sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ó menina


Nem chores mais do que as músicas
Nem pintes mais do que a paleta
Nem jogues mais do que xadrez
Nem brinques menos do que as crianças
quando elas criam o mundo que falta e
até as criancices ficam figuras vivas


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

mas no asfalto deixa o salto alto



Letra: Alexandre O'Neill
Música: Sérgio Godinho
Coro: Madalena Leal, Sheila Charlesworth
Intérprete: Zita Duarte
Esta música aparece no lado B de um single 45 rpm lançado em 1977 e faz parte da banda sonora do filme de Fernando Lopes estreado em 1978, Nós Por Cá Todos Bem

Coro das Criadas de Servir

Ela esfregava a perna com o pé
Descalça, entre cabra e amora
Mentira, mentira
Agora é recoveira de uns senhores
Verdade, verdade...

Vai à praça, vai à praça, vai à praça
Mas no asfalto deixa o salto alto...

Ela guardava domingos e dias santos
Entre pais e irmãos
Mentira, mentira
Agora o seu cinema tem outras cores
Verdade, verdade...

Vai à praça, vai à praça, vai à praça
Mas no asfalto deixa o salto alto...

Ela era virgem e não consentia manejos
Entre medo e desejo
Mentira, mentira
Agora já conhece a técnica do beijo
Verdade, verdade...

Vai à praça, vai à praça, vai à praça
Mas no asfalto deixa o salto alto...

Ela sachava, ela lavrava, ela mondava
Por conta dos honrados dos pais
Mentira, mentira
Agora é serviçal, para todo o serviço
Verdade, verdade...

Vai à praça, vai à praça, vai à praça
Mas no asfalto deixa o salto alto...

Ela foi metida num comboio correio
E veio rapariga para casa de um doutor
Mentira, mentira
Agora corre e espreita, quando ouve um motor
Verdade, verdade...

Vai à praça, vai à praça, vai à praça
Mas no asfalto deixa o salto alto...

Ela dormiu singelo, sob a imagem protectora
De Maria Goretti, a santinha
Mentira, mentira
Agora, é da Parede, um rapagão a serve
Verdade, verdade...

Vai à praça, vai à praça, vai à praça
Mas no asfalto deixa o salto alto...

Ela bem podia ter sido se quisesse, puta
E até puta de classe
Mentira, mentira
Mas na luta de classes, deu-lhe para ser criada
Verdade, verdade...

Vai à praça, vai à praça, vai à praça
Mas no asfalto deixa o salto alto...

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A praxe e os isto dantes

 
Alberto Pimenta. Obra realizada em 1980 em Coimbra a propósito da reintrodução da praxe académica. “A.O.S (António Oliveira Salazar) aos estudantes de Coimbra…”, o autor assinala o facto de os estudantes, através dos rituais da praxe, manterem o estado de “isto dantes”. Poema Colagem, 43x30 cm, 28-5-1980

Para ver na Casa da Liberdade até 1 de Março.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

távamos trabalhando
e nã houve uma que gstasse de trabalhá com ela.
e agora tás sossegada e calada
menina
fêcha mas é essa matraca

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O autor aos seus versos

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

                                Bocage

os versos ao seu autor (resposta a um soneto do Bocage)

não dá para rir da escrava, não senhor
porque a escrita na ferrugem escreveu livre
mas já antes a canção ali cantava
apertando os dentes às correntes

agora ela mente a preços baixos, lógica de nadinha
lábios falsos e arrebiques de resulta
violada no que era pensamento
esmagada na dureza suas rugas repuxadas
nem ingénua nos cartazes sobrevive
a não ser rara e grandemente pequenina

só quem a fosse buscar à aventura
a rasgar os pactos tolos da palavra
poderia ainda às duas fazer vida 

tu desdobra o que as põe dentro o que as põe fora
na construção do que pode derrubar

quer dizer: a linha inteira como um canto
que se vai buscar ao amor ferido
mesmo que não seja assim ter lá coragem
e pintar tudo por fora dos buracos
muitos erros nos contornos da figura
vencendo o espaço demasiado estreito
o traço grosso apagando os muros desenhados no chão
e se isso acontecer muito mais tarde
o caminho arde e sabe que se continua
senão, não arde

ainda por levantar

o escroque extorque
a mão na fruta em sombra às quatro da manhã pintada num quadro imaginário de mário ou dum amigo

aqui cheguei mais à aveia

mas só pra sentir a falta do que devia ter e não tenho
e pra ver que não sei
como se faz para ter o que já se sabe que se devia mas não se consegue
e semicerrar os olhos e ver a extensão infinita do caminho por percorrer
e o caminho cheio de sol, muito amarelo
amarelo de pincelada de puzzle
semicerrar os olhos
e soprar de cansaço

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O meu encontro com a tartaruga

O meu encontro nocturno com a tartaruga às escuras das quatro da manhã. O frio eu sabia-o de rachar e o ser do sangue frio estava acordado e tinha mudado de lugar. Lento, mas em busca, quando sentiu o vulto. Parecia ter sabido que ele vinha, ou foi ela que o chamou. Tem bolores suspensos na casca, torce o pescoço, sem um sorriso. Estremeço. Há qualquer coisa de grandioso. Há quantos anos vives tu?, inquire-me. E ao mesmo tempo diz-me que tem mais de cem anos. Muito mais. Vários milhares. Deito-lhe uma pepita verde, como quem fugiu da pergunta, mas com o cuidado que o momento exigia. Mostrou-me que deu por ela só para melhor se entender que a pepita era nada em comparação com o que estava a acontecer. A crosta terrestre rugiu ao de leve e o espaço do mundo esticou muito os braços. Vai dormir, tartaruga! Mas o que queria ela de mim? Um olhar tão sério que levo para a cama, de sintonização fina e pele espessa. Há mais gente em desequilíbrio neste apocalipo de limão. Verde longe do rio corrente.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

