domingo, 26 de julho de 2009

em nono lugar


difícil ouvir silêncio outros
muro contra o pensamento
ouvir-se a si mesmo só
outros pensamentos outros ruídos
outros sons outras ideias

ouvir difícil
sair de si mesmo só
muro contra o que não é possível
ainda

amar conforto repetição mitos
a mesma coisa
é mesmo violência
conservação do mesmo

difícil ouvir silêncio outros
contra o muro pensamento

o contrário de ficar à espera


A emoção da esperança expande-se para fora de si, torna as pessoas mais largas em vez de mais estreitas; insaciável, ela quer saber o que dá sentido às pessoas dentro e o que se pode aliar a elas fora.

Ernst Bloch

sábado, 25 de julho de 2009

Puta Vida Merda Cagalhões, Nel Monteiro




"Puta Vida Merda Cagalhões"

"Por não ter condições de vida
E ver sinais de mal a pior
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
Desculpem a linguagem
Mas não tenho outra melhor
É muito duro ser pobre
E mais duro é com certeza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza
Um pobre ser toda a vida
A lixeira da nobreza

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

A Expo 98
Tanta nota ali perdida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
E tantos pobres pedintes
Sem terem nada na vida
Não é defeito não ter
Nem para cagar, um penico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico
Defeito é ir tirar
Ao pobre para dar ao rico

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Estádios de futebol
Oferta de mão beijada
A quem já ganha milhões
E milhões sem ganhar nada
Ser pobre não é defeito
E ser rico também não
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão
Defeito é ver um pobre
E não lhe dar um tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar

Aquela Casa da Música
Que não tem nada no Porto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Um insulto a quem não tem
Um minuto de conforto
Os vintes e dois mil milhões
Todos sabem para onde vão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão
Para a Ota e TGV
E não vai sobrar tostão

Puta vida merda cagalhões
Porque será que tem que ser assim?
Os casebres e as mansões
Desigualdade sem ter fim

Puta vida merda cagalhões
Até parece que sou filho do azar
Pois até o Euro Milhões
Só merda me está a dar
Categoria: Humor
Palavras-chave:
nel monteiro puta vida merda

terça-feira, 21 de julho de 2009

As frases que os seres humanos conseguem escrever...

«A inflação da vis teatralis à maneira das câmaras de ar, pode sugerir, a seu tempo, rutura de aneurismas impantes na assistência exaltável.
Já desalterando os próprios músculos acionadores dos ritos hiláres, chega-se a contraregrar o íntimo do espectador melancólico, fazendo-o evoluir do humor presságo à despreocupação salutar.»

«Carlos Leal visto por Celestino G. da Silva», in programa da Récita em Homenagem a Carlos Leal (Teatro Politeama, 04/06/1952)

correr com a música


Mas o que é que eles ouvem pelos headphones enquanto correm pelo estádio ou pelas estradas ao longo das praias? O que é que ouvem no walkman ou ipod ou nessa máquina sempre escondida donde saem dois fios que se encaixam nas orelhas? Ouvem música com o ritmo que querem que as pernas façam? Ouvem música calma para relaxar? Ouvem a sua banda favorita? Ouvem gravações com indicações do tipo "já correste 1km, já perdeste x calorias", "já correste 5km, já perdeste outras tantas calorias"?

E por que não conseguem correr sem os ouvidos tapados?

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Colonialismo


Há quem diga que os homens vieram da África, que África é a nossa mãe.


Ora, em tempos de colónias veja-se o que a «intérprete da Canção Nacional» [sic] Helena Tavares afirmava, sobre a sua futura ida a África com a Companhia do Teatro Apolo:


«Julgo que a grande vontade que tenho em agradar me auxiliará bastante e que o povo africano irá gostar de mim, dos fados que lhe levarei e no seu sentimentalismo o ligarão mais à Mãe Pátria.»


«Helena Tavares: Uma voz do fado», in Vem aí a Companhia do Teatro Apolo, número único, Fevereiro de 1955


África. Qual mãe, qual carapuça! A pequenina África, sem cultura, sem história, sem nada que se aproveite, coitadinha, era, isso sim, a filha deste grande educador, tão grande e tão venturoso, tão fadista e tão fascista... Portugal!


