sábado, 16 de agosto de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

C. C.

Apague o seu cigarro e entre.
Venha calçado.
Tape várias partes do corpo.
Traga dinheiro ou um cartão bancário.
Apague o seu cigarro e entre.
Deixe o cão na rua.
Se não tiver telemóvel traga trocos para as cabines.
Ande.
De trás para a frente, de um lado para o outro.
Não se sente nas escadas.
Não corra nos corredores.
Coma e compre.
Beba e babe-se.
Saia e acenda o seu cigarro.

Revolução

É o melhor para a saúde
É o melhor para o amor
É o melhor para a alegria
Veja isto por favor

Tem abertura fácil
Tão prática e barata
Tem muitas cores

Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar

É útil, excitante, indispensável
É urgente, importante, homem e mulher

Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

terça-feira, 29 de julho de 2008

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Falta de amnésia

Está difícil imaginar o futuro
o presente é um muro
duro

É preciso esquecer para
lembrar o que vai
acontecer

Abre-se a reminiscência
o parto luminoso
aprender

Não existe o espírito eterno
é só brilho ideal e parte
da ignorância

Não podes reencarnar
mas podes convidar filósofos
para jantar

E assim uma mentira grega
pode ajudar a esquecer
a esquecer a verdade

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O sextos da Kylakäncra

I

tu numa carcaça vermelha
semi-recheada de estruturas
com bases anti-raio de ligação ao mundo

juntas as pestanas em ralenti
acalmas o tambor do peito
abres os canais e eles quase latejam

queres a estrela só reflexo
articulando a asa está frio
acendes depois de tudo um cigarro

tu numa carcaça vermelha
ela de olhos fechados
ela a dormir e tu não consegues

não és uma máquina
não tens motor
o vermelho grito afinal é teu


II

quatro luzes na ribalta
a luz dos que gritam
a luz dos que sorriem
a luz dos normais
a dos amigos dos animais

a força vem da primeira
a dúvida vem da segunda
o rangedor é na terceira
o veneno vem da última de todas


III

se grande se escreve
com letra pequena
e pequena
se escreve com letra pequena
temos duas pequenas:
uma pequena e outra grande


IIII

o papel mas
no outro sentido
no outro sentido

as letras no mesmo
quando já se virou o sentido
do papel

também se podia virar
o sentido das letras

é tão raro


IIIII

páginas aos sextos mal vincadas
os tímpanos quase furados
um subproduto humano a ajudar

para quê descrever o quadro?
e se um grão de terra do chão
se começar a mexer?
um som a crescer?

de repente

voltaram os tímpanos
seria para durar?

dormir
dor-mir é que era bom


IIIIII

sempre que aquele cão se aproxima
o outro rosna.
é preciso que se afaste um cão do outro!
devem chamar-se muitos cães
e aumentar a confusão;
que a matilha seja um labirinto
para o cão que se aproxima
e para o cão que rosna!
é preciso apaziguá-los
domá-los
catequizá-los!
E que ninguém rosne neste país!


IIIIIII

ouve
quero sair daqui
quero ir-me embora, partir, sumir
fugir
deixa-me fugir contigo
e para onde formos que seja longe
longe mas quente
e as minhas têmporas aí amolecerão
contigo e mar a brilhar em frente
ou então por todos os poros
o mar

quinta-feira, 17 de julho de 2008

elefante














elefante é príncipe
porque liga infante
e elegante

elefante é grande,
maior do que o homem,
e pesa

elefante tem uma tromba que faz tu tu tu tu
elefante tem uma tromba que canta
que canta

elefante é da selva,
filho d’algo rebelde,
e marca

elefante é animal
pisa a flor do chão
e repisa

sexta-feira, 11 de julho de 2008

mais uma lição de francês


A menina pires pensou em ir à manifestação
contra a família, a propriedade e o estado,
mas não pode.
Tem a lição de francês,
depois vai a correr para a festa de casamento
da sua melhor amiga.
E ainda tem de se vestir.

pires


sombra de dúvida

Uma sombra é uma região escura
formada pela ausência parcial da luz,
proporcionada pela existência de um obstáculo.

