Na minha casa suja
corroo fel verde no estômago
reviro as regueifas pra dentro do avesso
sibilantes secas e ranger da madeira
dor que não se diz
raiva medo nojo ódio
pontapés de pés entumescidos de imóveis
gritos a rasgar peitos de não saírem
o tudo perdido
o só
cresce o umbigo pra dentro da barriga
acende-se o ardor desse cancro que se cria
quer-se morte
não se sabe dar ao corpo
a roda e o joão e o calor
aprendidos nos primeiros livros
*
desde quando este chorar louco
que não se pode explicar
e atrás da porta o papão da razão
a soluçar a saber do meu atraso de amanhã
ou a falta de cérebro por um dia
quando as chaves da jaula
quando o riso nunca
néstias réstias empeste-as
empreste-as más
ou então beber a loucura por uma vida
uma noite
de constelações
já descarreguei
a aplicação das estrelas
*
deixem-me
mini-choques
eléctricos ardentes
latejar de células
excitadas extenuadas
acabadas de ressequidas
de absorvidas
deixem-me
paz tréguas
espaço léguas
o fresco leve dia
que já não há
rugas, buracos de dores
em luta
contra o coração
sapos, açaimes, adiamentos
fugas, cimentos cinzentos
monstros
eu tinha uma espada que derreteu
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
terça-feira, 30 de setembro de 2014
com que mundo sonho quando estou acordado
[para o desafio da Casa da Achada - Centro Mário Dionísio]
os sonhos que eu tenho são tantos
medonhos ou em esperanto
de espanto
sem santos
sonhos em que são as mãos das gentes
a construir pingentes dentes lentes
e também têm diluente
para apagar o por-si-só
para apagar o com-dó
para apagar este nó
do dia cinzento
e também têm fermento
de fazer crescer relações amizades construções sem piedade
com vontade
nada por rotina amorfa
se for assassina e coxa
mas por rotina do encontro
e também têm confronto
muitas discussões acesas murros nas mesas
brilho nos olhos
olhos de maçariku
mijar fora do penico
pra ter um penico – no quarto
pra lutar contra o penico – da praxe
pra ver se depenico o macho
e se o despacho até ser história
quando sonho acordada estou desanimada
mas quando sonho acordada vejo outra estrada
quando sonho acordada estou bué irritada
mas se sonho acordada…
se sonho acordada não sonho a dormir
se sonho acordada não vivo sem sonhar
se a vida tem sonhos porquê separar a falta de vida e a vida
a fazer
juntamos eu, tu, ele, pele com pele
pêlo com pêlo
- isto é um sonho
mas podemos fazê-lo -
e a tua cena e o meu combate
a lua, a pequena, o papel mate
os gritos da gente com casa e da casa com gente
não nos roubem a rede nem a semente
comprimidos no lixo, não somos doentes
não quero mais pra trás, quero lá à frente
traz a frigideira, eu levo um pente
sonha comigo, vais estar presente?
depois sinto-me sozinha de repente
(mas isto é sonho ou é acordada?)
e por isso não durmo só fumo
não como só um gomo
não mijo só finjo
não aqueço só deixo
amargura
encarapaço a ternura
apodreço por dentro, escura
e a pincelada discrepante o riso dissonante o poeta ao
viandante
está sempre ao virar da esquina, sonho
cor amarelo espesso e vivo, sonho
toque nos ombros psst psst dança, sonho
frase ingénua duma criança, sonho
e os reguilas dos putos o lodo dos xutos
não te deixes cair em tentações melancólicas
acrescente-se melodramancólicas
acrescente-se alcoólicas
acrescente-se apostólicas
ou pistólicas ou bucólicas
sonho com saber se te vou ter comigo
no meio do perigo
sem abrigo, a experimentar
esta outra forma que desenhámos
mais um tentar que ainda não tentámos
mais um gritar que ainda vivemos existimos resistimos
no meio do laranja psd e do ps laranja
no meio da canja da galinha dos ovos de crise
untada com creme Grise, perfumada com Breeze
segurada por teasers, bastões e detenções
barreiras e fronteiras, prisões
preços terços e prestações
eu não sonho a prestações vai-se-me a cabeça rolando
ruminando rodando os filmes da insónia
nitrato de amónia
são quatro da manhã e eu quero dormir e só sei
sonhar acordada
por isso é difícil adormecer
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
sublimação em sol
Os meus dedos são agulhas de lã na noite amarela do jardim sonhado.
