sexta-feira, 17 de abril de 2020
terça-feira, 14 de abril de 2020
quinta-feira, 26 de março de 2020
Canções por um caminho de palavras
OUVIDO DE TÍSICO Nº 13
CANÇÕES POR UM CAMINHO DE PALAVRAS
As palavras puxam palavras e fazem um caminho de palavras. Cada palavra puxa uma canção e fazem um caminho de canções. Vamos ouvir esse caminho. Podem trazer pedrinhas: de pão, de chocolate, de cenoura, de queijo… a ver se a prima Vera chega e se nos deixa apanhar o sol e a sombra do quintal.
Nas sessões «Ouvido de Tísico» a proposta é escutar. Fácil? Difícil? Num mundo que nos quer entupir os ouvidos, nós queremos continuar a fazer cócegas ao caracol. Ouvir-se-ão textos de vários autores, saladas musicais, documentos desencantados do Centro de Documentação da Casa da Achada, discos do princípio ao fim, entrevistas, enfim, de tudo um pouco. Pode-se ouvir de pé ou sentado, sentado ou deitado. Pode ouvir-se de olhos fechados ou abertos, abertos ou semicerrados. Pode-se desenhar enquanto se ouve, ou escrever, ou não fazer mais do que… ouvir.
No sábado 21 de Março às 15h30, mais uma sessão de escuta da rubrica «Ouvido de Tísico» prometia dar as boas vindas à Primavera com convívio no quintal da Casa da Achada. Dadas as circunstâncias virais, a sessão nº 13 do Ouvido de Tísico – «canções por um caminho de palavras» – foi publicada online, para convivermos perto ao longe.
quinta-feira, 19 de março de 2020
uma canção em tempos de guerra viral
«dança, dança, figura dança,
ao som da finança, dança, dança
que belo canhão,
afinal, afinal a guerra é viral,
menos mal, menos mal,
não faz barulho,
é entulho, é entulho...»
Pedro e Diana gravados e misturados pelo João Ferro Martins
quinta-feira, 12 de março de 2020
a menina já não vai cantar no sábado
canções de zanga e liberdade
pensou a menina,
aliás, a sua silhueta,
porque ninguém a viu de facto no clube de futebol
decidiu então fazer "contactos sociais" apenas na rede
e percebeu que a rede era muito esburacada
encheu-se de alegria e esperança e coisas assim
e escreveu um poema inumano:
«366 ano 20 bissexto
março abril águas mil
hoje sol e um dia lindo
reunião marcada 17 18
search find
infotainement don't wacth
segurança 123 disponível
tradução automática key in fact/ infect
sabotagem
it's stupid my love start
error stop»
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
mas na verdade quando a luz ali bate
se vê que são sombras de ramos da árvore
que cresceu muito e está bonita
as sombras
juntam-se na silhueta ao corpo
verde regado de luz e água e vida,
ai, que belo natural fabricado...
e pronto, acabou-se a estética,
que pena,
e já não se pode continuar a modernidade
nem a pós-modernidade, menina.
Nem após.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
o sete
quero morrer
quero morrer
às sete da manhã
quero morrer
fiquei solta sozinha abandonada perdida
tenham filhos netos bisnetos sejam felizes e deixem-me
terça-feira, 29 de outubro de 2019
Caderno do caderno
do fim pró princípio.
Oh, caderno cronológico
do mundo ao contrário...
O que interessa
a linha do tempo?
Quando já todos aprendemos
que nada é linear
que nada é óbvio e consequente.
Abro-te caderno ao contrário.
Desafias-me.
*
Tanto que escrevo
à noite
quando a vida acontece
só cá dentro
da minha cabeça.
E quadros e cadernos
e poemas e canções
discursos inteiros em reuniões
e nada
no dia seguinte.
No intervalo,
sonhos.
*
Como querem que escreva
num bar onde não se fuma?
*
Faltam aqui dentes
tão importantes
um que bebia CRF
por exemplo
e que já não tinha dentes.
Faltam aqui dentes
para mastigar o mundo
insuportável
barulhento
agoniante.
Faltam aqui dentes
como pedras do asfalto.
*
Agora fazia assim.
Agora publicava tudo.
Porque o vómito precisava.
Agora já não havia bom e mau
mas só avalanche
verborreia
enxurrada.
Agora era mandar tudo
contra a parede
contra todos
até que todos
fugissem de mim.
*
Vou ter um cão
mas não vai ser meu súbdito.
Oh, que incongruência!
Então, pronto,
não vou ter um cão.
Vou ter um gato
autónomo
e independente
a comer da minha gamela...
