segunda-feira, 29 de junho de 2020

garibaldina



terça-feira, 9 de junho de 2020

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Correspondência Mário Dionísio - Ilse Losa

Esta sessão é coscuvilheira: vamos ouvir uma deliciosa troca de cartas, aproveitando o balanço do precioso trabalho de Karina Marques, que, embrenhando-se no espólio de Mário Dionísio e no de Ilse Losa, reuniu e tratou a correspondência entre os dois, publicando grande parte em ILSE LOSA – ESTREITANDO LAÇOS – CORRESPONDÊNCIA COM OS PARES LUSÓFONOS (1948-1999).

Os assuntos são muitos, dignos da curiosidade de qualquer pessoa que goste de ler cartas alheias, ainda por cima tratando-se de duas extraordinárias pessoas, dois pares com vidas cheias e inquieta produção de palavras e pensamento sobre um mundo que queriam ver mudado. Muito sobre literatura, a começar pela própria obra dos dois autores (incluindo as questões de língua que se levantam a uma refugiada judia alemã que quer escrever em português) e a constante colaboração de ambos em jornais e revistas. Foram os 300km que os separavam (um vivia em Lisboa, outro no Porto) que tornaram possível hoje podermos ler estas cartas que, não fosse essa distância geográfica, podiam ter sido conversas de café.
 
Esta sessão «Ouvido de Tísico» foi publicada na secção «Notícias» do site www.centromariodionisio.org da Casa da Achada - Centro Mário Dionísio no domingo 24 de Maio às 15h30.

Nas sessões «Ouvido de Tísico» a proposta é escutar. Fácil? Difícil? Num mundo que nos quer entupir os ouvidos, nós queremos continuar a fazer cócegas ao caracol. Ouvir-se-ão textos de vários autores, saladas musicais, documentos desencantados do Centro de Documentação da Casa da Achada, discos do princípio ao fim, entrevistas, enfim, de tudo um pouco. Pode-se ouvir de pé ou sentado, sentado ou deitado. Pode ouvir-se de olhos fechados ou abertos, abertos ou semicerrados. Pode-se desenhar enquanto se ouve, ou escrever, ou não fazer mais do que... ouvir.

sábado, 2 de maio de 2020

VIVA O PVEC!

Um jornal com poemas, desenhos, contos, reflexões, depoimentos, entrevistas, jogos e passatempos que se pode ler na internet. Feito pela Casa da Achada para assinalar com pensamento crítico, humor e poesia este 25 de Abril.

https://issuu.com/casadaachada/docs/pvec25abril
 para ler, clicar na imagem
para ler melhor, pôr para ler em «écrã inteiro»

Uma edição on-line a várias mãos em tempos de confinamento, com contribuições de Auretta Pini, Bertran Romero Sala, Diana Dionísio, Eupremio Scarpa, Gianfranco Azzali, Gianni Tamino, Giuseppe Morandi, Jacinto Lucas Pires, João Rodrigues, Jorge Silva Melo, José Smith Vargas, Luiz Rosas, Mário de Carvalho, Paolo Barbaro, Pedro Rodrigues, Pitum Keil do Amaral, Regina Guimarães, Saguenail, Serena Cacchioli, Sofia Ferreira Andrade, Sónia Gabriel, Yann Prost e ainda poemas de Ernest Hemingway, Franco Fortini, Joseph Brodski, Mário Dionísio e Pier Paolo Pasolini.

terça-feira, 28 de abril de 2020

25 de Abril: esses dois anos

Ouvido de tísico Nº 14
25 DE ABRIL: ESSES DOIS ANOS

Com muitas canções do GAC – Grupo de Açcão Cultural e textos e documentos da exposição 25 de ABRIL AO AR LIVRE – feita em 2014 pela Casa da Achada, com as colaborações de Catarina Barros, Clara Boléo, Cristina Mora, Diana Dionísio, Eduarda Dionísio, Eupremio Scarpa, F. Pedro Oliveira, Lara Afonso, Natércia Coimbra, Pedro Soares, Sónia Gabriel e Youri Paiva – que parte de frases de Mário Dionísio e de João Martins Pereira e nos dá a ver vários «fins» do 25 de Abril: fim ao pesadelo, ao medo, à solidão, fim ao «orgulhosamente sós», fim ao «Do Minho a Timor», fim ao «Deus, pátria, família», fim ao silêncio, à opressão, à repressão, fim à censura (jornais, rádio, televisão, literatura, teatro, cinema, canção, fim ao dever de obediência (casas, fábricas e campos ocupados, saneamentos), fim aos «servidores do Estado», fim à exploração, fim ao «basta saber ler, escrever e contar», fim à «alta cultura».

