quinta-feira, 14 de maio de 2015

Apocalipo de cola

A esta hora, a depressão imensa cai-me por dentro. Os pratos por lavar, mesas com papéis e comida, cotão na cama gritam-me no estômago a angústia. A testa aperta, o coração mirra, tu estás em coma, a dormir. Não oiço nada, o que oiço apago a borracha. As aparas da borracha são brancas. Quero desistir, perdi as forças. O cérebro muito racional e científico fala-me em voz grave. É fome, é sono, trabalho a mais, cigarro a mais. E o super-cérebro ou alter-cérebro pergunta: e a solidão? Andas a ver demasiados anúncios de cerveja, diz o cérebro. Não percebes nada do mundo, só olhas para ti, responde o outro, o alter. Ou super. Autodestruo. Os olhos, a boca, os pulmões, o estômago. A pele. Os dentes. A caveira cava-me e abre orelhas, olheiras, alheiras, alheias, areias, áreas e árias. As tépidas mentes doentes do ente. Tusso para sempre. Comem-me a carne as pulgas. Outra estratosfera diz que a culpa é da hora. A que começou a escrever. Horas, hei-de esfaquear-vos. Para que precisamos de horas e de que elas sejam diversas? Venham ser diversos os segundos. Mas desisto de discussões e lutas. Felizmente, durmo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O livro de ontem à noite (para publicar amanhã)


Como escrever a andar
como quem come o impossível
o andar-ritmo, estilo, tipo
e a voz alta a ditar as regras
o individualismo desuniversal
a coisa só-si
a ser aberta-fechada, malcriada
e o travão-apagão visitante
como fazer assim o que se quer
como quem come o desistente
sonolento de saudades e na goela anti-partos
carapaças linhas duras
a mão desvia o padrão azul
a mão cai depois e não sabe
a mão ganha cabeça










Apanhado em flagrante num instinto comunitário
o gato senhor de si vira a cabeça
finge dormir de orelha alerta
dá o flanco de costas.
Os gritos de cio ou abandono
são iguais aos de crias humanas largadas nas bermas das estradas.
Como pode um preso libertar outro preso?
O gato não ronrona esta noite
ganha torcicolos
sobressalta
regurgita







não era a distância
entre nós e o barco
éramos nós o barco
e o nós era outro e já não se via
numa espécie de miopia

daí talvez os gritos de gato voador
ouvidos mais acima
ouvidos-alerta do gato do sexto
e o escrever a voar

e, pois canté, os nós eram só eu
ilha extinta pela distância








inventa-me um título
mas não me perturbes
coça-me o testículo
mas não me masturbes

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A morta-viva convida

quarta-feira, 22 de abril de 2015

cergal

A ser a não ser a ti aqui e em vez do complicado mínimo sem saber da pressa disto sem saber pensar outra coisa com televisão assim porqû

Sem ter aqui no peito ou tendo menos no telefone da linha não vista não separante por ver animais bestas e anúncios sempre a livrar da depressão e solidão

Sem ter o sentido sempre a correr sem manias tidas com sprays com vagas de ondas abertas a bater à porta do écrã pausa

Na espera que esmera à toa à tona a livrar barcos em verdes que não estufas frias
Fantasmas farófias azeites nas barbas assilabar a voz repentinamente sofrer
Salgas pastos aranhas quem sabe talvez depois e nunca nunca a ser a saber quando ficar não querer ficar assim
Argonautas sensóveis rupestres guizos de malhas precianas
Bastar a errar a mesma a mesa assentar a cabeça docemente no mar 
Grés