joana

uma retrete de louça e forma antiga
um cartaz com a guitarra do Amadeo
e os bonecos do Aleixo

os sabonetes em forma de concha
a terrina pesada e branca
dianisca

a gema do ovo com sal grosso
a noz moscada
um candeeiro de canudos de vidro
também gostavas de salsa

gravações de livros infantis em fole no teu quarto de criada
os brincos de princesa da varanda

o vinte e nove quinto esquerdo precisava de abrir o elevador à pressa
tinha duas portas e várias chaves para cada uma, atadas por longas fitas

cabeça inclinada à menina de Picasso
uns sonhos encantados do Chagall
muita história em histórias
calos nos pés do andar e ver - joanetes
as panelas e as portas pesadas
um travar de roer as unhas
um assobio e um sorriso
as costas direitas

um lençol cosido como saco-cama
uma bolsa para dentro da barriga
viagens e diários  e fotografias
o passe
andar contigo em Lisboa nos autocarros de dois andares
dormirmos no chão da casa da luz onde estava muito escuro e tínhamos de não ter medo
tenho os teus botões na minha porta

domingo, 5 de janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

us pubruzunhus

estava a menina a olhar para o gato
a brincar com o rabo -
o rabo do gato, não me entendam mal,
não é o rabo da menina que aliás
não passa de uma sombra de rabo
mesmo assim muito elegante e etc -

eis senão quando
chega o Fernado sétimo, magnífico rei da lenga-lenga
e dá uns ares de muito preocupado com o andamento
da sinfonia do mundo desconcertado
coitadinhos dos pobrezinhos
que o Mário Viegas já tinha descascado em timbre de velhinha
e põe-se a dizer
pabrazanhos
pebrezenhos
pibrizinhis
pobrozonhos e
pubruzunhus

e assim se pôs o rei a competir com o papa
que começa pela mesma letra mas é completamente diferente

claro que a menina não ficou espantada
com a competição
porque isso abunda, não me entendam mal, não é a bunda
é mesmo a grande quantidade, a abundância
mas ficou espantada, isso sim,
não me entendam mal
com a dificuldade que o gato teve de engolir o pêlo

e vai não vai vomita
não me entendam mal, não foi o papa que vomitou, nem o rei,
nem a menina
nem a manana
nem a menene
nem a minini
nem a monono
nem a mununu
quem vomita é o gato assim a fazer raque-raque cof-cof
e não é por ter fumado nem comido comida estragada

é que o gato quando abunda demais a hipocrisia
(não é o que faziam os actores do teatro grego, não me entendam mal)
vomita para lembrar a menina
que falta comida no prato
e que para ter o pêlo sempre asseado
é preciso cuidado
cuidado com os pubrunhuzus
cutudunhos
não me entendam mal
- eu acredito piamente na mentira
desde que ela seja mesmo mentira

o vómito passa
o gato põe a máscara
e o ano passa
cabundá

 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

lenga-lenga dos trabalhadores das docas de Brooklyn

não tens a ponte
e queres o rio
o mar está frio
a lenha arde
e queima o padre
o padre cura
a ferida acesa
presa no cinto
o cinto a galope
do rapagote
de cima e de baixo
é o que eu acho
o cacho é tinto
e deita no copo
de água do monte
não tens a ponte

terça-feira, 19 de novembro de 2013

a ginasticar



a ginasticar os dedos no rato os dedos nos botões os ouvidos
as palavras os fios desafinados
a ginasticar as ideias para não serem as previsíveis
o sentido meu no imposto pelo outro
a ginasticar os poemas possíveis as sílabas das palavras as grutas as cores os desenhos
os pesos as formas as histórias inventadas
a ginasticar as memórias que fogem o abano dos corpos com almas
a língua afiada as letras o fio do comboio
a ginasticar estalidos de dedos concentração
a memória de galinha a figura de dois lados
a ginasticar a ideia de desenhar desenhos maravilhosos nunca dantes desenhados
os livros bonitos cosidos cheirosos futuros
a ginasticar o coser dos troços de troncos a imagem melhor daquilo
os erros o objecto o lançamento da pedra e o quarto desafio
a ginasticar a projecção da voz a desierarquia a persistência
o ar livre o escuro com frio o sentido
a ginasticar os piolhos os gritos de bonecos o medo as botas
a ginasticar os dedos no rato os olhos a arder o programa-antiquário
a prova promessa do filme futuro a catadupa
a ginasticar bestiários o macaco o lobo os ouvidos as orelhas os textos os cliques
a ginasticar uma lista de dez

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

já te escuto...

ajuda-me só aqui a levar isto práli
ajuda-me cá só para isto não dar nó
ajuda-me aqui um minuto que eu já te escuto
ajuda-me no dois que esta vai depois
…+`^-!”#$!|%&/()=?,:
(todas as palavras foram ver a janela a abrir)

a luz prossegue

a luz prossegue
mas tem de doer
tem de doer como a angústia
que renova o hoje
e abres as grades amanhã
no meu quarto
eu vejo-te
como uma luz futura
aqui
não esperando nada do tempo
a não ser a nossa própria hipótese de acção e vida
com todo o músculo na comida
e na força dos esqueletos que pensaram antes connosco
esta diferença

terça-feira, 5 de novembro de 2013

desenhos que dão vontade de desenhar

bizarre
                                    strange

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Continuamos a querer ignorar

Continuamos a querer ignorar
o rio transformado
não queremos ver
recusamo-nos a ver o que se move
julgando apanhar o movimento
no cinema parado

