segunda-feira, 9 de março de 2015
não escrever
escrever sempre sobre este momento que não há nem entre a sala de jantar e o corredor nem no mármore das trilobites, esconder caderno depois e antes mas isso era dantes quando havia ar entre as trilobites, grafites em estojos, agora só a fingir que é prosa poesia disfarçada e de coração nas mãos a correr antes do soar do trinco ou do correr na calha das calhas da porta, e por lá não entra mais aquele que não entra nunca, escrever sempre sobre este que não entra nunca e sempre força à filme que filma a dobradiça em espasmos de pancadas, sempre força e não o queremos deixar entrar porque assim era assim era assim, gritar de insuficiência ingorância e perda do lugar espaço espaço lugar momento sítio de isto sítio de aqui poder ser ali poder fazer sair, buracos de luz eléctrica branca penas águas humidades ecos de metal pouco sal calcarite, pontos de fuga loucos amenos são barcos e algas verdes arcos de chorões e passagens em cavernas e caminhos de terra e madeira e o sol quente sem ferir os olhos, calha da porta
quarta-feira, 4 de março de 2015
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
capa
como uma parede ciclorama de eme
em torno de toda a volta entornada circular
a fazer parede que não se pode passar
com a cara impressa a presença a permanência
uma parede cenário lá na visão periférica
que não deixa ser vista de frente
bate contra os olhos repele
como a rede de tensão do jurassic park
parede dura intransponível olhona
fechadura correia mordaça cheia de carinho impossível
lágrimas impossíveis gritos impossíveis
cenários corredores sempre lá sempre turvo
como pedras da calçada e prédios e portas
ou troncos de árvores bocas de incêndio pra que não olhamos
e só acima o céu e é para lá que vou de vez em quando
e na terra para todas aquelas mãos que é preciso
sorrir acompanhar esmolar e decidir
adiar adiar adiar para a frente para longe para nunca
andar com o ciclorama na nuca
enterrar pisar desespero gritar fechar os olhos é pior
azeite na nuca casca de banana empatar ocupar
e eu com a consciência toda e sem chaves
não dá para aproximar
carapaça eléctrica sem antídoto
o corno da cabeça por partir
em torno de toda a volta entornada circular
a fazer parede que não se pode passar
com a cara impressa a presença a permanência
uma parede cenário lá na visão periférica
que não deixa ser vista de frente
bate contra os olhos repele
como a rede de tensão do jurassic park
parede dura intransponível olhona
fechadura correia mordaça cheia de carinho impossível
lágrimas impossíveis gritos impossíveis
cenários corredores sempre lá sempre turvo
como pedras da calçada e prédios e portas
ou troncos de árvores bocas de incêndio pra que não olhamos
e só acima o céu e é para lá que vou de vez em quando
e na terra para todas aquelas mãos que é preciso
sorrir acompanhar esmolar e decidir
adiar adiar adiar para a frente para longe para nunca
andar com o ciclorama na nuca
enterrar pisar desespero gritar fechar os olhos é pior
azeite na nuca casca de banana empatar ocupar
e eu com a consciência toda e sem chaves
não dá para aproximar
carapaça eléctrica sem antídoto
o corno da cabeça por partir
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Com um V na volta e o Maçariku na cabeça nas mãos na voz
A pensar nos concertos do Tropa Não, e outros, que o Maçariku organizou nas Palmeiras já lá vão umas décadas.
A pensar nas formas simples de fazer coisas quando são necessárias e quando se quer fazê-las.
A pensar no que se passa hoje e no que queremos que se passe hoje e amanhã.
Um concerto com velhos e novos amigos que teimam na construção de outra cultura, de partilha, liberdade e resistência: Coro da Achada * dUAS sEMI cOLCHEIAS iNVERTIDAS * Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e Carlos Santos * João Morais, Rui Lucena, Filipe Brito e Diana Dionísio * João Paulo Esteves da Silva e Margarida Guia * João San Payo e amigos * No Mínimo K
A entrada é livre.
