que pena não ir cantar para outros ouvirem
canções de zanga e liberdade
pensou a menina,
aliás, a sua silhueta,
porque ninguém a viu de facto no clube de futebol
decidiu então fazer "contactos sociais" apenas na rede
e percebeu que a rede era muito esburacada
encheu-se de alegria e esperança e coisas assim
e escreveu um poema inumano:
«366 ano 20 bissexto
março abril águas mil
hoje sol e um dia lindo
reunião marcada 17 18
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infotainement don't wacth
segurança 123 disponível
tradução automática key in fact/ infect
sabotagem
it's stupid my love start
error stop»
quinta-feira, 12 de março de 2020
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
A sombra faz a silhueta cuspir
mas na verdade quando a luz ali bate
se vê que são sombras de ramos da árvore
que cresceu muito e está bonita
as sombras
juntam-se na silhueta ao corpo
verde regado de luz e água e vida,
ai, que belo natural fabricado...
e pronto, acabou-se a estética,
que pena,
e já não se pode continuar a modernidade
nem a pós-modernidade, menina.
Nem após.
mas na verdade quando a luz ali bate
se vê que são sombras de ramos da árvore
que cresceu muito e está bonita
as sombras
juntam-se na silhueta ao corpo
verde regado de luz e água e vida,
ai, que belo natural fabricado...
e pronto, acabou-se a estética,
que pena,
e já não se pode continuar a modernidade
nem a pós-modernidade, menina.
Nem após.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
o sete
Quero morrer
quero morrer
quero morrer
às sete da manhã
quero morrer
fiquei solta sozinha abandonada perdida
tenham filhos netos bisnetos sejam felizes e deixem-me
quero morrer
quero morrer
às sete da manhã
quero morrer
fiquei solta sozinha abandonada perdida
tenham filhos netos bisnetos sejam felizes e deixem-me
terça-feira, 29 de outubro de 2019
Caderno do caderno
Abro-te sempre ao contrário
do fim pró princípio.
Oh, caderno cronológico
do mundo ao contrário...
O que interessa
a linha do tempo?
Quando já todos aprendemos
que nada é linear
que nada é óbvio e consequente.
Abro-te caderno ao contrário.
Desafias-me.
*
Tanto que escrevo
à noite
quando a vida acontece
só cá dentro
da minha cabeça.
E quadros e cadernos
e poemas e canções
discursos inteiros em reuniões
e nada
no dia seguinte.
No intervalo,
sonhos.
*
Como querem que escreva
num bar onde não se fuma?
*
Faltam aqui dentes
tão importantes
um que bebia CRF
por exemplo
e que já não tinha dentes.
Faltam aqui dentes
para mastigar o mundo
insuportável
barulhento
agoniante.
Faltam aqui dentes
como pedras do asfalto.
*
Agora fazia assim.
Agora publicava tudo.
Porque o vómito precisava.
Agora já não havia bom e mau
mas só avalanche
verborreia
enxurrada.
Agora era mandar tudo
contra a parede
contra todos
até que todos
fugissem de mim.
*
Vou ter um cão
mas não vai ser meu súbdito.
Oh, que incongruência!
Então, pronto,
não vou ter um cão.
Vou ter um gato
autónomo
e independente
a comer da minha gamela...
*
Ao lado
nas escadas
tão típicas
de Lisboa antiga
cantam-se músicas
tão conservadoras e
agoniantes
que tenho de deixar
de estar aqui sentada
não suporto mais
o destino a lágrima
a felicidade plástica
dum povo cego
e o seu amor
pela cultura de massas.
*
Berrei e travei ao mesmo tempo
O passeio tem um tempo mais lento
Às ruas teimamos chamar estradas
Trememos de calçado nas calçadas
Os pés cortados
por esporas e pedais
As mãos torcidas
por tocar botões demais
Decapitados
por drones virtuais
Acidente de bicicleta
Fui chocar com a trotineta
O metro ainda tá caro
Por aí...
ainda há muito carro
do fim pró princípio.
Oh, caderno cronológico
do mundo ao contrário...
O que interessa
a linha do tempo?
Quando já todos aprendemos
que nada é linear
que nada é óbvio e consequente.
Abro-te caderno ao contrário.
Desafias-me.
*
Tanto que escrevo
à noite
quando a vida acontece
só cá dentro
da minha cabeça.
E quadros e cadernos
e poemas e canções
discursos inteiros em reuniões
e nada
no dia seguinte.