Shadow of a doubt
Hitchcock, 1943

chanson de la pierre

j'aime bien la trotinette
j'aime bien le révolu
j'aime bien si tu es bête
j'aime le pion et le fou
j'aime la tempête
j'aime l'amèr
j'aime la pierre
de la rue



j'aime mal la douceur
j'aime mal l'amour
j'aime mal la peur
et l'épée de la peur

j'aime la tempête
j'aime la trotinette
j'aime la pierre et le chien
de la rue

(a menina pires dá erros em francês)

terça-feira, 8 de julho de 2008

antes


antes a porca matéria

que as ideias de ferro

miséria

é não cometer nenhum erro

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Senhoras fortes

clica na imagem para leres o texto

Modas & Bordados, 21/2/1945, p. 8

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Último ano do Curso de Teatro do Conservatório Nacional

Ponto escrito
Nos tempos remotos o que predominava, as eloquências ou a lógica?
As eloquências.
Os antigos quando falavam a um auditório composto na sua maioria de gentes incultas deviam dirigir-se mais às razões ou às paixões dos ouvintes?
Às paixões dos ouvintes.
O que é tom de voz?
É o timbre especial de cada aparelho vocal. Este timbre tem relações muito íntimas com a maneira de sentir, com o caracter isto é tem caracteristicas que se prendem com a personalidade.
O que é articular?
É pronunciar destacada e distintamente as palavras e as silabas.
O que é representar?
É um conjunto de teorias e regras que o comediante se serve para interpretar e dar vida ás personagens que lhe são confiadas para apresentar em público.
O que é falar?
É reproduzir em sons os pensamentos.
O que é a palavra?
É um som articulado, constituido por uma ou mais silabas e que exprime quási sempre rudimentarmente uma ideia.
Como se combate a ignorancia?
Com estudo, aplicação e força de vontade.
O que é interpretação?
Emprestar à linguagem os sentimentos que a devem acompanhar, tal e qual como se essas linguagens ou situações faladas fossem vividas nesse momento.
O que é criação?
É conceber qualquer coisa de novo.
O que é marcar?
Dar a movimentação dos personagens em cena.
O que é a linguagem do gesto?
É a combinação de movimentos do corpo que são um complemento valioso para o actor e que valorizam a dicção.
O que é expressão?
Traduzir por transformações do rosto os sentimentos que acompanham cada personagem.
O que é a comédia?
Peça satirica, engraçada em que predomina o ridiculo.
O que é o drama?
Narrativa animada de acontecimentos comoventes.
O que é a farsa?
Peça burlesca de situações ridiculas.
O que é a tragédia?
É um acontecimento que desperta piedade ou terror.
O que é pantomima?
Arte de traduzir sentimentos pela expressão.
O que é acústica?
É a parte da fisica que estuda os fenómenos do som.
O que é optica?
É a parte da fisica que estuda os fenómenos da luz.
O que é dialecto?
Ramo de qualquer lingua que tem com ela afinidades de origem e de sonancia.
O que é pronunciar?
Todos os individuos falam, mas poucos pronunciam isto é nem todos teem a fala educada. Pronunciar é o falar educado.
O que é pronunciar um idioma?
É servir-se das palavras desse idioma para falar.
Como se marca uma peça?
Indicando todos os movimentos dos personagens.
O que é o sentido da palavra burlesco?
Ridiculo, grotesco, caricato.
Lisboa 21 de Janeiro 1944
Maria de Lourdes Ferreira