quarta-feira, 8 de abril de 2015

correspondência

e se depois
e como
como não
como não se sim ou sim se não
o erro se fosse uma mulher era a mãe da revolução disse ele
brain damage
hic hic hic
fluido rosa
falar pela rua aos tropeções
como comprar o comprimido-de-parar-o-cérebro
azul verde azulado azul azul
cheira a primavera disse ela
e ela mergulhou
antigamentes inexistentes irrecuperáveis
ei-los
cheiros
falar pela rua sempre será o melhor de tudo
mas o desfoque do olhar a viseira
medos automatismos rotinas fugas conservações
corpos definhantes sérios adultos feios cinzentos a serem os nossos
e ter afastado tudo
e pensar que os outros cada um também afastou tudo de si e ficámos maples sozinhos em salas rodeados de nada

segunda-feira, 6 de abril de 2015

não esquecer

So keep fightin' for freedom and justice, beloveds,
but don't you forget to have fun doin' it.
Lord, let your laughter ring forth.
Be outrageous, ridicule the fraidy-cats,
rejoice in all the oddities that freedom can produce.
And when you get through kickin' ass
and celebratin' the sheer joy of a good fight,
be sure to tell those who come after
how much fun it was."
 
Molly Ivins, from "The Fun's in the Fight" in Mother Jones, 1993

sexta-feira, 13 de março de 2015

triunvirato

o triunvirato
fez um ultimato
de sentido exacto:

que trates de ti
que saias daí
um ponto no i

vais ligar?
vais resistir?
resistir é vencer
diz o outro
que és também tu

e eu por mim
digo assim:
que posso perceber
tudo querer
mandar às favas
esquecer
enrodilhar
perecer

mas que consegues muito mais que isso
que caramba não és só um chouriço
mas belo mago de ideias
e cheio de viço

que força é
não ser dominado
pelo rosé

que força há
em beber sumo
de maracujá

que estamos contigo
a tirar-te os olhos
do umbigo

que há ainda muito por ler
por contar criar fazer
que te queremos connosco
porque nos puseste aqui
precisamos de ti

momentos que tais
a derradeira hipótese de mudar isto
de não ter de ser aos ais

saltar pra fora do loop
que a ti nem o álcool te engrupe
ver um espectáculo da Seivatrupe
nem que o espectador ao lado apupe
que há quem se preocupe
contigo

não saber do dia e da hora?

borriés daí pra fora!

terça-feira, 10 de março de 2015

vá brincar

posso tratar-te por tu a ti que actuas
ou divas devem divagar em vénias
certas de sobressaírem silhuetas soçobradas
arrastadas com árida e ácida ânsia
de lugares livres e liguarudos
posso atuar-te a ti que atuas
esquecendo esquifes espartilhos
e os altos belos bicos desses botins
acetinados sem sina mas com ensejo
do altivo altar das palmas e louros
posso babar-me berrar beber bocejar
e porquê pedir-te permissão
será do mar amarelo da voz de marmeleira
ou quê

na novela e fora dela, filhos por você

segunda-feira, 9 de março de 2015

não escrever

escrever sempre sobre este momento que não há nem entre a sala de jantar e o corredor nem no mármore das trilobites, esconder caderno depois e antes mas isso era dantes quando havia ar entre as trilobites, grafites em estojos, agora só a fingir que é prosa poesia disfarçada e de coração nas mãos a correr antes do soar do trinco ou do correr na calha das calhas da porta, e por lá não entra mais aquele que não entra nunca, escrever sempre sobre este que não entra nunca e sempre força à filme que filma a dobradiça em espasmos de pancadas, sempre força e não o queremos deixar entrar porque assim era assim era assim, gritar de insuficiência ingorância e perda do lugar espaço espaço lugar momento sítio de isto sítio de aqui poder ser ali poder fazer sair, buracos de luz eléctrica branca penas águas humidades ecos de metal pouco sal calcarite, pontos de fuga loucos amenos são barcos e algas verdes arcos de chorões e passagens em cavernas e caminhos de terra e madeira e o sol quente sem ferir os olhos, calha da porta