Continuamos a querer ignorar
a violência desse rio
e o que podemos fazer para travar
a própria ignorância
dessa violência

Continuamos a querer ignorar
o tempo que dá lições tarde demais
e por isso a perda pesa-nos como rocha
sobre os pés
sangrando muito
esmagando todo o passo

Continuamos a querer ignorar
a impossibilidade de melhorar
o que não pode ser melhorado
mas tememos a revolução dos astros
e condoemo-nos de estrelas
supersticiosas

Continuamos a querer ignorar
que não somos as sombras
mas a luz que as abre
e que as repete sempre diferentes
porque gira
e derruba o betão
com giratórias de vinte e quatro toneladas
e retroscavadoras demolindo ideias falsas
ou simplesmente uma pena
leve nas mãos de jaula

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Trovoada

Era noite e o hall de entrada
parecia soprar gente
e isso não era, certamente
porque era coisa que não se via

Mas ali estava que as plantas magestosas
todas tremeram
e havia uivos e rangeres

Pedi-te, meu amor
a algum helicóptero que te largasse
vi-me de vime e sozinha

E ela, a bárbara, à espreita!

Que o sono construa sua redoma
Que fosse como eu te beijasse
Que eu vou morrer a fingir

aquisto

ter um caderno para escrever
ao lado da cama
ter outro na mala
momentos de chá na rede
prazeres para a saúde mental
zènezices

armar pingarelhos de macacos vermelhos
avançar com duas torres um rei e peões difusos
beber água do luso

entre o consumo e a revolução

ela chama-lhe os trinta
mas é os trinta em dois mil e treze
é
aqui isto

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

dos brandos coturnos


pobre malmequer

                À FALTA DE RASGÃO

meter-se numa coisa não é aparecer na hora de apanhar as canas

meter-se na coisa
                estar metido                          pobre malmequer

é estar na altura de decidir como vamos fazer os foguetes e porquê

                meter-se na coisa
estar nos campos fazer experiências apagar os incêndios acidentes

                isto À FALTA DE RASGÃO

não é
sermos marionetas nas mãos dos deuses especializados que admiramos

oh pobre malmequer…

é
estudarmos a nossa parte
meter as mãos o corpo a cabeça
tentarmos saber de cor
largar as partituras dos hinos

saber de cor é dar
                    é ter dado
                    é estar a dar um sentido nosso ao que estamos ali a fazer

dar o corpo ao manifesto

estar lá pronto à hora a que o outro lá está pronto

ajudar à concentração conjunta
querer fazer

QUERER FAZER                 sem ordens sem obrigações sem coacções sem salário

fazer com outros não pode nunca ser terapia
fazer com outros é estar a viver

olhar nos olhos
todos os olhos de todos
nos olhos de todos aqueles olhos

é
pôr a cabeça a trabalhar
o espírito crítico a funcionar

não é
repetir gestos autistas
responder às ordens
exigir ordens
fechar os caminhos
emaranhar silvas nos trilhos

não é
fazer em cima do joelho a correr para apanhar a linha morta

é
saber olhar para pontos imaginários com uma intenção escolhida
ter os pés na terra
sentir as emoções do corpo ao lado pela respiração

não é
comentar o cão que vai a passar enquanto o companheiro ao lado se está a esforçar por encontrar o sítio de onde vamos juntos lançar os foguetes

meter-se numa coisa
à falta de rasgão
querer fazer
querer saber o que se está a fazer
querer decidir como vai ser feito o que se vai fazer
a coisa ser nossa
duma forma que inventámos

não é despachar sem tempo de olhar sem tempo de mexer

é preparar             mergulhar               antes

é não
voltar sempre à estaca zero como se não tivesse havido antes
esquecer reuniões anteriores
deitar para o lixo actas resumos vozes ideias e pessoas
e a experiência de fazer de outras maneiras

não matar a democracia pela pressa

é algures
entre não achar que já se sabe tudo
e não se achar que não se consegue nada

                digo eu

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

uau

eu curto é bué da cara do peixe que foi agora eleito o bicho mais feio do mundo


cantar com os pés

ó guida quanto me guias
guida me quanto me
guindaste sem quase
eu saber 
que as pessoas sem serem bibelots na estante
sem serem biberons d'instante
lá na frança lá na bélgica lá
nas imigrâncias
lá longe tão longe a guerra a guelra da guida
lá longe não são tão
concretas
in-ten-ção (tensão) attention
concertas
não são tão

que afinal
nas leituras nas canções e nas escritas
os ritmos as pausas as vozes normais de nós
sem nós
só a tua voz que se quebra
que afinal a respiração traz
acção do cérebro
a dança do pensamento
na dissecação das palavras na pausa no silêncio no fôlego da regueifa
no recomeço

no risca-risca no papel
no risca-risca na frase em voz alta

é pensamento comunicação estarmos aqui em conflito de sons e corpos
em conversa
em grito em chut
em palavras que se

eu só
nunca

eu só nunca teria
eu só nunca a tua
paz ciência


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

devido

A manteiga vem da vaca.
                            Nem toda. Mas alguma manteiga vem da vaca.
   A vaca que ri...
   A vaca que ri...
   A vaca que ri...

Que destinatário?

       Sabes
       se achavas que não era possível haver pior música que "Sete mares" dos Sétima Legião, havias de ter ouvido a versão dessa música da Anamar. Ouvi agora.

             A tua avó daquela porta já morreu?
             Uma voz da minha mãe disse Oh
                             Oh! estacionada
                             Oh! branca
                             Oh! na rua da porta da avó

Eu levo o meu mundo nas mãos.
A chave, o dinheiro.
Os céus, os infernos.
O bicho da comunicação.
        Caraças que este pão é bom!
        Com manteiga de vaca magra.