Dão pontos ao rasgar dos beiços na palavra salgada,
pulsante.
Sou pessoa toda agora mas só mexo a língua.
Não fico,
não voo,
não olho nem rio,
só espalho.
Os meus dedos no baloiço são agulhas de lã num jardim
sonhado.
O músculo não vejo, tresvejo.
Uma chaleira pressionada a transformar o assobio,
um cesto cheio de lixo.
Marta Raposo
terça-feira, 9 de setembro de 2014
outro assobio da Marta
A propósito da "libertação em lá", a Marta Raposo mandou ainda este desenho-assobio. A menina pires nem pediu autorização para publicar. Esperemos que a sua amiga Marta não se zangue.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
ali se do outro lado da silhueta
recebi uma carta da Marta Raposo:
E ainda assim
o teu braço é uma colher de pau a (re)escrever nos espaços;
a abrir os cofres das dores ouvidas,
saboreadas.
Gesto latente
que não dá as costas
nem aos espelhos, nem aos cansaços.
e a Marta também pintou:
desconstruído
nascer
crescer iludir
dar
sentir
ter
vomitar
chegar a ter
querer
bolha
paredes sabão
tudo
drogas
amigos amor afecto construção
cores artes canções objectos
morte separação desinteresse
vida lodo
bicho
vergonha
fotografias
futuro
medo
estrelas
dinossauros
viscoso pútrido
terça-feira, 26 de agosto de 2014
libertação em lá
A minha mão é uma faca de aço na luz vermelha da sala acordada.
Dá de comer ao cuspir dos beiços o doce gelado,
provocante.
Sou pessoa toda diferente mas só mexo as orelhas.
Não fujo,
não paro,
não calo nem caio,
só limpo.
A minha mão na cadeira é uma faca de aço numa sala acordada.
Os pés não os vejo, tresvejo.
Uma tampa depressiva que não cala o assobio,
um chapéu cheio de pedras.
Dá de comer ao cuspir dos beiços o doce gelado,
provocante.
Sou pessoa toda diferente mas só mexo as orelhas.
Não fujo,
não paro,
não calo nem caio,
só limpo.
A minha mão na cadeira é uma faca de aço numa sala acordada.
Os pés não os vejo, tresvejo.
Uma tampa depressiva que não cala o assobio,
um chapéu cheio de pedras.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
prisão em si
O meu braço é uma colher de pau na sombra azul da cozinha adormecida.
Dá de beber ao sorver dos beiços o ácido abrasivo,
paralisante.
Sou pessoa toda igual mas só mexo os olhos.
Não articulo,
não ando,
não tujo nem mujo,
só sujo.
O meu braço na cama é uma colher de pau numa cozinha adormecida.
A cabeça não a vejo, tresvejo.
Uma panela de pressão já sem fôlego pró assobio,
uma lata cheia de sopa.
Dá de beber ao sorver dos beiços o ácido abrasivo,
paralisante.
Sou pessoa toda igual mas só mexo os olhos.
Não articulo,
não ando,
não tujo nem mujo,
só sujo.
O meu braço na cama é uma colher de pau numa cozinha adormecida.
A cabeça não a vejo, tresvejo.
Uma panela de pressão já sem fôlego pró assobio,
uma lata cheia de sopa.
domingo, 10 de agosto de 2014
Traficante de sonhos
O Maçariku gostava de máquinas.
Máquinas de luz, de imagem, de som. Câmaras, projectores,
gravadores e até instrumentos musicais que não sabia tocar. Dava
aos amigos, mostrava, usava, trocava nas feiras. A feira da ladra de
Lisboa em primeiro lugar, claro. A feira já não será a mesma sem o
Maçariku, esse passador de coisas e de ideias. E as coisas para ele
não eram só objectos para coleccionar - tinham ideias lá dentro.
Trocar, passar, presentear. Traficante de sonhos e de objectos,
contrabandista de ferramentas de transformação para dar sentido a um mundo onde não
se pode passar sem um bocadinho de tristeza. Mas não é tristeza
para ficar parado. Pode ser uma caixinha de música para ajudar nos
combates.
Uma maneira de estar
O Maçariku ensinou de tudo a toda
gente. Mas ensina-se uma maneira de estar? Uma maneira de estar
intensamente na vida, sem separar acção e pensamento, sem desligar
as técnicas das ideias, sem opor a militância e o sonho, sem
apartar as pessoas e as máquinas, as crianças e os adultos, os vinhos e as letras, sem saber
afastar a cultura da política e amizade da luta. Saber fazer e dar
sentido a esse fazer. Contra o empobrecimento da vida, ele provocava.