No intervalo,
sonhos.
*
Como querem que escreva
num bar onde não se fuma?
*
Faltam aqui dentes
tão importantes
um que bebia CRF
por exemplo
e que já não tinha dentes.
Faltam aqui dentes
para mastigar o mundo
insuportável
barulhento
agoniante.
Faltam aqui dentes
como pedras do asfalto.
*
Agora fazia assim.
Agora publicava tudo.
Porque o vómito precisava.
Agora já não havia bom e mau
mas só avalanche
verborreia
enxurrada.
Agora era mandar tudo
contra a parede
contra todos
até que todos
fugissem de mim.
*
Vou ter um cão
mas não vai ser meu súbdito.
Oh, que incongruência!
Então, pronto,
não vou ter um cão.
Vou ter um gato
autónomo
e independente
a comer da minha gamela...
*
Ao lado
nas escadas
tão típicas
de Lisboa antiga
cantam-se músicas
tão conservadoras e
agoniantes
que tenho de deixar
de estar aqui sentada
não suporto mais
o destino a lágrima
a felicidade plástica
dum povo cego
e o seu amor
pela cultura de massas.
*
Berrei e travei ao mesmo tempo
O passeio tem um tempo mais lento
Às ruas teimamos chamar estradas
Trememos de calçado nas calçadas
Os pés cortados
por esporas e pedais
As mãos torcidas
por tocar botões demais
Decapitados
por drones virtuais
Acidente de bicicleta
Fui chocar com a trotineta
O metro ainda tá caro
Por aí...
ainda há muito carro
este buraco
furavam-se os montes
e planos
e montes e montes
de planos
em nome da busca do lítio
imprescindível
para animar cavaco
o nosso bacalhau seco
morto há anos
mas que ainda mexe à janela
a nossa
rainha de inglaterra
- Gostas mais do papá ou
do Marcelo?
e planos
e montes e montes
de planos
em nome da busca do lítio
imprescindível
para animar cavaco
o nosso bacalhau seco
morto há anos
mas que ainda mexe à janela
a nossa
rainha de inglaterra
- Gostas mais do papá ou
do Marcelo?
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
fotocopiado à noite
Falta aqui um poema
daqueles com palavras difíceis
lobrigando horizontes
Falta aqui também o dicionário
para dizer como foi equivocamente edulcorada
a simplicidade recendida
das vidas
Falta aqui um poema novo
carpicamente escrito
sem tendinites
nem otomastoidites
Fotocopiado à noite - escuta! -
sereno e rebelde
na estuância perante a injustiça
Falta aqui inacabado
mas pode ser desenhado
tal qual a silhueta
com a sua impedância inaugural
daqueles com palavras difíceis
lobrigando horizontes
Falta aqui também o dicionário
para dizer como foi equivocamente edulcorada
a simplicidade recendida
das vidas
Falta aqui um poema novo
carpicamente escrito
sem tendinites
nem otomastoidites
Fotocopiado à noite - escuta! -
sereno e rebelde
na estuância perante a injustiça
Falta aqui inacabado
mas pode ser desenhado
tal qual a silhueta
com a sua impedância inaugural
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
sós de nós
Crescermos é ficarmos cada vez mais sós
ao nascermos ninguém nos disse
que os pais não duravam para sempre
que a casa não durava para sempre
que a cidade ia mudar muito
tanto que poderia ser preciso deixá-la
que certas palavras iam desaparecer da língua que se usa
e os amigos da vida
tudo aquilo em que assentávamos
os nossos bastidores
as nossas raízes
os nossos pensamentos
a nossa cabeça e o nosso corpo
viver é a resistência
às facas e facas e facas
construir plaquetas
carcaçar a pele
deixarmos bocados de nós
pelo caminho.
ao nascermos ninguém nos disse
que os pais não duravam para sempre
que a casa não durava para sempre
que a cidade ia mudar muito
tanto que poderia ser preciso deixá-la
que certas palavras iam desaparecer da língua que se usa
e os amigos da vida
tudo aquilo em que assentávamos
os nossos bastidores
as nossas raízes
os nossos pensamentos
a nossa cabeça e o nosso corpo
viver é a resistência
às facas e facas e facas
construir plaquetas
carcaçar a pele
deixarmos bocados de nós
pelo caminho.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
ar livre
O mundo ao ar livre
cheio de luz, com calor de sol
comove até ao craquelé do seco barro medulóide
trava passos
paraliza pensamentos
dá-se todo
e agride-me
como se dissesse
aqui é que é a vida, o que fazes desse lado?