Sexta-feira, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.
A pensar nas formas simples de fazer coisas quando são necessárias e quando se quer fazê-las.
A pensar no que se passa hoje e no que queremos que se passe hoje e amanhã.
Um concerto com velhos e novos amigos que teimam na construção de outra cultura, de partilha, liberdade e resistência: Coro da Achada * dUAS sEMI cOLCHEIAS iNVERTIDAS * Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e Carlos Santos * João Morais, Rui Lucena, Filipe Brito e Diana Dionísio * João Paulo Esteves da Silva e Margarida Guia * João San Payo e amigos * No Mínimo K
A entrada é livre.
Sexta-feira, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Com um V na volta
Maçariku, aliás Vítor Ribeiro, fez de tudo no cinema, no teatro, em associações culturais e organizações políticas. Lutou pela liberdade dentro e fora da cabeça, contra o racismo, o militarismo, a exploração. Trocava artes, coisas e ideias, fazia com e para os outros e coleccionava amigos no meio disso. Organizou centenas de encontros e concertos, participou em grandes e pequenos combates, fez de tudo com rebeldia, resistiu até não mais poder. Maçariku cultivou as amizades como quem semeia desobediência, entusiasmo, internacionalismo. Morreu em Agosto passado, e deixou tanta coisa, tanta gente.
A Casa da Achada e amigos propõem e convidam a participar numa série de sessões a partir dele, com uma diversidade de actividades que nunca será capaz de dar conta de uma vida tão rica e intensa, mas tenta pelo menos pegar nas suas coisas, nas suas ideias, nos seus modos de ser e passar as coisas aos outros.
Amigos e conhecidos intervêm, mostram-se máquinas velhas e outras a funcionar, há músicas, conversas, poemas e ferramentas, mostram-se filmes feitos por ele e filmes com ele lá dentro (na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio), e ainda uma série de filmes da sua colecção (na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema). Para terminar, um concerto resistente a pensar no que vibra ainda da sua presença atenta e livre para os combates futuros. Bebe mais um copo, Maçariku.
Sábado, 17 de Janeiro, 15h
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
TANTA COISA
Intervenções livres, filmes, ideias, escadotes, músicas, objectos, luzes, som, câmara, poemas, andaimes, instrumentos… e tudo o mais que desaprendemos e aprendemos com o Maçariku.
Domingo, 18 de Janeiro, 17h
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
MODOS DE FAZER E PENSAR
Filmes e conversa com Ângela Luzia, João Carlos Louçã e outros.
Projecção de Viver, Aprender e Trabalhar na Península de Setúbal (1997), de Eduarda Dionísio, João Carlos Louçã e Vítor Ribeiro + excertos de entrevistas a Francisco Castro Rodrigues, feitas por Eduarda Dionísio e Vítor Ribeiro
Segunda-feira, 19 de Janeiro, 21h30
Cinemateca Portuguesa
La Bandera (1935), de Julien Duvivier
Terça-feira, 20 de Janeiro, 19h
Cinemateca Portuguesa
Milou en mai (1990), de Louis Malle
Quarta-feira, 21 de Janeiro, 21h30
Cinemateca Portuguesa
Sois belle et tait-toi (1958), de Marc Allégret
Quinta-feira, 22 de Janeiro, 19h
Cinemateca Portuguesa
A propos d’une rivière (1955), de Georges Franju
Portugal’s men of the sea (1968), de George Sluizer
Sexta-feira, 23 de Janeiro, 21h30
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
Filmes:
As Sereias (2001), de Paulo Rocha
António Palolo: ver o pensamento a correr (1995), de Jorge Silva Melo
A piscina (2004), de Iana Ferreira e João Viana
Sábado, 24 de Janeiro, 16h
Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
Oficina de projecção em 16mm com Maximino Santos.
