quinta-feira, 13 de junho de 2013

laicos lamina

É porque - por exemplo. Tu tinhas tido uma sensação estranha ou engraçada enquanto vivias sozinha na natureza. E o que é que podias fazer a essa necessidade precipitante de a partilhar com outros? E de ouvir respostas aproximadas às questões do teu espanto? Ou simplesmente de ouvir voz?

É que. Agora tu pensaste nessa coisa estranha, grande, e grande ponto de interrogação, e vieste ter comigo e perguntaste:

- Como é que te vês no futuro?

E eu cantei-te (um)a canção:

Vou-me chegando
à tua questão
que é mundo feito
que é líquido e meio
de vida e sabor

E ao chegar
à terceira curva
corro fujo
sem lusco-fusco
apago de pavor

De pensar amanhã
fujo
de pensar em mim
fujo
do amanhã desta casa
fujo
eu em minha casa e aqui
susto

E se estivesses sozinha na natureza, não podias perguntar nada a ninguém. E como ias dormir?
 
(E como ias dormir) sem falar?

terça-feira, 11 de junho de 2013

o velho e o mar


Book Art - "Il vecchio e il mare" di Ernest Hemingway - by Deviant Art artist wetcanvas

silhueta 365

ele há dias
em que ela
pensa atrás de si a sombra
menina da sua mão
na solitária



quarta-feira, 5 de junho de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

de cavalo pra veado

de cavalo pra veado
de veado pra tapete
de tapete pra lembrete
de simão pra xavier
a desblushar a mulher

partir pedra
pra ti pé
pra si mão
pra mim chave, yeah

she's a starr

sexta-feira, 31 de maio de 2013

larilolé

um corte límpido
um gesto lúcido
uma lápide lisa
uma lança

um disco lúdico
uma lente lenta
uma lesma lorpa
tão lesta

uma lúcia de luz
uma casca de lua
uma lâmpada acesa
um lápis

um cesto limpo
um bicho de laço
um logro na língua
um louco

quarta-feira, 29 de maio de 2013

descolagem

a citação que usas podes usá-la
podes até abusá-la
mas outros também poderão defendê-la
vê-la como querem lê-la
dizer-te por exemplo
que a leio tanto para a enfiares na tua carapuça
é tanto assim que a leio
sobre jogadas como essa
sobre o xadrez e as peças
sobre teatro de simulação, não
de ilusão, não
de cenários de papelão
por outros pintados em fuga da tua caixa
maré baixa maré baixa
conjunto de crachás grenás
e depois sai tudo com aguarrás

quinta-feira, 23 de maio de 2013

bestiália


Tu vês em mim um flamingo
quando recolho as patas à tez
tu vês em mim um cão
tu vês em ti um cão
isso depende da vez
 
Tu vês em mim um domingo
novo fora e novo dentro
vês-me nos braços cobras
noves fora desdobras
o bicho do meu centro
 
Tu vês-me a ser mulher
e ‘té piscas as pestanas
eu aqui flamingo cão
hoje é domingo bão
dá pra dizer o tanas

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Lavandaria

Olha... aquele foi buscar a capa à lavandaria.
Com que iogurte de pedaços
de autoritarismo e álcool
teria levado!
Aquela rouquidão de tom rachado
a pular de histeria a gritar
viva a hierarquia
vimos mostrar
o que de mais mísero nos homens pode haver.
E depois o poder imaginado de fazer ameaça
pirraça
mimaça
vamos com orgulho compor
um quadro do bosch na praça!
E também os que se agarram
a signos e santos sem pre-sisarem da razão
cantando espalharei pelo chão.
Ao comprido.
Jaz a figura empedernida
ao lado da saca plástica da lavandaria.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Canções de protesto ontem e hoje

O João Baía, com quem me cruzo nesta e naquela luta, e por consequência neste e naquele convívio – ou vice-versa – e de que me aproximei muito graças ao Coro da Achada, onde cantamos os dois, desafiou-me para participar numa conferência com o título «“Grândola Vila Morena, Terra da Fraternidade” - Canções de protesto, ontem e hoje». Medo. Ainda lhe tentei dizer que não. Porque não sou musicóloga nem socióloga nem historiadora, nem grande pensadora, e para além disso tenho horror a falar em público. Mas, se é verdade que passo a vida a refilar por muitos debates terem nas mesas apenas especialistas, ou pessoas muito conceituadas e reconhecidas, e se é verdade que o tema não me era assim tão estranho, lá resolvi dizer que sim.

E pus-me a pensar nisto das canções de protesto ontem e hoje. E no que raio tenho eu que ver com isso. Quer queira quer não, e mesmo que nós não lhes ponhamos nenhum rótulo, as canções que faço desde há mais de dez anos com o Pedro são inúmeras vezes apelidadas de «música de intervenção». Da mesma forma, o coro que iniciámos há uns quatro anos na Casa da Achada, também leva bastas vezes essa etiqueta de «música de intervenção». O que raio será música de intervenção? Mas a música não intervém sempre? Intervém sempre, acho eu, seja para questionar o mundo que temos, seja para ajudá-lo a continuar como está. Bom, talvez «canções de protesto», como aparece no cartaz desta conversa, seja um pouco mais claro. Mesmo assim é preciso sempre interpretações, subjectividades e contextos… Se olharmos de relance para a letra da Grândola – Grândola vila morena, terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena dentro de ti ó cidade – podemos não ver lá nenhum protesto, só constatações. Em vez de «o povo é quem mais ordena», teremos de ler «o povo é quem mais devia ordenar» para que ela seja uma canção de protesto.