Militante, mas antimilitarista (o "Tropa Não!"). Pela
diferença, anti-racista. Contra os chefes, antifascista. Pela igualdade, mas nunca a das paisagens
lisas, porque ele era adversário da "normalidade". Podia
dizer "o que tem de ser tem muita força", mas cinismo não,
cinismo nunca. Rugosas cidades de antagonismo e solidariedade, de
combates e passagens, de barricadas e revoluções, de amigos e de
toda a gente ainda por conhecer, de cafés e ruas, e ruas e ruas e
ruas. Lisboa, como a palma da sua mão.
Com o corpo todo
Rigorosamente desobediente, o Maçariku
falava uma língua só dele, cheia de interjeições, olhares,
esbracejares, esgares, gritos, uivos, sussurros. Ele gritava com o
corpo todo para nos acordar. Mas sussurrava as palavras mais
importantes. Não sabia esconder o seu olhar atento por detrás do
cabelo (que olhos bonitos!), nem a barba escondia o seu sorriso
aberto, desafio constante ao mundo tristonho.
Levanta a pedrinha
Antagonista revolucionário das opções
fechadas, das dominações fora e dentro da cabeça, dos caminhos
fáceis do marketing. Fazemos então muito mais, muito
mais transformador. E convidamos aqueles também, provocamos
aqueloutros também, vamos conhecer gente que faça. Que saiba fazer
porque vive. Que saiba pensar porque faz. "Levanta a pedrinha,
oooooo!..." Porque, para além da amizade, era a transformação
do mundo nas lutas da história o critério da sua indisciplinada
disciplina. Nas lutas grandes e pequenas. E as pequenas
são enormes, decisivas, entusiasmantes e belas.
Maçarico
Um pássaro das regiões costeiras? Um
jovem que ainda não sabe tudo? Uma ferramenta com chama? Sabe-se lá.
A gente só sabe que a sua última máquina parou - o coração. A
vida vai: "Bute, bute!"
Maçariku
Naquela altura eu não sabia bem se se dizia filmagem ou
filmação. Eu votava BCG.
Tinha febre e fizemos o guião de um filme e nunca fizemos o
filme.
Vontade sempre de dar tudo, promessas atrás de promessas,
quem dá também tira.
A idade foi de ouro até chegar à prateleira.
Tira-me esse cabelo da frente dos olhos ternos, vivos,
atira-o para o lado, andar gingão.
As mãos que se davam às conversas, aos cigarros, às máquinas
de filmar, ao prego e aos ombros dos outros. Aos nossos ombros.
Murcham corações. Atordoam-se antenas.
À procura da vibração das cordas da tua voz, da voz, da voz,
da tua voz de encher espaços. À procura, à procura, à procura. E a puta da vida
que não se rebobina.
As feridas demasiado grandes de sangue encarnado vivo, a tua
cor, o vermelho, o oito, a bola preta, as contas redondas, tudo apalavrado.
O homem dos sete instrumentos, o soldadinho, os artesãos e
militantes e clandestinos, velhos, de rugas, dificuldade de andar, com quem
querias aprender tudo, para quem olhavas com os tais ternos olhos. Mas só
querias viver até aos cinquenta, tu, o pescador de mar e de lixo.
E os tantos que ensinavas ficam como, agora? As crianças que
ainda não sabem nada, os adolescentes que precisam de desprezo, os atados que
têm de se desatar para fazer alguma merda interessante deste mundo.
Emprestavas com um v na volta, de vítor. Do viriato que era
chato. Da vida, tão alegre e destemida como outra coisa qualquer. Os beijos no
sítio do costume, as voltas ao bilhar grande, ou então uma curva. A fita do
vhs.
Dá-me medo de escrever, posso perder-te mais assim. Mas se
não escrever?
Os olhos dos mais novos iguais aos dos mais velhos. E os dos
gatos, dos cães, horas a brincar, anedotas, gozos, distribuidor de risos. Era
uma vez um cão que só tinha três patas, ao fazer chichi, caiu.
Fazer quase tudo o que se quer como se quer. Queres apostar?
Pôr tudo a andar, construir coisas. Ser bastidores,
estrutura, a força, a base, o motor. Pedir e forjar amor. Discutir e não ceder.