1º ano do Curso de Teatro do Conservatório Nacional

Arte de Dizer
(e sua definição)
a) O que significa dizer bem?
a) É dizer de forma que todos compreendam o sentido do trecho que se está dizendo.
b) Como se aprende a dizer bem?
b) Pronunciando com todas as clarezas e com as inflexões indispensáveis a cada palavra articular muito bem, fazendo as devidas pausas e fazendo bem a acentuação etc.
c) A Arte de Representar é indispensável na Arte (digo sem efeito)
c) A Arte de Dizer é indispensável na Arte de Representar e porquê?
c) Porque para ser um bom actor é indispensável ter uma boa dicção para assim ser compreendido pelo os espectadores.
d) O que se entende por Arte de Representar?
d) É encarnar o personagem de qualquer peça.
e) A quem pode interesar a não ser aos artistas de teatro o dizer bem?
e) Aos advogados aos conferentes e a todos os que falam em público.
f) Como é que a Arte de Dizer e a Arte de Representar se conciliam e completam reciprocamente?
f) Porque sem uma ser feita a outra não pode ser.
g)Como se deve fazer a análise de um trecho seja êle prosa ou verso?
g) Compenetrarmo-nos das ideias dos outros e do género e sendo poesias da métrica do verso.
h) Dum modo geral para lêr expressivamente um trecho em prosa ou recitar qualquer trecho em verso a que trabalho preliminar se deve proceder para fazer uma leitura expressiva e uma recitação artística?
h) Compreender bem o trecho e dar-lhe o colorido próprio a cada frase.
i) Como efeito teatral o que se dve procurar dentro de qualquer trecho?
i) A palavra de valor.
Teoria do célebre actor Got aplicar em qualquer trecho
j) O que entende por dicção?
j) É a forma de dizer.
k) Em que consiste a perfeição na Arte de Dizer?
k) Dizer com correcção e com clareza pronunciar bem as vogais dizendo bem as consoantes fazer as inflexões devidas ter expressão no lêr.
l) O que se entende por divisão racional da frase?
l) Fazendo a divisão conforme a pontuação.
m) Como se divide uma frase correctamente?
m) Atendendo a sua pontuação.
Fenomenos mecânicos da respiração: Inspiração e Expiração
n) Quais os órgãos do corpo que interveem nestas duas acções mecânicas?
n) Pulmões e diafragmas.
o) O que se entende por pontuação expressiva?
o) Pontuação bem feita.
Recursos da expressão:
Pausas, respirações demoras e silêncios
p) O que quer dizer afinação prévia?
p) Procurar antes de dizer o tom em que se vai falar.
q) O que é entoação?
q) O tom de voz em que se fala.
r) O que se entende por colorido da frase?
r) As diferentes inflexões que dão o tom mais alto ou o tom mais baixo.
s) Como descobrir o verdadeiro colorido da frase e meio de o fazer sentir?
s) Lendo-a com atenção e meio de o fazer sentir vivê-lo e meio de o fazer sentir a quem nos ouve.
Inflexões
t) O que é a articulação?
t) É a maneira como se pronuncia qualquer palavra.
u) Definição ou descrição do que seja a Arte de Representar.
u) É interpretar qualquer peça de forma mais natural possível.
v) Pronunciação o que é?
v) É a maneira de articular.
x) Quais as qualidades indispensáveis para uma boa dicção?
x) É ter timbre e não ter defeitos.
z) O que se entende por música da palavra?
z) É a maneira como se entoa.
Lisboa, 20 de Março de 1941
Maria de Lourdes Ferreira

e tu sabes quem é o Woody Guthrie?

domingo, 29 de junho de 2008

Há coisas que não se podem dizer
mas que talvez já se possam cantar.

Heiner Müller

citação e colagem


Contra o proletariado que se levanta, a burguesia e a pequena burguesia armaram-se, entre outras coisas, com "cultura". É um velho passatempo da burguesia. Mantêm de pé uma "arte" para defender a sua cultura em colapso.

John Heartfield
segundo George Grosz

tradução: silhueta

quinta-feira, 26 de junho de 2008

ai M

tela mi
o ó tu e o si
ai M
meu M
ai M
ser
acusação denúncia fiscalização

O Maio no Junho


parece que não vejo nada
tudo a três dimensões
era melhor cinema
projectadas
três em duas
e das duas uma
ou a revolução contínua
ou morremos devagar

não quero morrer devagar

rasteira

Deixa ver
tira isso da frente
deixa ver
os pontinhos quadradinhos
... está bem
mas deixa ver
o que está escondido
por trás disso

está escondido
o olho que viu o melro
o melro que viu o bico
o bico que tocou orelha

