quarta-feira, 19 de abril de 2017

mentira

A mentira é que segura as coisas.
Mas não basta mentir.
É preciso omitir, esconder bem as coisas.
E disfarçar bem, aprender a disfarçar.
Não basta apenas mentir.
É preciso ainda aceitar a mentira dos outros.
É preciso mentir muito para ser feliz.
É preciso mentir para ter muito sucesso.

terça-feira, 18 de abril de 2017

fui ouvir melhor a história de uma gata



passava a menina

passava a menina as suas sombras
a ferro numa esquina
achou que viu um gato
e pensou:
«os gatos batem as botas»

achou graça e escreveu no caderninho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lemniscata


É um total de 48 fotos do Sol, sobrepostas. Feitas durante um ano, uma vez por semana, no mesmo local e horário. O ponto mais alto é o solstício de verão e o mais baixo é o de inverno, formando a Lemniscata, símbolo do infinito. 
Ver mais aqui: 
http://astronomiaycienciatitaguas.blogspot.pt/2012/10/analema-solar.html
http://myblog-arnaiz.blogspot.pt/2012/11/analema-solar-desde-burgos.html

"Lemniscata":  https://pt.wikipedia.org/wiki/Lemniscata_de_Bernoulli

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Manuela e Mário

sem sentido
o sem sentido disto
sofreguidão
num mundo enorme e vazio
perdida
no claustro das raízes profundas

Na era

Na era em que já não se escrevia -
porque não se sabia
e porque não era possível -,
quando se queria mascar
roíam-se as unhas do mindinho
e durante muito tempo
rolavam rolavam
entre língua e dentes.

domingo, 25 de dezembro de 2016

desabrocham murchas

saltar todas as listas como cavalos barreiras
e abrir este rectângulo cortado branco
e sujá-lo de regras de teclas descifradas
dizer que não fiz tudo o que me passou pela gana
que ficaram só esboçadas todas as cartas, os gestos,
os obrigadas, as desculpas, os barcos de papel com as palavras,
pôr as músicas, cantar, ler poemas, comprar bilhetes para longe,
soprar amor
essa coisa que nego e renego e só quero como qualquer pedra do chão
que  não sei fazer

saltar as listas e vir para aqui fazer mais uma vez o inútil
tentar o que mais uma vez não conseguirei
explicar que tinha tanta cor para pintar e sou sempre só um bloco cinzento
essa garganta que esconde o calado à força
essa prisão das paredes gélidas inflamadas
saber dizer a perda a incapacidade e as dores ridículas
saber dizer mas para quê
a vida fugiu-me e corre corre já não sei se a vejo ainda

mas será que existiram esses mundos subterrâneos de homens pequeninos
essa opália, essa liberdade de bater a porta de casa dos pais,
essa liberdade de ter amigos havia amigos? houve?
aquelas pedras do chão como a nossa alcatifa
aquelas ervas daninhas como as nossas plantas
aquelas canetas e isqueiros como oxitocinas de utilidade pública
esta terra como a nossa casa e agora?

incomoda-me este silêncio
é bola preta que cresce como no miyazaki
até àquele tanque de preto a transbordar de borbulhas
e não quero ver a cena e fecho os olhos à cassandra
mas de que serve fechar-lhe os olhos

não sei o humano que parava os olhos nas coisas e nos outros
que queria ouvir-lhes as palavras
entender-lhes os tremores, as raivas, as maravilhas
acompanhar-lhe os pensamentos
desviar-lhes as rotas
sorrir como se fosse a primeira vez

o cenário e mundo inóspito vazio
os perdidos e não achados
o sem sentido de tudo isto
o cansaço de sísifo
o dramático
a farsa
(e o minúsculo) não

enquanto
os écrãs com novos donos de scoobydoos de caleiras sobre as orelhas
a cantar músicas de natal congregadoras da farsa
em competição
continuam para sempre ligados eternamente ligados
com as pilhas duracel
e duram e duram e duram
as baratas

