terça-feira, 12 de setembro de 2017

e dos caixotes do lixo nascem versos

Lixo.

Couves amarelas.
Ovos de asas mortas.

Gritos esfarrapados por dentes de peixes,
espinhas de caudas de sereias.

E uma luva doce
a quem os cães da noite
vão em bandos
lamber o perfume
de mulher
- palacianos e sonâmbulos.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

domingo, 30 de julho de 2017

árvore cão














A menina desenhou um cão-árvore e chamou-lhe Woody.

domingo, 16 de julho de 2017

I couldn't find you

Haiku dente fá
índio haiku dente fá
índio haiku

sexta-feira, 19 de maio de 2017

histórias para crianças quase crescidas


esperamos encontrar-vos, mais e menos crescidos,
no próximo sábado 20 de Maio de 2017, pelas 16h,
na Casa da Achada - Centro Mário Dionísio*,
para o lançamento desta novidade

histórias para crianças quase crescidas
de Antonino Solmer, com ilustrações de Diana Dionísio

depois de uma apresentação por João Rodrigues, histórias serão lidas por F. Pedro Oliveira, Inês Nogueira e sabe-se lá mais quem...
 
* R. da Achada, 11 - 1100-004 Lisboa

quarta-feira, 3 de maio de 2017

terça-feira, 2 de maio de 2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

mentira

A mentira é que segura as coisas.
Mas não basta mentir.
É preciso omitir, esconder bem as coisas.
E disfarçar bem, aprender a disfarçar.
Não basta apenas mentir.
É preciso ainda aceitar a mentira dos outros.
É preciso mentir muito para ser feliz.
É preciso mentir para ter muito sucesso.

terça-feira, 18 de abril de 2017

fui ouvir melhor a história de uma gata



passava a menina

passava a menina as suas sombras
a ferro numa esquina
achou que viu um gato
e pensou:
«os gatos batem as botas»

achou graça e escreveu no caderninho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lemniscata


É um total de 48 fotos do Sol, sobrepostas. Feitas durante um ano, uma vez por semana, no mesmo local e horário. O ponto mais alto é o solstício de verão e o mais baixo é o de inverno, formando a Lemniscata, símbolo do infinito. 
Ver mais aqui: 
http://astronomiaycienciatitaguas.blogspot.pt/2012/10/analema-solar.html
http://myblog-arnaiz.blogspot.pt/2012/11/analema-solar-desde-burgos.html

"Lemniscata":  https://pt.wikipedia.org/wiki/Lemniscata_de_Bernoulli

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Manuela e Mário

sem sentido
o sem sentido disto
sofreguidão
num mundo enorme e vazio
perdida
no claustro das raízes profundas

Na era

Na era em que já não se escrevia -
porque não se sabia
e porque não era possível -,
quando se queria mascar
roíam-se as unhas do mindinho
e durante muito tempo
rolavam rolavam
entre língua e dentes.

domingo, 25 de dezembro de 2016

desabrocham murchas

saltar todas as listas como cavalos barreiras
e abrir este rectângulo cortado branco
e sujá-lo de regras de teclas descifradas
dizer que não fiz tudo o que me passou pela gana
que ficaram só esboçadas todas as cartas, os gestos,
os obrigadas, as desculpas, os barcos de papel com as palavras,
pôr as músicas, cantar, ler poemas, comprar bilhetes para longe,
soprar amor
essa coisa que nego e renego e só quero como qualquer pedra do chão
que  não sei fazer

saltar as listas e vir para aqui fazer mais uma vez o inútil
tentar o que mais uma vez não conseguirei
explicar que tinha tanta cor para pintar e sou sempre só um bloco cinzento
essa garganta que esconde o calado à força
essa prisão das paredes gélidas inflamadas
saber dizer a perda a incapacidade e as dores ridículas
saber dizer mas para quê
a vida fugiu-me e corre corre já não sei se a vejo ainda

mas será que existiram esses mundos subterrâneos de homens pequeninos
essa opália, essa liberdade de bater a porta de casa dos pais,
essa liberdade de ter amigos havia amigos? houve?
aquelas pedras do chão como a nossa alcatifa
aquelas ervas daninhas como as nossas plantas
aquelas canetas e isqueiros como oxitocinas de utilidade pública
esta terra como a nossa casa e agora?