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

capa

como uma parede ciclorama de eme
em torno de toda a volta entornada circular
a fazer parede que não se pode passar
com a cara impressa a presença a permanência
uma parede cenário lá na visão periférica
que não deixa ser vista de frente
bate contra os olhos repele
como a rede de tensão do jurassic park
parede dura intransponível olhona
fechadura correia mordaça cheia de carinho impossível
lágrimas impossíveis gritos impossíveis
cenários corredores sempre lá sempre turvo
como pedras da calçada e prédios e portas
ou troncos de árvores bocas de incêndio pra que não olhamos
e só acima o céu e é para lá que vou de vez em quando
e na terra para todas aquelas mãos que é preciso
sorrir acompanhar esmolar e decidir
adiar adiar adiar para a frente para longe para nunca
andar com o ciclorama na nuca
enterrar pisar desespero gritar fechar os olhos é pior
azeite na nuca casca de banana empatar ocupar
e eu com a consciência toda e sem chaves
não dá para aproximar
carapaça eléctrica sem antídoto
o corno da cabeça por partir

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Com um V na volta e o Maçariku na cabeça nas mãos na voz

A pensar nos concertos do Tropa Não, e outros, que o Maçariku organizou nas Palmeiras já lá vão umas décadas.
A pensar nas formas simples de fazer coisas quando são necessárias e quando se quer fazê-las.
A pensar no que se passa hoje e no que queremos que se passe hoje e amanhã.

Um concerto com velhos e novos amigos que teimam na construção de outra cultura, de partilha, liberdade e resistência: Coro da Achada * dUAS sEMI cOLCHEIAS iNVERTIDAS * Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e Carlos Santos * João Morais, Rui Lucena, Filipe Brito e Diana Dionísio * João Paulo Esteves da Silva e Margarida Guia * João San Payo e amigos * No Mínimo K

A entrada é livre. 
Sexta-feira, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Com um V na volta


Maçariku, aliás Vítor Ribeiro, fez de tudo no cinema, no teatro, em associações culturais e organizações políticas. Lutou pela liberdade dentro e fora da cabeça, contra o racismo, o militarismo, a exploração. Trocava artes, coisas e ideias, fazia com e para os outros e coleccionava amigos no meio disso. Organizou centenas de encontros e concertos, participou em grandes e pequenos combates, fez de tudo com rebeldia, resistiu até não mais poder. Maçariku cultivou as amizades como quem semeia desobediência, entusiasmo, internacionalismo. Morreu em Agosto passado, e deixou tanta coisa, tanta gente.
A Casa da Achada e amigos propõem e convidam a participar numa série de sessões a partir dele, com uma diversidade de actividades que nunca será capaz de dar conta de uma vida tão rica e intensa, mas tenta pelo menos pegar nas suas coisas, nas suas ideias, nos seus modos de ser e passar as coisas aos outros.
Amigos e conhecidos intervêm, mostram-se máquinas velhas e outras a funcionar, há músicas, conversas, poemas e ferramentas, mostram-se filmes feitos por ele e filmes com ele lá dentro (na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio), e ainda uma série de filmes da sua colecção (na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema). Para terminar, um concerto resistente a pensar no que vibra ainda da sua presença atenta e livre para os combates futuros. Bebe mais um copo, Maçariku.


Sábado, 17 de Janeiro, 15h
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
TANTA COISA
Intervenções livres, filmes, ideias, escadotes, músicas, objectos, luzes, som, câmara, poemas, andaimes, instrumentos… e tudo o mais que desaprendemos e aprendemos com o Maçariku.