Afinal, o que será isso? Uma canção de protesto? Vem-me à ideia um lamento - mas que se alia a uma ideia e a uma vontade de acção e transformação. Será uma canção que reclama com a situação, mas que também reivindica ou promete coisas, que pode imaginar futuros, criar utopias, terras da fraternidade, urgas, yukalis. Será uma canção que fala da nossa própria condição (como um tipo que vi no outro dia em Alfama, a tocar uma canção sobre tocar na rua e não ter licença) ou então ser uma canção que é testemunho de uma situação, de uma condição ou de uma luta de outros – e que lhes pode ser oferecida e dar-lhes força, e que pode ser depois adoptada por eles e ser cantada durante as suas lutas, e que pode servir para dar a conhecer um acontecimento de resistência a outros que vivem noutros sítios e noutros tempos, e tornar-se um documento informativo e histórico.

Se as canções que faço hoje têm cheirinhos de canções de ontem? Têm. Porquê?

Porque as lutas, se pensarmos bem, trazem muitas vezes canções com elas. E se nascemos e crescemos no meio de pessoas lutadoras, ou em momentos de luta, ouvimos essas músicas quase desde sempre, e re-ouvimo-las, e já estamos habituados a lembrá-las, a cantá-las e a reutilizá-las. As canções que faço hoje trazem consigo, das mais variadas formas, as canções que ouvi desde que nasci – sejam elas canções de protesto ou não. Mas se ouvi muitas canções de protesto, se nasci com a voz e a guitarra do Zeca Afonso, do Zé Mário Branco, do Sérgio Godinho e do Fausto, e se gosto bastante delas, é normal que influenciem canções de hoje que também se querem de protesto.

Se as canções de protesto que faço hoje têm cheirinhos de canções de ontem? Têm. Porquê?

Porque as lutas e as canções não nasceram hoje, porque vêm de trás, e a memória das lutas de ontem é tão importante como as lutas de hoje. Porque a história não é linear, e lutar contra o capitalismo e contra os poderes opressores nunca será uma guerra ganha. Porque para compreendermos o presente temos de conhecer o passado. Porque, para termos força para lutar aqui e agora, o que há de melhor senão saber que há e houve outros como nós a lutar noutros sítios e noutros tempos? E, para sentir essa solidariedade de outros com as nossas lutas e a nossa solidariedade com as lutas dos outros, de muito servem as canções que cantamos ou que ouvimos cantadas por outros.

E, no meio disto, há também que entender que as canções que caminham connosco se escolhem. Nunca são «todas as canções que já houve». São as que conhecemos e as que nos dizem mais, as que procurámos e encontrámos (e sempre procuraremos e encontraremos novas, mesmo que antigas). São aquelas que escolhemos.

Falei em «cheirinhos» de canções antigas nas canções de hoje. Que é quando se reconhece um conjunto de notas, ou uma forma de tocar guitarra, ou um certo crescendo até ao refrão, ou o uso de certas palavras. Mas e quanto a pegar em canções antigas e refazê-las? Mudar-lhes a letra, por exemplo? Tantas vezes… Porquê? As razões podem ir do eco que as canções podem ter entre si até razões muito práticas, que se prendem com as relações das pessoas com a música. Dou um exemplo.

No verão de 2011 fui à es.col.a da Fontinha, no Porto, uma escola que foi ocupada, como devem saber, e que a essa data ainda não tinha sido desocupada. Os companheiros de lá, quando souberam que eu ia, pediram-me para cantar lá qualquer coisa. Ora eu, apesar de cantar, não sei inventar músicas nem sei tocar nenhum instrumento, e o Pedro, o homem dos sete instrumentos, não ia comigo. A solução que arranjei foi a que tantas e tantas pessoas arranjam para poderem cantar sem saberem fazer música: fazer uma letra nova para uma música que já existia e que eu já sabia cantar. Sobre Os índios da meia praia, do Zeca, inventei uma nova letra, sobre a escola da Fontinha. Depois disseram-me que a canção antiga ecoava na nova. Claro. Não foi por acaso que escolhi Os índios da meia praia para fazer uma canção sobre uma escola ocupada, por pessoas que queriam tomar as coisas nas suas mãos.  

E nas manifes e em acções, e tantas vezes, é muitas vezes isso que acontece. Pegar em canções que já existem, e meter-lhes uma nova letra. É uma forma simples de quem não sabe fazer músicas poder fazer novas canções. E é também uma forma de muitas pessoas poderem cantar em conjunto. Porque a melodia já é conhecida por todos, e a letra pode escrever-se num papel, ou aprender-se rapidamente. Também no coro da Achada há músicas assim, feitas por cima de outras - muitas vezes por cima de canções noutras línguas, de companheiros que andam em lutas noutros lugares do mundo, muitas vezes contando uma história de hoje por cima de uma canção que tinha uma história de ontem -, e nos convívios improvisados à goela e à guitarra no quintal da Casa da Achada muitas vezes isso acontece. E em muitos destes casos, sobretudo em manifestações até, nem sempre as canções antigas de onde partem as novas são canções de protesto. Podem usar-se cançonetas banais, muitas vezes muito conhecidas e comerciais, para lhes dar uma letra que já vai torná-las uma canção de protesto. Pode-se pegar nos ABBA e cantar contra o capitalismo. Bom, mas também podemos pensar que não queremos usar uma canção do Quim Barreiros para cantar uma letra feminista… Há sempre escolhas a fazer.

E, claro, há canções que se cantam sem mudarmos uma linha da letra. Porque continua actual. Ou porque é poética ou geral e dá para todos os tempos, ou porque apesar de falar de coisas muito concretas sentimos logo que estamos a falar à mesma do que se passa hoje, mesmo que mudem os nomes dos bois.

