sexta-feira, 2 de outubro de 2026

17 achados

São 17 anos a bolinar, a navegar à vela contra a direcção do vento. A tentar juntar forças, fraquezas e vontades a contra-corrente da cultura dominante. Alguém disse «cultura»?! Que palavrão!

Na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio faz-se de tudo um pouco: oficinas disto e daquilo, exposições de pintura e não só, edições de livros, discos, brochuras e cadernos, leituras, palestras, conversas e encontros sobre ontem, hoje e amanhã, projecção de filmes em ciclos temáticos, intervenção cultural e política, canções, teatro, estudos e trocas de saberes, acolhimento de propostas de outros. É biblioteca popular, é casa e sala, é jardim, é arquivo vivo para pôr a uso a obra de Mário Dionísio, é lugar de liberdade (e às vezes saímos ao Largo), inspiração (e às vezes faz-se luz), solidariedade (e às vezes derrubam-se muros), lugar de pensamento lento ou debate urgente, pouco importa – teremos um minuto para estarmos juntos?

Um paraíso na Lisboa esvaziada? Uma aldeia de gauleses resistentes? Nada disso: por aqui cometem-se pecados nada originais e ainda não sabemos a receita da poção mágica. Às vezes repetem-se erros, vivem-se contradições e ilusões, fazem-se esforços inglórios e até há quem se canse. Pairam sempre muitas dúvidas. O que fazer? E como? Valerá a pena?

Continuamos na Achada a achar que sim, que vale.

São 𝟭𝟳 𝗮𝗻𝗼𝘀 a divulgar a obra de Mário Dionísio e a trabalhar no seu arquivo e da sua mulher, Maria Letícia, a ler e a editar o que escreveu, a mostrar o que pintou, a saber das lutas que travou antes e depois da revolução.

𝟭𝟳 𝗮𝗻𝗼𝘀 a intervir no bairro, na cidade, no país, no mundo. Sem baixar os braços.

𝟭𝟳 𝗮𝗻𝗼𝘀 a pensar que a «cultura» não pode ficar sempre para depois, ou corremos o sério risco de sermos comidos pela estupidificação, o individualismo, a cultura «gastronómica» e o entretenimento obediente («não penses, come e cala»). Em tempos de guerras e autoritarismos, isso não parece nada recomendável.

𝟭𝟳 𝗮𝗻𝗼𝘀 a pôr as mãos na massa, para aprendermos uns com os outros e com a resistência dos materiais. E, nesse passo, convidando todos a fabricar coisas e ideias novas. Para viver melhor, já.

𝟭𝟳 𝗮𝗻𝗼𝘀 a descobrir coisas antigas, a procurar, encontrar e escolher, porque há um trabalho a fazer sobre a memória (e a história) que pode ser útil para mudar a vida, agora.

𝟭𝟳 𝗮𝗻𝗼𝘀 a perceber que as artes podem ser qualquer coisa de decisivo e não meramente decorativo nas nossas vidas.

𝟭𝟳 𝗮𝗻𝗼𝘀 a aprender a toda a hora e em todos os sentidos, não só com os «sabedores», mas com o que cada pessoa traz. Com o que temos pra nos dar.