Como fugir, como fugir
como fugir sempre
aos temas em que mais queremos pensar?
Não sabemos pensá-los
e comemos pão.
                             O bicho da comunicação
                             está coberto de farinha.

       Da avó da porta
       eventualmente morta
       também era o pão.

Oh, you come to my door
I don't mind I don't mind
I don't mind at all, taxista

Meia manteiga e nada pensado
Meiga mantém-na
                              olha o colesterol!
           mantém-na assassina imberbe
                              assassina

adormecer olhos
reanimar corações

ultrapasteurizado

não consigo ligar-te até te acordar - é violento

mentira das grandes
que nos andes
da frase ser escrita toda
se ligou e antes
as antenas sibilantes
vibraram

cheguei-te
como?
achei-te
bebi?
todo o éter evapora na caipira do choque

e assim a escrever para ninguém aproveitar
mais uma vez, mariana, joão
porque não tem assunto dizem, eme dê
porque só eu sei ler isto em voz alta e fazer um programa de rádio emitido do meu microfone para a minha coluna
só eu aluna
só eu pedinte
só li dogmas nas linhas

amanhã é que
e ficava a promessa
fica
nas variações

faz lá coisas disto - era impossível
                    poesia que não serve para nada?
arrebenta a bolha na estrada

ficava uma noite
mas fica fica
para amanhã

logo te falo do não destinatário e da manteiga
do taxista e do vómito que dão os sete mares
                        vómito que dão os sete mares

                        sempre a fugir do centro da cabeça

terça-feira, 10 de setembro de 2013

guide

entre deux vies
entre deux villes
entr'eux deux voies
deux voiles
et deux étoiles

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

é possível assim se chama

montes
montes de tonta na rua que ameaça
nas escadas que caem
nos passos que perseguem
nos atropelistas que rugem
etecetera

poesia drogada
na cabeça uma selva

cheira a apartamento na linha
a sopa dabóbora da estação de são pedro por cima do sous-plat verde-plástico
apanhada pela pesada de metal e grande
colher no dente renitente
a meio molar

o lilixir
patas de terra
olhos de veado
cor de jardim
pronta terra
curiosos veados
desarrumado jardim

segundo o andamento
o que fica frito
dá-me pena
pra eu escrever
o que fica frito
dá-me fome
pra eu comer
na mesma panela
azeite a ferver

mais
o ai se ti dá um pão ao ovo o queijo pede o ovo à codorniz

oolismo
naquela altura da putrefacção em que tudo já sabe a álcool
- isso e beber perfume

covo
desencasca-lhe a tosse
e arregamela-lhe a membrana

(o gato comeu-me a língua)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

duas e dezanove

não consigo dormir está calor tou com o período sinto-me febril e seca a minha cabeça delira e não me deixa dormir reconstituo conhecimentos antigos que já não sabia que tinha sum es est sumus estis sunt penso que sumus sozinhos no mundo morrem os avós e depois os pais e hipoteticamente pode morrer toda a gente que a gente conhece antes de nós e ficamos sozinhos ou se ardesse a nossa casa por causa de um tornado que passasse pela bomba de gasolina tenho de semear e fazer compras falta-me magnésio e afinal o que não me deixa dormir é este cheiro a queimado odeio incendiárias sufoco

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

vinte e sete

mosto calor a ferida na cabeça
a podre apodranhece
húmida e escurecida
a goto de esgoto ninho de ratos
aperta hábil vomita um resto
e lateja

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

rabo de cavalo

bacalhau e presunto
carne e peixe salgados
carnívoros do mar

courgettes do mar
cogumelos do mar

partiu a perna
deslocou a anca
partiu a perna em três sítios
fractura exposta
perdeu muito sangue
afectou o fígado
afectou os rins
afectou os pulmões

não gosto da tua cara
nunca fui com a tua cara

não gostei daquela tua cara
aflitivo-salgada

segunda-feira, 29 de julho de 2013

sobram coisas junto à árvore

sobram coisas junto à árvore
e um menino apanha uma
estalada da mãe
porque não devia mexer no lixo
que é sujo e tem micróbios
então o menino não sabe?
sabe que era um camião, grande e antigo
de plástico em três cores
metia-se nele e fugia fugia
pelas estradas enormes
até às dunas onde não levasse estaladas
mas se assim fosse não gozava o gelado de baunilha e leite
que a educação lhe dá depois para calcificar

quarta-feira, 24 de julho de 2013

quinta-feira, 27 de junho de 2013

greve geral

hoje não há trabalho
nem luz acesa nem nada
se me quiserem obrigar
ponho um autocarro na entrada

e fico lá sentado
eu e companheiros meus
para que não descaia
furamos-lhe os pneus

quinta-feira, 13 de junho de 2013

ceci est opéra

laicos lamina

É porque - por exemplo. Tu tinhas tido uma sensação estranha ou engraçada enquanto vivias sozinha na natureza. E o que é que podias fazer a essa necessidade precipitante de a partilhar com outros? E de ouvir respostas aproximadas às questões do teu espanto? Ou simplesmente de ouvir voz?

É que. Agora tu pensaste nessa coisa estranha, grande, e grande ponto de interrogação, e vieste ter comigo e perguntaste:

- Como é que te vês no futuro?

E eu cantei-te (um)a canção:

Vou-me chegando
à tua questão
que é mundo feito
que é líquido e meio
de vida e sabor

E ao chegar
à terceira curva
corro fujo
sem lusco-fusco
apago de pavor

De pensar amanhã
fujo
de pensar em mim
fujo
do amanhã desta casa
fujo
eu em minha casa e aqui
susto

E se estivesses sozinha na natureza, não podias perguntar nada a ninguém. E como ias dormir?
 
