quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Feriado

Ela tinha umas botas azuis e enterrou-as na areia, e uns jeans azuis feitos com areia. Tinha uma caneta que escrevia a azul e uma camisola castanha.
Não pensava porque o cansaço do trabalho e dos prazeres não deixavam capacidades para o pensamento. E não sabia o que escrever porque não pensava.
Fumava porque tinha vontade de ocupar a boca. Falar exigia muito esforço do corpo: desde o cérebro encontrar palavras até à ginástica da língua e dos maxilares.
Estava na praia porque precisava do som das ondas e do cheiro. E porque naquele Fevereiro faziam mais de dez graus. A praia era ao pé de Lisboa. Lisboa tinha-se esquecido de que era uma praia, uma praia fluvial. Então tinha de se fugir de Lisboa.
Os cães e as bolas iam circulando à sua volta e ela não queria que se metessem com ela. As bolas porque rolavam muito e eram incontroláveis. Os cães por causa da baba e do ladrar que furava os tímpanos.
Os namorados namoravam de amor verdadeiro e ela não tinha inveja. Parecia-lhe muito bem que isso existisse no mundo. Nem conseguia perceber que não houvesse amor numa praia. Sorria porque as pessoas tinham escolhido a areia em vez das montras do centro comercial.
O vento arrepiava e, embora o sol acariciasse, ela pensava em voltar para a esplanada.
Na esplanada havia sumos e computadores e as pessoas falavam mais baixo do que na areia, quando falavam. A areia era muito mais simpática mas ela não sabia permitir-se um prazer por muito tempo. Arranjava na ideia impaciências de coisas por tratar. Mas não pensava.
Cuscava os namorados que tinham uma relação a três. Ele, ela e a máquina fotográfica. Corriam, saltavam muitas vezes um para cima do outro, riam-se e gritavam. Tinham corpos mais ou menos soltos. O mais solto possível dentro dos corpos que já traziam do mundo da cidade.
Não trabalhar era uma liberdade.
Por que não havia toda a gente de trabalhar só três horas por dia? Acabava o desemprego e a seriedade cinzenta. E quem sabe o que nasceria a mais no mundo depois disso... Ninguém se ia arrepender. Só os poderosos e endinheirados de hoje.
Só ia continuar na areia se lhe desse para fazer a roda ou o pino. Mas não ia fazer.
Também não tinha um ele e uma máquina fotográfica para fixar todos os beijos. Nem uma bola ou um cão.
Quando o vento parava, agarrar na areia às mãos cheias era o maior dos prazeres. Depois o vento voltava, não muito convincente, e ela pensava voltar para a esplanada.
As horas do dia iam correr assim. Iam fugir assim. À noite as paredes e as caras voltavam a ser as mesmas. Talvez ela conseguisse recomeçar a pensar. Desenterrar o azul da areia, durante o beijo mais longo dos três.
Na esplanada as pessoas falavam mais baixo mas estavam mais perto. Também havia hamburgers com queijo e wireless. O vento sentia-se menos do que junto ao mar.
Ela pediu um café e pensou decorar o pires com maionese. Pensava nestas coisas e depois não as fazia.
Já as gaivotas roubavam tangerinas às pessoas e depois roubavam a tangerina umas às outras e toda a gente parava a olhar. E a rir.
Ó senhora gaivota, não me quer vir aqui ao pires, decorá-lo com maionese? Mas com cautela...
De repente as pessoas eram menos e as gaivotas eram mais. Ainda havia avós iguais às netas e muitos sobre rodas. A areia crescia e a luz descia. E ela passado um bocado também se ia embora.
A pensar: aquela família é um prato chinês.

Texto esquecido no café e respigado do lixo duas marginais depois.

1 comentário:

Filipe Oliveira Santos disse...

foi por aqui que enterraste as botas :p ?



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