Pff...


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mário Dionísio 1916-1993

Hoje faria anos Mário Dionísio (16/7/1916 - 17/11/1993), poeta, contista, romancista, crítico de arte, professor, pedagogo, militante anti-fascista, pintor.
Há uns dias foi posto "no ar" o site da Associação Casa da Achada - Centro Mário Dionísio, que reune informação sobre a actividade do Centro e sobre a vida e a obra de MD: cronologias, fotografias, documentos, quadros... Espreitem-no.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

caro

caro
cora
roca
coar
açor
arco
ocar
orca

terça-feira, 7 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Samorost 1 e 2 e apêndices


Ir aqui e clicar (em cima à direita) em «FLASH GAMES».
São muito engraçados os desenhos. Os jogos têm piada, sobretudo os Samorosts. São... deliciosos. São jogos de descobrir coisas a clicar na imagem. Umas vezes com mais raciocínio, outras com menos. Belas animações. Sei lá que mais diga.
Se eu soubesse desenhar, e fazer animações e coisas em computador e sei lá o quê... Ó amigos que sabem mais dessas coisas, façam coisas assim! Vá lááááá...
As animações (para lá dos jogos) é que ainda não vi. Vou ver!
Ah, e tudo tem de ser com som, senão a piada fica pela metade.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

caso

caso
soca
asco
coas
ocas
aços
cosa
caos
saco

terça-feira, 23 de junho de 2009

Desarrumação


A desarrumação é Dada.
Tem bicos, tem cores, tem rugosidades diferentes umas das outras. Tem palavras e tem sons. Tem instrumentos de muitos tipos, tem zumbidos e vozes de vários animais. A desarrumação é ruidosa.
Tem o que caíu e o que se colocou. O que lá está pela beleza e o que lá está porque se jantou. O tambor ao lado da estante, a estante ao lado do copo, o copo ao lado da camisola, a camisola ao lado do prego, o prego ao lado da cama, a cama ao lado do globo, o globo ao lado do sono, o sono ao lado da tesoura. A tesoura dentro da canção. O cartão do maço a fazer de filtro de cigarro, o dinheiro dentro do Capital, o bilhete picado colado na porta.
A desarrumação fala. Nunca está calada.
A desarrumação tem falta de amnésia.
A desarrumação tem bicos. Tem madeira, tem papel, tem alumínio; tem quadrados, tem esferas, tem bolsas de ar; brinquedos, talheres, sapatos, peças, fragmentos, Tem livros inteiros e cascas de banana que apodrecem rodeadas de moscas-moscatel.
A desarrumação é um espaço vivido. Há pequenas clareiras para pôr cada pé. Pode encher-nos a cabeça com coisas a mais. Pode sufocar-nos. Ou pode fazer sentir-nos em casa. Exactamente na nossa sala.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

cachimbo (a pensar no do Mário Dionísio)


sabe mal
e a paz fuma-se
(ele mais do que ela)

o escritor desenha
agora é por isso que escreve
não é pela injustiça

vamos pôr sem imagem
lápis de cera e colagem
e as nuvens subindo a parede

sabe mal e rimo-nos
e a paz debate-se
com outra guerra

desenha o escritor
não pinta
não sabe nada da tinta

inclina o que arde
o tabaco sim, o papel não
só ficaram os livros

cinzentos - nas telas
ele sabe
do conflito da unidade

o mundo numa pincelada
todo
todo dissonante

domingo, 14 de junho de 2009

poema para a mulher que trabalha de sol a sol

Trabalho o sol traz
e o sol to leva
essa carga
não leves

A enxada é carga
mulher tu não podes
esse peso
não pedes

Pesa-te o trabalho
a carga que levas
mulher
não caves

A enxada pára
mulher não é leve
a ela
não cedas

Noutra arma pega
mulher é mais leve
com ela
fere

Essa arma leva
mulher o seu peso
nega
o medo

Fiama Hasse Pais Brandão, Barcas Novas

terça-feira, 9 de junho de 2009

última hora! menina pires atribui culpas ao sistema


tá com anomalias
mas é normal
deve ser do sistema

a excepção e a regra


ingénuas estrelas são pedras que o estado manda calcetar
que eles mandam contra a polícia
a excepção é a regra - a regressão
despolícia não basta então
é política a pedra que a minha mão - a deles - atira
saberá a gente da revolta inteligente?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Bancos e bancos