Teimar com e sem razão, teimar sempre. Com quem se ama, sempre.
Acumular pó, máquinas, quadros e bocados de pedra ou de
metal que ninguém sabe o que são. Espreitar de curiosidade, chamar um cúmplice,
mais vivos os olhos, mãos a falar. Coleccionar de tudo. Dar e tirar, trocar.
Fiar. Focar.
Dobrar combates com um isqueiro ou uma garrafa de cerveja.
Despachar as coisas, meter as mãos, resolver. Sozinho e com outros. Não
embirrar à partida, só embirrar depois e se. E se depois e se, embirrar tudo.
Fugirmos na lata do bora-bora, janela aberta, muito ventil,
um jornal por dia, chupar gasolina para cozinhar o bacalhau. Estado espanhol, viagens,
férias, praias, tendas, casas com vacas e moscas, canas de pesca, xadrez, rios
e cidra e sacos-cama. Ou então vamos só aos caracóis.
Lisboa sem ti, a palma da tua mão, as pedras da calçada, os
prédios, as pessoas a virar esquinas, faz isto sentido? Por onde respira?
E esta casa, e esta companheira de vida, e esta filha, e
estes filhos todos, e estes manos todos e estes todos todos?
Apetece-nos murros contra muros até ver estrelas de cinco pontas.
Apetece-nos murros contra muros até ver estrelas de cinco pontas.
Mas a gente vai continuar. É só ter a tua voz aqui na cabeça. E
o que tem de ser tem muita força.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
a dor alheia à menina
menina,
a sua silhueta disse-me
da maneira mais bonita
que já não acorda com os meus olhos
e contudo eu vi na sombra
verdes e castanhos, quase amarelados à volta
esses seus que sem luz vêem o cá dentro
vi-os com menina
vi-os com será
vi-os carregados
com a dor alheia
e um robalo
Depois disto, a menina cantou:
vai amar
pescador
pesca pesca
pesca peixe pesca
senta-te à mesa
e bebe
pescador
bebe vinho bebe
deita-te na cama
e dorme
pescador
dorme tudo dorme
a sua silhueta disse-me
da maneira mais bonita
que já não acorda com os meus olhos
e contudo eu vi na sombra
verdes e castanhos, quase amarelados à volta
esses seus que sem luz vêem o cá dentro
vi-os com menina
vi-os com será
vi-os carregados
com a dor alheia
e um robalo
Depois disto, a menina cantou:
vai amar
pescador
pesca pesca
pesca peixe pesca
senta-te à mesa
e bebe
pescador
bebe vinho bebe
deita-te na cama
e dorme
pescador
dorme tudo dorme
de meu bem desenganado
Engano?
Não! Porquê engano?
Sim, é tudo biologia.
É tudo cultura e biologia.
É tudo comida, cultura e biologia.
É tudo bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo música, electricidade, bebida, comida e biologia.
É tudo história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo poesia, jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
(Engano não, engano não, engano não, engano não.)
Não! Porquê engano?
Sim, é tudo biologia.
É tudo cultura e biologia.
É tudo comida, cultura e biologia.
É tudo bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo música, electricidade, bebida, comida e biologia.
É tudo história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
É tudo poesia, jogo, linguagem, mar, física, química, história, música, electricidade, bebida, comida, cultura e biologia.
(Engano não, engano não, engano não, engano não.)
com algumas raízes
#
inimigos os cemitérios que fecham
às seis de todos aqueles que receiam não ser anónimos nestas ruas mas que
desejam tanto como os outros sentir na pele e nas sinapses este calor seco de
derreter dedos nos dedos com esta luz acásica mágica
para poder a escrita estar aqui
é preciso ser-se anónimo
é preciso ser-se adolescente
para ser-se anónimo
- O teu tempo já
passou
- O teu sorriso
passou agora
ser-se louco ser-se louco
ser-se louco é outra hipótese
##
de repente a rua
era minha como
dantes
mas eu estava
excitada demais com
essa surpresa
não conseguia estar toda cá
percebi o lado
autodestrutivo
de agora e de antes
dedos nos dedos com
o mais intenso
prazer
talvez ganhe forças para ir comer
quando o sol se puser
no horizonte que não vejo
(só clarões atrás de prédios)
mas onde?
o quê?