O que é facto é que as canções só vivem quando são cantadas e ouvidas, o que também quer dizer, naturalmente - ou não fosse o homem homem -, refeitas, repegadas, transformadas. Caso contrário, estão em coma, guardadas num arquivo morto, e apenas consumidas individual e nostalgicamente. E aqui entram os meus problemas com os direitos de autor e com as proibições da partilha e do uso das canções. Sempre se cantaram canções e elas sempre foram ouvidas e cantaroladas em seguida por quem as ouviu. Da forma que quiserem… que aliás quem conta um conto acrescenta sempre um ponto. Mas ó meu caro, vamos lá pôr os pontos nos is, pode uma música que quer questionar o capitalismo ser propriedade? Faz sentido contestar um regime e alimentá-lo jogando de acordo com as suas regras? Faz sentido proibir ou limitar o uso e o abuso das canções heróicas do Lopes-Graça, que sonhava ouvi-las assobiadas na rua por alguém que fosse a passar, ou as canções do Zeca, ou as do Beethoven, ou as minhas? «Minhas»?

E como, por sugestão do título desta conversa - «canções de protesto ontem e hoje» -, me pus a discorrer sobre as reutilizações, hoje, das músicas de ontem, falta ainda dizer que a criação original, a criação de novas canções que não partam directamente de outras, é preciosa. E não tem sido menos feita. A criação original está cheia dos cheirinhos da travessia que nos trouxe aqui - isso já sabemos. Isso agrada-nos e nem poderia ser de outra forma. Mas não chega reutilizar. É preciso também sons e palavras novas, para situações novas e sentidos novos, para cérebros e sociedades diferentes.

Volta e meia no Facebook, onde me cruzo com os pensamentos de pessoas mais velhas que antes lutaram e que agora andam bastante caseiras, e também de pessoas novas mas que falam do mundo sobranceiras e com tom de lamúria, como se já tivesse passado o seu tempo, deparo-me com frases como «Já não há canções de protesto como antigamente». Às vezes se calhar achamos que já não há canções de protesto porque andamos à procura do som das guitarras gravadas nos estúdios dos anos 70, ou da maneira de cantar do Pete Seeger ou do Georges Brassens ou do Adriano Correia de Oliveira ou do Sérgio Godinho. E passam-nos ao lado «O paraíso fiscal» dos Diabo a Sete ou o «Estado Febril» dos Caruma. E passa-nos ao lado todo o hip-hop, que nos últimos tempos tenho achado que é dos géneros musicais que mais diz coisas concretas sobre a situação – e, para além disso, sobre situações por muitos desconhecidas como é a situação nos bairros - e que mais protesta. E por horror a tecnologias e a sonoridades electrónicas – de que confesso não ser a maior apreciadora, também – pode acontecer-nos esquecermo-nos de que os Bandex pegam nos acontecimentos políticos do dia anterior para fazer canções quase instantâneas que circulam rápida e largamente pela internet. Haverá música mais em cima do acontecimento que esta? E por horror automático aos cantores pimba, podemos nunca chegar a ouvir a canção de Nel Monteiro «Puta vida merda cagalhões», que falava de pobres e ricos e criticava a Expo 98 quando ela era por todos bajulada.

E se nos consignarmos apenas à nossa condição de consumidores, como quer a nossa sociedade, e apenas procurarmos música nas prateleiras da FNAC (que também terá a secção «música de intervenção», ou não tentassem eles integrar tudo… e pode a cantiga ser uma arma nos escaparates da FNAC?), como encontrar, dizia eu, nessa prateleiras, as canções de protesto do Mário Trovador, dos Trashbaile, dos Focolitus, do Coro da Achada, de Pedro e Diana? Que cantam na rua e às vezes não gravam, e que quando gravam fazem discos caseiros, copiados no computador, com livrinhos em fotocópia, e os vendem de mão em mão, sem factura? Como esperar encontrar nas catedrais de consumo a cassete «Educa-te cão!», que um conjunto de estudantes fez nos anos 90, com canções em torno da luta contra as propinas, ou o disco que fez o Movimento Anti-Tradição Académica em 2006, com criações originais de várias bandas contra as praxes? E se não descermos à acampada do Rossio ou não descermos às minas com os mineiros, saberemos das músicas que lá nasceram e que lá se cantaram? Isto para dizer que também é preciso contrariar os nossos preconceitos musicais, e que também é preciso andar nas lutas e na rua, e fora da sociedade de consumo, para conhecer e cantar canções de protesto.

Diana Dionísio
 
 
Intervenção, em 30 de Abril de 2013, em «As portas que Abril abriu - Abordagens dos processos de transformação no período pós 25 de Abril». 1ª conferência/conversa na Biblioteca Museu República e Resistência - Espaço Grandela na Estrada de Benfica, que contou com a presença de Viriato Teles, Francisco Fanhais e Diana Dionísio. Falou-se de músicas do presente com cheirinhos de outros tempos, da última revolução feita pela rádio, do Zeca Afonso como cimento/referência entre as várias gerações que participaram nos últimos protestos. Da expressão "Zeca Afonso português", quando nos referimos ao Victor Jara, Pete Seeger, ou Fabrizio di Andre. Ouviu-se o Bairro Negro e o Traz outro amigo também pela voz de Francisco Fanhais e a melodia dos Índios da Meia com letra dedicada à Es.Col.A da Fontinha pela voz de Diana Dionísio.
 