Há bancos e bancos
há bancos de sentar
e há bancos de depositar
há bancos de madeira
e bancos de oiro
há bancos e bancos,
há bancos e bancos.
Há bancos de três pernas
e bancos a quatro mãos
há bancos para rabos
e bancos para roubos
bancos para descansar
bancos para descascar.
Há bancos e bancos
pretos e brancos
há bancos de sentar
e há bancos de levantar
há bancos seguros
e bancos de juros
há bancos das pessoas
e bancos contra nós.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Artaud sobre loucura

E o que é um “verdadeiro louco”?
É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceite (que nunca é o sentido real e vivo, instrínseco das coisas), em vez de trair uma determinada ideia superior de honra humana.
Assim, a sociedade manda estrangular nos seus manicómios todos aqueles dos quais quer desembaraçar-se ou defender-se porque se recusam a ser seus cúmplices em certas enormidades.
Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis.




Neste caso, a reclusão não é sua única arma e a conspiração social tem outros meios para triunfar sobre as vontades que deseja esmagar.
Há grandes sessões de enfeitiçamento global das quais participa, periodicamente, a consciência em pânico.
Assim por ocasião de uma guerra, de uma revolução, de um transtorno social ainda latente, a consciência colectiva é interrogada e questiona-se para emitir um julgamento. (No circular teatro-fantasma onde a vida é apenas simulada e não vivida, onde o homem se torna mais máquina do que as próprias máquinas criadas por ele próprio).
Essa consciência também pode ser provocada e despertada por certos casos individuais particularmente flagrantes.
Assim foi que houve feitiços colectivos nos casos de Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval, Nietzsche, Kierkgaard, Fraz Kanfka, Gregório Delgado, e também Vang Gogh.
É assim que poucas pessoas lúcidas e de boa vontade que se debatem sobre a terra já se viram tragadas pela profundeza de autênticos pesadelos em vigília e rodeadas por uma poderosa sucção, pela poderosa opressão tentacular (nazi) de um tipo de magia cívica e psíquica, que já se vê a aparecer nos costumes de modo manifesto.
Diante dessa sordidez unânime que de um lado se baseia no sexo e de outra nos ritos psíquicos, não há delírio em passear à noite com um chapéu coroado por doze velas para pintar uma paisagem natural; pois como faria o pobre Van Gogh para iluminar-se, e pintar suas paisagens, em pleno século XIX?

Antonin ARTAUD, Van Gogh, O suicidado da sociedade

sábado, 23 de maio de 2009

Ele há jogos...

Ele há jogos giros, bonitos, inteligentes:
este, por exemplo

terça-feira, 19 de maio de 2009

sábado, 16 de maio de 2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Gelado de morango

Ingredientes:

250 g de morangos
250 g de natas
125 g de açúcar

Confecção:
Passe os morangos por um passador.
Adicione o açúcar e misture.
Bata levemente as natas e junte-as ao preparado anterior.
Bata a mistura durante 2 minutos e ponha no congelador.

