segunda-feira, 28 de junho de 2010

l'angle mort

de Hamé/La Rumeur - Casey - Zone Libre

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Amadora 14 de Junho (STOP police)

uma orquestra


tu violoncelista
és a esperança deste naipe moribundo
tu professor
professor de contrabaixo
medianamente feliz
medianamente humano
viva o teu banco desconfortável
viva a harpa se não enfeita
viva o fagote sem penteado austríaco
viva a valsa danação
viva a menina de escola de 60 anos
viva a banda que a orquestra não abafa
viva outra vez o corne inglês
e vocês moscas
de museu de estado
desapareçam,
desapareçam,
fora daqui!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Cralimundo

Cralimundo

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Em 10 de Junho de 1978 foi legalmente assassinado um anti-fascista

Neste 10 de Junho, a silhueta da menina pires lembra os acontecimentos de 10 de Junho de 1978, em que um jovem que se opôs a uma manifestação fascista foi abatido a tiro pela polícia. A ler, este texto de Mário Dionísio, escrito depois do funeral de José Jorge Morais:



Mário Dionísio, in Diário de Lisboa, 14/06/1978.


Faraway e Jacky


comissário Faraway
almirante Jacky
fizeram viagens sem título
beberam como cavalos
entornaram uma amizade
em miragens de amor
descrentes encontraram-se de novo
numa batalha campal
num bar em Newfight
uma ilha grande e até então
praticamente desconhecida
estavam do mesmo lado
reconheceram-se e riram
e choraram as lágrimas
e as cicatrizes

quinta-feira, 3 de junho de 2010

tique taque


o tempo não é o inimigo
o perigo é não estar à altura
do presente
incansável/escancarado/novo

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Lançamento do disco apupópapa! no Porto (agora com fotos)

O anúncio da festa-lançamento do disco apupópapa! foi feito por mail e pelo Facebook e também foi postado em blogs e páginas da internet (como Cidadã do Mundo, Passa Palavra, Pimenta Negra, Diário Liberdade, A Cidade das Mulheres).

Às 20h30 já estavam algumas pessoas na Casa Viva. Às 21h15 começou o concerto do Pedro e da Diana, um pouco no lusco-fusco mas, mesmo assim, contra o obscurantismo. Cantaram «fADo» e «e job raspava o pus com um caco de telha e assentava-se sobre a cinza». Leram o texto de Diana Póvoas «A religião faz mal à saúde», que já tinha sido lido em Lisboa e que está publicado no zine que acompanha o disco. Seguiram cantando «Joana come o papa», uma música que haviam feito na altura do referendo sobre o aborto. Cantaram ainda «A taxa (o drama nacional)» e «O rato».

João Carlos leu a notícia fictícia «Teresa e Marta casam pela igreja», publicada pelo jornal i-diário (lançado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta no dia 10 de Maio e distribuído gratuitamente nas ruas de Lisboa), e contou o que se passou com esse jornal. A Sojormedia, empresa proprietária do jornal i, apresentou uma queixa-crime contra o jornal i-diário, embora a UMAR tenha enviado um comunicado de imprensa a esclarecer que um jornal não tinha nada que ver com o outro. No dia 12 de Maio a ASAE foi à sede da UMAR e confiscou todos os exemplares do i-diário que lá havia. Tudo isto pareceria uma coisa do outro mundo não fosse o facto de uma simples busca no Google dar a saber o seguinte: a Sojormedia é a detentora exclusiva dos direitos de merchandising com a imagem do papa Bento XVI na visita a Portugal. Assim tudo se explica. Para além da ideologia, temos também o mercado. Aqui fica o comunicado de imprensa da UMAR sobre o assunto.

A Diana e o Pedro cantaram em seguida «Homofo-BU!» e, acompanhados por Rossana Silva e Smith, «Deixa estar». Acompanhados pelo Maio, acabaram o concerto com a canção «Este mânfio».

Susana Chiocca e outros dois companheiros apresentaram uma performance muito interessante feita propositadamente para o evento.

Smith cantou à guitarra a canção «O rato que canta», do grupo Focolitus, que integra o disco apupópapa!

Pedro Ribeiro leu um texto seu.

Maio cantou a «Cantiga da minha preguiça» e a Diana e o Pedro entoaram ainda a «Trova do Bento que passa».