Este pequeno filme mostra alguns momentos desta 1ª conferência/conversa:
 


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Somos todos arguidos da Fontinha

Há águas e águas
de calor e de frio
há a água da Fontinha
e há a água do Rio

Uma água cria lugar
e é rica em vitaminas,
a outra é pra despejar
salobra, sem salinas  

Uma é potável
e cria regueirões,
a outra com barragens
reprime multidões  

Uma experimentou
fez ondas e quebrou,
outra deu dor de barriga
e a gente vomitou  

Há águas e águas
a que vive e a que morre
há a água do Rio
e há a água que corre

Da bica da Fontinha
a água espalhou-se em raízes
germinou muitas terras
cheirou muitos narizes

De Lisboa e de acolá
ouve-se correr a modinha
nós somos todos
arguidos da Fontinha
 
 

assim não será


O cinismo é o pior. É pior do que o pior. O cinismo ensina a submissão decalcada do real como se realmente existisse. E repete tantas vezes que assim é, vomita "assim é" por todas as bocas e assim não será. Não me deixes cair ali, no lamacento terreno do sempre foi, no caudal mal-cheiroso do peixe podre sem viagem, na impossibilidade de levantar o pensamento, na constatação peganhenta da vida tal qual, na plana e estúpida travessa de lapaliçadas mornas e moles, no faz como viste fazer e seja como for e tanto faz que só te leva à igualdade da morte.

A greve dos grãos de trigo


E por falar em sementes

A GRÉVE DOS GRÃOS DE TRIGO

                Quasi uma ninharia, semente ligeira, pequenino fruto, talo de erva num sulco, grão rubro numa espiga, pó branco no moinho, festim de inséto, na minha pequenez possuo a humilde inocencia campezina, ocupo um logar impercétivel na natureza, razo com a terra, ignorado dos grandes vegetaes prodigos de sombra e que enormes e musicaes se erguem até ás nuvens como nas igrejas.
                Tão debil e modesto, nada valho por mim mesmo; é necessario que sejamos muitos. Começam a olhar-nos com consideração quando nos juntamos um centenar para formar uma espiga; uma palhinha nos ergue então um pouco acima do sólo e em volta de nós avistamos o mundo; a brisa que passa faz-nos enclinar em reverencias humildes, pois que ainda nos ergamos continuamos sendo modestos, sempre coisa minima; o primeiro que passa pisa-nos sem querer e morremos. A nosso lado as papoulas levantam as suas pequenas cabeças roxas e as margaridas as suas estrêlas brancas. Entre os seus requebros permanecemos simples, rubros, timidos, um pouco candidos, e os pequenos escaravelhos roxos encarrapitam-se nas hastes que os sosteem como o poderiam fazer num mastro de cocanha. Nem sequer possuimos a barba dos barbudos centeios que vivem perto de nós.
 
* 

                Porém, se a nossa importancia aumenta um pouco com a espiga, torna-se consideravel pela associação das espigas, e então respeitam-nos quando formamos um campo, e até o governo delega um guarda campestre para velar por nós como se fossemos altos personagens. A nossa humilde personalidade desapareceu. Convertemo-nos em multidão e a nossa idilica massa cobre a terra. Todos procuram fazer-nos cêrco; os grandes e orgulhosos vegetaes retrocedem e por mais insignificantes que por nós mesmos sejamos, o numero converte-nos num elemento poderoso. As nossas espigas ondulam como o mar agitado; combatem-nos como se fossemos um ezercito, com as fouces, e como a mão do homem, só, não basta,é precisa a maquina que nos ceifa. A agua, o vento, o vapor, pó. E este mesmo pó é preciosissimo. Somos o pão que nutre os homens.

*
 
Então a nossa importancia cresce até chegar á hiperbole. De humildes e rusticos grãos de trigo convertemo-nos em politicos. Para os graves economistas somos os cereais. Na bolsa cotisam-nos como se fossemos ouro; pezamos nos destinos dos imperios, fazemos as revoluções. Por nós se matam os homens. Por nós o sangue corre.
                Na nossa humildade campesina, na nossa benignidade e inocencia de grãos de trigo, em vez de nos orgulharmos, esta luta dos homens entristece-nos.
                O valor que os homens nos impõem, não o queremos, pois é feito da necessidade dos homens e do sofrimento dos pobres. A nossa força bemfeitora e doce despresa-o. Nós queriamos multiplicar-nos; a nossa fecundidade inesgotavel está á disposição dos homens; oferecemos a nossa abundancia e a nossa prodigalidade naturaes; um punhado de nós constitue um tesouro na terra; oferecemos os nossos tesouros inesgotaveis que podem aplacar os mais famintos e saciar todo o mundo. Só pedimos que nos semeiem.
                E os homens negam-se a isso. O cego interesse duns quantos o impede. Roubam-nos a terra, desterram-nos. Os semeadores desfalecem ante este interesse particular e as leis interveem para nos encarecer. Formam-se ligas para restringir a nossa fecundidade. Fazem-nos abortar. E o que mais choca é que os homens se batem por nós, encerram-se entre fronteiras, odeiam-se, levantando ezercitos e alfandegas. 