Domingo, 18 de Janeiro, 17h
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
MODOS DE FAZER E PENSAR

Filmes e conversa com Ângela Luzia, João Carlos Louçã e outros.
Projecção de Viver, Aprender e Trabalhar na Península de Setúbal (1997), de Eduarda Dionísio, João Carlos Louçã e Vítor Ribeiro + excertos de entrevistas a Francisco Castro Rodrigues, feitas por Eduarda Dionísio e Vítor Ribeiro

Segunda-feira, 19 de Janeiro, 21h30
Cinemateca Portuguesa
La Bandera (1935), de Julien Duvivier

Terça-feira, 20 de Janeiro, 19h
Cinemateca Portuguesa
Milou en mai (1990), de Louis Malle

Quarta-feira, 21 de Janeiro, 21h30
Cinemateca Portuguesa
Sois belle et tait-toi (1958), de Marc Allégret

Quinta-feira, 22 de Janeiro, 19h
Cinemateca Portuguesa
A propos d’une rivière (1955), de Georges Franju
Portugal’s men of the sea (1968), de George Sluizer

Sexta-feira, 23 de Janeiro, 21h30
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
Filmes:
As Sereias (2001), de Paulo Rocha
António Palolo: ver o pensamento a correr (1995), de Jorge Silva Melo
A piscina (2004), de Iana Ferreira e João Viana

Sábado, 24 de Janeiro, 16h
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
Oficina de projecção em 16mm com Maximino Santos.
Filme: Pas de deux (1968), de Norman McLaren

Segunda-feira, 26 de Janeiro, 19h
Cinemateca Portuguesa
A greve (1925), de Sergei Eisenstein

Sexta-feira, 30 de Janeiro, 22h
Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul
COM UM V NA VOLTA
Um concerto com velhos e novos amigos que teimam na construção de outra cultura, de partilha, liberdade e resistência.

> Entrada gratuita nas sessões na Casa da Achada e no concerto na Guilherme Cossoul. Preços habituais para as sessões na Cinemateca.

domingo, 30 de novembro de 2014

menina, não se pode andar com os pés em cima dos sofás...



devias ter mais atenção
ao que dizes

dentro da cabeça uma lista de ordens e deveres
e dentro da caixa fechada o vulcão

cuidado com o vulcão e as populações à volta
sempre a deslocarem-se às previsões da lava!

um dia de sol interrompe éticas e bondades
confundidas com alegrias verdadeiras
enquanto se atira para o fundo do buraco a não-vida
que é uma espécie de vida mas meio morrida
- escolheste?

tem de ser diz o chefe de quem todos precisam para saber o que fazer

e o chefe não sabe mas diz
tens de fazer assim
porque foi assim que aprendi
e que toda a humanidade...

'pera lá!
toda a humanidade?
carago!
desde quando?

precisar da história para a contar de outra maneira
eis um pequeno dilema
que não interessa ao menino jesus mas devia interessar

deitar fora a história não posso
porque sou antes de ter nascido
e há uma ligação
(sobre a legítima hipótese nihilista discutiremos no próximo episódio)

uma data de enganos a que chamam
cultura
pois cultura seria passagem consciência luta emancipação
em relâmpagos de amor e conhecimento
com a forma indecisa e excessiva da liberdade

mas não se pode andar com os pés em cima dos sofás!
a não ser que o educador ande equivocado
e confunda a liberdade com o seu medo
tanto tanto
que o medo engole a liberdade e faz dela um tapete
para as glórias dos imperadores
(migalhas chovem sobre os cérebros desligados dos seus fervorosos apoiantes)

viram?
é o que dá liberdade a mais
e a polícia, não faz nada?
escândalo!
título de jornal!
(sim, ainda há jornais)

a meus olhos, lençóis de comentadores inevitabilíssimos do regime!
- muitos, até que o pensamento coza

santo deus!
nossa senhora!
(o deus e a senhora não foram convidados para este beberete mas são frequentemente invocados)
 
que palavras restam?
duas ou três, não sei bem quais
deve ser aquela do respeito
e a outra da humildade
mais a paciência, tem de ser
santa, santa...

senta, bobi, senta!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Portaria nº 215/2011 de 31 de Maio (Permitido Fafá)


A Fafá é um cão de assistência
quando falta um efe aos outros
e dizem os editais
proibida a entrada a animais