Filme: Pas de deux (1968), de Norman McLaren
Segunda-feira, 26 de Janeiro, 19h
Cinemateca Portuguesa
A greve (1925), de Sergei Eisenstein
Sexta-feira, 30 de Janeiro, 22h
Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul
COM UM V NA VOLTA
Um concerto com velhos e novos amigos que teimam na construção de outra cultura, de partilha, liberdade e resistência.
> Entrada gratuita nas sessões na Casa da Achada e no concerto na Guilherme Cossoul. Preços habituais para as sessões na Cinemateca.
domingo, 30 de novembro de 2014
menina, não se pode andar com os pés em cima dos sofás...
devias ter mais atenção
ao que dizes
dentro da cabeça uma lista de ordens e deveres
e dentro da caixa fechada o vulcão
cuidado com o vulcão e as populações à volta
sempre a deslocarem-se às previsões da lava!
um dia de sol interrompe éticas e bondades
confundidas com alegrias verdadeiras
enquanto se atira para o fundo do buraco a não-vida
que é uma espécie de vida mas meio morrida
- escolheste?
tem de ser diz o chefe de quem todos precisam para saber o
que fazer
e o chefe não sabe mas diz
tens de fazer assim
porque foi assim que aprendi
e que toda a humanidade...
'pera lá!
toda a humanidade?
carago!
desde quando?
precisar da história para a contar de outra maneira
eis um pequeno dilema
que não interessa ao menino jesus mas devia interessar
deitar fora a história não posso
porque sou antes de ter nascido
e há uma ligação
(sobre a legítima hipótese nihilista discutiremos no próximo
episódio)
uma data de enganos a que chamam
cultura
pois cultura seria passagem consciência luta emancipação
em relâmpagos de amor e conhecimento
com a forma indecisa e excessiva da liberdade
mas não se pode andar com os pés em cima dos sofás!
a não ser que o educador ande equivocado
e confunda a liberdade com o seu medo
tanto tanto
que o medo engole a liberdade e faz dela um tapete
para as glórias dos imperadores
(migalhas chovem sobre os cérebros desligados dos seus
fervorosos apoiantes)
viram?
é o que dá liberdade a mais
e a polícia, não faz nada?
escândalo!
título de jornal!
(sim, ainda há jornais)
a meus olhos, lençóis de comentadores inevitabilíssimos do
regime!
- muitos, até que o pensamento coza
santo deus!
nossa senhora!
(o deus e a senhora não foram convidados para este beberete
mas são frequentemente invocados)
que palavras restam?
duas ou três, não sei bem quais
deve ser aquela do respeito
e a outra da humildade
mais a paciência, tem de ser
santa, santa...
senta, bobi, senta!
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Portaria nº 215/2011 de 31 de Maio (Permitido Fafá)
A Fafá é um cão de assistência
quando falta um efe aos outros
e dizem os editais
proibida a entrada a animais
A Fafá é um cão bonsai
que não tem de se podar
e dizem os editais
proibida a entrada a animais
A Fafá é permitida
a Fafá é consentida
Fafá não late demais
à Fafá falta-lhe o rabo
prefere álcool a nabo
e assiste os animais
há uma ou duas semanas
Que noite tão linda. Caralho.
Que noite tão saborosa.
Se, nas cidades, o ser humano se guiasse pela natureza, só se saía à noite em noites assim. Guardavam-se estas para isso, fossem
sextas, quintas ou terças.
Diferente mais quente
o vibrar das cordas
e a única altura em que sorrimos por a rua ser anónima e cosmopolita
u-tópica
Era regressar assim à inês
com um sentar na pedra
e um sacar de caderno
esquecer o medo
improvisar
E em segundos
ter de achar sítio pra fazer chichi.
Que noite tão saborosa.
Se, nas cidades, o ser humano se guiasse pela natureza, só se saía à noite em noites assim. Guardavam-se estas para isso, fossem
sextas, quintas ou terças.