*
Ao lado
nas escadas
tão típicas
de Lisboa antiga
cantam-se músicas
tão conservadoras e
agoniantes
que tenho de deixar
de estar aqui sentada
não suporto mais
o destino a lágrima
a felicidade plástica
dum povo cego
e o seu amor
pela cultura de massas.
*
Berrei e travei ao mesmo tempo
O passeio tem um tempo mais lento
Às ruas teimamos chamar estradas
Trememos de calçado nas calçadas
Os pés cortados
por esporas e pedais
As mãos torcidas
por tocar botões demais
Decapitados
por drones virtuais
Acidente de bicicleta
Fui chocar com a trotineta
O metro ainda tá caro
Por aí...
ainda há muito carro
este buraco
e planos
e montes e montes
de planos
em nome da busca do lítio
imprescindível
para animar cavaco
o nosso bacalhau seco
morto há anos
mas que ainda mexe à janela
a nossa
rainha de inglaterra
- Gostas mais do papá ou
do Marcelo?
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
fotocopiado à noite
daqueles com palavras difíceis
lobrigando horizontes
Falta aqui também o dicionário
para dizer como foi equivocamente edulcorada
a simplicidade recendida
das vidas
Falta aqui um poema novo
carpicamente escrito
sem tendinites
nem otomastoidites
Fotocopiado à noite - escuta! -
sereno e rebelde
na estuância perante a injustiça
Falta aqui inacabado
mas pode ser desenhado
tal qual a silhueta
com a sua impedância inaugural
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
sós de nós
ao nascermos ninguém nos disse
que os pais não duravam para sempre
que a casa não durava para sempre
que a cidade ia mudar muito
tanto que poderia ser preciso deixá-la
que certas palavras iam desaparecer da língua que se usa
e os amigos da vida
tudo aquilo em que assentávamos
os nossos bastidores
as nossas raízes
os nossos pensamentos
a nossa cabeça e o nosso corpo
viver é a resistência
às facas e facas e facas
construir plaquetas
carcaçar a pele
deixarmos bocados de nós
pelo caminho.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
ar livre
cheio de luz, com calor de sol
comove até ao craquelé do seco barro medulóide
trava passos
paraliza pensamentos
dá-se todo
e agride-me
como se dissesse
aqui é que é a vida, o que fazes desse lado?
E a custo
a passos de homem na lua
consigo finalmente alcançar
a salvadora porta do túnel do metro
direcção retour à la normale
luz eléctrica de buraco
o tempo a passar a vida
outra vez a fugir.
levantar e fazer acontecer
mas com sol é que isso é fácil
a rapariga já velha dos caracóis castanhos
arranca uma flor da laranjeira azeda
eu penso pela primeira vez
que dão jeito aos donos dos cafés
os trocos dos arrumadores de carros
(fio de comunidade)
e no metro continua em loop
a voz ensurdecedora que grita avisos da polícia
mas o sol brilha por cima
e alguns levantam-se e fazem acontecer
mostrando que só depois da fotossíntese
é que isto vai lá
e amanhã direi
que dormi bem quentinha
em mais uma noite de angústia do mundo
de gritos, frio, arrepios, miséria, morte,
injustiças de cassandra
puxadas a ferro das entranhas
e respondidas com as entranhas
que besuntam de ferro a vida
- impermeavelmente.
e tudo será mentira
como os passos que oiço cá dentro de casa
e que me dizem
não poderem ser reais.
não poderem ser reais, dizem
vários tempos no mesmo espaço
São as coisas que eu ouço sempre
Das duas uma
ou vive alguém cá comigo
ou tenho ouvido de tísica
e isto é silêncio para os outros
domingo, 11 de março de 2018
insokus
Água a correr e passos dentro da parede
E vendaval de fora
O FRIO
É tão psicológico como todo o resto do mundo
Tem is de pontos duros
Inibir imobilizar cristalizar
O SONO
Lutar até ao fim
Eu sou mais persistente que tu
E nem me roubas o raciocínio
OS OLHOS
À volta infecta
Ficar cego é medo
Fechar é o mais difícil
O MEDO
Domina as cabeças com frio, falta de sono
E olhos incapazes
É tão psicológico como o frio
Só se vai
Se adormecermos
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
toque
para lena de gil
debaixo
do serénico raio
como um bolbo de generosidade
como uma calma que mente
mas é enquanto está
como aquele arrepio de lágrimas frescas
às seis da tarde na praça da figueira
mexeu com uma mexeu com todas
a pincelada burilou
foge
essa luz reciclada
que pinta o céu de escuro pardo
e recorta de esboço
o castelo imaginário
encimando a floresta?
É alívio sereno
que toda a monarquia e os bancos durmam
ou repousa só, trémula de ameaça,
uma ameaça tépida
e amarela?