A Fafá é um cão bonsai
que não tem de se podar
e dizem os editais
proibida a entrada a animais

A Fafá é permitida
a Fafá é consentida
Fafá não late demais
à Fafá falta-lhe o rabo
prefere álcool a nabo
e assiste os animais

há uma ou duas semanas

Que noite tão linda. Caralho.
Que noite tão saborosa.
Se, nas cidades, o ser humano se guiasse pela natureza, só se saía à noite em noites assim. Guardavam-se estas para isso, fossem
sextas, quintas ou terças.
Diferente mais quente
o vibrar das cordas
e a única altura em que sorrimos por a rua ser anónima e cosmopolita
u-tópica
Era regressar assim à inês
com um sentar na pedra
e um sacar de caderno
esquecer o medo
improvisar

E em segundos
ter de achar sítio pra fazer chichi.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

tentativas

Na minha casa suja
corroo fel verde no estômago
reviro as regueifas pra dentro do avesso
sibilantes secas e ranger da madeira
dor que não se diz
raiva medo nojo ódio
pontapés de pés entumescidos de imóveis
gritos a rasgar peitos de não saírem
o tudo perdido
o só
cresce o umbigo pra dentro da barriga
acende-se o ardor desse cancro que se cria
quer-se morte

não se sabe dar ao corpo
a roda e o joão e o calor
aprendidos nos primeiros livros


*


desde quando este chorar louco
que não se pode explicar
e atrás da porta o papão da razão
a soluçar a saber do meu atraso de amanhã
ou a falta de cérebro por um dia

quando as chaves da jaula
quando o riso nunca

néstias réstias empeste-as
empreste-as más
ou então beber a loucura por uma vida
uma noite
de constelações

já descarreguei
a aplicação das estrelas


*


deixem-me
mini-choques
eléctricos ardentes
latejar de células
excitadas extenuadas
acabadas de ressequidas
de absorvidas

deixem-me
paz tréguas
espaço léguas
o fresco leve dia
que já não há
rugas, buracos de dores
em luta
contra o coração
sapos, açaimes, adiamentos
fugas, cimentos cinzentos
monstros

eu tinha uma espada que derreteu

terça-feira, 30 de setembro de 2014

com que mundo sonho quando estou acordado

[para o desafio da Casa da Achada - Centro Mário Dionísio]

os sonhos que eu tenho são tantos
medonhos ou em esperanto
de espanto
sem santos
sonhos em que são as mãos das gentes
a construir pingentes dentes lentes
e também têm diluente
para apagar o por-si-só
para apagar o com-dó
para apagar este nó
do dia cinzento
e também têm fermento
de fazer crescer relações amizades construções sem piedade
com vontade 
nada por rotina amorfa  se for assassina e coxa 
mas por rotina do encontro
e também têm confronto
muitas discussões acesas murros nas mesas
brilho nos olhos

olhos de maçariku
mijar fora do penico
pra ter um penico – no quarto
pra lutar contra o penico – da praxe
pra ver se depenico o macho
e se o despacho até ser história

quando sonho acordada estou desanimada
mas quando sonho acordada vejo outra estrada
quando sonho acordada estou bué irritada
mas se sonho acordada…
se sonho acordada não sonho a dormir
se sonho acordada não vivo sem sonhar
se a vida tem sonhos porquê separar a falta de vida e a vida a fazer
juntamos eu, tu, ele, pele com pele
pêlo com pêlo
- isto é um sonho
mas podemos fazê-lo -
e a tua cena e o meu combate
a lua, a pequena, o papel mate
os gritos da gente com casa e da casa com gente
não nos roubem a rede nem a semente
comprimidos no lixo, não somos doentes
não quero mais pra trás, quero lá à frente
traz a frigideira, eu levo um pente
sonha comigo, vais estar presente?