Uma hora depois retire o preparado do congelador e bata-o energicamente.
Volte a pô-lo no congelador até à altura de servir.
Enfeite com morangos e natas.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

saltare ad tibicinis modos

Au cours des IXe, Xe et XIe siècles, la musique est surtout jouée par le jongleur. Comédien, saltimbanque, il va où bon lui semble. Pour divertir, il sonne la trompe, chante, récite, joue de la vièle et fait danser les ours. Sur la place publique, la jongleresse aussi amuse le peuple. Jongler veut dire jouer. Descendant direct du barde celtique, du scop germain et du mime de l'Antiquité, le jongleur fait partie d'une grande fraternité disséminée à travers toute l'Europe.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

com gente

não queria saber das casas
se não houvesse pessoas nas casas
não queria saber das casas
se as casas não tivessem pessoas

queria saber do copo e da telha
e dos raios encurtados do som
e fim
depois vinham ideias, palavras,
matemáticas e maus fígados
e muitos outros dos seres bípedes
daqui

isso de casas sem gente
eu sei lá o que isso é

terça-feira, 5 de maio de 2009

1900 (Carta a Anton Tchekhov)

Poema "Alexandre" de Mário Jorge Bonito
Música: José Mário Branco

já o Quino lhe dava na precariedade

segunda-feira, 30 de março de 2009

Os melhores filmes contra a precariedade - como quem faz um par de sapatos

Contra as ETTs (Empesas de Trabalho Temporário)


Situação de contratação de Maria da Luz


Situação de renovação de vínculo da Francisca

quarta-feira, 25 de março de 2009

de biciclete

Kuhle Wampe

na tarde chuvosa com biocos
pesada de olheiras neutras
vem pela estrada enlameada e rouca
a campainha duma biciclete
a mesma infância entre poças
a mesma casa de chão térreo
o mesmo destino a mesma
morte anónima bem-vinda
na mesma fábrica os avós
na mesma fábrica os pais
na mesma fábrica os amigos dos pais e dos avós
mas vai-se para a fábrica distante
agora de biciclete

Mário Dionísio
O riso dissonante (1950)

quinta-feira, 12 de março de 2009

terça-feira, 10 de março de 2009

ninguém assobia...

assobiem!
assobiem à vontade!

voz

«Tive muita pena dele, por sabê-lo dependente de uma voz e porque estarmos dependentes de uma voz é como se estivéssemos sentados na guilhotina da Revolução Francesa.»

Federico Garcia Lorca, «Santa Luzia e São Lázaro», Anjo e duende. Lisboa: Assírio e Alvim. 2007.

quarta-feira, 4 de março de 2009

epá que agressiva que a menina pires anda!

oito

se o 8 de Março
a fizer sair à rua
a silhueta dela
pode adquirir
estranhas e perigosas formas

crescem-lhe pêlos
certamente sua
pelo menos foi o que lhe ensinaram
na escola
na casa
na rua

foi aprender inglês e depois achou graça

A menina Pires está a ficar feminista...
Afinal não quer casar com o príncipe encantado e passar a ferro.
No outro dia até assobiou.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O João faz anos!

é um dia diferente porque de facto
é só uma vez que fazes 64
e pensamos nós com vontade de dar:
já chega de livros, de discos, de vinhos
já chega de objectos e de bibelôzinhos
desta vez é só sorriso, beijinho, canção
ou um poema ou um aperto de mão
que valem mais do que consumíveis
e bichos e lixos reprodutíveis
e dizer assim porque sim:
então parabéns!














ar e água, escher

domingo, 8 de fevereiro de 2009


já nos cansa esta lonjura
já nos cansa esta lonjura
só se lembra dos caminhos velhos
quem anda à noite à'ventura

não alinhe com as meninas que ficaram yesterday

rápida
rapidíssima visita
para dizer à menina pires
que tem de começar a ter
mais sentido crítico

senão vai alinhar
com as meninas de antigamente
que ficaram yesterday

o metro está a chegar
decisão
pode escolher
opção ou destino
menino
menina
menina
menino

seja menina
mas não seja menina
mantenha a silhueta de menina
menina

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Faculdade fechada

Faculdade fechada
trancas à porta
daqui não se passa
nem pé d'aluno nem pé de beata
nem pé de ganhão
a garra que se finca hoje
deixará história mesmo sem vitória
arranhará gravatas
rasgando a pelica
e a faixa atravessa-se e grita
e os tambores que não vêm?
onde estão os tambores?
alguém esganiça a voz
outro responde para trás
a beata empenha-se
um táxi buzina para não atropelar a bailarina
a discussão cai na poça
pois
os tambores, os tambores
que falta, os tambores!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

um poema de Manuel Canário

Sempre fui um operário

Sempre fui um operário
Em duas profissões
Mas nunca fui lacaio
Para mestres e patrões