Neste programa, feito para o 25 de Abril da Casa da Achada, em época de quarentena, participam, com as suas belas vozes, Ana Queijo, Catarina Carvalho, Clara Boléo, Diana Dionísio, F Pedro Oliveira, Francisca Soares, Inês Nogueira, João Rodrigues, Lena Bragança Gil, Marta Raposo, Pedro Rodrigues, Pedro Mendes Soares, Rubina Oliveira, Serena Cacchioli, Sónia Gabriel, Susana Baeta e Toni.


Nas sessões «Ouvido de Tísico» a proposta é escutar. Fácil? Difícil? Num mundo que nos quer entupir os ouvidos, nós queremos continuar a fazer cócegas ao caracol. Ouvir-se-ão textos de vários autores, saladas musicais, documentos desencantados do Centro de Documentação da Casa da Achada, discos do princípio ao fim, entrevistas, enfim, de tudo um pouco. Pode-se ouvir de pé ou sentado, sentado ou deitado. Pode ouvir-se de olhos fechados ou abertos, abertos ou semicerrados. Pode-se desenhar enquanto se ouve, ou escrever, ou não fazer mais do que… ouvir.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

25 de Abril da Casa da Achada




Este 25 de Abril, dia em que a Casa da Achada se costuma encher de gente, conversas, canções e abraços, não nos poderemos encontrar, mas, dada esta liberdade condicionada que vivemos, precisamos ainda mais de um farnel para ajudar.

11h-15h:
25 de Abril: esses dois anos
Ouvido de Tísico nº 14
programa sonoro para ouvir de janela aberta
com textos e documentos da exposição «25 de Abril ao ar livre» e as canções do GAC

«25 de Abril – Esses dois anos» será um programa de dois pares de horas, feito a partir da exposição «25 de Abril ao ar livre» (que fizemos na Casa da Achada em 2014 e já circulou por várias terras), a que se misturam as canções do GAC (Grupo de Acção Cultural - Vozes em Luta). É assim um programa sonoro para ouvir de janela aberta, cheio de música e de textos, lidos a várias vozes: Ana Queijo, Catarina Carvalho, Clara Boléo, Diana Dionísio, F. Pedro Oliveira, Francisca Soares, Inês Nogueira, João Rodrigues, Lena Bragança Gil, Marta Raposo, Pedro Rodrigues, Pedro Soares, Rubina Oliveira, Serena Cacchioli, Sónia Gabriel, Susana Baeta e Toni.

16h:
lançamento do jornal PVEC – Processo Viral Em Curso
com intervenções de várias pessoas
sobre liberdade hoje

Às 16h lançamos o PVEC, Processo Viral Em Curso, uma edição on-line a várias mãos em tempos de confinamento, com contribuições de Auretta Pini, Bertran Romero Sala, Diana Dionísio, Eupremio Scarpa, Gianfranco Azzali, Gianni Tamino, Giuseppe Morandi, Jacinto Lucas Pires, João Rodrigues, Jorge Silva Melo, José Smith Vargas, Luiz Rosas,  Mário de Carvalho, Paolo Barbaro, Pedro Rodrigues, Pitum Keil do Amaral, Regina Guimarães, Saguenail, Serena Cacchioli, Sofia Ferreira Andrade, Sónia Gabriel, Yann Prost e ainda poemas de Ernest Hemingway, Franco Fortini, Joseph Brodski, Mário Dionísio e Pier Paolo Pasolini.
Um jornal com poemas, desenhos, contos, reflexões, depoimentos, entrevistas, jogos e passatempos que se poderá ler na internet. Para assinalar com pensamento crítico, humor e poesia este 25 de Abril, já que não nos vamos poder encontrar e conversar em festa e convívio na Casa da Achada, como tem sido hábito de há 10 anos para cá.