Diferente mais quente
o vibrar das cordas
e a única altura em que sorrimos por a rua ser anónima e cosmopolita
u-tópica
Era regressar assim à inês
com um sentar na pedra
e um sacar de caderno
esquecer o medo
improvisar
E em segundos
ter de achar sítio pra fazer chichi.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
tentativas
Na minha casa suja
corroo fel verde no estômago
reviro as regueifas pra dentro do avesso
sibilantes secas e ranger da madeira
dor que não se diz
raiva medo nojo ódio
pontapés de pés entumescidos de imóveis
gritos a rasgar peitos de não saírem
o tudo perdido
o só
cresce o umbigo pra dentro da barriga
acende-se o ardor desse cancro que se cria
quer-se morte
não se sabe dar ao corpo
a roda e o joão e o calor
aprendidos nos primeiros livros
*
desde quando este chorar louco
que não se pode explicar
e atrás da porta o papão da razão
a soluçar a saber do meu atraso de amanhã
ou a falta de cérebro por um dia
quando as chaves da jaula
quando o riso nunca
néstias réstias empeste-as
empreste-as más
ou então beber a loucura por uma vida
uma noite
de constelações
já descarreguei
a aplicação das estrelas
*
deixem-me
mini-choques
eléctricos ardentes
latejar de células
excitadas extenuadas
acabadas de ressequidas
de absorvidas
deixem-me
paz tréguas
espaço léguas
o fresco leve dia
que já não há
rugas, buracos de dores
em luta
contra o coração
sapos, açaimes, adiamentos
fugas, cimentos cinzentos
monstros
eu tinha uma espada que derreteu
corroo fel verde no estômago
reviro as regueifas pra dentro do avesso
sibilantes secas e ranger da madeira
dor que não se diz
raiva medo nojo ódio
pontapés de pés entumescidos de imóveis
gritos a rasgar peitos de não saírem
o tudo perdido
o só
cresce o umbigo pra dentro da barriga
acende-se o ardor desse cancro que se cria
quer-se morte
não se sabe dar ao corpo
a roda e o joão e o calor
aprendidos nos primeiros livros
*
desde quando este chorar louco
que não se pode explicar
e atrás da porta o papão da razão
a soluçar a saber do meu atraso de amanhã
ou a falta de cérebro por um dia
quando as chaves da jaula
quando o riso nunca
néstias réstias empeste-as
empreste-as más
ou então beber a loucura por uma vida
uma noite
de constelações
já descarreguei
a aplicação das estrelas
*
deixem-me
mini-choques
eléctricos ardentes
latejar de células
excitadas extenuadas
acabadas de ressequidas
de absorvidas
deixem-me
paz tréguas
espaço léguas
o fresco leve dia
que já não há
rugas, buracos de dores
em luta
contra o coração
sapos, açaimes, adiamentos
fugas, cimentos cinzentos
monstros
eu tinha uma espada que derreteu
terça-feira, 30 de setembro de 2014
com que mundo sonho quando estou acordado
[para o desafio da Casa da Achada - Centro Mário Dionísio]
os sonhos que eu tenho são tantos
medonhos ou em esperanto
de espanto
sem santos
sonhos em que são as mãos das gentes
a construir pingentes dentes lentes
e também têm diluente
para apagar o por-si-só
para apagar o com-dó
para apagar este nó
do dia cinzento
e também têm fermento
de fazer crescer relações amizades construções sem piedade
com vontade
nada por rotina amorfa
se for assassina e coxa
mas por rotina do encontro
e também têm confronto
muitas discussões acesas murros nas mesas
brilho nos olhos
olhos de maçariku
mijar fora do penico
pra ter um penico – no quarto
pra lutar contra o penico – da praxe
pra ver se depenico o macho
e se o despacho até ser história
quando sonho acordada estou desanimada
mas quando sonho acordada vejo outra estrada
quando sonho acordada estou bué irritada
mas se sonho acordada…
se sonho acordada não sonho a dormir
se sonho acordada não vivo sem sonhar
se a vida tem sonhos porquê separar a falta de vida e a vida
a fazer
juntamos eu, tu, ele, pele com pele
pêlo com pêlo
- isto é um sonho
mas podemos fazê-lo -
e a tua cena e o meu combate
a lua, a pequena, o papel mate
os gritos da gente com casa e da casa com gente
não nos roubem a rede nem a semente
comprimidos no lixo, não somos doentes
não quero mais pra trás, quero lá à frente
traz a frigideira, eu levo um pente
sonha comigo, vais estar presente?