###
não saber parar
não saber não
re-levantar
ter medo dos outros
raiva dos sons
falta de equilíbrio
sufocar
imobilizar
por dentro explodir
- e não sou a única
que mundo estúpido
como está.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
metro do fim do dia
quero saber da temperatura da água
deixar de fumar por hoje
mas não vou dispensar aquele
quantas vezes flashes
dos quinze anos da caneta mágica
da calma, de árvores, de cadernos
vou esquecer-me da saída assim
sair nos moinhos altos
esfarinhada em pão
que mundo a correr
que saudades do estoril 1947
que medo dessa data nessa praia
deixar de fumar por hoje
mas não vou dispensar aquele
quantas vezes flashes
dos quinze anos da caneta mágica
da calma, de árvores, de cadernos
vou esquecer-me da saída assim
sair nos moinhos altos
esfarinhada em pão
que mundo a correr
que saudades do estoril 1947
que medo dessa data nessa praia
terça-feira, 8 de julho de 2014
constelações às turras
Dor do estar
na água que se ensalobra
no podium a fazer de taça
com a dura carcaça
furada pelas balas
sem as tuas
lucidez e mãos quentes
de peito dormente
de groselha regada
posta no meio da estrada
gritando pus
devagarinho derretendo
moendo os ossos
descansa-me as palpitações
falar
na água que se ensalobra
no podium a fazer de taça
com a dura carcaça
furada pelas balas
sem as tuas
lucidez e mãos quentes
de peito dormente
de groselha regada
posta no meio da estrada
gritando pus
devagarinho derretendo
moendo os ossos
descansa-me as palpitações
falar
segunda-feira, 7 de julho de 2014
o caderno
Perdi o caderno castanho da marca
vermelha. Tinha lá escritas as notas do secretário, agora
irrecuperáveis. Esforço-me por reconstituí-las de memória. Mas
antes deixem-me contar-vos como perdi o caderno castanho da marca
vermelha.
Num escuro fim de tarde de Fevereiro em
Lisboa cruzei-me com um homem (tinha a aparência de o ser, pelo
menos) ali ao jardim da Gulbenkian, numa rua lateral, a Marquês Sá
da Bandeira, se não estou em erro no nome. Passei por uma pequena porta verde de uma antiga tabacaria abandonada. Levantei a cabeça, vi-o no reflexo do vidro passar por mim. Passei por
ele, olhei-o ainda um instante. O estranho homem, cicatriz na testa, mais alto que eu talvez
poucos centímetros, magro e seco, fugiu rápido com o olhos
vermelhos, fechando o sobretudo preto e puxando a gola numa simulação
de frio. Naquele segundo percebi que me tinha desaparecido o caderno
castanho da marca vermelha. Ao lembrar-me do seu casaco tremi de
pavor, como Edgar Allan Poe me tinha ensinado no livro. Subitamente
entendi - aquele homem era eu mesmo. Mas o caderno já não estava no
meu bolso.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
quantos anos
Chegou a carcaça ao sul
e perguntou a um velho
quantos anos
A sua imagem é fria
Ele ama a pulsação das oliveiras
Quando saía à caça e voltava
Depois precisava de um copo
Agora não tem fome que chegue a desejar o dia
e perguntou a um velho
quantos anos
quantos anos de vida
O velho soprou as velas
mantendo-se vivo
vivo com os pulmões vazios
prontos a encher de ar os fios
A sua imagem é fria
seca e fria de fomes passadas
todas satisfeitas por amigos e dois
dedos
porque a mãe não teve leite
não teve, sei lá porquê
Ele ama a pulsação das oliveiras
quanto mais perto do mar melhor
não tem medo das ondas grandes
não tem
já ficou uma vez à espera num barco
Quando saía à caça e voltava
era regressar a casa depois de um
protesto
desolação um pouco
cumprido o caminho
comprido
Depois precisava de um copo
e outro
e outro
e outro
a casa
Agora não tem fome que chegue a desejar o dia
espera o dia
e dorme malzote
dorme mal de noite
quarta-feira, 14 de maio de 2014
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Obscenidade é as esquadras não disporem de um dicionário à mão!
A faixa retirada da fachada da Casa Viva, sem aviso prévio, pela polícia e bombeiros (e, com jeitinho, ainda conseguiram partir um vidro).
Para a polícia, «é obscena».
Para a câmara, «falta licença».
Aqui uma notícia do sucedido.