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

adenda fim do dia

Nunca quem dera jamais parar de escrever, sempre no seguimento da linha e fugindo a todo o direito. Indo para letras. Do outro lado do relvado.
Nada me disse o outro lado do relvado quando o hoje era baço e pintar era mais operário do que escrever, ler era mais operário do que ditar leis.
Desisto do carvão. Apago luzes. Dispo-me para um dia que me obrigará a vestir-me.
Só enfim. Sem nada. Com tudo. Com o tudo que não me deixa. Deixa-me não que tudo o com.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Varfarina de amêndoa

Varfarina de amêndoa
antera e borbórea
relenta de séries bastantes
assente em bicos micos
e pastos assados
sedenta de gamos

Assombreada e solarina
estende o braço rumo
curando pregos
e estívias
e segue o sono rulante
em vez do açor

Basta que masta açougue
relíquia de quília sebanta
logo o colo pinta manta
e antera e borbórea
a varfarina de amêndoa
sermina, cortina e diz

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

imitose

disto

deixem-me outra vez respirar a escrever
garras que desprendem garças impávidas
geradoras da mais rouge raiva ao mata à rabia
imagens chatas de cheias de pintinhas linhas tracinhos
confetti de lixo desnecessário tudo fora do armário
berloques cinzentismos cactos embalsamados
que bolha que saco que sarna na perna cruzada
voltar à pasta de papel com penas de pistacho
rir sem querer pela página abaixo e desmanchar
roubar este tempo só para só tempo este roubar
a braços irritados de arrancar ervas daninhas
sonhar as noites quentes a cidade ainda nossa
dar forma à fossa à impossível ponta de ar aqui
murguriar burtir-se sarracer ampinigar

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

liberdade

A menina pires passou anteontem no Bairro Alto, na Travessa André Valente, e pelo cheiro a escape suspeitou que naquela ruela tinha nascido um grande poeta. Nessa tarde, descobriu na internet que era mesmo assim: Bocage ali à luz foi dado.
Então a menina pôs-se a ler e a pensar em belas ideias: Bocage esteve preso vários anos pela Inquisição, mas os seus versos, esses, ninguém os pode prender.

"Liberdade querida, e suspirada, 

Que o despotismo acérrimo condena; 

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada:

Atende à minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena; 

Liberdade gentil, desterra a pena 

Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão de adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha, 

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!"

Fechou o livro de sonetos, e decidiu que ia ser livre. E pensou que ser livre incluía fazer escolhas, decidir e fazer, errar e acertar, pois o deixa-andar não faz pessoas livres e a liberdade não descende dos céus (aqui discordando ligeiramente com o poeta). Como o tema era vasto, ficou por aqui e foi beber um chá (que é um excitante barato), lembrando-se daquela rua e do cheiro a parque de estacionamento automóvel.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

domingo, 4 de setembro de 2016

sem mexer uma palha

"depois de comer
nem um sobrescrito ler"

então a silhueta foi dormir a sesta
e a menina ficou acordada
sem mexer uma palha

"se é que isso é possível",
ficou ela a pensar para consigo
sem nada fazer

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

a via da arte sensível

com mãos nuas apesar daqueles dedos
na competição - que pena - endurecidos
porque o caminho da suavidade não chegou
e ainda não pode ser o nosso
(perdoem-nos vocês que serão ágeis
a derrubar com alavancas do futuro)
foi bonito aquele yuko ainda assim
que nos faz ver que o peso é leve e é possível
de cada vez fazer virar o equilíbrio
e não se trata bem de dar a outra face
mas fazer com os mais fracos outra força
que é capaz do movimento impossível


quinta-feira, 21 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

Poema do poste com flores amarelas

Vieram os operários, puseram o poste de ferro na berma do passeio
e foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam “que chatice de poste”,
mas o poeta sorria para as flores amarelas.
António Gedeão

segunda-feira, 11 de julho de 2016

terça-feira, 28 de junho de 2016