depois sinto-me sozinha de repente
(mas isto é sonho ou é acordada?)
e por isso não durmo  só fumo
não como  só um gomo
não mijo  só finjo
não aqueço  só deixo amargura
encarapaço a ternura
apodreço por dentro, escura
e a pincelada discrepante o riso dissonante o poeta ao viandante
está sempre ao virar da esquina, sonho
cor amarelo espesso e vivo, sonho
toque nos ombros psst psst dança, sonho
frase ingénua duma criança, sonho
e os reguilas dos putos o lodo dos xutos
não te deixes cair em tentações melancólicas
acrescente-se melodramancólicas
acrescente-se alcoólicas
acrescente-se apostólicas
ou pistólicas ou bucólicas

sonho com saber se te vou ter comigo
no meio do perigo
sem abrigo, a experimentar
esta outra forma que desenhámos
mais um tentar que ainda não tentámos
mais um gritar que ainda vivemos existimos resistimos
no meio do laranja psd e do ps laranja
no meio da canja da galinha dos ovos de crise
untada com creme Grise, perfumada com Breeze
segurada por teasers, bastões e detenções
barreiras e fronteiras, prisões
preços terços e prestações
eu não sonho a prestações vai-se-me a cabeça rolando
ruminando rodando os filmes da insónia
nitrato de amónia
são quatro da manhã e eu quero dormir e só sei
sonhar acordada

por isso é difícil adormecer

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

sublimação em sol

Os meus dedos são agulhas de lã na noite amarela do jardim sonhado.
Dão pontos ao rasgar dos beiços na palavra salgada,
pulsante.
Sou pessoa toda agora mas só mexo a língua.
Não fico,
não voo,
não olho nem rio,
só espalho.
Os meus dedos no baloiço são agulhas de lã num jardim sonhado.
O músculo não vejo, tresvejo.
Uma chaleira pressionada a transformar o assobio,
um cesto cheio de lixo.

Marta Raposo

terça-feira, 9 de setembro de 2014

outro assobio da Marta

 
A propósito da "libertação em lá", a Marta Raposo mandou ainda este desenho-assobio. A menina pires nem pediu autorização para publicar. Esperemos que a sua amiga Marta não se zangue.
 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ali se do outro lado da silhueta


recebi uma carta da Marta Raposo:

E ainda assim
o teu braço é uma colher de pau a (re)escrever nos espaços;
a abrir os cofres das dores ouvidas,
saboreadas.

Gesto latente
que não dá as costas
nem aos espelhos, nem aos cansaços.


e a Marta também pintou:


 

desconstruído

nascer
crescer iludir
dar
sentir

ter
vomitar
chegar a ter
querer

bolha
paredes sabão
tudo
drogas
amigos amor afecto construção
cores artes canções objectos
morte separação desinteresse
vida lodo

bicho
vergonha
fotografias
futuro
medo
estrelas
dinossauros

viscoso pútrido

terça-feira, 26 de agosto de 2014

libertação em lá

A minha mão é uma faca de aço na luz vermelha da sala acordada.
Dá de comer ao cuspir dos beiços o doce gelado,
provocante.
Sou pessoa toda diferente mas só mexo as orelhas.
Não fujo,
não paro,
não calo nem caio,
só limpo.
A minha mão na cadeira é uma faca de aço numa sala acordada.
Os pés não os vejo, tresvejo.
Uma tampa depressiva que não cala o assobio,
um chapéu cheio de pedras.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

prisão em si

O meu braço é uma colher de pau na sombra azul da cozinha adormecida.
Dá de beber ao sorver dos beiços o ácido abrasivo,
paralisante.
Sou pessoa toda igual mas só mexo os olhos.
Não articulo,
não ando,
não tujo nem mujo,
só sujo.
O meu braço na cama é uma colher de pau numa cozinha adormecida.
A cabeça não a vejo, tresvejo.
Uma panela de pressão já sem fôlego pró assobio,
uma lata cheia de sopa.