(E como ias dormir) sem falar?

terça-feira, 11 de junho de 2013

o velho e o mar


Book Art - "Il vecchio e il mare" di Ernest Hemingway - by Deviant Art artist wetcanvas

silhueta 365

ele há dias
em que ela
pensa atrás de si a sombra
menina da sua mão
na solitária



quarta-feira, 5 de junho de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

de cavalo pra veado

de cavalo pra veado
de veado pra tapete
de tapete pra lembrete
de simão pra xavier
a desblushar a mulher

partir pedra
pra ti pé
pra si mão
pra mim chave, yeah

she's a starr

sexta-feira, 31 de maio de 2013

larilolé

um corte límpido
um gesto lúcido
uma lápide lisa
uma lança

um disco lúdico
uma lente lenta
uma lesma lorpa
tão lesta

uma lúcia de luz
uma casca de lua
uma lâmpada acesa
um lápis

um cesto limpo
um bicho de laço
um logro na língua
um louco

quarta-feira, 29 de maio de 2013

descolagem

a citação que usas podes usá-la
podes até abusá-la
mas outros também poderão defendê-la
vê-la como querem lê-la
dizer-te por exemplo
que a leio tanto para a enfiares na tua carapuça
é tanto assim que a leio
sobre jogadas como essa
sobre o xadrez e as peças
sobre teatro de simulação, não
de ilusão, não
de cenários de papelão
por outros pintados em fuga da tua caixa
maré baixa maré baixa
conjunto de crachás grenás
e depois sai tudo com aguarrás

quinta-feira, 23 de maio de 2013

bestiália


Tu vês em mim um flamingo
quando recolho as patas à tez
tu vês em mim um cão
tu vês em ti um cão
isso depende da vez
 
Tu vês em mim um domingo
novo fora e novo dentro
vês-me nos braços cobras
noves fora desdobras
o bicho do meu centro
 
Tu vês-me a ser mulher
e ‘té piscas as pestanas
eu aqui flamingo cão
hoje é domingo bão
dá pra dizer o tanas

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Lavandaria

Olha... aquele foi buscar a capa à lavandaria.
Com que iogurte de pedaços
de autoritarismo e álcool
teria levado!
Aquela rouquidão de tom rachado
a pular de histeria a gritar
viva a hierarquia
vimos mostrar
o que de mais mísero nos homens pode haver.
E depois o poder imaginado de fazer ameaça
pirraça
mimaça
vamos com orgulho compor
um quadro do bosch na praça!
E também os que se agarram
a signos e santos sem pre-sisarem da razão
cantando espalharei pelo chão.
Ao comprido.
Jaz a figura empedernida
ao lado da saca plástica da lavandaria.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Canções de protesto ontem e hoje

O João Baía, com quem me cruzo nesta e naquela luta, e por consequência neste e naquele convívio – ou vice-versa – e de que me aproximei muito graças ao Coro da Achada, onde cantamos os dois, desafiou-me para participar numa conferência com o título «“Grândola Vila Morena, Terra da Fraternidade” - Canções de protesto, ontem e hoje». Medo. Ainda lhe tentei dizer que não. Porque não sou musicóloga nem socióloga nem historiadora, nem grande pensadora, e para além disso tenho horror a falar em público. Mas, se é verdade que passo a vida a refilar por muitos debates terem nas mesas apenas especialistas, ou pessoas muito conceituadas e reconhecidas, e se é verdade que o tema não me era assim tão estranho, lá resolvi dizer que sim.

E pus-me a pensar nisto das canções de protesto ontem e hoje. E no que raio tenho eu que ver com isso. Quer queira quer não, e mesmo que nós não lhes ponhamos nenhum rótulo, as canções que faço desde há mais de dez anos com o Pedro são inúmeras vezes apelidadas de «música de intervenção». Da mesma forma, o coro que iniciámos há uns quatro anos na Casa da Achada, também leva bastas vezes essa etiqueta de «música de intervenção». O que raio será música de intervenção? Mas a música não intervém sempre? Intervém sempre, acho eu, seja para questionar o mundo que temos, seja para ajudá-lo a continuar como está. Bom, talvez «canções de protesto», como aparece no cartaz desta conversa, seja um pouco mais claro. Mesmo assim é preciso sempre interpretações, subjectividades e contextos… Se olharmos de relance para a letra da Grândola – Grândola vila morena, terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena dentro de ti ó cidade – podemos não ver lá nenhum protesto, só constatações. Em vez de «o povo é quem mais ordena», teremos de ler «o povo é quem mais devia ordenar» para que ela seja uma canção de protesto.

Afinal, o que será isso? Uma canção de protesto? Vem-me à ideia um lamento - mas que se alia a uma ideia e a uma vontade de acção e transformação. Será uma canção que reclama com a situação, mas que também reivindica ou promete coisas, que pode imaginar futuros, criar utopias, terras da fraternidade, urgas, yukalis. Será uma canção que fala da nossa própria condição (como um tipo que vi no outro dia em Alfama, a tocar uma canção sobre tocar na rua e não ter licença) ou então ser uma canção que é testemunho de uma situação, de uma condição ou de uma luta de outros – e que lhes pode ser oferecida e dar-lhes força, e que pode ser depois adoptada por eles e ser cantada durante as suas lutas, e que pode servir para dar a conhecer um acontecimento de resistência a outros que vivem noutros sítios e noutros tempos, e tornar-se um documento informativo e histórico.

Se as canções que faço hoje têm cheirinhos de canções de ontem? Têm. Porquê?