depois sinto-me sozinha de repente
(mas isto é sonho ou é acordada?)
e por isso não durmo só fumo
não como só um gomo
não mijo só finjo
não aqueço só deixo
amargura
encarapaço a ternura
apodreço por dentro, escura
e a pincelada discrepante o riso dissonante o poeta ao
viandante
está sempre ao virar da esquina, sonho
cor amarelo espesso e vivo, sonho
toque nos ombros psst psst dança, sonho
frase ingénua duma criança, sonho
e os reguilas dos putos o lodo dos xutos
não te deixes cair em tentações melancólicas
acrescente-se melodramancólicas
acrescente-se alcoólicas
acrescente-se apostólicas
ou pistólicas ou bucólicas
sonho com saber se te vou ter comigo
no meio do perigo
sem abrigo, a experimentar
esta outra forma que desenhámos
mais um tentar que ainda não tentámos
mais um gritar que ainda vivemos existimos resistimos
no meio do laranja psd e do ps laranja
no meio da canja da galinha dos ovos de crise
untada com creme Grise, perfumada com Breeze
segurada por teasers, bastões e detenções
barreiras e fronteiras, prisões
preços terços e prestações
eu não sonho a prestações vai-se-me a cabeça rolando
ruminando rodando os filmes da insónia
nitrato de amónia
são quatro da manhã e eu quero dormir e só sei
sonhar acordada
por isso é difícil adormecer
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
sublimação em sol
Os meus dedos são agulhas de lã na noite amarela do jardim sonhado.
Dão pontos ao rasgar dos beiços na palavra salgada,
pulsante.
Sou pessoa toda agora mas só mexo a língua.
Não fico,
não voo,
não olho nem rio,
só espalho.
Os meus dedos no baloiço são agulhas de lã num jardim
sonhado.
O músculo não vejo, tresvejo.
Uma chaleira pressionada a transformar o assobio,
um cesto cheio de lixo.
Marta Raposo
terça-feira, 9 de setembro de 2014
outro assobio da Marta
A propósito da "libertação em lá", a Marta Raposo mandou ainda este desenho-assobio. A menina pires nem pediu autorização para publicar. Esperemos que a sua amiga Marta não se zangue.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
ali se do outro lado da silhueta
recebi uma carta da Marta Raposo:
E ainda assim
o teu braço é uma colher de pau a (re)escrever nos espaços;
a abrir os cofres das dores ouvidas,
saboreadas.
Gesto latente
que não dá as costas
nem aos espelhos, nem aos cansaços.
e a Marta também pintou:
desconstruído
nascer
crescer iludir
dar
sentir
ter
vomitar
chegar a ter
querer
bolha
paredes sabão
tudo
drogas
amigos amor afecto construção
cores artes canções objectos
morte separação desinteresse
vida lodo
bicho
vergonha
fotografias
futuro
medo
estrelas
dinossauros
viscoso pútrido
terça-feira, 26 de agosto de 2014
libertação em lá
A minha mão é uma faca de aço na luz vermelha da sala acordada.
Dá de comer ao cuspir dos beiços o doce gelado,
provocante.