Aqui o comunicado da Casa Viva.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
errar: pôr erres
a barata que fez a avozinha fazer a cara mais feia que lhe
tinha visto
a barata resistia ao ataque nuclear e ao esmagamento de
garrafa, engarrafamento
a barata vivia ali sem saber se antes se depois do 25 de
Abril
eles queriam mostrar-nos como esse dia, como esses meses,
tinham sido importantes
mas nós queríamos era mudar as coisas agora
já enjoávamos do “foi
assim”, apesar de não conhecermos quase nada do assim
a importância da memória e da experiência só se ganha com
necessidade vinda de dentro e isso só acontece quando fazemos coisas
deixem-nos fazer
a barata perdeu a pata mas continuou a espernear
a barata já tinha só metade do corpo e continuou a espernear
à avozinha bastava-lhe que não estivesse em cima do prato
dela
enquanto esperneava estava eu a pensar
em quando dizes que é preciso repetir
que resistir é repetir
que quando se repete se repete de outra forma
com outras palavras, outros pontos de vista, acrescentando
pontos aos contos ou contos aos pontos
que não é obrigatório toda a gente saber tudo o que a
humanidade já sabe
que isso seria impossível
só vou odiar o teu carrasco quando ele for meu carrasco
também
isso não passa por tradição ou honra familiar ou classe ou
clubismo
só quando me passarem a perna é que vou dar atenção às
histórias antigas de quando te passaram a perna
deixem-nos levar com as pernas agora
e era assim o avançar da história do mundo
porque ninguém sabe tudo o que a humanidade já sabe
isso do aprender tinha muito que se lhe dissesse
porque é sempre preciso experimentar com as próprias mãos
errar errar errar, o caminho não era sempre em frente
cada pessoa tinha de picar o dedo num alfinete para saber o
que era a dor
e era assim que eu esmagava a barata como quem esmaga a
evolução
segunda-feira, 7 de abril de 2014
das diferenças abissais
Nem nada.
Sermos iguais, mais iguais
do que imaginamos.
Eu não ser
tão forte como julgas
tu
não seres tão frágil como julgas que aos meus olhos és
termos este frio nos pés.
Eu pensar em ti tanto ou tão pouco
como tu em mim
respirarmos o mesmo cancro do ar
eu querer iniciar
poemas de telemóvel e tu
um centro jornalístico na nuvem.
Não odeias tanto o cantar
como eu te imagino a odiar.
E respiramos este ar de cancro comemos esta comida de cancro somos tratados pelos mesmos hospitais que não sabem tratar o cancro.
E se for só isso,
somos só conhecidos.
Sermos iguais, mais iguais
do que imaginamos.
Eu não ser
tão forte como julgas
tu
não seres tão frágil como julgas que aos meus olhos és
termos este frio nos pés.
Eu pensar em ti tanto ou tão pouco
como tu em mim
respirarmos o mesmo cancro do ar
eu querer iniciar
poemas de telemóvel e tu
um centro jornalístico na nuvem.
Não odeias tanto o cantar
como eu te imagino a odiar.
E respiramos este ar de cancro comemos esta comida de cancro somos tratados pelos mesmos hospitais que não sabem tratar o cancro.
E se for só isso,
somos só conhecidos.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
história da gordura
Era uma vez uma rapariga que estava tão apaixonada e o seu amor tão longe que engordava à conta de colheradas de Nutella, de madrugada, antes de ferrar no sono.
A pasta castanha, deliciosa, descia ardendo pelo esófago, viajava descendo até às canelas, e subia depois, antipaticamente, para se instalar nas coxas e no rabo.
Imaginem só os pesadelos dela: culpada da pasta, pesada das coxas.
E os pesadelos da dita, enquanto autora best-seller que escreve, a fingir de pessoal e íntima, a história de toda a gente. Que nem emaranha pela ficção científica. Apenas versa a miséria fisico-sexualo-mental destas raparigas que apagam a luz depois das colhereradas e assentam a cabeça sobre a almofada das imagens feitas do mundo, e não dormem tranquilas.
Um dia, ela engordou tanto que se tornou feliz. Ria e cantava com brilhos nos olhos. E sabia que quem gostava dela gostava mesmo dela. Tinha amigos a sério. Escreveu então um tratado sobre os benefícios das calorias.
Morreu aos 84, como qualquer outra pessoa. Hoje ainda sorri em Plutão.
A pasta castanha, deliciosa, descia ardendo pelo esófago, viajava descendo até às canelas, e subia depois, antipaticamente, para se instalar nas coxas e no rabo.