Porque as lutas, se pensarmos bem, trazem muitas vezes canções com elas. E se nascemos e crescemos no meio de pessoas lutadoras, ou em momentos de luta, ouvimos essas músicas quase desde sempre, e re-ouvimo-las, e já estamos habituados a lembrá-las, a cantá-las e a reutilizá-las. As canções que faço hoje trazem consigo, das mais variadas formas, as canções que ouvi desde que nasci – sejam elas canções de protesto ou não. Mas se ouvi muitas canções de protesto, se nasci com a voz e a guitarra do Zeca Afonso, do Zé Mário Branco, do Sérgio Godinho e do Fausto, e se gosto bastante delas, é normal que influenciem canções de hoje que também se querem de protesto.

Se as canções de protesto que faço hoje têm cheirinhos de canções de ontem? Têm. Porquê?

Porque as lutas e as canções não nasceram hoje, porque vêm de trás, e a memória das lutas de ontem é tão importante como as lutas de hoje. Porque a história não é linear, e lutar contra o capitalismo e contra os poderes opressores nunca será uma guerra ganha. Porque para compreendermos o presente temos de conhecer o passado. Porque, para termos força para lutar aqui e agora, o que há de melhor senão saber que há e houve outros como nós a lutar noutros sítios e noutros tempos? E, para sentir essa solidariedade de outros com as nossas lutas e a nossa solidariedade com as lutas dos outros, de muito servem as canções que cantamos ou que ouvimos cantadas por outros.

E, no meio disto, há também que entender que as canções que caminham connosco se escolhem. Nunca são «todas as canções que já houve». São as que conhecemos e as que nos dizem mais, as que procurámos e encontrámos (e sempre procuraremos e encontraremos novas, mesmo que antigas). São aquelas que escolhemos.

Falei em «cheirinhos» de canções antigas nas canções de hoje. Que é quando se reconhece um conjunto de notas, ou uma forma de tocar guitarra, ou um certo crescendo até ao refrão, ou o uso de certas palavras. Mas e quanto a pegar em canções antigas e refazê-las? Mudar-lhes a letra, por exemplo? Tantas vezes… Porquê? As razões podem ir do eco que as canções podem ter entre si até razões muito práticas, que se prendem com as relações das pessoas com a música. Dou um exemplo.

No verão de 2011 fui à es.col.a da Fontinha, no Porto, uma escola que foi ocupada, como devem saber, e que a essa data ainda não tinha sido desocupada. Os companheiros de lá, quando souberam que eu ia, pediram-me para cantar lá qualquer coisa. Ora eu, apesar de cantar, não sei inventar músicas nem sei tocar nenhum instrumento, e o Pedro, o homem dos sete instrumentos, não ia comigo. A solução que arranjei foi a que tantas e tantas pessoas arranjam para poderem cantar sem saberem fazer música: fazer uma letra nova para uma música que já existia e que eu já sabia cantar. Sobre Os índios da meia praia, do Zeca, inventei uma nova letra, sobre a escola da Fontinha. Depois disseram-me que a canção antiga ecoava na nova. Claro. Não foi por acaso que escolhi Os índios da meia praia para fazer uma canção sobre uma escola ocupada, por pessoas que queriam tomar as coisas nas suas mãos.  

E nas manifes e em acções, e tantas vezes, é muitas vezes isso que acontece. Pegar em canções que já existem, e meter-lhes uma nova letra. É uma forma simples de quem não sabe fazer músicas poder fazer novas canções. E é também uma forma de muitas pessoas poderem cantar em conjunto. Porque a melodia já é conhecida por todos, e a letra pode escrever-se num papel, ou aprender-se rapidamente. Também no coro da Achada há músicas assim, feitas por cima de outras - muitas vezes por cima de canções noutras línguas, de companheiros que andam em lutas noutros lugares do mundo, muitas vezes contando uma história de hoje por cima de uma canção que tinha uma história de ontem -, e nos convívios improvisados à goela e à guitarra no quintal da Casa da Achada muitas vezes isso acontece. E em muitos destes casos, sobretudo em manifestações até, nem sempre as canções antigas de onde partem as novas são canções de protesto. Podem usar-se cançonetas banais, muitas vezes muito conhecidas e comerciais, para lhes dar uma letra que já vai torná-las uma canção de protesto. Pode-se pegar nos ABBA e cantar contra o capitalismo. Bom, mas também podemos pensar que não queremos usar uma canção do Quim Barreiros para cantar uma letra feminista… Há sempre escolhas a fazer.

E, claro, há canções que se cantam sem mudarmos uma linha da letra. Porque continua actual. Ou porque é poética ou geral e dá para todos os tempos, ou porque apesar de falar de coisas muito concretas sentimos logo que estamos a falar à mesma do que se passa hoje, mesmo que mudem os nomes dos bois.

O que é facto é que as canções só vivem quando são cantadas e ouvidas, o que também quer dizer, naturalmente - ou não fosse o homem homem -, refeitas, repegadas, transformadas. Caso contrário, estão em coma, guardadas num arquivo morto, e apenas consumidas individual e nostalgicamente. E aqui entram os meus problemas com os direitos de autor e com as proibições da partilha e do uso das canções. Sempre se cantaram canções e elas sempre foram ouvidas e cantaroladas em seguida por quem as ouviu. Da forma que quiserem… que aliás quem conta um conto acrescenta sempre um ponto. Mas ó meu caro, vamos lá pôr os pontos nos is, pode uma música que quer questionar o capitalismo ser propriedade? Faz sentido contestar um regime e alimentá-lo jogando de acordo com as suas regras? Faz sentido proibir ou limitar o uso e o abuso das canções heróicas do Lopes-Graça, que sonhava ouvi-las assobiadas na rua por alguém que fosse a passar, ou as canções do Zeca, ou as do Beethoven, ou as minhas? «Minhas»?