Seguiu-se o cinema comunitário, com O sentido da vida, dos Monthy Python.

Venderam-se 30 discos. 10 ficaram na Casa Viva à venda para quem os quiser comprar no Porto.

Entretanto o blogzine da Chili com Carne falou do apupópapa!

Para pedir discos apupópapa! enviar um e-mail para apupopapa@gmail.com.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O lançamento do disco apupópapa! em Lisboa (agora com fotos)


Foi no passado sábado 8 de Maio que o disco apupópapa! – feito com o intuito de ser uma pedrada no charco pantanoso do consensual beija-mão ao Papa por ocasião da sua visita a este país à beira mar plantado – foi lançado em Lisboa, no bar Aguarela.

O anúncio do acontecimento foi feito com panfletos passados de mão em mão e deixados em sítios, foi feito por e-mail, circulou no Facebook e no Myspace e foi postado em algumas páginas de notícias e blogs (como por exemplo, Pimenta Negra, O Sono do Monstro, Panteras Rosa, Time Out, Público, Freguesia São Bartolomeu Coimbra). Para além disso, três dos organizadores da coisa deram uma entrevista à Sapo Notícias que saíu ainda no dia anterior à festa-lançamento do disco e que foi comentada não por 2 ou 3 pessoas, nem por 50 ou 100, mas teve nada mais que 270 comentários.

Às 16h30 ainda estava a ser montada no bar Aguarela a exposição de obras de Nadine Rodrigues e a ser preparada a banca com os discos e os pins. Às 17h, hora marcada para o acontecimento, começaram a chegar as primeiras pessoas. Ainda não eram 18h quando tiveram início as leituras, músicas, vídeos.

Pedro e Diana abriram a sessão cantando «fADo», a que se seguiu uma leitura d’A visita do Papa, de Alberto Pimenta, por Rui Teigão, Rossana Silva, Sónia Gabriel e Ângelo Teixeira.

Vimos depois o vídeo com a música «The Pope Song», de Tim Minchin, uma sugestão de uma pessoa que não pôde estar presente por estar em Londres. João Pacheco leu dois trechos d’O Último Cabalista de Lisboa, de Richard Zimler.

Novamente Pedro e Diana cantaram mais uma das suas músicas: «A taxa (o drama nacional)». Seguiu-se a leitura de várias orações d’A religião do capital de Paul Lafargue, por Miguel Sopas. Vimos depois um vídeo com a música «Qué dirá el santo padre», de Violeta Parra.

Diana Dionísio leu o texto de Diana Póvoas com o título «A religião faz mal à saúde». Miguel Castro Caldas leu uma passagem d’A vida de Galileu de Bertolt Brecht. Logo de seguida, Gonçalo Amorim leu o texto de Miguel Castro Caldas que integra o disco apupópapa!: «Foi sem crer».

Passou o vídeo que Amarante Abramovici fez com os pins feitos para a ocasião, e que tem a «música» que Regina Guimarães e Tiago Afonso fizeram para o disco apupópapa!: «Antes aos papos que ao papa». Diana Henriques e João Baía tocaram e cantaram o «Fado do Diabo». Ângelo Teixeira fez uma intervenção com um texto seu. Luís Rodeiro leu «Teses sobre a visita do Papa», de António José Forte, acompanhado à guitarra por Emanuel. Pedro Rodrigues leu depois o texto de Zé Nuno: «O papa ponderou a sua partida para Portugal».

Vimos o videoclip da música «Tud esperma é sagrod», de micro_SAPIENS, que entra no disco apupópapa! João e Pedro Rodrigues ajudaram-nos a cantar em conjunto a «Trova do Bento que passa». Foi depois a vez de tocarem as dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS, banda que também participa no disco, número que foi acompanhado por uma actuação de um verdadeiro faquir. Tiago Gomes leu em seguida os poemas «Cão» e «É um mundo inundado de fascismo e de medo» de Lawrence Ferlinghetti.

Em conjunto cantámos a música «Joana come o papa» feita por Miguel Castro Caldas e Rui Rebelo, que não pôde estar presente no lançamento (mas fez este vídeo). O amigo italiano Emanuel tocou e cantou duas músicas de Sérgio Godinho: «Tem ratos» e «Que força é essa?». Mais uma vez em conjunto foi cantada a música de Diana e Pedro «Este mânfio». Passou por fim um vídeo com a música «La mosca cojonera» dos Ska-P.