* 

                Por fim, este espectaculo, irrita-nos, e ante a maldade dos homens que nos obriga, apesar do nosso caráter modesto e bom, a converter-nos em objéto de lucro têma de assassinato, nós cujo sonho pacifico é dispensar a todos gratuitamente a vida, como o ceu dá o ar e o sol a sua luz, nós rebelamo-nos. A nossa natureza amigavel não quer, não pode suportar este papel de discordia. Vamos declarar-nos em greve sobre toda a superficie da terra. Permaneceremos enterrados nos sulcos, pediremos á tempestade que nos incendeie com os seus raios, que destrua com o seu graniso e ao sol que nos queime. Converter-nos-hemos em palha inutil e esteril. E então os homens famintos compreenderão.
                Compreenderão a inutilidade das suas guerras, a mentira dos seus interesses, a puerilidade do seu orgulho. Terão que considerar que, como nós, são pouca coisa; como nós, compreenderão que nada valem senão em comum, pela associação fraternal de todos, e então a humanidade não formará mais que um só homem, como uma espiga. E não terão medo de semear a terra. Unir-se-hão para semear em logar de  se separarem para combater.
                Os nossos grãos, arremessados profusamente, voarão para os sulcos; cresceremos robustos, macissos; cobriremos a terra com o ouro bemdito e rubro das colheitas que fazem o pão do homem. E todo o mundo poderá viver, porque, então, já nada valeremos. E na nossa modestia ficaremos contentes.
                Mas atualmente o nosso valor espanta-nos, a nossa carestia envergonha-nos…
                Na procima primavera vamo-nos declarar em greve.

Henrique Févre

Cultivar sem restituir é cultura de rapina.

 Liebing

 
in A Sementeira – Publicação mensal ilustrada – Crítica e Sociologia, nº 1, Lisboa, Setembro de 1908, pp. 7 e 8
(este texto foi publicado em francês, «La grève des grains de blé», no suplemento literário de domingo do jornal Le Figaro, em 3 de Março de 1894)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

a luta continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua continua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua tinua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua nua ua ua ua ua ua ua ua ua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua uaua ua ua ua ua ua ua a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a

terça-feira, 30 de abril de 2013

Como abrir aquela janela

A menina já não tem a mesma silhueta que tinha quando era criança. Mas ainda descobre as formas como funcionam as coisas com o mesmo olhar curioso. Ao descobrir a forma como funcionam as coisas abrem-se três dimensões:

1 - a descoberta, a própria alegria da descoberta, esse pequeno tempo ardente;
2 - a potência, o que pode vir a poder fazer;
3 - o perigo, porque uma coisa pode servir para outra coisa.

A menina acha que isto só vai com um exemplo: como abrir aquela janela. As práticas fazem descobrir as ideias e as ideias voltam a fazer as coisas.

Cuidado, é um sítio de passagem. Era melhor ali. Depois da descoberta, o erro. Depois aprende-se com o erro e entende-se que seria melhor ali, onde o ver se junta com o ouvir.

Fecha a janela que está frio.

terça-feira, 23 de abril de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

El mundo al revés


Teria sido melhor se as pessoas tivessem nascido de pés e andassem com cabeça.

Larga!


Santos fez a boca do cão abrir-se com um gesto macaco
segurando-o com a mão esquerda no cachaço.

queda


Dikata caiu no buraco de Tarilú por artes mágicas
e as personagens desapareceram no abismo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Existe um postulado político: o Zé não deve ter senso crítico



Zé é um sujeito bem feio
que vive por ali no passeio
as vezes ele é engraxate
as vezes vende língua ao empate

Zé mora de baixo da ponte
... por isso tem um belo tem um belo horizonte
o Zé cata comida no lixo
será que o Zé e gente ou é bicho

A mãe do Zé sempre foi simpática
embora não soubese gramática
sabia que onde tem marinheiro
dá sempre pra arranjar um dinheiro

O Zé é um sujeito bacana
só come uma vez por semana
o Zé é um sujeito batuta
é o próprio, próprio filho da luta!

Existe um postulado político
o Zé não deve ter senso crítico
enquanto a gente come filé
o Zé que chupa o dedão do pé

De vez enquando o Zé degenera
e vira um assaltante uma fera
o Zé outro Zé e outro junto
um deles sempre vira presunto

O Zé vê a polícia e já sai logo correndo
ea porrada é tanta e cacetete cantando

Polícia nunca sabe pq é que tá batendo
o Zé sempre sabe pq tá apanhando

Ah e agora José, e agora José
e agora José, mais e agora José
e agora José, mais e agora José
e agora José, mais e agora José
e agora José, e agora José
e agora José, e agora José

a menina foi à loja do cidadão pagar uma conta em atraso

A menina Pires foi à loja do cidadão
e encontrou gente de muitos feitios.
Apanhou uma senhora muito engraçada à sua frente
que queria ser atendida por uma pessoa específica
e não saía dali enquanto não viesse a dona Isabelinha
Só falo com ela, eu quero ser atendida por ela,
só ela me compreende.
Quase humilhante para a rapariga que estava a atender
e que lá teve de chamar a Isabelinha.
Tudo se resolveu, atrás da menina já ninguém percebeu,
não desautorizou ninguém afinal,
foi só uma demora que deu para olhar para outra senhora
que tinha prioridade no atendimento.
Eu dou-lhe a senha, eu dou-lhe a senha.
E deu.
A conta da electricidade é que não desceu.

As coisas são e não são


Sem sonhos, menina Pires, não há liberdade nenhuma. As coisas são e não são como são. Isto é, vão sendo assim, mas serão sempre diferentes, contêm o que vem no que existe vivo. Falo dos homens, que são lobos e não serão.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sonho


Um dia não havia ninguém para as contas e todos as faziam
redescobrindo a leveza da matemática e a beleza das coisas.

Insubmissão


As partes mais engraçadas do corpo são as que não obedecem.

Discernimento


Geraldo teve o discernimento de passar a bola antes de bater com os cornos na baliza, ao poste.

nome + nome


A árvore seguiu o seu caminho ignorando as juras de amor.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A nova escola da Fontinha - Rio gasta 200 mil euros a tentar lavar a cara e mostra mais uma vez que é uma besta


O presidente da Câmara do Porto visitou esta sexta-feira o novo Centro de Recursos Sociais da cidade, um investimento autárquico de "200 mil euros" na antiga escola da Fontinha, ocupada pelo movimento Es.Col.A até ao despejo camarário de abril. 