Sou pessoa toda diferente mas só mexo as orelhas.
Não fujo,
não paro,
não calo nem caio,
só limpo.
A minha mão na cadeira é uma faca de aço numa sala acordada.
Os pés não os vejo, tresvejo.
Uma tampa depressiva que não cala o assobio,
um chapéu cheio de pedras.
Dá de comer ao cuspir dos beiços o doce gelado,
provocante.
Sou pessoa toda diferente mas só mexo as orelhas.
Não fujo,
não paro,
não calo nem caio,
só limpo.
A minha mão na cadeira é uma faca de aço numa sala acordada.
Os pés não os vejo, tresvejo.
Uma tampa depressiva que não cala o assobio,
um chapéu cheio de pedras.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
prisão em si
O meu braço é uma colher de pau na sombra azul da cozinha adormecida.
Dá de beber ao sorver dos beiços o ácido abrasivo,
paralisante.
Sou pessoa toda igual mas só mexo os olhos.
Não articulo,
não ando,
não tujo nem mujo,
só sujo.
O meu braço na cama é uma colher de pau numa cozinha adormecida.
A cabeça não a vejo, tresvejo.
Uma panela de pressão já sem fôlego pró assobio,
uma lata cheia de sopa.
Dá de beber ao sorver dos beiços o ácido abrasivo,
paralisante.
Sou pessoa toda igual mas só mexo os olhos.
Não articulo,
não ando,
não tujo nem mujo,
só sujo.
O meu braço na cama é uma colher de pau numa cozinha adormecida.
A cabeça não a vejo, tresvejo.
Uma panela de pressão já sem fôlego pró assobio,
uma lata cheia de sopa.
domingo, 10 de agosto de 2014
Traficante de sonhos
O Maçariku gostava de máquinas.
Máquinas de luz, de imagem, de som. Câmaras, projectores,
gravadores e até instrumentos musicais que não sabia tocar. Dava
aos amigos, mostrava, usava, trocava nas feiras. A feira da ladra de
Lisboa em primeiro lugar, claro. A feira já não será a mesma sem o
Maçariku, esse passador de coisas e de ideias. E as coisas para ele
não eram só objectos para coleccionar - tinham ideias lá dentro.
Trocar, passar, presentear. Traficante de sonhos e de objectos,
contrabandista de ferramentas de transformação para dar sentido a um mundo onde não
se pode passar sem um bocadinho de tristeza. Mas não é tristeza
para ficar parado. Pode ser uma caixinha de música para ajudar nos
combates.
Uma maneira de estar
O Maçariku ensinou de tudo a toda
gente. Mas ensina-se uma maneira de estar? Uma maneira de estar
intensamente na vida, sem separar acção e pensamento, sem desligar
as técnicas das ideias, sem opor a militância e o sonho, sem
apartar as pessoas e as máquinas, as crianças e os adultos, os vinhos e as letras, sem saber
afastar a cultura da política e amizade da luta. Saber fazer e dar
sentido a esse fazer. Contra o empobrecimento da vida, ele provocava.
Militante, mas antimilitarista (o "Tropa Não!"). Pela
diferença, anti-racista. Contra os chefes, antifascista. Pela igualdade, mas nunca a das paisagens
lisas, porque ele era adversário da "normalidade". Podia
dizer "o que tem de ser tem muita força", mas cinismo não,
cinismo nunca. Rugosas cidades de antagonismo e solidariedade, de
combates e passagens, de barricadas e revoluções, de amigos e de
toda a gente ainda por conhecer, de cafés e ruas, e ruas e ruas e
ruas. Lisboa, como a palma da sua mão.
Com o corpo todo
Rigorosamente desobediente, o Maçariku
falava uma língua só dele, cheia de interjeições, olhares,
esbracejares, esgares, gritos, uivos, sussurros. Ele gritava com o
corpo todo para nos acordar. Mas sussurrava as palavras mais
importantes. Não sabia esconder o seu olhar atento por detrás do
cabelo (que olhos bonitos!), nem a barba escondia o seu sorriso
aberto, desafio constante ao mundo tristonho.