18h-24h:
Coro da Achada
lançamento de uma canção em vídeo e outras surpresas

O coro da Achada lança um vídeo e mais algumas surpresas que se ouvem e vêem. Foi a maneira que inventámos para estarmos o mais juntos possível a cantar as lutas de ontem, as refregas de agora e as desejadas emancipações futuras. 

Grupo de Teatro Comunitário
leituras em vídeo a partir do diário inédito de Mário Dionísio

O Grupo de Teatro Comunitário da Casa da Achada lê páginas do diário de Mário Dionísio, revelando os entusiasmos e as dúvidas da época, pela voz de um homem que viveu intensamente a revolução portuguesa e esses meses que se seguiram ao 25 de Abril, em que foi possível tanto do que antes parecia impossível.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Canções por um caminho de palavras

OUVIDO DE TÍSICO Nº 13

CANÇÕES POR UM CAMINHO DE PALAVRAS

As palavras puxam palavras e fazem um caminho de palavras. Cada palavra puxa uma canção e fazem um caminho de canções. Vamos ouvir esse caminho. Podem trazer pedrinhas: de pão, de chocolate, de cenoura, de queijo… a ver se a prima Vera chega e se nos deixa apanhar o sol e a sombra do quintal.

Nas sessões «Ouvido de Tísico» a proposta é escutar. Fácil? Difícil? Num mundo que nos quer entupir os ouvidos, nós queremos continuar a fazer cócegas ao caracol. Ouvir-se-ão textos de vários autores, saladas musicais, documentos desencantados do Centro de Documentação da Casa da Achada, discos do princípio ao fim, entrevistas, enfim, de tudo um pouco. Pode-se ouvir de pé ou sentado, sentado ou deitado. Pode ouvir-se de olhos fechados ou abertos, abertos ou semicerrados. Pode-se desenhar enquanto se ouve, ou escrever, ou não fazer mais do que… ouvir.

No sábado 21 de Março às 15h30, mais uma sessão de escuta da rubrica «Ouvido de Tísico» prometia dar as boas vindas à Primavera com convívio no quintal da Casa da Achada. Dadas as circunstâncias virais, a sessão nº 13 do Ouvido de Tísico – «canções por um caminho de palavras» – foi publicada online, para convivermos perto ao longe.

quinta-feira, 19 de março de 2020

uma canção em tempos de guerra viral

uma canção antiga que agora nos pareceu outra vez actual!

«dança, dança, figura dança,
ao som da finança, dança, dança
que belo canhão,
afinal, afinal a guerra é viral,
menos mal, menos mal,
não faz barulho,
é entulho, é entulho...»

Pedro e Diana gravados e misturados pelo João Ferro Martins

quinta-feira, 12 de março de 2020

a menina já não vai cantar no sábado

que pena não ir cantar para outros ouvirem
canções de zanga e liberdade
pensou a menina,
aliás, a sua silhueta,
porque ninguém a viu de facto no clube de futebol

decidiu então fazer "contactos sociais" apenas na rede
e percebeu que a rede era muito esburacada

encheu-se de alegria e esperança e coisas assim
e escreveu um poema inumano:

«366 ano 20 bissexto
março abril águas mil
hoje sol e um dia lindo
reunião marcada  17 18
search find
infotainement don't wacth
segurança 123 disponível
tradução automática key in fact/ infect
sabotagem
it's stupid my love start
error stop»


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A sombra faz a silhueta cuspir
mas na verdade quando a luz ali bate
se vê que são sombras de ramos da árvore
que cresceu muito e está bonita

as sombras
juntam-se na silhueta ao corpo
verde regado de luz e água e vida,
ai, que belo natural fabricado...

e pronto, acabou-se a estética,
que pena,

e já não se pode continuar a modernidade
nem a pós-modernidade, menina.