"Este é o projeto social que estava na nossa mente desde sempre. É um edifício que acolhe diversas instituições de caráter social, da sociedade e da autarquia", descreveu Rui Rio, no fim de uma visita ao novo equipamento.

No espaço estão agora várias instituições ligadas ao apoio a mulheres, ao endividamento, a crianças autistas, ao combate à SIDA, e à inserção profissional, para começar a funcionar "em pleno" a partir de 1 de fevereiro, adiantou o autarca. 

A 19 de abril, a Câmara do Porto despejou da antiga escola primária da Fontinha os ocupantes do movimento Es.Col.A, numa ação que provocou confrontos com a polícia e levou três pessoas a tribunal.

"O que estava pensado para aqui foi sempre isto. Acho que isto é adequado. É uma boa ideia, é útil para a sociedade. Espero que, nas suas mais diversas vertentes, possa apoiar devidamente a população", frisou.

As obras custaram à autarquia "200 mil euros" e demoraram "pelo menos" mais "um mês" do que o previsto porque o espaço foi várias vezes "vandalizado", lamentou o autarca, em declarações aos jornalistas. 

"Houve um atraso porque isto foi permanentemente vandalizado e roubado. É lamentável e mostra que os movimentos em torno disto não eram os melhores. Acho que ninguém ganhou nada com isso. Nenhum portuense ganhou com isso, mas enfim, são mentalidades", frisou.

Rio disse que a passagem pelo local não foi "bem uma inauguração" mas "uma visita às instalações que ficaram prontas há 15 dias ou três semanas". 

"O que manda o bom senso é não fazer grandes anúncios que deem para grandes espetáculos. Manda a prudência que o fizesse de forma discreta para não provocar as pessoas, se é que elas se achariam provocadas", esclareceu.

O edil admitiu ter feito a visita "com mais discrição do que o que costume" para "evitar espetáculos degradantes, eventualmente".

A presença da polícia foi também justificada por razões "de elementar bom senso".

Já depois de Rio ter abandonado o local, alguns populares tentaram pacificamente entrar nas instalações mas foram impedidos pela polícia de o fazer.

A APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, a Associação Portuguesa para a Reeducação em Matéria de Endividamento, a Associação de Defesa dos Interesses e da Igualdade das Mulheres e o Instituto de Emprego e Formação Profissional são algumas das entidades presentes no novo equipamento.

As instituições têm a cargo "uma renda simbólica" e todos os ocupantes, incluindo as entidades ligadas à autarquia pagam condomínio, esclareceu o edil. 

O despejo de abril de 2012 foi justificado pela autarquia com a recusa do Es.Col.A em formalizar um contrato de cedência e o pagamento de uma renda simbólica de 30 euros.

Durante as celebrações populares do 25 de abril de 1974, milhares de pessoas juntaram-se aos elementos do movimento para reocupar a escola, onde o Es.Col.A se tinha instalado em abril de 2011. 

Em maio a autarquia despejou os ocupantes, mas a contestação popular levou a Câmara a "ceder" a escola até ao fim de dezembro de 2011.

[Tirado do Jornal de Notícias]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Só te digo Apollinaire


Só te digo apollinaire

Só te digo em voo em dias
de vertigem certa

Hoje por exemplo abri a pestana apollinaire
 como quem abre champanhe triste.
 Só te digo. Digo-te apollinaire.
Abri a pestana e era
a era triste de dizer isto
 é velho tudo e eu farto.

Sempre soube que isto da tristeza se pega
como mitológica doença venérea
depois de muita leitura na cama.

Vou pelos ares do meio do século.
Fugir logo de manhã do quarto alugado
 meter pelas ruas à procura de rampas
que são os miradouros mais modernos.

Fugir logo de manhã e saber
 que há boticários para quase tudo
 há prospectos de venenos a vapor
 agora menos ruidosos mais de bolso

Há passeios organizados entre as colunas
 de óbitos e há seguramente poesia nisso
 e em passar pelo suspiro ronco das sirenes
 e ficar à conversa em surdina.
Sirenes sirenes
as minhas as matutinas
 e as outras
mas hoje a mim nada me canta.

Nada de ascensores dos que engendram
rosas ruidosas para oferecer aos passantes
 e dizer olhem-me para estas belas sirenes.

Já cansa as coisas serem por todo o lado.

Olha uma rampa.
 É apanhar o jeito e deixar o solo.
É a cair que faço a minha melhor imitação de alarme.
 É fácil
como a desgraça o autoclismo
ou meter as mãos à garganta para soluçar
 é barato como andar para trás escorregar
beleza abaixo na minha trotineta

é perigoso como andar
por aí a ganhar tempo
e apanhar um bocado de ar
mesmo no meio da testa
e daí o cabelo assim para trás
que é moderno
em suma é fácil
como não encontrar o caminho para casa
 depois de um século às voltas e no fundo
faz-me mal ler-te porra Apollinaire

Não estás vivo
 e eu estou farto disto lá isso
e hoje os automóveis não se parecem com nada

ah em suma isso era dantes
 e depois dizer adeus
é difícil como fazer pela vida
em voo mesmo quando se apanha
um daqueles miradouros jeitosos
 num bairro dos mais finos.

A verdade é que não há miradouros jeitosos
 ou eu já não sei ganhar balanço.

É que no fundo a poesia disto é poucochinha.

Eu tentei apollinaire
só te digo apollinaire
 era voltares e ias ver.

eu gostaria de não ter de te dizer
mas é

em suma isto

e vá há de vez
em quando
uma rampa aqui e ali de jeito
 no fim de um verso

por isso volto ao quarto e digo-te apollinaire
 a ver se apanho a tristeza quando ela fôr a subir.