Trinta anos de censura
Vinte de caixas sindicais
Quarenta anos de ditadura
Ena porra que é demais

Primeiro de Maio ganhámos
Para bem de quem trabalha
Tantos anos lutámos
P’ra vencer esta batalha

Sou pobre mas sou honesto
Nunca trabalhei a roubar
Há quem diga que não presto
Por não saber engraxar

Muita gente passou mal
Actualmente se esqueceu
Que havia um Tarrafal
E boa gente lá morreu

Sempre fui um operário
Agora deixei de ser
Hoje não tenho horário
Nem patrão para obedecer

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Bora mandar sapatos ao Bush!

Bora mandar sapatos ao Bush 1

Bora mandar sapatos ao Bush 2

A li(cita)ção - situação do Ensino Superior

Um texto (não é nosso) que deve ser conhecido. Digamos que é muito didático...
A li(cita)ção

PERSONAGENS:
Leiloeir@
Paulo Teixeira Pinto
Francisco Murteira Nabo
João Picoito
Charles Buchanan Jr
Alun@
Assistente d@ leiloeir@

Leiloeir@ – Boa tarde! Estamos hoje aqui, a pedido do Engenheiro José Sócrates, para leiloar a tão estimada Universidade de Lisboa, devido à falta de financiamento por parte do governo. A partir do próximo ano, a U.L. vai ter um défice de 6 milhões de euros, tornando impossível a gestão pública desta instituição. Estão abertas desde já as licitações. Agradeço que os licitadores não só proponham um valor para a compra, como também se apresentem, especificando por que razão seriam os melhores gestores desta Universidade. O senhor aí, por favor.

Paulo Teixeira Pinto – Então muito boa tarde, o meu nome é Paulo Teixeira Pinto e, como o resto das personalidades aqui presentes, foi-me reconhecido o mérito para estar presente na Assembleia Estatutária que decidirá os destinos desta instituição. Como devem saber, recebi ainda há pouco tempo uma reforma choruda do banco que geria, o BCP, como reconhecimento do meu esforçado trabalho durante vários anos…

Alun@ - Pois, pois… Tem uma gestão fraudulenta e ainda lhe pagam por isso…
Paulo Teixeira Pinto – Para além do mais, comprei agora uma editora, o que significa que participo activamente na produção de conhecimento no nosso país. Como devem imaginar, não tenho muito que fazer ao muito dinheiro que tenho e até fui aluno desta Universidade, portanto acredito ser o melhor comprador. Ofereço os 6 milhões de euros e comprometo-me, em nome de Deus, da Opus Dei e do Rei, a publicar todas as teses e trabalhos de investigação na minha querida editora.

Leiloeir@ – Temos uma primeira licitação. Quem dá mais?

Murteira Nabo – Boa tarde, eu sou o Francisco Murteira Nabo e creio reunir as melhores condições para comprar a Universidade de Lisboa. Nunca fica mal o dono de uma Universidade ter um curriculum tão vasto e extenso quanto o meu. Senão vejamos: fui Vereador da Câmara Municipal de Lisboa, presidente da Companhia Portuguesa Rádio Marconi, vice-presidente da Sorefame, Secretário de Estado dos Transportes, Administrador da Companhia Industrial de Portugal e Colónias, Ministro do Equipamento Social (Obras Públicas) e Presidente da Portugal Telecom. Neste momento sou: Presidente da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Chinesa, membro da Direcção da Associação Comercial de Lisboa, vogal do Conselho de Administração do Banco Espírito Santo, membro do Conselho de Curadores da Fundação Oriente, Presidente da Direcção da Proforum – Associação para o Desenvolvimento da Engenharia, Presidente da Direcção da Cotec Portugal – Associação Empresarial para a Inovação e membro do Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação. Fui ainda considerado uma personalidade externa de reconhecido mérito e faço parte da Assembleia Estatutária desta Universidade, não sei muito bem porquê. Também não sei muito bem o que fazer com a Universidade, mas creio que a sua posse ornamentará de forma brilhante o meu curriculum. Assim, a minha licitação será de 6 milhões de euros… e o meu curriculum.