Essa deusa
luminosa e altiva
mas a única verdadeira
tingida de rios e peixes
está a anos-luz
dos fotões rosa sintéticos
que me ocupam a sala.
E foge pela ombreira.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
e dos caixotes do lixo nascem versos
José Gomes Ferreira
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
segunda-feira, 31 de julho de 2017
domingo, 30 de julho de 2017
domingo, 16 de julho de 2017
domingo, 4 de junho de 2017
sexta-feira, 19 de maio de 2017
histórias para crianças quase crescidas

esperamos encontrar-vos, mais e menos crescidos,
no próximo sábado 20 de Maio de 2017, pelas 16h,
na Casa da Achada - Centro Mário Dionísio*,
para o lançamento desta novidade
histórias para crianças quase crescidas
de Antonino Solmer, com ilustrações de Diana Dionísio
depois de uma apresentação por João Rodrigues, histórias serão lidas por F. Pedro Oliveira, Inês Nogueira e sabe-se lá mais quem...
quarta-feira, 10 de maio de 2017
quarta-feira, 3 de maio de 2017
terça-feira, 2 de maio de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
quarta-feira, 19 de abril de 2017
mentira
Mas não basta mentir.
É preciso omitir, esconder bem as coisas.
E disfarçar bem, aprender a disfarçar.
Não basta apenas mentir.
É preciso ainda aceitar a mentira dos outros.
É preciso mentir muito para ser feliz.
É preciso mentir para ter muito sucesso.
terça-feira, 18 de abril de 2017
passava a menina
a ferro numa esquina
achou que viu um gato
e pensou:
«os gatos batem as botas»
achou graça e escreveu no caderninho
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Lemniscata
É um total de 48 fotos do Sol, sobrepostas. Feitas durante um ano, uma vez por semana, no mesmo local e horário. O ponto mais alto é o solstício de verão e o mais baixo é o de inverno, formando a Lemniscata, símbolo do infinito.
Ver mais aqui:
http://astronomiaycienciatitaguas.blogspot.pt/2012/10/analema-solar.html
http://myblog-arnaiz.blogspot.pt/2012/11/analema-solar-desde-burgos.html
"Lemniscata": https://pt.wikipedia.org/wiki/Lemniscata_de_Bernoulli
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Manuela e Mário
o sem sentido disto
sofreguidão
num mundo enorme e vazio
perdida
no claustro das raízes profundas
Na era
porque não se sabia
e porque não era possível -,
quando se queria mascar
roíam-se as unhas do mindinho
e durante muito tempo
rolavam rolavam
entre língua e dentes.
domingo, 25 de dezembro de 2016
desabrocham murchas
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
adenda fim do dia
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Varfarina de amêndoa
antera e borbórea
relenta de séries bastantes
assente em bicos micos
e pastos assados
sedenta de gamos
Assombreada e solarina
estende o braço rumo
curando pregos
e estívias
e segue o sono rulante
em vez do açor
Basta que masta açougue
relíquia de quília sebanta
logo o colo pinta manta
e antera e borbórea
a varfarina de amêndoa
sermina, cortina e diz
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
disto
garras que desprendem garças impávidas
geradoras da mais rouge raiva ao mata à rabia
imagens chatas de cheias de pintinhas linhas tracinhos
confetti de lixo desnecessário tudo fora do armário
berloques cinzentismos cactos embalsamados
que bolha que saco que sarna na perna cruzada
voltar à pasta de papel com penas de pistacho
rir sem querer pela página abaixo e desmanchar
roubar este tempo só para só tempo este roubar
a braços irritados de arrancar ervas daninhas
sonhar as noites quentes a cidade ainda nossa
dar forma à fossa à impossível ponta de ar aqui
murguriar burtir-se sarracer ampinigar
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
liberdade
Então a menina pôs-se a ler e a pensar em belas ideias: Bocage esteve preso vários anos pela Inquisição, mas os seus versos, esses, ninguém os pode prender.
"Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:
Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!"
Fechou o livro de sonetos, e decidiu que ia ser livre. E pensou que ser livre incluía fazer escolhas, decidir e fazer, errar e acertar, pois o deixa-andar não faz pessoas livres e a liberdade não descende dos céus (aqui discordando ligeiramente com o poeta). Como o tema era vasto, ficou por aqui e foi beber um chá (que é um excitante barato), lembrando-se daquela rua e do cheiro a parque de estacionamento automóvel.
terça-feira, 6 de setembro de 2016
domingo, 4 de setembro de 2016
sem mexer uma palha
nem um sobrescrito ler"
então a silhueta foi dormir a sesta
e a menina ficou acordada
sem mexer uma palha
"se é que isso é possível",
ficou ela a pensar para consigo
sem nada fazer



