A orelha é feia
tão feia como o dedo grande do pé
orelha baixa
orelha rasteira

vou para casa

- Vou para casa fazer a barba
- Vou para casa cortar o cabelo
- Vou para casa mentir às janelas
- Vou para casa e antes às compras

quarta-feira, 25 de junho de 2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Marquês de Sade, A filosofia na alcova


Um juramento deve ter iguais efeitos para todos os indivíduos que o pronunciam; é impossível que ele possa vincular aquele que nenhum interesse tem em vincular-se a ele, porque então deixaria de ser um pacto de um povo livre: passaria a ser a arma do forte contra o fraco, contra o qual este deveria incessantemente revoltar-se; ora é isso que acontece com o juramento do respeito pela propriedade, agora exigido pela nação; é o rico quem vincula o pobre, só o rico tem interesse no juramento que o pobre com tanta inconsideração pronuncia, sem ver que, mediante esse juramento, extorquido à sua boa fé, se compromete a fazer uma coisa que em seu favor ninguém poderia fazer.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Da capital

Lisboa, 15 de Janeiro
A ofensiva contra a subida de preços e falsificação de géneros alimentícios
O Tribunal Colectivo de Géneros Alimentícios julgou e condenou as seguintes firmas:
Gabriel Marques, rua do Sol ao Rato, 213, Lisboa, manteiga falsificada, 2.000 escudos de multa e respectivos adicionais; Luisa Alves Maia, de Vila da Feira, leite falsificado, 200 escudos de multa e adicionais; Manuel Herédia Baqueiro, estrada da Torre, farinha falsificada, 3.000$00; José Joaquim Dias Tavares, calçada do Jôgo da Pela, 14, abóbora e cereja com alumen, 2.500 escudos; Borges Gomes & Santos, L.da, rua da Beneficência, farinha imprópria, 500 escudos; Adelaide da (...) nho com excesso de acidez, 500 escudos; Gomes & Marques L.da, rua da Prata, 163, massa alimentícia imprópria, 200 escudos; Gualdino Pedroso de Lima, de Santo Tirso, azeite falsificado, 2.500 escudos; Manuel Bravo Borges, rua da Rasa, 295, café descafeinizado, 500 escudos; Sociedade Industrial Vitória, do (...) pes da Cruz e Manuel Silva Baptista, Maia, Pôrto, leite falsificado, respectivamente 1.000 e 1.500 escudos; Padaria Regina, do Pôrto, farinha falsificada, 1.00 escudos; Sociedade Avenida Café, rua Jardim do Regedor, conhaque de categoria inferior á do rótulo, 1.00 escudos e três meses de prisão, remíveis a dinheiro; José Luciano Correia Amaral, Coimbra, farinha falsificada, 1.500 escudos; Adelino José do Vale, Setubal, vinho impróprio para consumo, 3.256 escudos; Manuel Joaquim Pereira Braga, farinha falsificada, 500 escudos; Manuel João, do Pôrto, aguardente falsificada, 500 escudos.
O Primeiro de Janeiro, 16/1/1940, p. 4

terça-feira, 27 de maio de 2008

Teatros e Cinemas

- Um «assíduo leitor» do nosso jornal lembra a conveniência de as «matinées» teatrais começarem meia hora mais cedo, a fim de poderem assistir a elas as pessoas que da outra margem do Tejo se deslocam a Lisboa aos domingos, de modo a apanharem ainda o vapor de regresso.
- Conforme noticiámos, o actor Jean Sarment e sua esposa, a actriz Marguerite Valmond, encontram-se há dias no Estoril, onde contam demorar-se até à sua próxima partida para França. Jean Sarment anunciou que vai escrever uma peça, cuja acção se passa em Portugal e que se intitulará «Madame Estoril»

Diário de Lisboa, 29/2/1940, p. 9

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A estrada do Outão continua a avançar para o mar