E a custo
a passos de homem na lua
consigo finalmente alcançar
a salvadora porta do túnel do metro
direcção retour à la normale
luz eléctrica de buraco
o tempo a passar a vida
outra vez a fugir.
cheio de luz, com calor de sol
comove até ao craquelé do seco barro medulóide
trava passos
paraliza pensamentos
dá-se todo
e agride-me
como se dissesse
aqui é que é a vida, o que fazes desse lado?
E a custo
a passos de homem na lua
consigo finalmente alcançar
a salvadora porta do túnel do metro
direcção retour à la normale
luz eléctrica de buraco
o tempo a passar a vida
outra vez a fugir.
levantar e fazer acontecer
levantar e fazer acontecer sim
mas com sol é que isso é fácil
a rapariga já velha dos caracóis castanhos
arranca uma flor da laranjeira azeda
eu penso pela primeira vez
que dão jeito aos donos dos cafés
os trocos dos arrumadores de carros
(fio de comunidade)
e no metro continua em loop
a voz ensurdecedora que grita avisos da polícia
mas o sol brilha por cima
e alguns levantam-se e fazem acontecer
mostrando que só depois da fotossíntese
é que isto vai lá
mas com sol é que isso é fácil
a rapariga já velha dos caracóis castanhos
arranca uma flor da laranjeira azeda
eu penso pela primeira vez
que dão jeito aos donos dos cafés
os trocos dos arrumadores de carros
(fio de comunidade)
e no metro continua em loop
a voz ensurdecedora que grita avisos da polícia
mas o sol brilha por cima
e alguns levantam-se e fazem acontecer
mostrando que só depois da fotossíntese
é que isto vai lá
e amanhã direi
e amanhã direi
que dormi bem quentinha
em mais uma noite de angústia do mundo
de gritos, frio, arrepios, miséria, morte,
injustiças de cassandra
puxadas a ferro das entranhas
e respondidas com as entranhas
que besuntam de ferro a vida
- impermeavelmente.
e tudo será mentira
como os passos que oiço cá dentro de casa
e que me dizem
não poderem ser reais.
não poderem ser reais, dizem
vários tempos no mesmo espaço
que dormi bem quentinha
em mais uma noite de angústia do mundo
de gritos, frio, arrepios, miséria, morte,
injustiças de cassandra
puxadas a ferro das entranhas
e respondidas com as entranhas
que besuntam de ferro a vida
- impermeavelmente.
e tudo será mentira
como os passos que oiço cá dentro de casa
e que me dizem
não poderem ser reais.
não poderem ser reais, dizem
vários tempos no mesmo espaço
São as coisas que eu ouço sempre
São as coisas que eu ouço sempre
Das duas uma
ou vive alguém cá comigo
ou tenho ouvido de tísica
e isto é silêncio para os outros
Das duas uma
ou vive alguém cá comigo
ou tenho ouvido de tísica
e isto é silêncio para os outros
domingo, 11 de março de 2018
insokus
A CASA
Água a correr e passos dentro da parede
E vendaval de fora
O FRIO
É tão psicológico como todo o resto do mundo
Tem is de pontos duros
Inibir imobilizar cristalizar
O SONO
Lutar até ao fim
Eu sou mais persistente que tu
E nem me roubas o raciocínio
OS OLHOS
À volta infecta
Ficar cego é medo
Fechar é o mais difícil
O MEDO
Domina as cabeças com frio, falta de sono
E olhos incapazes
É tão psicológico como o frio
Só se vai
Se adormecermos
Água a correr e passos dentro da parede
E vendaval de fora
O FRIO
É tão psicológico como todo o resto do mundo
Tem is de pontos duros
Inibir imobilizar cristalizar
O SONO
Lutar até ao fim
Eu sou mais persistente que tu
E nem me roubas o raciocínio
OS OLHOS
À volta infecta
Ficar cego é medo
Fechar é o mais difícil
O MEDO
Domina as cabeças com frio, falta de sono
E olhos incapazes
É tão psicológico como o frio
Só se vai
Se adormecermos
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
toque
Como um toque e foge
para lena de gil
debaixo
do serénico raio
como um bolbo de generosidade
como uma calma que mente
mas é enquanto está
como aquele arrepio de lágrimas frescas
às seis da tarde na praça da figueira
mexeu com uma mexeu com todas
a pincelada burilou
para lena de gil
debaixo
do serénico raio
como um bolbo de generosidade
como uma calma que mente
mas é enquanto está
como aquele arrepio de lágrimas frescas
às seis da tarde na praça da figueira
mexeu com uma mexeu com todas
a pincelada burilou
foge
Que barca abarca
essa luz reciclada
que pinta o céu de escuro pardo
e recorta de esboço
o castelo imaginário
encimando a floresta?