Nem após.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

es lo que hay
la gentrificación
es lo que hay
la ciudad del patrón

pero no sera siempre así
la gente va a ocupar
la ciudad la ciudad
no se va a ficar

(a menina pires ouviu esta canção em Lisboa e registou - já não sabe se era bem assim)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

az

azar azenhas azevinho
azevias azeite azougue
azia azul

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

o sete

Quero morrer
quero morrer
quero morrer
às sete da manhã
quero morrer
fiquei solta sozinha abandonada perdida
tenham filhos netos bisnetos sejam felizes e deixem-me

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Caderno do caderno

Abro-te sempre ao contrário
do fim pró princípio.
Oh, caderno cronológico
do mundo ao contrário...
O que interessa
a linha do tempo?
Quando já todos aprendemos
que nada é linear
que nada é óbvio e consequente.
Abro-te caderno ao contrário.
Desafias-me.

*

Tanto que escrevo
à noite
quando a vida acontece
só cá dentro
da minha cabeça.
E quadros e cadernos
e poemas e canções
discursos inteiros em reuniões
e nada
no dia seguinte.
No intervalo,
sonhos.

*

Como querem que escreva
num bar onde não se fuma?

*

Faltam aqui dentes
tão importantes
um que bebia CRF
por exemplo
e que já não tinha dentes.

Faltam aqui dentes
para mastigar o mundo
insuportável
barulhento
agoniante.

Faltam aqui dentes
como pedras do asfalto.

*

Agora fazia assim.
Agora publicava tudo.
Porque o vómito precisava.

Agora já não havia bom e mau
mas só avalanche
verborreia
enxurrada.

Agora era mandar tudo
contra a parede
contra todos
até que todos
fugissem de mim.

*

Vou ter um cão
mas não vai ser meu súbdito.
Oh, que incongruência!
Então, pronto,
não vou ter um cão.
Vou ter um gato
autónomo
e independente
a comer da minha gamela...

*

Ao lado
nas escadas
tão típicas
de Lisboa antiga
cantam-se músicas
tão conservadoras e
agoniantes
que tenho de deixar
de estar aqui sentada
não suporto mais
o destino a lágrima
a felicidade plástica
dum povo cego
e o seu amor
pela cultura de massas.

*

Berrei e travei ao mesmo tempo
O passeio tem um tempo mais lento
Às ruas teimamos chamar estradas
Trememos de calçado nas calçadas

Os pés cortados
por esporas e pedais
As mãos torcidas
por tocar botões demais
Decapitados
por drones virtuais

Acidente de bicicleta
Fui chocar com a trotineta
O metro ainda tá caro
Por aí...
ainda há muito carro

este buraco

furavam-se os montes
e planos
e montes e montes
de planos
em nome da busca do lítio
imprescindível
para animar cavaco
o nosso bacalhau seco
morto há anos
mas que ainda mexe à janela
a nossa
rainha de inglaterra
- Gostas mais do papá ou
do Marcelo?

à flor da pele

à flor da pele
à língua da carne
à brisa do osso

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

fotocopiado à noite

Falta aqui um poema
daqueles com palavras difíceis
lobrigando horizontes

Falta aqui também o dicionário
para dizer como foi equivocamente edulcorada
a simplicidade recendida
das vidas

Falta aqui um poema novo
carpicamente escrito
sem tendinites
nem otomastoidites

Fotocopiado à noite - escuta! -
sereno e rebelde
na estuância perante a injustiça 

Falta aqui inacabado
mas pode ser desenhado
tal qual a silhueta
com a sua impedância inaugural







sexta-feira, 16 de novembro de 2018

sós de nós

Crescermos é ficarmos cada vez mais sós
ao nascermos ninguém nos disse
que os pais não duravam para sempre
que a casa não durava para sempre
que a cidade ia mudar muito
tanto que poderia ser preciso deixá-la
que certas palavras iam desaparecer da língua que se usa
e os amigos da vida
tudo aquilo em que assentávamos
os nossos bastidores
as nossas raízes
os nossos pensamentos
a nossa cabeça e o nosso corpo
viver é a resistência
às facas e facas e facas
construir plaquetas
carcaçar a pele
deixarmos bocados de nós
pelo caminho.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

ar livre

O mundo ao ar livre
cheio de luz, com calor de sol
comove até ao craquelé do seco barro medulóide
trava passos
paraliza pensamentos
dá-se todo
e agride-me
como se dissesse
aqui é que é a vida, o que fazes desse lado?