domingo, 10 de agosto de 2014

Traficante de sonhos

O Maçariku gostava de máquinas. Máquinas de luz, de imagem, de som. Câmaras, projectores, gravadores e até instrumentos musicais que não sabia tocar. Dava aos amigos, mostrava, usava, trocava nas feiras. A feira da ladra de Lisboa em primeiro lugar, claro. A feira já não será a mesma sem o Maçariku, esse passador de coisas e de ideias. E as coisas para ele não eram só objectos para coleccionar - tinham ideias lá dentro. Trocar, passar, presentear. Traficante de sonhos e de objectos, contrabandista de ferramentas de transformação para dar sentido a um mundo onde não se pode passar sem um bocadinho de tristeza. Mas não é tristeza para ficar parado. Pode ser uma caixinha de música para ajudar nos combates.

Uma maneira de estar
O Maçariku ensinou de tudo a toda gente. Mas ensina-se uma maneira de estar? Uma maneira de estar intensamente na vida, sem separar acção e pensamento, sem desligar as técnicas das ideias, sem opor a militância e o sonho, sem apartar as pessoas e as máquinas, as crianças e os adultos, os vinhos e as letras, sem saber afastar a cultura da política e amizade da luta. Saber fazer e dar sentido a esse fazer. Contra o empobrecimento da vida, ele provocava. Militante, mas antimilitarista (o "Tropa Não!"). Pela diferença, anti-racista. Contra os chefes, antifascista. Pela igualdade, mas nunca a das paisagens lisas, porque ele era adversário da "normalidade". Podia dizer "o que tem de ser tem muita força", mas cinismo não, cinismo nunca. Rugosas cidades de antagonismo e solidariedade, de combates e passagens, de barricadas e revoluções, de amigos e de toda a gente ainda por conhecer, de cafés e ruas, e ruas e ruas e ruas. Lisboa, como a palma da sua mão.

Com o corpo todo
Rigorosamente desobediente, o Maçariku falava uma língua só dele, cheia de interjeições, olhares, esbracejares, esgares, gritos, uivos, sussurros. Ele gritava com o corpo todo para nos acordar. Mas sussurrava as palavras mais importantes. Não sabia esconder o seu olhar atento por detrás do cabelo (que olhos bonitos!), nem a barba escondia o seu sorriso aberto, desafio constante ao mundo tristonho.

Levanta a pedrinha
Antagonista revolucionário das opções fechadas, das dominações fora e dentro da cabeça, dos caminhos fáceis do marketing. Fazemos então muito mais, muito mais transformador. E convidamos aqueles também, provocamos aqueloutros também, vamos conhecer gente que faça. Que saiba fazer porque vive. Que saiba pensar porque faz. "Levanta a pedrinha, oooooo!..." Porque, para além da amizade, era a transformação do mundo nas lutas da história o critério da sua indisciplinada disciplina. Nas lutas grandes e pequenas. E as pequenas são enormes, decisivas, entusiasmantes e belas.

Maçarico
Um pássaro das regiões costeiras? Um jovem que ainda não sabe tudo? Uma ferramenta com chama? Sabe-se lá. A gente só sabe que a sua última máquina parou - o coração. A vida vai: "Bute, bute!"