SETUBAL, 13 (Pelo telefone) - O troço da estrada do Outão, em frente de S. Braz, continua a deslocar-se de forma bastante acentuada. Tudo indica que ela tende a resvalar para a margem do Sado. O abatimento é cada vez maior. As fendas alargam-se em niveis diferentes que se contorcem cada vez mais.
Contam-se por milhares as pessoas que têm visitado o locar para ver o extranho fenomeno.
Diário de Lisboa, 13/2/1940, p. 2

sábado, 24 de maio de 2008

terça-feira, 20 de maio de 2008

a trama

a trama primeiro da primeira mãe, da origem do mundo, a trama da que trama a vida sentada, ao tear, esperando ou esquecendo o homem mas nunca esquecendo o dever de urdir
essa trama ficou com as dores nas voltas e entroncamentos da linha
a trama da vida de hoje, tramada, a trama das estradas, das ruas, dos caminhos de sinais de trânsito, luzes, pontes e loopings, das redes virtuais e das redes de pesca que cada vez mais apanham peixes petroleados
a trama dos sons, das notas que não se escrevem, dos ruídos, das frases e palavras que se misturam umas com as outras e se ligam e desligam enquanto andamos pela cidade
a trama da nossa cabeça
a nossa cabeça urde e desurde pensamentos, tece e destece ideias e ainda as remenda e ainda as rasga, e tem também nós tremendos lá dentro, alguns tão difíceis de desatar...
e ainda quando nos tramam, todos os dias a todos os minutos
quando eles nos tramam
e ainda da possibilidade que temos de tramá-los a eles
a trama cantaremos se a tanto nos ajudar o engenho e arte

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mary Pires

Mary, que estava semiadormecida, endireitou-se no acento do carro, olhou para a propriedade e viu as formas vagas de árvores baixas que voavam lá fora como grandes aves suaves; e mais além um céu nebuloso, semeado de estrelas. O cansaço relaxava-lhe os membros, acalmava-lhe os nervos. O estado de tensão em que passara os últimos mess trazia-lhe agora, como reacção, uma aquiescência entorpecida, um torpor que era quase indifirença. Pensou que, para variar, seria agradável viver de modo pacífico; não se tinha apercebido de como estava exausta depois de todos aqueles anos, sempre a postos para a exigência seguinte. Dizia a si própria, decidida a encarar os factos que ia «aproximar-se da natureza». Era uma frase que disfarçava o seu pouco amor às estepes. «Aproximar-se da natureza», o que, afinal, até era confirmado pelo suave sentimentalismo do tipo de livros que lia, era uma abstracção tranquilizadora. Quando trabalhava na cidade, muitas vezes, aos fins-de-semana, tinha ido fazer piqueniques com montes de gente nova, ficando todo o dia sentada à sombra sobre pedras quentes, ouvindo um gira-discos portátil a tocar música de dança americana, e nessas alturas também pensara que era «um aproximar-se da natureza». «Sabe bem sair da cidade, não é?», costumava dizer. Mas como acontece com a amioria das pessoas, as coisas que dizia não tinham a menor relação com as coisas que sentia: ficava sempre profundamente aliviada ao regressar à água fria e quente a sair por torneiras, às ruas e ao escritório.

Doris Lessing, A erva canta

A dream itself is but a shadow


The way the wind blows (no sentido em que sopra o vento)

The wind blows
the way the wind blows.
They are sitting
but they will go.
The wind blows
the way the wind blows.
They're the dull class
the beggars' shadows
and they sit
and they go.

They will go
the way the wind blows.

O vento sopra
no sentido em que sopra o vento.
Eles estão sentados
mas hão-de partir.
O vento sopra
no sentido em que sopra o vento.
São a chata classe
sombras de mendigos
e sentam-se
e vão.

Eles hão-de partir
no sentido em que sopra o vento.

(anónimo século XVII, tradução menina pires)

terça-feira, 13 de maio de 2008

No quintal

No quintal da minha avó havia: caracoletas, lagartixas, jarros, bichos da conta, uvas, que ela descascava para eu comer, um galo, uma capoeira vazia, muitas ervas daninhas, um tanque, bichos da conta e um muro donde se falava com a Isaura. E passavam gatos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Tão longe, a guerra


No parque infantil aqui à frente
cai uma bomba indecente
Que sorte! Nem um puto escorregava
- o baloiço estava em obras há três anos
Estilhaços chegam aqui à janela.
Amanhã comentadores, mentiras belas:
«É preciso realismo, exterminar a compaixão»...