incomoda-me este silêncio
é bola preta que cresce como no miyazaki
até àquele tanque de preto a transbordar de borbulhas
e não quero ver a cena e fecho os olhos à cassandra
mas de que serve fechar-lhe os olhos

não sei o humano que parava os olhos nas coisas e nos outros
que queria ouvir-lhes as palavras
entender-lhes os tremores, as raivas, as maravilhas
acompanhar-lhe os pensamentos
desviar-lhes as rotas
sorrir como se fosse a primeira vez

o cenário e mundo inóspito vazio
os perdidos e não achados
o sem sentido de tudo isto
o cansaço de sísifo
o dramático
a farsa
(e o minúsculo) não

enquanto
os écrãs com novos donos de scoobydoos de caleiras sobre as orelhas
a cantar músicas de natal congregadoras da farsa
em competição
continuam para sempre ligados eternamente ligados
com as pilhas duracel
e duram e duram e duram
as baratas

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

adenda fim do dia

Nunca quem dera jamais parar de escrever, sempre no seguimento da linha e fugindo a todo o direito. Indo para letras. Do outro lado do relvado.
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Varfarina de amêndoa

Varfarina de amêndoa
antera e borbórea
relenta de séries bastantes
assente em bicos micos
e pastos assados
sedenta de gamos

Assombreada e solarina
estende o braço rumo
curando pregos
e estívias
e segue o sono rulante
em vez do açor

Basta que masta açougue
relíquia de quília sebanta
logo o colo pinta manta
e antera e borbórea
a varfarina de amêndoa
sermina, cortina e diz

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

imitose

disto

deixem-me outra vez respirar a escrever
garras que desprendem garças impávidas
geradoras da mais rouge raiva ao mata à rabia
imagens chatas de cheias de pintinhas linhas tracinhos
confetti de lixo desnecessário tudo fora do armário
berloques cinzentismos cactos embalsamados
que bolha que saco que sarna na perna cruzada
voltar à pasta de papel com penas de pistacho
rir sem querer pela página abaixo e desmanchar
roubar este tempo só para só tempo este roubar
a braços irritados de arrancar ervas daninhas
sonhar as noites quentes a cidade ainda nossa
dar forma à fossa à impossível ponta de ar aqui
murguriar burtir-se sarracer ampinigar

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

liberdade

A menina pires passou anteontem no Bairro Alto, na Travessa André Valente, e pelo cheiro a escape suspeitou que naquela ruela tinha nascido um grande poeta. Nessa tarde, descobriu na internet que era mesmo assim: Bocage ali à luz foi dado.
Então a menina pôs-se a ler e a pensar em belas ideias: Bocage esteve preso vários anos pela Inquisição, mas os seus versos, esses, ninguém os pode prender.

"Liberdade querida, e suspirada, 

Que o despotismo acérrimo condena; 

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada:

Atende à minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena; 

Liberdade gentil, desterra a pena 

Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão de adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha, 

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!"

Fechou o livro de sonetos, e decidiu que ia ser livre. E pensou que ser livre incluía fazer escolhas, decidir e fazer, errar e acertar, pois o deixa-andar não faz pessoas livres e a liberdade não descende dos céus (aqui discordando ligeiramente com o poeta). Como o tema era vasto, ficou por aqui e foi beber um chá (que é um excitante barato), lembrando-se daquela rua e do cheiro a parque de estacionamento automóvel.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

domingo, 4 de setembro de 2016

sem mexer uma palha

"depois de comer
nem um sobrescrito ler"

então a silhueta foi dormir a sesta
e a menina ficou acordada
sem mexer uma palha

"se é que isso é possível",
ficou ela a pensar para consigo
sem nada fazer

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

a via da arte sensível

com mãos nuas apesar daqueles dedos
na competição - que pena - endurecidos
porque o caminho da suavidade não chegou
e ainda não pode ser o nosso
(perdoem-nos vocês que serão ágeis
a derrubar com alavancas do futuro)
foi bonito aquele yuko ainda assim
que nos faz ver que o peso é leve e é possível
de cada vez fazer virar o equilíbrio
e não se trata bem de dar a outra face
mas fazer com os mais fracos outra força
que é capaz do movimento impossível


quinta-feira, 21 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

Poema do poste com flores amarelas

Vieram os operários, puseram o poste de ferro na berma do passeio
e foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam “que chatice de poste”,
mas o poeta sorria para as flores amarelas.
António Gedeão

