois e se. E se depois e se, embirrar tudo.
Fugirmos na lata do bora-bora, janela aberta, muito ventil, um jornal por dia, chupar gasolina para cozinhar o bacalhau. Estado espanhol, viagens, férias, praias, tendas, casas com vacas e moscas, canas de pesca, xadrez, rios e cidra e sacos-cama. Ou então vamos só aos caracóis.
Lisboa sem ti, a palma da tua mão, as pedras da calçada, os prédios, as pessoas a virar esquinas, faz isto sentido? Por onde respira?
E esta casa, e esta companheira de vida, e esta filha, e estes filhos todos, e estes manos todos e estes todos todos?
Apetece-nos murros contra muros até ver estrelas de cinco pontas.
Mas a gente vai continuar. É só ter a tua voz aqui na cabeça. E o que tem de ser tem muita força.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

a dor alheia à menina

menina,
a sua silhueta disse-me
da maneira mais bonita
que já não acorda com os meus olhos

e contudo eu vi na sombra
verdes e castanhos, quase amarelados à volta
esses seus que sem luz vêem o cá dentro

vi-os com menina
vi-os com será
vi-os carregados
com a dor alheia
e um robalo

Depois disto, a menina cantou:

vai amar
pescador
pesca pesca
pesca peixe pesca

senta-te à mesa
e bebe
pescador
bebe vinho bebe

deita-te na cama
e dorme
pescador
dorme tudo dorme


entretanto

A morte só antes e depois: tudo é vida entretanto no humano.

de meu bem desenganado

Engano?
Não! Porquê engano?

Sim, é tudo biologia.
É tudo cultura e biologia.
É tudo comida, cultura e biologia.
É tudo bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo música, electricidade, bebida, comida e biologia.
É tudo história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo poesia, jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.

(Engano não, engano não, engano não, engano não.)


com algumas raízes

#

inimigos os cemitérios que fecham às seis de todos aqueles que receiam não ser anónimos nestas ruas mas que desejam tanto como os outros sentir na pele e nas sinapses este calor seco de derreter dedos nos dedos com esta luz acásica mágica

            para poder a escrita estar aqui
                 é preciso ser-se anónimo
                 é preciso ser-se adolescente
                 para ser-se anónimo

- O teu tempo já passou
- O teu sorriso passou agora

            ser-se louco ser-se louco
            ser-se louco é outra hipótese


##

de repente a rua era minha como
dantes
mas eu estava excitada demais com
essa surpresa
            não conseguia estar toda cá

percebi o lado autodestrutivo
de agora e de antes dedos nos dedos com
o mais intenso prazer

            talvez ganhe forças para ir comer
            quando o sol se puser
            no horizonte que não vejo
            (só clarões atrás de prédios)

mas onde?
o quê?


###

não saber parar
não saber não re-levantar
ter medo dos outros
raiva dos sons
falta de equilíbrio
sufocar
imobilizar
por dentro explodir
- e não sou a única

que mundo estúpido
como está.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

   nojo

terça-feira, 15 de julho de 2014

metro do fim do dia

quero saber da temperatura da água
deixar de fumar por hoje
mas não vou dispensar aquele

quantas vezes flashes
dos quinze anos da caneta mágica
da calma, de árvores, de cadernos

vou esquecer-me da saída assim
sair nos moinhos altos
esfarinhada em pão

que mundo a correr
que saudades do estoril 1947
que medo dessa data nessa praia