Alun@ - Com tanta coisa para fazer, não compreendo como é que tem tempo para decidir decentemente o futuro da Universidade…

Leiloeir@ – Muito bem, esta licitação superou a anterior. Quem dá mais?

João Picoito – Boa tarde, eu sou o Engenheiro João Picoito e também sou muito dado a currículos. No entanto, o meu é ainda mais interessante do que o do licitador anterior, visto que está intimamente ligado com o ensino superior: sou membro do Conselho Estratégico da Universidade do Minho, membro do Conselho Consultivo do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Professor Catedrático convidado do Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial da Universidade de Aveiro, membro do Comité Coordenador do Concurso Nacional de Inovação do Grupo Banco Espírito Santo, membro do Júri de Selecção do Concurso Nacional de Empreendedorismo do Grupo Caixa Geral de Depósitos e Universidade Nova de Lisboa, membro do Conselho Consultivo do Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores, e do Departamento de Engenharia e Gestão, ambos do Instituto Superior Técnico. Mas tenho ainda uma grande vantagem: sou presidente da Siemens Portugal, cargo de que muito me orgulho e que é uma via aberta para o sucesso desta Universidade, sendo assim possível vender, exportar e negociar todo o conhecimento para que ele seja investido em produtos desta empresa. A minha licitação é de 6 milhões e a oferta de sistemas de comunicações em ligação com o mundo empresarial.

Alun@ - Como se gerir uma Universidade fosse a mesma coisa que gerir uma empresa de telemóveis…

Leiloeir@ – Magnifica proposta por parte do senhor Picoito. Alguém dá mais?

Charles Buchanan – (com pronúncia inglesada) Boa tarde, eu sou o Charles Buchanan Jr e sou o Presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, cargo para o qual fui directamente nomeado pela excelentíssima Administração Norte-Americana, presidida pelo senhor George W. Bush. Ofereço 6 milhões de euros e uma ligação privilegiada às grandes multinacionais norte-americanas, na condição de explorarmos todas as patentes produzidas na universidade. Posso não ter tanto currículo, mas sem dúvida tenho muito mais power!

Alun@ - Yes, you can mr. Buchanan… O problema é mesmo esse!

Leiloeir@ – Deslumbrante!! Bem, penso que será bastante difícil superar esta brilhante proposta… Alguém dá mais 1?... Alguém dá mais 2?... Alguém…

Aparece @ assistente que segreda ao ouvido d@ Leiloeir@

Leiloeir@ – Bem, acabou de me chegar a informação de que temos uma licitação ainda mais alta. No leilão da E-Bay, o banco Santander-Totta acabou de fazer uma altíssima licitação: aproveitando os vários milhares de milhões de Euros que o governo lhe disponibilizou, vai comprar a Universidade, garantindo, assim, que esta saia ilesa da iminente crise financeira. Quem dá mais 1? Quem dá mais 2? Quem dá mais 3? Arrematado para o banco Santander-Totta! Que magnífico negócio! Obrigado pela vossa presença e boa tarde!

Alun@ - Boa! Um banco comprou a Universidade… (raciocinando) Agora peço um empréstimo para pagar as propinas aos mesmos tipos que são donos da Universidade a que tenho que pagar as propinas. E depois ainda tenho que pagar, com juros, o empréstimo que fiz para pagar as propinas aos mesmos gajos a quem tive que as pagar! A formação para a vida inteira torna-se a dívida para a vida inteira… Isto é ridículo!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Eduarda Dionísio sobre João Martins Pereira

1. João Martins Pereira calou-se, muito antes de morrer, antes mesmo de estar muito doente. E desse silêncio somos todos – mais os amigos do que os inimigos – responsáveis. Culpados, ia dizer. Mas julgo que ele gostaria mais da primeira palavra. Silenciado, silenciou-se. O esquecimento (histórico e prático) do espantoso jornal que foi a Gazeta da Semana (por altura da 1ª campanha do Otelo) é uma pedra bem aguda neste seu silêncio, para mim insuportável – mais de resistência do que de desistência, eu sei.