A tarde foi assim muito preenchida e agradável. O Aguarela encheu. Venderam-se 90 e tal discos e cerca de 90 pins.

Depois da festa, saíram ainda duas notícias sobre o disco, feitas a partir de uma entrevista dada à Lusa: na TVI e no Diário IOL. Também em blogs continuam as referências ao apupópapa! (Catrina, O melhor dos dois mundos, Cidadã do Mundo, Panteras Rosa, Casa Viva, Respirar o mesmo ar, Indymedia, Spectrum, Querida Quitéria, Alvitrando). No i-diário, um jornal fictício lançado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta no dia 10 de Maio, também como reacção à pompa com que é vista a visita de Ratzinger a Portugal, foi publicado um anúncio ao disco apupópapa!

Na quinta-feira 13 de Maio, o disco apupópapa!, que vem acompanhado por um zine cheio de recheio, será lançado no Porto – às 20h30, na Casa Viva (Pç. do Marquês, 167). Será mais um belo serão, com certeza.

O disco apupópapa! reúne colaborações de Serpendes; D. Chica e Heidi M.; dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS; Miguel Castro Caldas; Artigo 19; Inês Nogueira, João Caldas e Zé Ratinho; micro_SAPIENS; Casa Viva; Focolitus; Above the tree; Regina Guimarães e Tiago Afonso; À porta fechada; Nuno Moura; Pedro e Diana. Foi masterizado por J. Klicka.



Para quem falhou o lançamento em Lisboa e não puder ir ao do Porto, pode pedir discos através do e-mail apupopapa@gmail.com. Custam 3€.

terça-feira, 6 de abril de 2010

todos os dias

dia-a-dia
uma escada para descer
nem sempre serás livre
“inspirada”

a bomba sempre
os rios de trabalho sempre
a vontade no fundo sempre
de tudo arrancar

nem sempre a tua plantação paciente e bela
da destruição futura

derrube urgente
de uma de viver
forma
lenta
nos cantos amarelecida

MAS!
os milhões que escreveste
em rápidos minutos

tu que sabes a exclamação
e evitas com LETRAS
tu que tens
a solução para as TRELAS

não te sucedem
és tu aqui
presente
para a escada descendente - o chão e as

ESTRELAS
todos os dias
até te vir buscar uma mulher

amarguras

amarguras de não pensar, escreveres de entontar, amarguras de não ter forças, cansaços de não dormir, tristezas da falta de ideias, certezas de bons amigos, boas conversas à volta, facto de não entrar, gostos de almofadas e lençóis, preferências de companhias, irritações de fígados mal tratados, olhos bonitos no mundo, penas de não passar forças, letras tortas de cansaços e alcoóis, medos de já não saber ortografia, pesos de avôs e pais, vontades de não querer pensar em futuros, falta de forças para imaginar futuros, os porquês de pensar imenso, invejas de gatos e tartarugas, lembranças de inquéritos mal feitos para resultados duvidosos, quases de fechar de olhos, determinativos a mais, tendências de encher páginas, satélites que já não sei quais são, palavras escritas como falcidadez, amores de fugir, imagens de respirar nas cabeças, plurais intrigantes, auto-reflectir a mais, deveres por cumprir, cadernos como psicólogos, estalos que daria a quem diz isto ou aquilo, manias de encontrar sentidos, medos de gentes intrusivas, medos dos pensamentos terríveis, amor.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Volta, rivolta e torna a rivoltar

GLI SCARIOLANTI



[Canzone nata dopo il 1880 fra i braccianti addetti ai lavori di bonifica delle paludi costiere della Romagna e della provincia di Ferrara. Quell'opera richiamava nella zona masse enormi di contadini poveri e di braccianti, attratti dalla nuova possibilità di impiego: è proprio dalla concentrazione di province diverse che nasce un canto in italiano, anziché in dialetto. Protagonisti sono gli "scariolanti", cioè i braccianti che trasportavano la terra per mezzo di carriole durante i lavori di bonifica nel territorio del fiume Reno. Gli scariolanti venivano arruolati ad ogni inizio settimana: alla mezzanotte di domenica suonava un corno; esso segnalava che chi voleva avere un lavoro doveva mettersi in cammino verso gli argini, ove avveniva l'arruolamento. I ritardatari venivano mandati indietro.]