segunda-feira, 11 de julho de 2016

terça-feira, 28 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

domingo, 19 de junho de 2016

n'oje

sarna
coxa
tu magreza
ossos restos
vida acesa em palavras fumo ossos bichinhos
impaciência, bichinhos
inconstância, a severos açores
argmassa do que resta
foi ruminado ruminamos estamos ainda aqui
restos de toques de garras
sentimos já para nada
ardilamos sempre sempre ao lado do
voo de esperança que não espera e perde
perdida
em lama de tempo imundo

encontro libertário de évora

sexta-feira, 17 de junho de 2016

A menina pires reescreveu um soneto ao jantar

Magoam-me de acusação e despedida

Magoam-me de acusação e despedida
como se todo o esforço dos meus braços
não fossem erros vossos, homens baços,
e a minha falta a tua, toda a vida.

Hei-de cantar-vos a revolta um dia, 
quando a noite que carrego for futuro
do sol que me esvazia como um furo, 
e chegar outra cidade menos fria. 

Entretanto, deixai que ache injusto: 
até que o furo feche e rache o busto, 
seja o álcool noutra mesa bem queimado. 

A minha cor é verde, a raiva sabe: 
que o combate dentro dela nunca acabe, 
e transborde até deixar de ser lixado. 


O original de Carlos de Oliveira:

Acusam-me de Mágoa e Desalento

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'

terça-feira, 10 de maio de 2016

fado amorrinhado

eu morro que na barriga
uma cócega de falta
até me fica uma volta
nos gestos até me fica

até me fica de falta
eu nos gestos na barriga
uma cócega de volta
e morro que até me fica

não leias isto

ir
não sei para onde ir

imagino-te
a ti

tu estarás noutro mundo
outro

não leias isto
não leias

A sombra fica

Há dias em que a sombra nos deixa e vai ver o rio. Outros em que fica parada
sem saber onde ir. À espera que a luz dê a sua volta. Hoje é um dia desses.

Sou eu que vou, e a sombra fica. Fica mal desenhada, porque a luz é muita mas indecisa. Fica espalhada na mesa e no chão, tristonha, junto ao caixote. Fica aqui, quieta, sobre um copo de café de plástico e um rascunho.

Eu vou, saio à procura do lugar impossível no mundo que amo e não me deixa amar. Hoje é desses dias, estúpidos dias sem noite, em que a sombra fica e eu vou.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

a casa pelo telhado















a casa pelo telhado
que ideia!
sabes que é impossível
que ideia!
o carro à frente dos bois
que ideia!
a omelete sem ovos
que ideia!

e se te disser que não há tempo para analisar tudo
e tens de jogar?
e se te disser que há saltos na aprendizagem?
que pode haver a imperfeição provocada
que as fronteiras se podem passar
que há memória transitiva
que há cooperação
que há línguas diferentes
e se te disser que não é impossível
e que tenho os pés na terra quando digo que não é impossível voar?

a casa pelo telhado
que ideia!





sexta-feira, 25 de setembro de 2015

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Depois de passar anos à procura do barbeiro...

O Barbeiro, pela Ronda dos Quatro Caminhos


– Diga lá, ó senhor Gato:
Porque tem esses bigodes?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mos quis cortar.

Disse que gato sem bigodes
Mais parecia um pinguim,
Que a bigodes tão bonitos
Não era de se dar fim.

– Diga lá, senhor Leão:
Porque tem esse cabelo?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mo quis cortar.

Disse que leão careca
Mais parecia uma avestruz,
Que leão só fica bem
De cabeleira ou capuz.

– Diga lá, ó senhor Bode:
Porque tem essa barbinha?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não ma quis cortar.

Disse que bode sem barba
Mais parecia um chimpanzé,
Que bode só fica bem
De barba grande e boné.