Maçariku

 
Naquela altura eu não sabia bem se se dizia filmagem ou filmação. Eu votava BCG.
Tinha febre e fizemos o guião de um filme e nunca fizemos o filme.
Vontade sempre de dar tudo, promessas atrás de promessas, quem dá também tira.
A idade foi de ouro até chegar à prateleira.
Tira-me esse cabelo da frente dos olhos ternos, vivos, atira-o para o lado, andar gingão.
As mãos que se davam às conversas, aos cigarros, às máquinas de filmar, ao prego e aos ombros dos outros. Aos nossos ombros.
Murcham corações. Atordoam-se antenas.
À procura da vibração das cordas da tua voz, da voz, da voz, da tua voz de encher espaços. À procura, à procura, à procura. E a puta da vida que não se rebobina.
As feridas demasiado grandes de sangue encarnado vivo, a tua cor, o vermelho, o oito, a bola preta, as contas redondas, tudo apalavrado.
O homem dos sete instrumentos, o soldadinho, os artesãos e militantes e clandestinos, velhos, de rugas, dificuldade de andar, com quem querias aprender tudo, para quem olhavas com os tais ternos olhos. Mas só querias viver até aos cinquenta, tu, o pescador de mar e de lixo.
E os tantos que ensinavas ficam como, agora? As crianças que ainda não sabem nada, os adolescentes que precisam de desprezo, os atados que têm de se desatar para fazer alguma merda interessante deste mundo.
Emprestavas com um v na volta, de vítor. Do viriato que era chato. Da vida, tão alegre e destemida como outra coisa qualquer. Os beijos no sítio do costume, as voltas ao bilhar grande, ou então uma curva. A fita do vhs.
Dá-me medo de escrever, posso perder-te mais assim. Mas se não escrever?
Os olhos dos mais novos iguais aos dos mais velhos. E os dos gatos, dos cães, horas a brincar, anedotas, gozos, distribuidor de risos. Era uma vez um cão que só tinha três patas, ao fazer chichi, caiu.
Fazer quase tudo o que se quer como se quer. Queres apostar?
Pôr tudo a andar, construir coisas. Ser bastidores, estrutura, a força, a base, o motor. Pedir e forjar amor. Discutir e não ceder. Teimar com e sem razão, teimar sempre. Com quem se ama, sempre.
Acumular pó, máquinas, quadros e bocados de pedra ou de metal que ninguém sabe o que são. Espreitar de curiosidade, chamar um cúmplice, mais vivos os olhos, mãos a falar. Coleccionar de tudo. Dar e tirar, trocar. Fiar. Focar.
Dobrar combates com um isqueiro ou uma garrafa de cerveja. Despachar as coisas, meter as mãos, resolver. Sozinho e com outros. Não embirrar à partida, só embirrar depois e se. E se depois e se, embirrar tudo.
Fugirmos na lata do bora-bora, janela aberta, muito ventil, um jornal por dia, chupar gasolina para cozinhar o bacalhau. Estado espanhol, viagens, férias, praias, tendas, casas com vacas e moscas, canas de pesca, xadrez, rios e cidra e sacos-cama. Ou então vamos só aos caracóis.
Lisboa sem ti, a palma da tua mão, as pedras da calçada, os prédios, as pessoas a virar esquinas, faz isto sentido? Por onde respira?
E esta casa, e esta companheira de vida, e esta filha, e estes filhos todos, e estes manos todos e estes todos todos?
Apetece-nos murros contra muros até ver estrelas de cinco pontas.
Mas a gente vai continuar. É só ter a tua voz aqui na cabeça. E o que tem de ser tem muita força.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

a dor alheia à menina

menina,
a sua silhueta disse-me
da maneira mais bonita
que já não acorda com os meus olhos

e contudo eu vi na sombra
verdes e castanhos, quase amarelados à volta
esses seus que sem luz vêem o cá dentro

vi-os com menina
vi-os com será
vi-os carregados
com a dor alheia
e um robalo

Depois disto, a menina cantou:

vai amar
pescador
pesca pesca
pesca peixe pesca

senta-te à mesa
e bebe
pescador
bebe vinho bebe

deita-te na cama
e dorme
pescador
dorme tudo dorme


entretanto

A morte só antes e depois: tudo é vida entretanto no humano.

de meu bem desenganado

Engano?
Não! Porquê engano?

Sim, é tudo biologia.
É tudo cultura e biologia.
É tudo comida, cultura e biologia.
É tudo bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo música, electricidade, bebida, comida e biologia.
É tudo história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo poesia, jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.

(Engano não, engano não, engano não, engano não.)