A mezzanotte in punto
si sente un gran rumor
sono gli scariolanti lerì lerà
che vengono al lavor.

Volta rivolta e torna a rivoltar
sono gli scariolanti lerì lerà
che vanno a lavorar.

A mezzanotte in punto
si sente una tromba suonar
sono gli scariolanti lerì lerà
che vanno a lavorar.

Volta rivolta e torna a rivoltar [...]

Gli scariolanti belli
son tutti ingannator
vanno a ingannar la bionda lerì lerà
per un bacin d'amor.

Volta rivolta e torna a rivoltar [...]


quarta-feira, 10 de março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

Elas

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.


Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná -lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre d.ois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer uin borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.


Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.


Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.


Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noite a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.


Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam.

Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro 1975

MARIA VELHO DA COSTA, Cravo, Lisboa, Moraes Editores, 1975.

Imagens: fotografia de Manuela Porto; Oh mulher das mãos gretadas, de Mário Dionísio; Nascita di San Giovanni Battista, de Artemisia Gentileschi; Retrato de Maria Letícia, de Mário Dionísio; A liberdade guiando o povo, de Delacroix.

sábado, 6 de março de 2010

elephas antiquus em porto covo


Descobertas pegadas de elefantes no Alentejo

00h26m

TELMA ROQUE

Trilhos pertencem a animais extintos há mais de 30 mil anos.

Pegadas de "Elephas antiquus", um tipo de elefante extinto há mais de 30 mil anos, foram descobertas ao longo da costa alentejana. É o primeiro achado do género em toda a Europa, mas está em risco de desaparecer devido à erosão causada pelo mar.

"O elefante antigo já era conhecido no registo formal, mas sob a forma de ossadas, mas nunca tinham sido encontradas pegadas", explicou Carlos Neto de Carvalho, o paleontólogo que coordenou a equipa científica do Geopark Naturtejo.

De acordo com o responsável, o que entusiasma a comunidade científica é o facto de terem sido encontrados trilhos, uma situação inédita em toda a Europa e que vai permitir saber mais sobre o comportamento e quotidiano destes animais de grande porte, semelhantes ao elefante asiático.

Há cerca de uma década que os investigadores vêm percorrendo os campos dunares fósseis que ainda subsistem, em Portugal continental e na Madeira. Começaram em Cascais e foram descendo a costa, fixando olhares entre a região de S. Torpes (Sines) e Armação de Pêra (Silves).

Numa das lages, entre Porto Covo (Sines) e Vila Nova de Mil Fontes (Odemira), a equipa coordenada pelo paleontólogo encontrou pegadas de três elefantes distintos que andavam em grupo e cujas pegadas percentem a adultos jovens ou a fêmeas, e que chegam a atingir os 50 centímetros.

Feita a descoberta, importa agora preservar o achado, sublinha Carlos Neto de Carvalho, acrescentando que as rochas onde estão inscritas as pegadas estão em situação de risco. "A arriba costeira está muito sujeita às ondas e isso conduzirá ao desaparecimento destas lajes. É um destino que está traçado", afirma.

Na sua opinião, "é fundamental avançar para um processo de replicação destes trilhos de modo a que a informação não se perca", criando depois um museu ou um centro de interpretação.

O especialista defende que este projecto terá que ter o envolvimento das câmaras locais, assegurando que já existem contactos. "Faz todo o sentido que o centro de interpretação fique na região onde estão os trilhos", sublinha, acrescentando que será até benéfico em termos turísticos.

in Jornal de Notícias

calcanhar d'ouro

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

transbordo

Rio largo de profundis
mar do Nilo a transbordar
chaga ferida em sangue
tão cedo não vai sarar
Das escarpas afiadas
saem uivos de agonia
mas os que sofrem mais
são os que têm afonia
Sem saber gritar errar
embrulham o desespero
sabem limpar o cantinho
não usam o verbo quero
Choram mágoas de arrepios
cospem pisam e recalcam
e respiram sós no mundo
sem saber por onde galgam
Fecham pesados os olhos
de cansaço ao fim do dia
almejam esquecer os horrores
dos uivos de agonia