                                                  Miguel Cardoso

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A menina pires descobriu este ano palavras novas em várias línguas


jagaragatui
parajanatova
frotibulicã
tingelimatuta
dregolunovu
espartuba
bretunha
asperitiva
honildestão
grefunta
labirástero
cuçada
pinda
mersibuntes
xunia
nedaguita
sergambado
vertasgaio
wigi
quotrida
zaúl
rejosfanda
deçassas
julim
tinior
balaúm
opergunde
gareg
dubindal
bertiles
vordip
lubab
numbed
erggen
xalú
poió
linfutra
egasax
trishtoño

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A música não fará as pazes

A música não fará as pazes com a fúria
nem se zangará com Alecto
A música ocupar-se-á do tempo seguinte
sem expulsar os cinzentos
A música terá os olhos vermelhos
de tanto enfrentar a violência
com sentidos novos

A música saberá que vai
insatisfeita, não se retira
Fica sem parar
como o lume
Tem serpentes no cabelo
como Alecto

O pássaro ou ela itinerando
- é demasiada liberdade
para os deuses concordarem

Juno não quer mais disso,
diz que seja qual for a luta que está para vir
ela mesma tratará do assunto

Despede Alecto então
que só arranja confusão
em todas as grécias

A música começará,
outra vez aguda
A música gritará baixinho
para orelhas moucas
A música
desrespeitará o pacto da tirania

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A vida está toda à tua espera


Sou o tempo das desrazões, proponho todos os dias que acordes sem saber do futuro e tenhas de te submeter às oportunidades inexistentes da serpente, enquanto os dedos se assustam. O teu caminho será solitário e penoso, até chegares à fronteira. Daí para diante és livre, e podes recusar a vida de cão à vontadinha, desde que desembolses o suficiente para as despesas. Como é evidente, tens de mostrar os documentos.

Chama-se letra morta, é a promessa que nunca será cumprida, são os teus sapatos rotos que pisam o sangue e a pedra. Melhor, são as mentiras dos teus antepassados vividas por ti, enquanto respiras. A canção que melhor condiz cantou-a um homem baixote no beco de maria da guerra:

A vida está toda à tua espera
Sósias teus em todas as esquinas
Fazem saltar as sombras
No meu corpo de fantasma

A vida está toda à tua espera
Os amigos são dobrados pela renda
Apanham cacetadas
Em páginas de jornais

A vida está toda à tua espera
Antes de avançares olha os bandidos
Vou tirar o jugo
Antes que seja tarde

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

domingo, 4 de novembro de 2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Se eu fosse hipocondríaco

Estaria hoje com uma doença nova, muito rara
que me impediria de trabalhar no mesmo sentido
nestes dias obscuros
em que a opressão avança passo a passo.

Seria obrigado a um tratamento longo nos ares da praia
nos dias claros...

- Comece já.

O médico proibir-me-ia de aceitar ordens superiores
de ir tão cedo para o escritório
se fosse num escritório que eu trabalhasse
se eu não estivesse a enganar o desemprego com obras de burocracia
se eu não estivesse a enganar a preguiça com as tarefas longas
que provocam azia.

Claro que a doença exigiria
que eu fizesse de duas em duas horas
um descanso na rede
- assobie muita música, duas colheres de indisciplina
e banhos de piscina
quando a praia fechar, privatizada,
vá para o campo apanhar ar
leia à vontade
esqueça a literatura
e não cumpra nem as minhas prescrições, diria ele.

Procure a felicidade antes de deitar
e acorde para a saudar:
olá.

Se eu fosse hipocondríaco
teria essa doença de certeza e queixava-me muito a toda a gente
porque essa doença não me deixaria aceitar
as condições propostas pelos pulhas
as torturas ao mundo com agulhas
o incendiário da guerra seria desmentido com a mão fechada
desautorizaria os autores dos crimes maiores:
os que nos impedem de fazer o dia

sem as correias que prendem o pensamento à reverência.

Eu teria de cantar enquanto partilhava
o tempo e a ferramenta
enquanto fabricava uma máquina livre,
porque faz parte do tratamento de quem tem isso
fabricar qualquer coisa que nos ajude
no trabalho mais belo - derrubar as cadeias
e abrir de novo a mão depois de bem erguida a cabeça
o punho e a ponte levantada.

Essa doença rara far-me-ia amar ainda mais a liberdade
estaria convencido de ter a doença e então, preocupado, eu iria procurar
gente com os mesmos sintomas
gente que faz greve
gente que se bate
e não desiste de um amigo
gente que combate
e não desiste do que ama
gente livre
gente que não faz de séria.

Desconfiem dessa gente tão séria, disse-me a mulher -
- ela deve ter a doença rara que eu teria,
teria de certeza, se calhar até já tenho,
já me sinto adoentado com a doença rara que eu teria.






domingo, 14 de outubro de 2012

Se eu fosse uma secretária

pensavam pensavam
que estava com uma doencita
mas ele era náuseas, vómitos, diarreia, desconforto abdominal, dor, espasmos, tonturas, vertigens, sonolência, dor de cabeça, convulsões, disrupção dos sentidos de olfacto e paladar, fezes moles,  flatulência, anorexia, perturbações digestivas, reacções alérgicas, prurido, erupção cutânea, artralgia,  vaginite, trombocitopenia, anemia hemolítica, reduções ligeiras e transitórias do número de neutrófilos, agressão, agitação, ansiedade, nervosismo, despersonalização, delírio, parestesia, síncope, astenia, insónia, hiperactividade, lesões nos ouvidos,  audição debilitada, surdez, zunido nos ouvidos, palpitações, arritmia, taquicardia ventricular, obstipação, descoloração da língua, pancreatite, descoloração dos dentes, colite pseudomembranosa, hepatite, icterícia colestástica, necrose hepática, insuficiência hepática, edema angioneurótico, urticária, fotosensibilidade, reacções cutâneas graves, eritema multiforme, necrólise epidérmica tóxica, nefrite intersticial, insuficiência renal aguda, anafilaxia, astenia, candidíase e inflamação dos testamentos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Se eu fosse uma mesa