E a custo
a passos de homem na lua
consigo finalmente alcançar
a salvadora porta do túnel do metro
direcção retour à la normale
luz eléctrica de buraco
o tempo a passar a vida
outra vez a fugir.

levantar e fazer acontecer

levantar e fazer acontecer sim
mas com sol é que isso é fácil
a rapariga já velha dos caracóis castanhos
arranca uma flor da laranjeira azeda
eu penso pela primeira vez
que dão jeito aos donos dos cafés
os trocos dos arrumadores de carros
(fio de comunidade)
e no metro continua em loop
a voz ensurdecedora que grita avisos da polícia
mas o sol brilha por cima
e alguns levantam-se e fazem acontecer
mostrando que só depois da fotossíntese
é que isto vai lá

e amanhã direi

e amanhã direi
que dormi bem quentinha
em mais uma noite de angústia do mundo
de gritos, frio, arrepios, miséria, morte,
injustiças de cassandra
puxadas a ferro das entranhas
e respondidas com as entranhas
que besuntam de ferro a vida
- impermeavelmente.
e tudo será mentira
como os passos que oiço cá dentro de casa
e que me dizem
não poderem ser reais.

não poderem ser reais, dizem
vários tempos no mesmo espaço

São as coisas que eu ouço sempre

São as coisas que eu ouço sempre
Das duas uma
ou vive alguém cá comigo
ou tenho ouvido de tísica
e isto é silêncio para os outros

domingo, 11 de março de 2018

insokus

A CASA
Água a correr e passos dentro da parede
E vendaval de fora

O FRIO
É tão psicológico como todo o resto do mundo
Tem is de pontos duros
Inibir imobilizar cristalizar

O SONO
Lutar até ao fim
Eu sou mais persistente que tu
E nem me roubas o raciocínio

OS OLHOS
À volta infecta
Ficar cego é medo
Fechar é o mais difícil

O MEDO
Domina as cabeças com frio, falta de sono
E olhos incapazes
É tão psicológico como o frio
Só se vai
Se adormecermos


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

toque

Como um toque e foge
para lena de gil
debaixo
do serénico raio

como um bolbo de generosidade

como uma calma que mente
mas é enquanto está

como aquele arrepio de lágrimas frescas
às seis da tarde na praça da figueira
mexeu com uma mexeu com todas

a pincelada burilou

foge

Que barca abarca
essa luz reciclada
que pinta o céu de escuro pardo
e recorta de esboço
o castelo imaginário
encimando a floresta?

É alívio sereno
que toda a monarquia e os bancos durmam
ou repousa só, trémula de ameaça,
uma ameaça tépida
e amarela?

Essa deusa
luminosa e altiva
mas a única verdadeira
tingida de rios e peixes
está a anos-luz
dos fotões rosa sintéticos
que me ocupam a sala.
E foge pela ombreira.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

e dos caixotes do lixo nascem versos

Lixo.

Couves amarelas.
Ovos de asas mortas.

Gritos esfarrapados por dentes de peixes,
espinhas de caudas de sereias.

E uma luva doce
a quem os cães da noite
vão em bandos
lamber o perfume
de mulher
- palacianos e sonâmbulos.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

domingo, 30 de julho de 2017

árvore cão














A menina desenhou um cão-árvore e chamou-lhe Woody.

domingo, 16 de julho de 2017

I couldn't find you

Haiku dente fá
índio haiku dente fá
índio haiku

sexta-feira, 19 de maio de 2017

histórias para crianças quase crescidas


esperamos encontrar-vos, mais e menos crescidos,
no próximo sábado 20 de Maio de 2017, pelas 16h,
na Casa da Achada - Centro Mário Dionísio*,
para o lançamento desta novidade

histórias para crianças quase crescidas
de Antonino Solmer, com ilustrações de Diana Dionísio

depois de uma apresentação por João Rodrigues, histórias serão lidas por F. Pedro Oliveira, Inês Nogueira e sabe-se lá mais quem...
 