É alívio sereno
que toda a monarquia e os bancos durmam
ou repousa só, trémula de ameaça,
uma ameaça tépida
e amarela?
Essa deusa
luminosa e altiva
mas a única verdadeira
tingida de rios e peixes
está a anos-luz
dos fotões rosa sintéticos
que me ocupam a sala.
E foge pela ombreira.
essa luz reciclada
que pinta o céu de escuro pardo
e recorta de esboço
o castelo imaginário
encimando a floresta?
É alívio sereno
que toda a monarquia e os bancos durmam
ou repousa só, trémula de ameaça,
uma ameaça tépida
e amarela?
Essa deusa
luminosa e altiva
mas a única verdadeira
tingida de rios e peixes
está a anos-luz
dos fotões rosa sintéticos
que me ocupam a sala.
E foge pela ombreira.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
e dos caixotes do lixo nascem versos
Lixo.
Couves amarelas.
Ovos de asas mortas.
Gritos esfarrapados por dentes de peixes,
espinhas de caudas de sereias.
E uma luva doce
a quem os cães da noite
vão em bandos
lamber o perfume
de mulher
- palacianos e sonâmbulos.
José Gomes Ferreira
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
segunda-feira, 31 de julho de 2017
domingo, 30 de julho de 2017
domingo, 16 de julho de 2017
domingo, 4 de junho de 2017
sexta-feira, 19 de maio de 2017
histórias para crianças quase crescidas

esperamos encontrar-vos, mais e menos crescidos,
no próximo sábado 20 de Maio de 2017, pelas 16h,
na Casa da Achada - Centro Mário Dionísio*,
para o lançamento desta novidade
histórias para crianças quase crescidas
de Antonino Solmer, com ilustrações de Diana Dionísio
depois de uma apresentação por João Rodrigues, histórias serão lidas por F. Pedro Oliveira, Inês Nogueira e sabe-se lá mais quem...
* R. da Achada, 11 - 1100-004 Lisboa
quarta-feira, 10 de maio de 2017
quarta-feira, 3 de maio de 2017
terça-feira, 2 de maio de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
quarta-feira, 19 de abril de 2017
mentira
A mentira é que segura as coisas.
Mas não basta mentir.
É preciso omitir, esconder bem as coisas.
E disfarçar bem, aprender a disfarçar.
Não basta apenas mentir.
É preciso ainda aceitar a mentira dos outros.
É preciso mentir muito para ser feliz.
É preciso mentir para ter muito sucesso.
Mas não basta mentir.
É preciso omitir, esconder bem as coisas.
E disfarçar bem, aprender a disfarçar.
Não basta apenas mentir.
É preciso ainda aceitar a mentira dos outros.
É preciso mentir muito para ser feliz.
É preciso mentir para ter muito sucesso.
terça-feira, 18 de abril de 2017
passava a menina
passava a menina as suas sombras
a ferro numa esquina
achou que viu um gato
e pensou:
«os gatos batem as botas»
achou graça e escreveu no caderninho
a ferro numa esquina
achou que viu um gato
e pensou:
«os gatos batem as botas»
achou graça e escreveu no caderninho
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Lemniscata
É um total de 48 fotos do Sol, sobrepostas. Feitas durante um ano, uma vez por semana, no mesmo local e horário. O ponto mais alto é o solstício de verão e o mais baixo é o de inverno, formando a Lemniscata, símbolo do infinito.