E como, por sugestão do título desta conversa - «canções de protesto ontem e hoje» -, me pus a discorrer sobre as reutilizações, hoje, das músicas de ontem, falta ainda dizer que a criação original, a criação de novas canções que não partam directamente de outras, é preciosa. E não tem sido menos feita. A criação original está cheia dos cheirinhos da travessia que nos trouxe aqui - isso já sabemos. Isso agrada-nos e nem poderia ser de outra forma. Mas não chega reutilizar. É preciso também sons e palavras novas, para situações novas e sentidos novos, para cérebros e sociedades diferentes.

Volta e meia no Facebook, onde me cruzo com os pensamentos de pessoas mais velhas que antes lutaram e que agora andam bastante caseiras, e também de pessoas novas mas que falam do mundo sobranceiras e com tom de lamúria, como se já tivesse passado o seu tempo, deparo-me com frases como «Já não há canções de protesto como antigamente». Às vezes se calhar achamos que já não há canções de protesto porque andamos à procura do som das guitarras gravadas nos estúdios dos anos 70, ou da maneira de cantar do Pete Seeger ou do Georges Brassens ou do Adriano Correia de Oliveira ou do Sérgio Godinho. E passam-nos ao lado «O paraíso fiscal» dos Diabo a Sete ou o «Estado Febril» dos Caruma. E passa-nos ao lado todo o hip-hop, que nos últimos tempos tenho achado que é dos géneros musicais que mais diz coisas concretas sobre a situação – e, para além disso, sobre situações por muitos desconhecidas como é a situação nos bairros - e que mais protesta. E por horror a tecnologias e a sonoridades electrónicas – de que confesso não ser a maior apreciadora, também – pode acontecer-nos esquecermo-nos de que os Bandex pegam nos acontecimentos políticos do dia anterior para fazer canções quase instantâneas que circulam rápida e largamente pela internet. Haverá música mais em cima do acontecimento que esta? E por horror automático aos cantores pimba, podemos nunca chegar a ouvir a canção de Nel Monteiro «Puta vida merda cagalhões», que falava de pobres e ricos e criticava a Expo 98 quando ela era por todos bajulada.

E se nos consignarmos apenas à nossa condição de consumidores, como quer a nossa sociedade, e apenas procurarmos música nas prateleiras da FNAC (que também terá a secção «música de intervenção», ou não tentassem eles integrar tudo… e pode a cantiga ser uma arma nos escaparates da FNAC?), como encontrar, dizia eu, nessa prateleiras, as canções de protesto do Mário Trovador, dos Trashbaile, dos Focolitus, do Coro da Achada, de Pedro e Diana? Que cantam na rua e às vezes não gravam, e que quando gravam fazem discos caseiros, copiados no computador, com livrinhos em fotocópia, e os vendem de mão em mão, sem factura? Como esperar encontrar nas catedrais de consumo a cassete «Educa-te cão!», que um conjunto de estudantes fez nos anos 90, com canções em torno da luta contra as propinas, ou o disco que fez o Movimento Anti-Tradição Académica em 2006, com criações originais de várias bandas contra as praxes? E se não descermos à acampada do Rossio ou não descermos às minas com os mineiros, saberemos das músicas que lá nasceram e que lá se cantaram? Isto para dizer que também é preciso contrariar os nossos preconceitos musicais, e que também é preciso andar nas lutas e na rua, e fora da sociedade de consumo, para conhecer e cantar canções de protesto.

Diana Dionísio
 
 
Intervenção, em 30 de Abril de 2013, em «As portas que Abril abriu - Abordagens dos processos de transformação no período pós 25 de Abril». 1ª conferência/conversa na Biblioteca Museu República e Resistência - Espaço Grandela na Estrada de Benfica, que contou com a presença de Viriato Teles, Francisco Fanhais e Diana Dionísio. Falou-se de músicas do presente com cheirinhos de outros tempos, da última revolução feita pela rádio, do Zeca Afonso como cimento/referência entre as várias gerações que participaram nos últimos protestos. Da expressão "Zeca Afonso português", quando nos referimos ao Victor Jara, Pete Seeger, ou Fabrizio di Andre. Ouviu-se o Bairro Negro e o Traz outro amigo também pela voz de Francisco Fanhais e a melodia dos Índios da Meia com letra dedicada à Es.Col.A da Fontinha pela voz de Diana Dionísio.
 
Este pequeno filme mostra alguns momentos desta 1ª conferência/conversa:
 


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Somos todos arguidos da Fontinha

Há águas e águas
de calor e de frio
há a água da Fontinha
e há a água do Rio

Uma água cria lugar
e é rica em vitaminas,
a outra é pra despejar
salobra, sem salinas  

Uma é potável
e cria regueirões,
a outra com barragens
reprime multidões  

Uma experimentou
fez ondas e quebrou,
outra deu dor de barriga
e a gente vomitou  

Há águas e águas
a que vive e a que morre
há a água do Rio
e há a água que corre

Da bica da Fontinha
a água espalhou-se em raízes
germinou muitas terras
cheirou muitos narizes

De Lisboa e de acolá
ouve-se correr a modinha
nós somos todos
arguidos da Fontinha
 
 

assim não será


O cinismo é o pior. É pior do que o pior. O cinismo ensina a submissão decalcada do real como se realmente existisse. E repete tantas vezes que assim é, vomita "assim é" por todas as bocas e assim não será. Não me deixes cair ali, no lamacento terreno do sempre foi, no caudal mal-cheiroso do peixe podre sem viagem, na impossibilidade de levantar o pensamento, na constatação peganhenta da vida tal qual, na plana e estúpida travessa de lapaliçadas mornas e moles, no faz como viste fazer e seja como for e tanto faz que só te leva à igualdade da morte.

