"A mim já não me interessa a falsidade elegante. Apetece-me a verdade e a beleza. Beleza e verdade como um casal."
Manuel Vilas
E, de repente, a alegria
a silhueta da menina pires é uma sombra e uma mão
"A mim já não me interessa a falsidade elegante. Apetece-me a verdade e a beleza. Beleza e verdade como um casal."
Manuel Vilas
E, de repente, a alegria
e se a verdade é revolucionária
a certeza é bela
a voz já não treme
os teus olhos beijam-me
os episódios estão pr'acabar
a vida sempre a começar
e eu agora
sou triformis
outrora não
depois sim
anteontem não
ontem nim
hoje sim
outrora são
depois nim
anteontem são
ontem sim
hoje nim
outrora som
depois num
anteontem som
ontem sum
hoje num
amanhã
revoluçom
este mundo é contra a sanidade das pessoas e toda a gente gira que eu conheço, com sentido crítico e habilidade para fazer tricot, cartazes, música e outras coisas nutritivas... está maluco
tenho portanto muito orgulho nos malucos que somos, estamos e continuaremos a ser
mas se calhar estes antidepressivos, antipsicóticos, sonoríferos e quejandos são armas dos maus e fazem-nos mal
um monte de farinha um naco de manteiga um punhado de açúcar
e sentir-me em casa
quando estamos a rir
plantar a sola toda no solo
sem solda nem soldo a toldar
um par são dois
há dois caminhos para existir o par
aqui
é onde me sinto amada
então aqui
de-di-car
não é loucura esta periclitância
nem culpa minha
liberdade e desejo
te quero
vens atrás de mim
ou vais perder-me?
Adaptação de "Balada dos amigos separados" de Mário Dionísio
são sim o caminho por onde decidiste seguir e que não ousaste transformar
que não ousas transformar
o caminho que queres continuar a pisar
abro os olhos no escuro
e no escuro
desabrocham manchas mais escuras
entrechocam-se
devoram-se
tudo vai sendo comido
preto sobre preto sobre preto
da vida perdemos o sentido
pessoas entusiasmadas
são
pessoas intensas
são
pessoas que se tornam temidas
- reviram-se olhos
na copa -
são
pessoas que
são
traídas
o elevador desceu e levou-o daqui para sempre
e vão seis
veio sangue e foi-se avô
e vão oito
foi-se casa e cabeça
e vão três
associação
e vão quatro
foi-se um filho que não chegou a ser
e vão dois
foi-se avó
e vai um
foi-se depois amor e vida
e vão três
foi-se o irmão mais velho que fazia de pai
e vai por i adiante
as almas gémeas das artes
que faziam vibrar microfones
e foi-se o microfone
os tios e avós afectivos
os amigos dos pais
e ainda ontem
foi-se com um gesto a confiança
logo depois a mãe
finalmente o pai verdadeiro
a ver se ainda mexo
crava agora mais uma faca
pode ser por trás
Anteontem há 75 anos matava-se a Manuela Porto, com 42 anos.
(antigo e estudado plano A: vou imitá-la)
Anteontem renascia mais forte o que morrera tão maltratado.
Ontem há 65 anos nascia o Maçariku.
(se tivesse seguido o plano A: já não passo por isso)
Ontem morria o que parecia que renascia. Infanticídio.
Saberá alguém eventualmente um dia entender as premissas com lógica... que há-de existir, não vos parece? Lógica de fins e recomeços. E a mão humana. Sempre.
lado direito da frente da folha
Ainda não aceito
sigo amarela a rir
ainda não aceito
Se paro começo a sentir
o vinho acre
num ponto central interior e distópico
como o infinito
que há cá dentro a flutuar
Já tenho saudades
e ainda não sei
como será passarem anos
sem conversar contigo
lado esquerdo da frente da folha
Uma morte em aflição
o desassossego que deixa
eu
viva e irresponsável
culpada em sensação
espezinha-se tudo
até que desapareça
sob a calçada e sob a praia
continua-se o caminho autómato
até ao muro
lado esquerdo do verso da folha
uma margarida, um maçarico
uma mãe e um marques
sentaram-se comigo à mesa
um murmurou, um motivou
um magoou, um moderou
como se eu merecesse
música, medrar
merda e mesura
foi quando eu arranjei coragem
para lhes dizer
não me apetece mais
silêncio
(e muda magia
mártir marca)
Nasceu em 1908. Achava que o
teatro devia ser outra coisa: “capaz de falar à inteligência e à
sensibilidade, capaz de ajudar-nos a compreender a meada enredada que é a
vida, capaz de colocar-nos em frente dos múltiplos problemas coletivos e
individuais das humanas criaturas, obrigando-nos a pensar neles e a por
nós próprios lhes buscarmos soluções.” Suicidou-se em 1950. Ficou
conhecida por ser declamadora. Ficou conhecida? Não. De facto, já
ninguém a conhece. Mas ainda dá o nome a algumas ruas. E ao foyer deste
teatro, porque foi assim que o Teatro da Cornucópia lhe resolveu chamar.
Mas afinal quem foi esta atriz, escritora, jornalista e ativista
feminista e antifascista? E como foi sendo habitada a Sala Manuela
Porto?
Neste episódio do Dito e Feito, a investigadora em estudos de teatro
Diana Dionísio constrói um retrato que também desenreda várias camadas
da vida cultural de uma cidade.
guião e montagem
Diana Dionísio
locução
Diana Dionísio e Toni
edição sonora do Dito e Feito
Pedro Macedo / Framed Films
música original do Dito e Feito
Raw Forest
produção
Teatro do Bairro Alto
2023
Uma laranja azul
Uma castanha verde
Uma rosa amarela
Uma negra roxa
Uma branca prateada
Uma prata branqueada
Ah, insanidade, vem com a idade
cabecinha sem tempero
faz chorar de riso com pouco siso
um riso tão desespero
Ah, porque você é louco assim?
assim, tão desandado
ah, cabeça minha, quem é do contra
não conhece sanidade
Vai, meu coração, esquece a razão
usa só loucuridade
quem semeia vento, diz a paixão
colhe belas tempestades
Pão, meu coração
larga miolo, miolo esfarelado
Vai, porque quem guarda o miolo
nunca é desmiolado
Trovoada.
As pessoas fazem perguntas estranhas: tens mais medo do trovão ou do relâmpago?
E agora reparo
O relâmpago faz-me fechar os olhos, baixar a cabeça, querer enterrar-me, começo a ter dificuldade de respirar, começo a arfar.
No trovão fecho mais os olhos, recolho os ombros, junto o queixo ao peito, tremo, peço desculpa por todos os males que fiz. Os trovões demoram.
Na absoluta fragilidade.
Uma trovoada mesmo em cima e eu fechada dentro de dois metros quadrados com um inimigo.
Os pneus são de borracha - dizem-me as pessoas que me fazem perguntas estranhas.
O que é que isso interessa?
que me deixassem prolongá-lo
que as paredes do corpo agarrassem aquela sensação cá dentro
os caminhos: a arte com palavras e cores
as dores: a corrida cinzenta
sem conversa, dança ou amores
ideias: soltas loucas mas
irmãs da persistência
(isto ontem)