Imaginem só os pesadelos dela: culpada da pasta, pesada das coxas.
E os pesadelos da dita, enquanto autora best-seller que escreve, a fingir de pessoal e íntima, a história de toda a gente. Que nem emaranha pela ficção científica. Apenas versa a miséria fisico-sexualo-mental destas raparigas que apagam a luz depois das colhereradas e assentam a cabeça sobre a almofada das imagens feitas do mundo, e não dormem tranquilas.
Um dia, ela engordou tanto que se tornou feliz. Ria e cantava com brilhos nos olhos. E sabia que quem gostava dela gostava mesmo dela. Tinha amigos a sério. Escreveu então um tratado sobre os benefícios das calorias.
Morreu aos 84, como qualquer outra pessoa. Hoje ainda sorri em Plutão.
Como
Como como como.
Como como quem come.
Como como quem como.
E quem como come como come, que é como dizer que come como como.
Quem me come come como quem come.
E eu como quem me come como quem come, também.
Como como quem come.
Como como quem como.
E quem como come como come, que é como dizer que come como como.
Quem me come come como quem come.
E eu como quem me come como quem come, também.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
e o asfalto é tão largo...
Em resposta a um apelo que por aí circula, TODOS OS RIOS VÃO DAR AO CARMO!, o Coro da Achada virará rio no asfalto que sai do Largo da Achada (parte às 20h30) e cantará colina abaixo, colina acima, até se fazer mar, no Largo do Carmo (chega às 22h).
Vem daí! É andar! De voz ou panelas em punho…
TODOS OS RIOS VÃO DAR AO CARMO
Na noite de 24 de Abril saltam rios de vários pontos da cidade. Vários rios de gente que quer estar na rua neste dia – em vez de estar sozinha em sua casa – e que, com panelas, instrumentos, pancartas, vozes e vontades, desaguam no Largo do Carmo.
Não é por acaso que queremos regressar a este sítio. Não só porque faz 40 anos que este largo se encheu de gente que não obedeceu às indicações de ficar em casa do Movimento das Forças Armadas, mas também porque queremos viver e reclamar o espaço público.
Para estes rios existirem, terão de ser criadas nascentes. Pega em ti e nos teus amigos, no teu grupo musical, no teu colectivo ou na tua equipa de atletismo, fala com outras pessoas, pensa num ponto de encontro, organiza o teu percurso.
Participa, traz as tuas ideias e vontades, instrumentos, comida, bebida e um saco do lixo.
riosaocarmo@riseup.net
TODOS OS RIOS VÃO DAR AO CARMO (EVENTO PRINCIPAL):
https://www.facebook.com/
Outras nascentes e rios
Anonymous:
https://www.facebook.com/
FrentePoesia:
https://www.facebook.com/events/626576217428675/
Podes ser a gota de água:
https://www.facebook.com/
PREC's not dead:
https://www.facebook.com/
Résvés Campo de Ourique:
https://www.facebook.com/
+ Um rio:
https://www.facebook.com/
sexta-feira, 28 de março de 2014
útil
Tudo me soa a falso excepto a mentira
descarada. Essa é a verdade descosida dos fatos de luto, nunca
deixada frutificar nas gangrenas dos adultos xonés e na
hipopotamização da TV. O que é útil é o supermarché com
produtos muito farmacêuticos e sempre à mão de semear hortas nas
prateleiras incógnitas que aldrabam os clientes com truques de
marketing feito por macacos de imitação, criadores de deuses quando
já criados deles.
não perca a oportunidade, menina
Vá ver a exposição não perca a
oportunidade, porque depois já não vai poder nadar no cocó azul da
artista mais conceituada de todos os tobogans gigantes da europa e
mesmo no quénia nunca se viu nada assim, nem o colonialismo mais
racista consegue saltos destes de qualidade da catana para a arma
química entrecortado com aviões de deixar prendas de natal e
árvores para pedir presentes aos tanques.
lacunas
Ó chocolate santíssima, não me digas
que acabou o compal de banana da madeira e os crepes com virgem e
licor de batú.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Por causa duma étê
O homem da cabeça grande gostava
de fumar perlimpimpins, mas os perlimpimpins eram ilegais. O homem da cabeça
grande andava sempre com perlimpimpins no bolso, e andava com muitos, porque
fumava muito ao longo do dia. Um dia apanharam-no e acharam que ele não era
consumidor mas sim traficante, porque tinha muitos perlimpimpins no bolso.