A greve dos grãos de trigo


E por falar em sementes

A GRÉVE DOS GRÃOS DE TRIGO

                Quasi uma ninharia, semente ligeira, pequenino fruto, talo de erva num sulco, grão rubro numa espiga, pó branco no moinho, festim de inséto, na minha pequenez possuo a humilde inocencia campezina, ocupo um logar impercétivel na natureza, razo com a terra, ignorado dos grandes vegetaes prodigos de sombra e que enormes e musicaes se erguem até ás nuvens como nas igrejas.
                Tão debil e modesto, nada valho por mim mesmo; é necessario que sejamos muitos. Começam a olhar-nos com consideração quando nos juntamos um centenar para formar uma espiga; uma palhinha nos ergue então um pouco acima do sólo e em volta de nós avistamos o mundo; a brisa que passa faz-nos enclinar em reverencias humildes, pois que ainda nos ergamos continuamos sendo modestos, sempre coisa minima; o primeiro que passa pisa-nos sem querer e morremos. A nosso lado as papoulas levantam as suas pequenas cabeças roxas e as margaridas as suas estrêlas brancas. Entre os seus requebros permanecemos simples, rubros, timidos, um pouco candidos, e os pequenos escaravelhos roxos encarrapitam-se nas hastes que os sosteem como o poderiam fazer num mastro de cocanha. Nem sequer possuimos a barba dos barbudos centeios que vivem perto de nós.
 
* 

                Porém, se a nossa importancia aumenta um pouco com a espiga, torna-se consideravel pela associação das espigas, e então respeitam-nos quando formamos um campo, e até o governo delega um guarda campestre para velar por nós como se fossemos altos personagens. A nossa humilde personalidade desapareceu. Convertemo-nos em multidão e a nossa idilica massa cobre a terra. Todos procuram fazer-nos cêrco; os grandes e orgulhosos vegetaes retrocedem e por mais insignificantes que por nós mesmos sejamos, o numero converte-nos num elemento poderoso. As nossas espigas ondulam como o mar agitado; combatem-nos como se fossemos um ezercito, com as fouces, e como a mão do homem, só, não basta,é precisa a maquina que nos ceifa. A agua, o vento, o vapor, pó. E este mesmo pó é preciosissimo. Somos o pão que nutre os homens.

*
 
Então a nossa importancia cresce até chegar á hiperbole. De humildes e rusticos grãos de trigo convertemo-nos em politicos. Para os graves economistas somos os cereais. Na bolsa cotisam-nos como se fossemos ouro; pezamos nos destinos dos imperios, fazemos as revoluções. Por nós se matam os homens. Por nós o sangue corre.
                Na nossa humildade campesina, na nossa benignidade e inocencia de grãos de trigo, em vez de nos orgulharmos, esta luta dos homens entristece-nos.
                O valor que os homens nos impõem, não o queremos, pois é feito da necessidade dos homens e do sofrimento dos pobres. A nossa força bemfeitora e doce despresa-o. Nós queriamos multiplicar-nos; a nossa fecundidade inesgotavel está á disposição dos homens; oferecemos a nossa abundancia e a nossa prodigalidade naturaes; um punhado de nós constitue um tesouro na terra; oferecemos os nossos tesouros inesgotaveis que podem aplacar os mais famintos e saciar todo o mundo. Só pedimos que nos semeiem.
                E os homens negam-se a isso. O cego interesse duns quantos o impede. Roubam-nos a terra, desterram-nos. Os semeadores desfalecem ante este interesse particular e as leis interveem para nos encarecer. Formam-se ligas para restringir a nossa fecundidade. Fazem-nos abortar. E o que mais choca é que os homens se batem por nós, encerram-se entre fronteiras, odeiam-se, levantando ezercitos e alfandegas. 

* 

                Por fim, este espectaculo, irrita-nos, e ante a maldade dos homens que nos obriga, apesar do nosso caráter modesto e bom, a converter-nos em objéto de lucro têma de assassinato, nós cujo sonho pacifico é dispensar a todos gratuitamente a vida, como o ceu dá o ar e o sol a sua luz, nós rebelamo-nos. A nossa natureza amigavel não quer, não pode suportar este papel de discordia. Vamos declarar-nos em greve sobre toda a superficie da terra. Permaneceremos enterrados nos sulcos, pediremos á tempestade que nos incendeie com os seus raios, que destrua com o seu graniso e ao sol que nos queime. Converter-nos-hemos em palha inutil e esteril. E então os homens famintos compreenderão.
                Compreenderão a inutilidade das suas guerras, a mentira dos seus interesses, a puerilidade do seu orgulho. Terão que considerar que, como nós, são pouca coisa; como nós, compreenderão que nada valem senão em comum, pela associação fraternal de todos, e então a humanidade não formará mais que um só homem, como uma espiga. E não terão medo de semear a terra. Unir-se-hão para semear em logar de  se separarem para combater.
                Os nossos grãos, arremessados profusamente, voarão para os sulcos; cresceremos robustos, macissos; cobriremos a terra com o ouro bemdito e rubro das colheitas que fazem o pão do homem. E todo o mundo poderá viver, porque, então, já nada valeremos. E na nossa modestia ficaremos contentes.
                Mas atualmente o nosso valor espanta-nos, a nossa carestia envergonha-nos…
                Na procima primavera vamo-nos declarar em greve.

Henrique Févre

Cultivar sem restituir é cultura de rapina.

 Liebing

 
in A Sementeira – Publicação mensal ilustrada – Crítica e Sociologia, nº 1, Lisboa, Setembro de 1908, pp. 7 e 8
(este texto foi publicado em francês, «La grève des grains de blé», no suplemento literário de domingo do jornal Le Figaro, em 3 de Março de 1894)