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Amadores

Daumier

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

um poema de Carl Sandburg


















I SANG to you and the moon
But only the moon remembers.
I sang
O reckless free-hearted
free-throated rythms,
Even the moon remembers them
And is kind to me.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

carpideiras

Ontem o vento na minha janela do quarto parecia uma carpideira. Ou várias.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

sábado, 26 de dezembro de 2009

greguería

crise: factura exposta

alimenta-os clicando

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

3 haikus

Haiku
chefe
tá chamar

Haiku
governo
cai

Haiku
copo
vai-se entornar

sábado, 12 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

A minha biblioteca

A minha biblioteca
leva tempo a arrumar
as capas de várias cores
não querem pôr-se de A a Z
as lombadas as lombadas
não querem meter-se nos assuntos
A minha biblioteca
tem um feitio de arreliar
livros saltam tantos muitos
querem-me a casa
querem-me o chão
querem-me as mesas
querem-me o parapeito
querem-me a cama
e eu por vingança
não os leio

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

como bolinhos!

como bolinhos! como bolinhos a sairem do forno. quentes, vivos, a acordar.
cada feixe de luz qual faixa antiga parece nítida
e bocadinhos daqui querem agarrar os dali e dançam no ar.
as tardes as horas os repentes
os verões discussões
palavras que nos andaram na cabeça tantas v
mais melodias de cá.
ainda não sabemos o que é
temos medo que nos morda mas somos nós que o talhamos
somos Gepetos Diderots e outros
e será será que lá estão contigo a saltar?
nós ligados por um disco.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

sobre o amor

o amor rasga e pica e tem pele de lixa
queima de frio e faz palavras chocarem faz palavras nascerem
o amor descrista

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

VOP

ling por X= #vop

na língua portuguesa não há [vop] em início de palavra

parvo

parvo
pavor
vapor
prova
pravo

domingo, 29 de novembro de 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

o crime da tosse

quando tusso
olham-me como se fosse criminosa

mas que raio!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

a dança



o polícia não está a cantar nem a dançar
porque não sabe a letra nem a liberdade

quer encostar os manifestantes, tirá-los da rua
prendê-los
ao passeio

é coisa para ter acontecido na California
apesar de se ver pelos ares
e o vestuário
que foi depois de 64
CIVIL RIGHTS ACT
que foi depois de Luther King
morto em 68 com uma bala da cara ao ombro
foi certamente depois das seis e um da tarde desse Abril
mas antes do fim do apartheid na África
do Sul

o que espanta é o megafone
foi ele que o usurpou a ela?
é ela que lho tenta tirar?
quem tem voz? quem a pode amplificar?

ele segura o megafone mas
naquela dança cavalgando parece frágil
parece frágil e impotente quando se irrita

é coisa para ter acontecido em 1985
tem ar de ainda ser coisa
porque a polícia dança ainda
essa estranha dança
ao som de HIS MASTERS VOICE

há um rapaz que hesita
e uma mulher sem medo

e um outro fotógrafo do lado de lá tirando outra fotografia
que ajuda este - que fez esta
a cercar a patética fardada estupidez
mas onde estará essa outra fotografia que nos fotografa,
que exige ela de nós?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Moscas mortas

1º Mate umas moscas, mas com cuidado (para ficarem inteiras).

2º Deixe ao sol por 1 hora até secar.

3º Recolha as moscas, pegue lápis e papel... e... deixe a imaginação fluir.


Seguem alguns exemplos:









viva a preguiça


domingo, 15 de novembro de 2009

Cesare Battisti, greve de fome


RIO DE JANEIRO - O ex-guerrilheiro comunista italiano Cesare Battisti, preso no Brasil, entrou em greve de fome para protestar contra a sua possível extradição para a Itália, onde enfrentaria processos por assassinato. A informação foi divulgada pelo senador José Nery (PSOL-PA).

Battisti entregou a Nery, segundo o senador disse em seu site na sexta-feira, uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele se diz pronto para morrer no Brasil e assim não ser mandado de volta para a Itália, onde é acusado de quatro assassinatos nos anos 1970.

"Estou pronto para morrer se tiver que morrer, mas nunca nas mãos dos meus carrascos," diz a carta.