2. É verdade que JMP sempre acreditou mais em si como homem de saber (preciso), de pensamento (claro) e de escrita (concisa) do que como «actor» de sessões públicas, ecrãs e microfones. E de cargos. A passagem por uma Secretaria de Estado foi uma grande e curta excepção. Aguardo, ansiosa, que alguém se ponha a estudar a sua agenda de trabalho, que ele depositou no CD 25 de Abril.
JMP é um caso raro. Arrisco: o único intelectual de esquerda do pós-guerra, nesta terra, sem qualquer sedução pelo «estrelato», o reverso da vedeta. Um homem das economias, formado nas engenharias, para quem as artes existiam – literatura, evidentemente; cinema, muito; teatro, algum; pintura também.

3. Lembro-me bem da sua caligrafia miúda e da paginação do que escrevia à mão, com margem certa, mais rigoroso do ninguém, entregue sempre a horas, para publicação (no Combate de uma certa altura, nos Cadernos do Elefante, edições mais «marginais» do que outra coisa) ou para ajudar os outros (uma fui eu) a escrever sobre assuntos de que ele sabia mais – disponibilidade sem medida.
4. Sem ele, nunca teria tido uma relativa segurança quando me meti em «aventuras».

É difícil de descrever e avaliar a sua invisível participação na 1ª campanha das Europeias do PSR, em 1987, quando se tratava de dizer que a Europa não era aquela, com vários independentes, entre os quais ele: a sua atenção e rigor limparam e enriqueceram (factos, parênteses, números, ideias) os textos inicialmente escritos a duas mãos, pelo Jorge Silva Melo e por mim.
Nunca os 10 anos da Abril em Maio teriam sido aqueles que foram, se não tivesse sido ele a escrever a convocatória para os dois fins-de-semana de festa onde a Abril em Maio nasceu.

5. Escrevi muitos papéis, anónimos, colectivos, quando ele não estava ou já não estava ali, a pensar «como é que o JMP escreveria isto?» ou «o que é o JMP pensará disto?»
Por isso, não sei como é possível andar-se pelas esquerdas sem nunca ter lido O Reino dos Falsos Avestruzes ou como se JMP não o tivesse escrito.
JMP (que não acreditava em frentes com inimigos de raiz tornados amigos de superfície) foi e continuará a ser para mim uma referência que não morre. Sou quase incapaz de escrever sem citar umas frases suas que dizem o que não sei dizer de outra maneira: que os dois anos do chamado PREC foram os únicos em que milhões de pessoas viveram no verdadeiro sentido da palavra; que não é possível confundir «empenhados» e «alistados».
Aprendi com ele que o «não me apetece» é o maior critério para as recusas – o apetite e o não apetite têm política dentro.

6. De há um tempo para cá, tenho tido saudades do JMP e agora vou ter mais ainda. A sua morte abre um grande buraco, que se acrescenta a outros. Gostava de ter pelos menos 50 páginas à disposição para poder falar dele.

Eduarda Dionísio
14-11-08

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

terça-feira, 21 de outubro de 2008

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

a menina pires diz que há uma hipótese

superar a crise
fazendo uma mise
ultrapassar os espanhóis
no consumo de caracóis
escrever cem vezes numa folha
as leis da rolha
combater o desemprego
com mais polícia
acabar com o emprego
com mais perícia
dar à crise financeira
uma vaca leiteira
e quando faltar dinheiro
pagar o jantar ao banqueiro
sermos mais tolerantes
como éramos dantes
pôr na televisão fado
e revivalismo furtado
avançar com o despedimento
para viver o momento
sair da cauda da europa
e ir para os dentes da europa
o país desaparece
e com ele o iérreésse
e por fim descansados
no monitor sentados
acender virtualmente a lareira
pôr a manta e a joelheira
clicar no progresso
e chorar o último impresso

domingo, 5 de outubro de 2008