Pagas uma multa, mas não tens de ir ao psicólogo; se és traficante tens a
cabeça no sítio. O homem vivia sozinho no quinto direito, e a família do quinto
esquerdo não tinha razões de queixa.
A mulher dos pés grandes vivia
com o filho que queria ser astronauta. Era o miúdo dos cabelos grandes. Moravam
os dois no quinto esquerdo. Ela fazia muitas coisas: fazia as camas, fazia as
compras e fazia-lhe a barba. Ele fazia o favor de não saber levar os seus
sonhos extra-lavagantes à prática. O miúdo dos cabelos grandes conseguia
deixar-se ficar à janela à noite muito tempo, de nariz levantado. Lá em cima,
ficava o planeta Amanhanado.
No planeta Amanhanado, a étê das
olheiras grandes vigilava. Tinha de existir acordada e viva sempre que alguém
no planeta de baixo pensasse nela. A étê das olheiras grandes tinha rugas
marcadas de já há tanto existir. Um dia desequilibrou-se e caiu redonda no meio
dos homens e mulheres de baixo. Mas nem homens nem mulheres a viram. Viu-a só o
gnomo das orelhas grandes. Depois, ela recompôs-se, levantou-se e voltou para o
Amanhanado.
O gnomo das orelhas grandes tinha
umas orelhas que pareciam as de um elefante e era sincero e social. Sincero e
social podem não ser opostos. Ou nunca tinham pensado nisso? Aquele gnomo
queria aprender com as histórias, com os relatos de vida dos outros, com os
livros, com os filmes, com as conversas e discussões acesas entre gnomos, sobre
os mais variados assuntos. E ele também falava, de vez em quando. Contou da étê
das orelhas grandes, que vira estatelada à superfície da terra. Mas ninguém
acreditou.
Uma vez o homem da cabeça grande
teve uma visita. Era o homem do nariz grande, um amigo seu sorridente e cheio
de sorte. Sempre fizera tudo com a maior das facilidades. Na escola não tinha
precisado de ler nenhum livro. Deixava as páginas rolarem pelos dedos, como
quem lê pela textura, e não pelo texto. Safava-se sempre que lhe faziam
perguntas e se tivesse de escolher o copo que escondia a pedrinha, acertava
sempre no copo certo. E assim se meteu nos copos.
Estavam muito bem a conversar –
um sobre xadrez, o outro sobre as folhas das árvores (mas mesmo assim a
conversarem um com o outro) – quando o miúdo dos cabelos grandes bateu à porta.
Que precisava de ir à janela deles. Que tinha visto a étê – que era a étê das
olheiras grandes mas o miúdo não sabia – a cair do Amanhanado. Que da janela
dele não se podia ver mais para lá. Que ele precisava de uma janela que desse
para ver mais para lá. Se eles não lhe podiam emprestar uma. Um ria-se, o outro
arregalava os olhos a querer entender e já a arranjar solução.
Foi então que entrou pela porta
do quinto direito a mulher dos pés grandes, à procura do filho. Já o homem do
nariz grande desencaixilhava a janela da sala do homem da cabeça grande para a
emprestar ao miúdo dos cabelos grandes. Mas a mulher dos pés grandes agarrou no
filho por um pulso, chamou-os loucos a todos, incluindo ao filho, e saíram os
dois, voltando ao quinto esquerdo.
A velha do queixo grande, que era
avó do miúdo dos cabelos grandes (mas não era mãe da mulher dos pés grandes),
estava sentada no sofá da sala de estar e iam os três tomar um chá. A velha do
queixo grande era só lamúrias e a sua voz ora se sumia, para melhor representar
e encarnar a grande dor de que padecia, ora se tornava muito aguda e contínua,
fazendo uma impressão terrível no aparelho auditivo de qualquer ser humano, ou
de qualquer gnomo. Imaginem o gnomo das orelhas grandes!
Depois de ter visto a étê das olheiras
grandes redonda sobre a terra e depois de ter contado o que vira e ninguém ter
acreditado, o gnomo recolheu à sua mini-cama, junto às raízes de uma árvore,
tencionando dormir. Mas qual quê! Começou o silvo da velha do queixo grande,
uma tortura infernal para as suas orelhas. Que dia, aquele. Tudo por causa duma
étê.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