Levanta a pedrinha
Antagonista revolucionário das opções
fechadas, das dominações fora e dentro da cabeça, dos caminhos
fáceis do marketing. Fazemos então muito mais, muito
mais transformador. E convidamos aqueles também, provocamos
aqueloutros também, vamos conhecer gente que faça. Que saiba fazer
porque vive. Que saiba pensar porque faz. "Levanta a pedrinha,
oooooo!..." Porque, para além da amizade, era a transformação
do mundo nas lutas da história o critério da sua indisciplinada
disciplina. Nas lutas grandes e pequenas. E as pequenas
são enormes, decisivas, entusiasmantes e belas.
Maçarico
Um pássaro das regiões costeiras? Um
jovem que ainda não sabe tudo? Uma ferramenta com chama? Sabe-se lá.
A gente só sabe que a sua última máquina parou - o coração. A
vida vai: "Bute, bute!"
Maçariku
Naquela altura eu não sabia bem se se dizia filmagem ou
filmação. Eu votava BCG.
Tinha febre e fizemos o guião de um filme e nunca fizemos o
filme.
Vontade sempre de dar tudo, promessas atrás de promessas,
quem dá também tira.
A idade foi de ouro até chegar à prateleira.
Tira-me esse cabelo da frente dos olhos ternos, vivos,
atira-o para o lado, andar gingão.
As mãos que se davam às conversas, aos cigarros, às máquinas
de filmar, ao prego e aos ombros dos outros. Aos nossos ombros.
Murcham corações. Atordoam-se antenas.
À procura da vibração das cordas da tua voz, da voz, da voz,
da tua voz de encher espaços. À procura, à procura, à procura. E a puta da vida
que não se rebobina.
As feridas demasiado grandes de sangue encarnado vivo, a tua
cor, o vermelho, o oito, a bola preta, as contas redondas, tudo apalavrado.
O homem dos sete instrumentos, o soldadinho, os artesãos e
militantes e clandestinos, velhos, de rugas, dificuldade de andar, com quem
querias aprender tudo, para quem olhavas com os tais ternos olhos. Mas só
querias viver até aos cinquenta, tu, o pescador de mar e de lixo.
E os tantos que ensinavas ficam como, agora? As crianças que
ainda não sabem nada, os adolescentes que precisam de desprezo, os atados que
têm de se desatar para fazer alguma merda interessante deste mundo.
Emprestavas com um v na volta, de vítor. Do viriato que era
chato. Da vida, tão alegre e destemida como outra coisa qualquer. Os beijos no
sítio do costume, as voltas ao bilhar grande, ou então uma curva. A fita do
vhs.
Dá-me medo de escrever, posso perder-te mais assim. Mas se
não escrever?
Os olhos dos mais novos iguais aos dos mais velhos. E os dos
gatos, dos cães, horas a brincar, anedotas, gozos, distribuidor de risos. Era
uma vez um cão que só tinha três patas, ao fazer chichi, caiu.
Fazer quase tudo o que se quer como se quer. Queres apostar?
Pôr tudo a andar, construir coisas. Ser bastidores,
estrutura, a força, a base, o motor. Pedir e forjar amor. Discutir e não ceder.
Teimar com e sem razão, teimar sempre. Com quem se ama, sempre.
Acumular pó, máquinas, quadros e bocados de pedra ou de
metal que ninguém sabe o que são. Espreitar de curiosidade, chamar um cúmplice,
mais vivos os olhos, mãos a falar. Coleccionar de tudo. Dar e tirar, trocar.
Fiar. Focar.
Dobrar combates com um isqueiro ou uma garrafa de cerveja.