* R. da Achada, 11 - 1100-004 Lisboa

quarta-feira, 3 de maio de 2017

terça-feira, 2 de maio de 2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

mentira

A mentira é que segura as coisas.
Mas não basta mentir.
É preciso omitir, esconder bem as coisas.
E disfarçar bem, aprender a disfarçar.
Não basta apenas mentir.
É preciso ainda aceitar a mentira dos outros.
É preciso mentir muito para ser feliz.
É preciso mentir para ter muito sucesso.

terça-feira, 18 de abril de 2017

fui ouvir melhor a história de uma gata



passava a menina

passava a menina as suas sombras
a ferro numa esquina
achou que viu um gato
e pensou:
«os gatos batem as botas»

achou graça e escreveu no caderninho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lemniscata


É um total de 48 fotos do Sol, sobrepostas. Feitas durante um ano, uma vez por semana, no mesmo local e horário. O ponto mais alto é o solstício de verão e o mais baixo é o de inverno, formando a Lemniscata, símbolo do infinito. 
Ver mais aqui: 
http://astronomiaycienciatitaguas.blogspot.pt/2012/10/analema-solar.html
http://myblog-arnaiz.blogspot.pt/2012/11/analema-solar-desde-burgos.html

"Lemniscata":  https://pt.wikipedia.org/wiki/Lemniscata_de_Bernoulli

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Manuela e Mário

sem sentido
o sem sentido disto
sofreguidão
num mundo enorme e vazio
perdida
no claustro das raízes profundas

Na era

Na era em que já não se escrevia -
porque não se sabia
e porque não era possível -,
quando se queria mascar
roíam-se as unhas do mindinho
e durante muito tempo
rolavam rolavam
entre língua e dentes.

domingo, 25 de dezembro de 2016

desabrocham murchas

saltar todas as listas como cavalos barreiras
e abrir este rectângulo cortado branco
e sujá-lo de regras de teclas descifradas
dizer que não fiz tudo o que me passou pela gana
que ficaram só esboçadas todas as cartas, os gestos,
os obrigadas, as desculpas, os barcos de papel com as palavras,
pôr as músicas, cantar, ler poemas, comprar bilhetes para longe,
soprar amor
essa coisa que nego e renego e só quero como qualquer pedra do chão
que  não sei fazer

saltar as listas e vir para aqui fazer mais uma vez o inútil
tentar o que mais uma vez não conseguirei
explicar que tinha tanta cor para pintar e sou sempre só um bloco cinzento
essa garganta que esconde o calado à força
essa prisão das paredes gélidas inflamadas
saber dizer a perda a incapacidade e as dores ridículas
saber dizer mas para quê
a vida fugiu-me e corre corre já não sei se a vejo ainda

mas será que existiram esses mundos subterrâneos de homens pequeninos
essa opália, essa liberdade de bater a porta de casa dos pais,
essa liberdade de ter amigos havia amigos? houve?
aquelas pedras do chão como a nossa alcatifa
aquelas ervas daninhas como as nossas plantas
aquelas canetas e isqueiros como oxitocinas de utilidade pública
esta terra como a nossa casa e agora?

incomoda-me este silêncio
é bola preta que cresce como no miyazaki
até àquele tanque de preto a transbordar de borbulhas
e não quero ver a cena e fecho os olhos à cassandra
mas de que serve fechar-lhe os olhos

não sei o humano que parava os olhos nas coisas e nos outros
que queria ouvir-lhes as palavras
entender-lhes os tremores, as raivas, as maravilhas
acompanhar-lhe os pensamentos
desviar-lhes as rotas
sorrir como se fosse a primeira vez

o cenário e mundo inóspito vazio
os perdidos e não achados
o sem sentido de tudo isto
o cansaço de sísifo
o dramático
a farsa
(e o minúsculo) não

enquanto
os écrãs com novos donos de scoobydoos de caleiras sobre as orelhas
a cantar músicas de natal congregadoras da farsa
em competição
continuam para sempre ligados eternamente ligados
com as pilhas duracel
e duram e duram e duram
as baratas

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

adenda fim do dia

Nunca quem dera jamais parar de escrever, sempre no seguimento da linha e fugindo a todo o direito. Indo para letras. Do outro lado do relvado.
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.