O Supremo Tribunal Federal deve tomar uma decisão final sobre a extradição nos próximos dias. Os ministros do tribunal estão divididos sobre o tema.

A Itália afirma que Battisti é um terrorista e tem pressionado o Brasil desde que o governo Lula decidiu em janeiro dar ao guerrilheiro status de refugiado político.

Battisti, 54, escapou de prisão italiana em 1981. Viveu na França, mas fugiu de lá quando o país aprovou a sua extradição em 2006. Foi preso no Brasil.

Ele corre o risco de pegar prisão perpétua na Itália. Ele nega as acusações de assassinato.

pensando

a menina pensa deitada naqueles que só ligam ao que têm quando lhes falta

as facas de peixe servem para barrar nutella nas cream crackers

se me desse na cabeça e eu escrevesse
e se ainda caderno tivesse

OS TEMPOS QUE É PRECISO

tempos de estar só mas
sem estar cansado do trabalho ou das folias
sem estar triste ou com agonias
sem estar com o copo cheio
cheio de alguma coisa
ou cheio da falta de alguém

isto para escrever

- os outros tempos precisos
para o mundo
são os de mudança

sábado, 14 de novembro de 2009

muro


Rango, tira do cartunista brasileiro Edgar Vasques

a menina pensa melhor de pé

a menina pensa melhor de pé, a andar dum lado para o outro, do que sentada
a menina tem quatro pernas de cadeira
a menina tem rabo de gato e uma certa maneira
de dizer que gosta mais de si libertada

a menina tem rodas e vai ao supermercado
a menina tem língua que diz que não e sim sim
a menina às quintas vai aos correios, apaixonada
e manda cartas com o dinheiro dos biscates

a menina tem ataques e fica a pensar de lado
a menina procura gentes e os meios
mas ainda age sozinha, com freios,
quando é pra lavar a cozinha

sábado, 7 de novembro de 2009

Cerveja com muita gola

Lengalonga, por Ana Deus
letra Regina Guimarães


lengalonga

Ana Deus | Vídeo do MySpace


e outra versão da Ana Deus audível em: http://www.myspace.com/anadeus

terça-feira, 3 de novembro de 2009

salve

salve
elvas
vales
velas
selva
alves
levas
laves
sável

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Black Panthers, de Agnès Varda

Uma pessoa também tem de ter férias... e mudar de vida.
Mas agora que voltámos, aqui fica este belo vídeo, que vi por acaso ontem na televisão.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A segurança do lar

Prepara-se para ir de férias ou de fim-de-semana nas próximas semanas e abandonar a sua residência?

Sabia que, de acordo com as estatísticas oficiais da PSP, no ano de 2008 a Polícia registou um aumento de 63,1% dos crimes de furtos em residências nos meses de Julho, Agosto e Setembro? Os crimes contra o património constituem, até, os mais frequentes durante a época estival: só no ano passado, este tipo de criminalidade foi responsável por cerca de 63% das queixas apresentadas pelas vítimas à PSP, representando um aumento de 24% em relação a 2007. Os furtos em casas e automóveis foram os ilícitos que mais cresceram nesse período. Tanto a PSP como a GNR apostam em programas de patrulhamento reforçado das áreas cujos residentes comunicam atempadamente que vão partir, deixando as casas vazias. No entanto, e apesar do esforço das Autoridades, os assaltos a residências não cessam de crescer devido ao grande aumento de criminalidade durante a época de Verão.

O que fazer para proteger a sua casa da forma mais eficaz? Por um lado, há um conjunto de cuidados e regras simples que pode e deve cumprir antes de sair para férias: desde certificar-se que fecha à chave correctamente todas as portas, bem como as janelas, a colocar trancas ou grades nos locais de acesso pelo exterior, a comunicar a sua ausência à Polícia e a vizinhos de confiança. Além disso, pode recorrer a serviços profissionais de segurança que irão proteger a sua residência com meios tecnológicos e de vigilância humana.

Este ano, a Prosegur tem em curso uma acção nacional através da qual lhe oferece uma avaliação gratuita, a cargo de profissionais de Segurança, do nível total de segurança da sua residência.


... e blá blá blá...

mas a minha casa está segura demais! Hoje até queria sair de casa de manhã e a porta estava trancada! Tive de ficar aqui entre estas paredes. Até que o príncipe encantado me encontre.