Despachar as coisas, meter as mãos, resolver. Sozinho e com outros. Não
embirrar à partida, só embirrar depois e se. E se depois e se, embirrar tudo.
Fugirmos na lata do bora-bora, janela aberta, muito ventil,
um jornal por dia, chupar gasolina para cozinhar o bacalhau. Estado espanhol, viagens,
férias, praias, tendas, casas com vacas e moscas, canas de pesca, xadrez, rios
e cidra e sacos-cama. Ou então vamos só aos caracóis.
Lisboa sem ti, a palma da tua mão, as pedras da calçada, os
prédios, as pessoas a virar esquinas, faz isto sentido? Por onde respira?
E esta casa, e esta companheira de vida, e esta filha, e
estes filhos todos, e estes manos todos e estes todos todos?
Apetece-nos murros contra muros até ver estrelas de cinco pontas.
Apetece-nos murros contra muros até ver estrelas de cinco pontas.
Mas a gente vai continuar. É só ter a tua voz aqui na cabeça. E
o que tem de ser tem muita força.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
a dor alheia à menina
menina,
a sua silhueta disse-me
da maneira mais bonita
que já não acorda com os meus olhos
e contudo eu vi na sombra
verdes e castanhos, quase amarelados à volta
esses seus que sem luz vêem o cá dentro
vi-os com menina
vi-os com será
vi-os carregados
com a dor alheia
e um robalo
Depois disto, a menina cantou:
vai amar
pescador
pesca pesca
pesca peixe pesca
senta-te à mesa
e bebe
pescador
bebe vinho bebe
deita-te na cama
e dorme
pescador
dorme tudo dorme
a sua silhueta disse-me
da maneira mais bonita
que já não acorda com os meus olhos
e contudo eu vi na sombra
verdes e castanhos, quase amarelados à volta
esses seus que sem luz vêem o cá dentro
vi-os com menina
vi-os com será
vi-os carregados
com a dor alheia
e um robalo
Depois disto, a menina cantou:
vai amar
pescador
pesca pesca
pesca peixe pesca
senta-te à mesa
e bebe
pescador
bebe vinho bebe
deita-te na cama
e dorme
pescador
dorme tudo dorme
de meu bem desenganado
Engano?
Não! Porquê engano?
Sim, é tudo biologia.
É tudo cultura e biologia.
É tudo comida, cultura e biologia.
É tudo bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo música, electricidade, bebida, comida e biologia.
É tudo história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo poesia, jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
(Engano não, engano não, engano não, engano não.)
Não! Porquê engano?
Sim, é tudo biologia.
É tudo cultura e biologia.
É tudo comida, cultura e biologia.
É tudo bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo música, electricidade, bebida, comida e biologia.
É tudo história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo poesia, jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
(Engano não, engano não, engano não, engano não.)
com algumas raízes
#
inimigos os cemitérios que fecham
às seis de todos aqueles que receiam não ser anónimos nestas ruas mas que
desejam tanto como os outros sentir na pele e nas sinapses este calor seco de
derreter dedos nos dedos com esta luz acásica mágica
para poder a escrita estar aqui
é preciso ser-se anónimo
é preciso ser-se adolescente
para ser-se anónimo
- O teu tempo já
passou
- O teu sorriso
passou agora
ser-se louco ser-se louco
ser-se louco é outra hipótese
##
de repente a rua
era minha como
dantes
mas eu estava
excitada demais com
essa surpresa
não conseguia estar toda cá
percebi o lado
autodestrutivo
de agora e de antes
dedos nos dedos com
o mais intenso
prazer
talvez ganhe forças para ir comer
quando o sol se puser
no horizonte que não vejo
(só clarões atrás de prédios)
mas onde?
o quê?
###
não saber parar
não saber não
re-levantar
ter medo dos outros
raiva dos sons
falta de equilíbrio
sufocar
imobilizar
por dentro explodir
- e não sou a única
que mundo estúpido
como está.
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