Ver mais aqui:
http://astronomiaycienciatitaguas.blogspot.pt/2012/10/analema-solar.html
http://myblog-arnaiz.blogspot.pt/2012/11/analema-solar-desde-burgos.html
"Lemniscata": https://pt.wikipedia.org/wiki/Lemniscata_de_Bernoulli
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Manuela e Mário
sem sentido
o sem sentido disto
sofreguidão
num mundo enorme e vazio
perdida
no claustro das raízes profundas
o sem sentido disto
sofreguidão
num mundo enorme e vazio
perdida
no claustro das raízes profundas
Na era
Na era em que já não se escrevia -
porque não se sabia
e porque não era possível -,
quando se queria mascar
roíam-se as unhas do mindinho
e durante muito tempo
rolavam rolavam
entre língua e dentes.
porque não se sabia
e porque não era possível -,
quando se queria mascar
roíam-se as unhas do mindinho
e durante muito tempo
rolavam rolavam
entre língua e dentes.
domingo, 25 de dezembro de 2016
desabrocham murchas
saltar todas as listas como cavalos barreiras
e abrir este rectângulo cortado branco
e sujá-lo de regras de teclas descifradas
dizer que não fiz tudo o que me passou pela gana
que ficaram só esboçadas todas as cartas, os gestos,
os obrigadas, as desculpas, os barcos de papel com as
palavras,
pôr as músicas, cantar, ler poemas, comprar bilhetes para
longe,
soprar amor
essa coisa que nego e renego e só quero como qualquer pedra
do chão
que não sei fazer
saltar as listas e vir para aqui fazer mais uma vez o inútil
tentar o que mais uma vez não conseguirei
explicar que tinha tanta cor para pintar e sou sempre só um
bloco cinzento
essa garganta que esconde o calado à força
essa prisão das paredes gélidas inflamadas
saber dizer a perda a incapacidade e as dores ridículas
saber dizer mas para quê
a vida fugiu-me e corre corre já não sei se a vejo ainda
mas será que existiram esses mundos subterrâneos de homens
pequeninos
essa opália, essa liberdade de bater a porta de casa dos
pais,
essa liberdade de ter amigos havia amigos? houve?
aquelas pedras do chão como a nossa alcatifa
aquelas ervas daninhas como as nossas plantas
aquelas canetas e isqueiros como oxitocinas de utilidade
pública
esta terra como a nossa casa e agora?
incomoda-me este silêncio
é bola preta que cresce como no miyazaki
até àquele tanque de preto a transbordar de borbulhas
e não quero ver a cena e fecho os olhos à cassandra
mas de que serve fechar-lhe os olhos
não sei o humano que parava os olhos nas coisas e nos outros
que queria ouvir-lhes as palavras
entender-lhes os tremores, as raivas, as maravilhas
acompanhar-lhe os pensamentos
desviar-lhes as rotas
sorrir como se fosse a primeira vez
o cenário e mundo inóspito vazio
os perdidos e não achados
o sem sentido de tudo isto
o cansaço de sísifo
o dramático
a farsa
(e o minúsculo) não
enquanto
os écrãs com novos donos de scoobydoos de caleiras sobre as
orelhas
a cantar músicas de natal congregadoras da farsa
em competição
continuam para sempre ligados eternamente ligados
com as pilhas duracel
e duram e duram e duram
as baratas
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
adenda fim do dia
Nunca quem dera jamais parar de escrever, sempre no seguimento da linha e fugindo a todo o direito. Indo para letras. Do outro lado do relvado.
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Varfarina de amêndoa
Varfarina de amêndoa
antera e borbórea
relenta de séries bastantes
assente em bicos micos
e pastos assados
sedenta de gamos
Assombreada e solarina
estende o braço rumo
curando pregos
e estívias
e segue o sono rulante
em vez do açor
Basta que masta açougue
relíquia de quília sebanta
logo o colo pinta manta
e antera e borbórea
a varfarina de amêndoa
sermina, cortina e diz
antera e borbórea
relenta de séries bastantes
assente em bicos micos
e pastos assados
sedenta de gamos
Assombreada e solarina
estende o braço rumo
curando pregos
e estívias
e segue o sono rulante
em vez do açor
Basta que masta açougue
relíquia de quília sebanta
logo o colo pinta manta
e antera e borbórea
a varfarina de amêndoa
sermina, cortina e diz
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
disto
deixem-me outra vez respirar a escrever
garras que desprendem garças impávidas
geradoras da mais rouge raiva ao mata à rabia
imagens chatas de cheias de pintinhas linhas tracinhos
confetti de lixo desnecessário tudo fora do armário
berloques cinzentismos cactos embalsamados
que bolha que saco que sarna na perna cruzada
voltar à pasta de papel com penas de pistacho
rir sem querer pela página abaixo e desmanchar
roubar este tempo só para só tempo este roubar
a braços irritados de arrancar ervas daninhas
sonhar as noites quentes a cidade ainda nossa
dar forma à fossa à impossível ponta de ar aqui
murguriar burtir-se sarracer ampinigar
garras que desprendem garças impávidas
geradoras da mais rouge raiva ao mata à rabia
imagens chatas de cheias de pintinhas linhas tracinhos
confetti de lixo desnecessário tudo fora do armário
berloques cinzentismos cactos embalsamados
que bolha que saco que sarna na perna cruzada
voltar à pasta de papel com penas de pistacho
rir sem querer pela página abaixo e desmanchar
roubar este tempo só para só tempo este roubar
a braços irritados de arrancar ervas daninhas
sonhar as noites quentes a cidade ainda nossa
dar forma à fossa à impossível ponta de ar aqui
murguriar burtir-se sarracer ampinigar
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
liberdade
A menina pires passou anteontem no Bairro Alto, na Travessa André Valente, e pelo cheiro a escape suspeitou que naquela ruela tinha nascido um grande poeta. Nessa tarde, descobriu na internet que era mesmo assim: Bocage ali à luz foi dado.