Para acertar manda-se mais um avião.

infância1985

Coisas miúdas aprendem cedo que a matéria é suja e perdem os amigos que se fizeram no chão.
As grandes cabeças em vôos com dores mandam lavar as patas.

randori dois

não sei como te chamas
não preciso
a perna varre-se hoje
pelo pé
eu deixo que o combate
fique escrito
detesto quando o passo
fica hirto
não sei como te chamas
quero o tenso
do braço que desenha
o meu kimono
a luta é leve e livre
- somos iguais
consensos, contratos,
compromissos,
derrubados pelo peso justo disso.

ele olha para o lago

ele olha para o lago
e vê um espelho
ele olha para um espelho
e vê que lhe falta um pêlo
ele olha para o pêlo
e vê a perda
ele olha para a perda
e vê a pedra
ele olha para a pedra
e atira ao lago
e parte-se o espelho
e cresce-lhe um pêlo
e olha para a mão
e já não tem a pedra

Grupo de sócios e amigos do Grémio Lisbonense apresenta queixa à IGAI relativamente à carga policial de dia 8 de Fevereiro

No dia 8 de Fevereiro de 2008, um grupo de sócios e simpatizantes do Grémio Lisbonense reuniu-se à frente do número 226 da rua dos Sapateiros para expressar o seu descontentamento pelo despejo desta instituição. A noite iria acabar com uma carga policial nas escadas e no átrio de entrada para o edifício. A comunicação oficial da PSP recusa ter havido má-conduta por parte dos agentes presentes, afirmando terem sido usados «meios coercivos necessários e adequados». No entanto, um grupo de mais de 30 pessoas presentes durante os acontecimentos coloca em causa esta avaliação, tendo-se juntado e apresentado queixa à Inspecção Geral da Administração Interna.


Juntamo-nos como um grupo de cidadãos independentes com interesse em que seja apurada a verdade e a responsabilidade sobre os incidentes desse dia. Alguns dos pontos principais da nossa queixa baseiam-se em:

1- uso injustificado da força na recepção aos manifestantes: alguns dos simpatizantes do Grémio foram agredidos com bastonadas ao aproximar-se da entrada da instituição, sem que alguma vez tivesse sido dada ordem de dispersão ou dito que os presentes estariam a incorrer em algum tipo de infracção; nenhum dos amigos e sócios do Grémio Lisbonense se encontrava armado ou constituía ameaça à integridade física dos agentes de autoridade presentes;

2- muitos dos agentes no local não se encontravam identificados e recusaram mesmo identificar-se quando, na sequência das agressões, tal lhes foi solicitado pelos presentes;

3- a actuação da polícia caracterizou-se por um inqualificável abuso da força e autoridade, tendo sido permanentemente preferido o recurso à força física e à violência perante cidadãos que, mesmo após as agressões por parte dos agentes, mantinham uma atitude apaziguadora, apelando sucessivamente à calma;

4- a carga policial foi feita sem pré-aviso, com muitos dos presentes ainda sentados nas escadas. A movimentação dos agentes colocou em causa a integridade física de todos os manifestantes que se encontravam no local. A sua acção foi pautada pela agressão gratuita, visto ter sido em muitos casos dirigida a manifestantes encurralados e aos quais era impedido pela própria polícia abandonar o local.
5- na sequência da acção polícial, vários dos manifestantes ficaram feridos, recorrendo a tratamento hospitalar.

Ao entregarmos formalmente a queixa à Inspecção Geral da Administração Interna (IGAI), colocámos à disposição desta provas físicas em defesa dos pontos anteriores, bem como vários testemunhos recolhidos nessa noite.

Esperamos que as averiguações ajudem a apurar a verdade sobre os factos, e mesmo a esclarecer algumas das afirmações contraditórias que têm vindo a ser publicitadas. Acreditamos que a acção policial foi desapropriada e perigosa para todos os que se encontravam no local, para além de ter sido pautada por um abuso de força que, infelizmente, tem vindo a ser imagem de marca das nossas forças policiais nos últimos anos, como vários relatórios comprovam.

