terça-feira, 23 de junho de 2009

Desarrumação


A desarrumação é Dada.
Tem bicos, tem cores, tem rugosidades diferentes umas das outras. Tem palavras e tem sons. Tem instrumentos de muitos tipos, tem zumbidos e vozes de vários animais. A desarrumação é ruidosa.
Tem o que caíu e o que se colocou. O que lá está pela beleza e o que lá está porque se jantou. O tambor ao lado da estante, a estante ao lado do copo, o copo ao lado da camisola, a camisola ao lado do prego, o prego ao lado da cama, a cama ao lado do globo, o globo ao lado do sono, o sono ao lado da tesoura. A tesoura dentro da canção. O cartão do maço a fazer de filtro de cigarro, o dinheiro dentro do Capital, o bilhete picado colado na porta.
A desarrumação fala. Nunca está calada.
A desarrumação tem falta de amnésia.
A desarrumação tem bicos. Tem madeira, tem papel, tem alumínio; tem quadrados, tem esferas, tem bolsas de ar; brinquedos, talheres, sapatos, peças, fragmentos, Tem livros inteiros e cascas de banana que apodrecem rodeadas de moscas-moscatel.
A desarrumação é um espaço vivido. Há pequenas clareiras para pôr cada pé. Pode encher-nos a cabeça com coisas a mais. Pode sufocar-nos. Ou pode fazer sentir-nos em casa. Exactamente na nossa sala.

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