Então a menina pôs-se a ler e a pensar em belas ideias: Bocage esteve preso vários anos pela Inquisição, mas os seus versos, esses, ninguém os pode prender.
"Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:
Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!"
Fechou o livro de sonetos, e decidiu que ia ser livre. E pensou que ser livre incluía fazer escolhas, decidir e fazer, errar e acertar, pois o deixa-andar não faz pessoas livres e a liberdade não descende dos céus (aqui discordando ligeiramente com o poeta). Como o tema era vasto, ficou por aqui e foi beber um chá (que é um excitante barato), lembrando-se daquela rua e do cheiro a parque de estacionamento automóvel.
Então a menina pôs-se a ler e a pensar em belas ideias: Bocage esteve preso vários anos pela Inquisição, mas os seus versos, esses, ninguém os pode prender.
"Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:
Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!"
Fechou o livro de sonetos, e decidiu que ia ser livre. E pensou que ser livre incluía fazer escolhas, decidir e fazer, errar e acertar, pois o deixa-andar não faz pessoas livres e a liberdade não descende dos céus (aqui discordando ligeiramente com o poeta). Como o tema era vasto, ficou por aqui e foi beber um chá (que é um excitante barato), lembrando-se daquela rua e do cheiro a parque de estacionamento automóvel.
terça-feira, 6 de setembro de 2016
domingo, 4 de setembro de 2016
sem mexer uma palha
"depois de comer
nem um sobrescrito ler"
então a silhueta foi dormir a sesta
e a menina ficou acordada
sem mexer uma palha
"se é que isso é possível",
ficou ela a pensar para consigo
sem nada fazer
nem um sobrescrito ler"
então a silhueta foi dormir a sesta
e a menina ficou acordada
sem mexer uma palha
"se é que isso é possível",
ficou ela a pensar para consigo
sem nada fazer
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
a via da arte sensível
com mãos nuas apesar daqueles dedos
na competição - que pena - endurecidos
porque o caminho da suavidade não chegou
e ainda não pode ser o nosso
(perdoem-nos vocês que serão ágeis
a derrubar com alavancas do futuro)
foi bonito aquele yuko ainda assim
que nos faz ver que o peso é leve e é possível
de cada vez fazer virar o equilíbrio
e não se trata bem de dar a outra face
mas fazer com os mais fracos outra força
que é capaz do movimento impossível
na competição - que pena - endurecidos
porque o caminho da suavidade não chegou
e ainda não pode ser o nosso
(perdoem-nos vocês que serão ágeis
a derrubar com alavancas do futuro)
foi bonito aquele yuko ainda assim
que nos faz ver que o peso é leve e é possível
de cada vez fazer virar o equilíbrio
e não se trata bem de dar a outra face
mas fazer com os mais fracos outra força
que é capaz do movimento impossível
quinta-feira, 21 de julho de 2016
terça-feira, 12 de julho de 2016
Poema do poste com flores amarelas
Vieram os operários, puseram o poste de ferro na berma do passeio
e foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam “que chatice de poste”,
mas o poeta sorria para as flores amarelas.
e foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam “que chatice de poste”,
mas o poeta sorria para as flores amarelas.
António Gedeão
segunda-feira, 11 de julho de 2016
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