encontrei-o aqui


terça-feira, 18 de agosto de 2015

defesa de Glenn Gould contra Sokolov

fui tirar os pontos
e fiquei com três buraquinhos
(ou serão seis?)
seja como for
desaparecerão quando a pele se encontrar
e eu com ela me encontrar
e for possível escrever

escrever por exemplo sobre a antítese entre Sokolov e Glenn Gould
para defender o segundo, é claro
que soube que a aura tinha caído
e entendeu que a gravação era um processo colectivo
e que se podia cortar e colar para a música chegar mais longe

antes do copypaste
depois da música concreta
e da fixação dos sons ser possível
relação dialética com a tecnologia
desenvolvendo uma nova técnica
isto é, uma relação nova entre os seres e os materiais
e entre os humanos
com a ferramenta que se interroga em acto
para não ser por ela dominado
a questão é política, portanto
porque a forma de construir e usar
é parte da transformação ou mais do mesmo
da justeza ou do engano
(e nada é só justo ou só engano
mas o pianista russo que diz que em arte
só tem valor o que não é reprodutível
está enganado)

e apesar de tudo escolhe-se
escolhe-se ainda o que é preciso,
o que a pele no outro deseja e escuta
e no terceiro buraquinho ama

opção difícil, armadilhada
- mas ou é isso, ou nada.

como são tolas as pessoas

1.
como são tolas as pessoas
que fazem crer às outras que são unas
e de fora parecem realmente
mas lá por dentro dilaceradas como tu
porque é raro encontrarem-se as coisas com as ideias
como dois amantes

e os dois lados de ser e não ser
e as vidas diferentes que vivemos
e que queríamos que fosse uma só
uma só
 
2.
e entretanto acção e sonho como irmãos
rompem diques ou então
acumulam energia como barragens
e fazem saltar até as pedras
que atingem os fantasmas levantados
e por eles passam como passam os passados repassados
pelos véus das aparências da história histérica
simplificada, porque o essencial não se conta
fica atrás, escondido
foi a dúvida
e o que sem querer recusaste
 
3.
já era tempo de te escrever outra vez
minha irmã
ou fazer aquele monte de canções desoladas
muito tristes e engraçadas
para crianças que entendam o que a vida pode ser
e mulheres e homens que não tenham desistido de sentir
a beleza da jangada e da casa lá em cima
contigo brincando na árvore e nas ameias
de um castelo inventado para ser atacado
e defendido dos brutamontes com armadilhas de piratas

ardilosa combatente
astuta coruja
silenciosa e nua
tu és bela e vermelha


à bengala

À bengala ele diz coisas baixinho que não se percebem bem
mas anda, parece, com agilidade, até. E depois de o ver perdi-o. Achei que estava no autocarro, sim era um autocarro e era amarelo, pelo menos parecia amarelo. Era, era. Amarelo, mas com publicidades, não se via bem lá para dentro. Podia ser um eléctrico. As portas abriram. Não, ele ia em pé, agarrado ao varão do autocarro, era um autocarro era. Ele murmurava palavras, pareciam palavras, eram de certeza, mas não se ouvia o que era, não se ouvia bem. Parecia ser uma bengala, mas depois estranhei, andar assim tão bem. Pode ser só de apoio. Ele se calhar caíu, partiu uma perna e agora só tem medo. É um apoio, ele andava bem, até muito bem, pareceu-me. Não coxeava. Saiu. Andava bem, sim, muito ágil. Tinha um chapéu, sim agora estou a lembrar-me do chapéu. Acinzentado? Sim, com uma risca, aquilo deve ter um nome, uma risca de chapéu com aba. Não era aba larga, era aba curta, pareceu-me aba curta, até tinha a aba levantada um pouco, de lado talvez, mas podia não ser de propósito, sim, tinha a aba levantada de lado. Sim, bengala tenho a certeza. Não sei se era fato. Era cinzento, o chapéu, sim, o chapéu era cinzento, disso tenho a certeza. Não era fato, era talvez uma camisola grossa avermelhada. Vermelho escuro, quase acastanhado, cor de tijolo escuro, não sei, mais vinho talvez. Não cambaleava, não, até andava bastante direito, sem ser demais. Não vi bem a cara. Era um homem, sim, não há dúvida. De sapatos, sim, vi a bengala castanha.

sem adjectivos

Desde que perdi o adjectivo que as coisas deixaram de ser. Agora perco-me nas ruas e vou sempre dar a casa magoando os dedos. Estou a falar a sério. Não é brincadeira nenhuma esta letra. É o raio posto na estátua, a queda dos astros. Gostava de ser como as pedras, ter tempo. Mas queria dormir menos do que os gatos. Sinto-me uma rocha de esferovite a perder nacos de razão com as formas da roda. Que calor. A minha réstia de procura não anula, não arrasa, não alisa o mundo em explicação e slogan. Tenho de resistir, mas também tenho de cantar o mundo e a possibilidade do encontro sem o jugo da pressa e da submissão. Nem tudo passa por eles. Senão, de que vale rir?