A menina Pires foi à loja do cidadão
e encontrou gente de muitos feitios.
Apanhou uma senhora muito engraçada à sua frente
que queria ser atendida por uma pessoa específica
e não saía dali enquanto não viesse a dona Isabelinha
Só falo com ela, eu quero ser atendida por ela,
só ela me compreende.
Quase humilhante para a rapariga que estava a atender
e que lá teve de chamar a Isabelinha.
Tudo se resolveu, atrás da menina já ninguém percebeu,
não desautorizou ninguém afinal,
foi só uma demora que deu para olhar para outra senhora
que tinha prioridade no atendimento.
Eu dou-lhe a senha, eu dou-lhe a senha.
E deu.
A conta da electricidade é que não desceu.
segunda-feira, 18 de março de 2013
As coisas são e não são
Sem sonhos, menina Pires, não há liberdade nenhuma. As coisas
são e não são como são. Isto é, vão sendo assim, mas serão sempre diferentes,
contêm o que vem no que existe vivo. Falo dos homens, que são lobos e não
serão.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Sonho
Um dia não havia ninguém para as contas e todos as faziam
redescobrindo a leveza da matemática e a beleza das coisas.
Discernimento
Geraldo teve o discernimento de passar a bola antes de bater
com os cornos na baliza, ao poste.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
A nova escola da Fontinha - Rio gasta 200 mil euros a tentar lavar a cara e mostra mais uma vez que é uma besta
O presidente da Câmara do Porto visitou esta sexta-feira o novo Centro de Recursos Sociais da cidade, um investimento autárquico de "200 mil euros" na antiga escola da Fontinha, ocupada pelo movimento Es.Col.A até ao despejo camarário de abril.
"Este é o projeto social que estava na nossa mente desde sempre. É um edifício que acolhe diversas instituições de caráter social, da sociedade e da autarquia", descreveu Rui Rio, no fim de uma visita ao novo equipamento.
No espaço estão agora várias instituições ligadas ao apoio a mulheres, ao endividamento, a crianças autistas, ao combate à SIDA, e à inserção profissional, para começar a funcionar "em pleno" a partir de 1 de fevereiro, adiantou o autarca.
A 19 de abril, a Câmara do Porto despejou da antiga escola primária da Fontinha os ocupantes do movimento Es.Col.A, numa ação que provocou confrontos com a polícia e levou três pessoas a tribunal.
"O que estava pensado para aqui foi sempre isto. Acho que isto é adequado. É uma boa ideia, é útil para a sociedade. Espero que, nas suas mais diversas vertentes, possa apoiar devidamente a população", frisou.
As obras custaram à autarquia "200 mil euros" e demoraram "pelo menos" mais "um mês" do que o previsto porque o espaço foi várias vezes "vandalizado", lamentou o autarca, em declarações aos jornalistas.
"Houve um atraso porque isto foi permanentemente vandalizado e roubado. É lamentável e mostra que os movimentos em torno disto não eram os melhores. Acho que ninguém ganhou nada com isso. Nenhum portuense ganhou com isso, mas enfim, são mentalidades", frisou.
Rio disse que a passagem pelo local não foi "bem uma inauguração" mas "uma visita às instalações que ficaram prontas há 15 dias ou três semanas".
"O que manda o bom senso é não fazer grandes anúncios que deem para grandes espetáculos. Manda a prudência que o fizesse de forma discreta para não provocar as pessoas, se é que elas se achariam provocadas", esclareceu.
O edil admitiu ter feito a visita "com mais discrição do que o que costume" para "evitar espetáculos degradantes, eventualmente".
A presença da polícia foi também justificada por razões "de elementar bom senso".
Já depois de Rio ter abandonado o local, alguns populares tentaram pacificamente entrar nas instalações mas foram impedidos pela polícia de o fazer.
A APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, a Associação Portuguesa para a Reeducação em Matéria de Endividamento, a Associação de Defesa dos Interesses e da Igualdade das Mulheres e o Instituto de Emprego e Formação Profissional são algumas das entidades presentes no novo equipamento.
As instituições têm a cargo "uma renda simbólica" e todos os ocupantes, incluindo as entidades ligadas à autarquia pagam condomínio, esclareceu o edil.
O despejo de abril de 2012 foi justificado pela autarquia com a recusa do Es.Col.A em formalizar um contrato de cedência e o pagamento de uma renda simbólica de 30 euros.
Durante as celebrações populares do 25 de abril de 1974, milhares de pessoas juntaram-se aos elementos do movimento para reocupar a escola, onde o Es.Col.A se tinha instalado em abril de 2011.
Em maio a autarquia despejou os ocupantes, mas a contestação popular levou a Câmara a "ceder" a escola até ao fim de dezembro de 2011.
[Tirado do Jornal de Notícias]
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Só te digo Apollinaire
Só te digo apollinaire
Só te digo em voo em dias
de vertigem certa
Hoje por exemplo abri a pestana apollinaire
como quem abre champanhe triste.
Só te digo. Digo-te apollinaire.
Abri a pestana e era
a era triste de dizer isto
é velho tudo e eu farto.
Sempre soube que isto da tristeza se pega
como mitológica doença venérea
depois de muita leitura na cama.
Vou pelos ares do meio do século.
Fugir logo de manhã do quarto alugado
meter pelas ruas à procura de rampas
que são os miradouros mais modernos.
Fugir logo de manhã e saber
que há boticários para quase tudo
há prospectos de venenos a vapor
agora menos ruidosos mais de bolso
Há passeios organizados entre as colunas
de óbitos e há seguramente poesia nisso
e em passar pelo suspiro ronco das sirenes
e ficar à conversa em surdina.