Ignorar os factos ocorridos no dia 8 de Fevereiro pode apenas contribuir para um agravar da situação, dando aval à arbitrariedade e ao abuso da violência por parte das forças de segurança. A Administração Interna deve assumir as suas responsabilidades, evitando que Portugal continue na lista negra dos direitos humanos em vários relatórios internacionais.

terça-feira, 6 de maio de 2008

sábado, 3 de maio de 2008

Mulheres de Atenas

os discos
as músicas por coisas
inventam-se as coisas
as músicas depois passam
a sê-las

ficam saladas
e há a ordem das saladas
mas escrevem-se
listas e títulos
como se pudesse organizar-se

ouvem-se
na festa imaginada
que grita

por não ser marcada
não puxa
todos estes passos
e as músicas depois passam
para outros discos
só na cabeça

já não estávamos em Itália

e entretanto
eram horas de ser horas
de cantar
mas sozinho não se canta
sem guitarra sim
mas sozinho não

e entretanto
havia impaciência miudinha
de gentes carentes de net
de telemóveis
de tabaco
e que iam estragar a voz
assim

entretanto
já não estávamos em Itália
entretanto
tínhamos voltado
e queríamos sorrir para o lado
e acabávamos
a sorrir de lado

memórias do eixo norte/sul 2

eu era da cidade e fui ao campo.
na cidade acordava ao fim da manhã, mas no campo acordei muito cedo, saí da cama e sentei-me no meio do bosque.
e pronto. lá me deixei estar um bocadinho e fiquei muito espantada, como já sabia que as pessoas da cidade ficavam quando iam ao campo.
os pássaros faziam uma chinfrineira. cada um era diferente do outro. tudo misturado. diferentes ritmos e timbres. uns mais abaixo e outros mais acima.
e, por entre os quadrados de uma cerca que lá havia, uma aranha trabalhava meticulosamente na sua teia. eu, que era da cidade, consegui ficar minutos sem fim a olhar para ela. a ver cada nova linha, cada vez mais no centro.
quanto tempo vivia uma aranha? pensei que nem as pessoas do campo sabem isso. as aranhas estão sempre lá.
quanto tempo vivem os pássaros que migram? passam mais tempo na terra em que nascem ou naquela para onde vão? passam mais tempo a viajar? chegam a voltar à terra em que nasceram? os ninhos das andorinhas - que vejo na cidade - são ocupados pelas mesmas andorinhas no ano seguinte? ou são outras as andorinhas?

terça-feira, 29 de abril de 2008

A precariedade revela-se!

Ora dá cá um

Ora dá cá um
e depois dá outro
Dá cá três patrões
que só dois é pouco
Ai, eu gosto tanto
de fazer biscates
Pôr o meu corpinho
nos escaparates

Ora dá cá um
e depois dá outro
Passa três recibos
que só dois é pouco
Ai, eu gosto tanto
de trabalhar
e de não ter tempo
para descansar

Ora faz lá um
e depois faz outro
É melhor três estágios
que só dois é pouco
Ai, eu gosto tanto
da minha empresa
Trabalho à borla
com delicadeza

Ora dá cá uma
e depois dá outra
Dá três horas extra
não abras a boca
Ai, eu gosto tanto
de ser explorado
De dar o couro
e ter quarto alugado

segunda-feira, 28 de abril de 2008

És precário?




VEM ao MAYDAY!
1 de Maio
13h
Largo Camões
depois
seguimos
até à Alameda

segunda-feira, 21 de abril de 2008

a escrita

De aorcdo com uma peqsiusa
de uma uinrvesriddae ignlsea,
não ipomtra em qaul odrem as
Lteras de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne é que
a piremria e útmlia Lteras etejasm
no lgaur crteo. O rseto pdoe ser
uma bçguana ttaol, que vcoê
anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa
cmoo um tdoo.

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quinta-feira, 17 de abril de 2008