Se eu fosse uma mesa podia ter uma perna, duas pernas, três pernas ou quatro pernas. Se eu fosse uma mesa podia ser pesada de mármore, maciça de carvalho ou ter telhados de vidro. Podia ser desmontável ou não passar na porta. Podia ter bicos e lados e não deixar casar, ou ser redonda, ou ampliar. Se eu fosse uma mesa podia estar à janela ou fechada numa salinha interior, ou então podia ser uma mesa de jardim para jogar às cartas. Podia ser uma mesa para comer ou para escrever, ou então para as duas coisas, ou ser uma mesa de mistura. Podia ter um presidente ou lançarem-me pontos de ordem. Se eu fosse uma mesa tinha um lado vertical e um horizontal. Se eu fosse uma mesa tinha partes duras ou à pressão. Podia estar posta ou não. Se eu fosse uma mesa estava farta de cadeiras. Se eu fosse uma mesa não tinha nome e só os loucos falavam comigo. Se eu fosse uma mesa talvez juntasse o útil ao agradável. Podia ter manchas, pregos e cola, e pastilhas debaixo do tampo. Se eu fosse uma mesa não falava, mas podia ranger ou cair e podiam-me bater e lavar. Ainda não sei bem se gostava ou não de ser uma mesa.

sábado, 8 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

o arco ressonante

Diz-se que naquela passagem, mesmo ali, no arco, quem disser o seu nome ouve o eco da sua voz. Vamos lá. Oiçam. Um de cada vez, um de cada vez.

há verão

vamos os dois passear
de carro vamos ver
portugal a arder
eucaliptos de carvão
e lambemos
calipos de limão

oh que bom sair
da cidade à natureza
carvão oh sim beleza
há mar para apagar
no som dos carros a passar

e livrem-me do betão
das paredes que pedem óculos
pra míope
e ninguém pega nestes poemas
pra fazer canções

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

peixe ao espelho

a nadar em loop junto ao vidro do aquário balão

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

água ar dente

a bílis o álcool o cloreto de sódio um mar
no chuveiro ia o mar que assim confundia-se tudo
e não havia ninguém a ver nem o próprio
o fígado e a humidade solução dissolução nadar
sem olhar

na ponta dos dedos um depósito a gritar
mudo

corro
corroente
corrosiva coerciva
incisiva
indecisa
no saibro

mato-me mais uma vez dramática com gritos
tapas os ouvidos ou diverges desvias-te da verdade escancarada
desisto

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

retrato


Encomendaram-me um retrato
com olhos nariz e boca
as pregas todas no vestido
e uma rosa
nas mãos ou no cabelo

Se fantasia é forçosa
que se limite ao fundo e muito pouca
Um reposteiro ou umas flores

Que um retrato é um retrato E para sê-lo
tem de ficar rigoroso
e acima de tudo parecido

E enquanto estico a tela escrupuloso
e mecânicamente escolho cores
a mim mesmo pergunto indiferente

De que fala esta gente?

                                 Mário Dionísio

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

silhueta da cidade montra


quando a cidade se começou a vender, deixei de usar qualquer café na minha rua porque o café não era para mim, porque o café custava um balúrdio e as mesas não eram feitas para ficar a ler o jornal

quando a cidade se começou a vender, as ruas já não tinham um desenho para eu chegar onde queria facilmente, as ruas passaram a dar saída só para museus, monumentos e lojas de galos de barcelos

quando a cidade se vendeu, já nem os anúncios eram para mim, porque a cidade não se vendeu para mim, porque eu não a podia comprar

quando a cidade se vendeu, os bilhetes de autocarro e de metro e de eléctrico e a gasolina, o gasóleo e os parquímetros passaram a custar um preço que se ria a bandeiras despregadas dos trocos que eu levo no bolso

quando a cidade se vendeu, os jardins deixaram de ter árvores e arbustos e lagos e bichos e passaram a ter o chão liso, duro e branco, e brancos eram os bancos, e continuavam a chamar àquilo jardim, porque jardim é uma palavra bonita

quando a cidade se vendeu, os parques infantis e as lojas e as garagens e os ginásios e os correios estavam forrados em todas as arestas de protecções contra os assaltos

quando a cidade se vendeu, as pessoas que lá viviam começaram a deixar o centro por ordem das classes sociais a que pertenciam

quando a cidade se vendeu, passou a ser um parque de diversões para turistas, e quem ainda lá morava escondia-se em casa porque as ruas e os cafés não eram feitos para si, e era uma chatice para os senhores importantes e os arquitectos urbanísticos quando as bichas da loja do cidadão saíam pela porta e davam a volta às esquinas

já não sei se a cidade se vendeu ontem ou se foi hoje, ou se é amanhã

domingo, 26 de agosto de 2012

L'info má

pas de nouvelles bonnes nouvelles?
passo de novas notícias
anúncio não anunciado
as interrogações as mesmas?
manipulados pelas aparências, ambiências, hortênsias
funicular

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

É possível

É possível
ficares aqui
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neste tempo
é provável

Resiste,
ó resistente:
é necessário

always bear in mind...