Sirenes sirenes
as minhas as matutinas
e as outras
mas hoje a mim nada me canta.
Nada de ascensores dos que engendram
rosas ruidosas para oferecer aos passantes
e dizer olhem-me para estas belas sirenes.
Já cansa as coisas serem por todo o lado.
Olha uma rampa.
É apanhar o jeito e deixar o solo.
É a cair que faço a minha melhor imitação de alarme.
É fácil
como a desgraça o autoclismo
ou meter as mãos à garganta para soluçar
é barato como andar para trás escorregar
beleza abaixo na minha trotineta
é perigoso como andar
por aí a ganhar tempo
e apanhar um bocado de ar
mesmo no meio da testa
e daí o cabelo assim para trás
que é moderno
em suma é fácil
como não encontrar o caminho para casa
depois de um século às voltas e no fundo
faz-me mal ler-te porra Apollinaire
Não estás vivo
e eu estou farto disto lá isso
e hoje os automóveis não se parecem com nada
ah em suma isso era dantes
e depois dizer adeus
é difícil como fazer pela vida
em voo mesmo quando se apanha
um daqueles miradouros jeitosos
num bairro dos mais finos.
A verdade é que não há miradouros jeitosos
ou eu já não sei ganhar balanço.
É que no fundo a poesia disto é poucochinha.
Eu tentei apollinaire
só te digo apollinaire
era voltares e ias ver.
eu gostaria de não ter de te dizer
mas é
em suma isto
e vá há de vez
em quando
uma rampa aqui e ali de jeito
no fim de um verso
por isso volto ao quarto e digo-te apollinaire
a ver se apanho a tristeza quando ela fôr a subir.
Miguel Cardoso
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
A menina pires descobriu este ano palavras novas em várias línguas
jagaragatui
parajanatova
frotibulicã
tingelimatuta
dregolunovu
espartuba
bretunha
asperitiva
honildestão
grefunta
labirástero
cuçada
pinda
mersibuntes
xunia
nedaguita
sergambado
vertasgaio
wigi
quotrida
zaúl
rejosfanda
deçassas
julim
tinior
balaúm
opergunde
gareg
dubindal
bertiles
vordip
lubab
numbed
erggen
xalú
poió
linfutra
egasax
trishtoño
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
A música não fará as pazes
A música não fará as pazes com a fúria
nem se zangará com Alecto
A música ocupar-se-á do tempo seguinte
sem expulsar os cinzentos
A música terá os olhos vermelhos
de tanto enfrentar a violência
com sentidos novos
A música saberá que vai
insatisfeita, não se retira
Fica sem parar
como o lume
Tem serpentes no cabelo
como Alecto
O pássaro ou ela itinerando
- é demasiada liberdade
para os deuses concordarem
Juno não quer mais disso,
diz que seja qual for a luta que está para vir
ela mesma tratará do assunto
Despede Alecto então
que só arranja confusão
em todas as grécias
A música começará,
outra vez aguda
A música gritará baixinho
para orelhas moucas
A música
desrespeitará o pacto da tirania
nem se zangará com Alecto
A música ocupar-se-á do tempo seguinte
sem expulsar os cinzentos
A música terá os olhos vermelhos
de tanto enfrentar a violência
com sentidos novos
A música saberá que vai
insatisfeita, não se retira
Fica sem parar
como o lume
Tem serpentes no cabelo
como Alecto
O pássaro ou ela itinerando
- é demasiada liberdade
para os deuses concordarem
Juno não quer mais disso,
diz que seja qual for a luta que está para vir
ela mesma tratará do assunto
Despede Alecto então
que só arranja confusão
em todas as grécias
A música começará,
outra vez aguda
A música gritará baixinho
para orelhas moucas
A música
desrespeitará o pacto da tirania
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A vida está toda à tua espera
Sou o tempo das desrazões, proponho todos os dias que
acordes sem saber do futuro e tenhas de te submeter às oportunidades
inexistentes da serpente, enquanto os dedos se assustam. O teu caminho será
solitário e penoso, até chegares à fronteira. Daí para diante és livre, e podes
recusar a vida de cão à vontadinha, desde que desembolses o suficiente para as
despesas. Como é evidente, tens de mostrar os documentos.
Chama-se letra morta, é a promessa que nunca será cumprida,
são os teus sapatos rotos que pisam o sangue e a pedra. Melhor, são as mentiras
dos teus antepassados vividas por ti, enquanto respiras. A canção que melhor
condiz cantou-a um homem baixote no beco de maria da guerra:
A vida está toda à tua espera
Sósias teus em todas as esquinas
Fazem saltar as sombras
No meu corpo de fantasma
A vida está toda à tua espera
Os amigos são dobrados pela renda
Apanham cacetadas
Em páginas de jornais
A vida está toda à tua espera
Antes de avançares olha os bandidos
Vou tirar o jugo
Antes que seja tarde
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Se eu fosse hipocondríaco
Estaria hoje com uma doença nova, muito rara
que me impediria de trabalhar no mesmo sentido
nestes dias obscuros
em que a opressão avança passo a passo.
Seria obrigado a um tratamento longo nos ares da praia
nos dias claros...
- Comece já.
O médico proibir-me-ia de aceitar ordens superiores
de ir tão cedo para o escritório
se fosse num escritório que eu trabalhasse
se eu não estivesse a enganar o desemprego com obras de burocracia
se eu não estivesse a enganar a preguiça com as tarefas longas
que provocam azia.
Claro que a doença exigiria
que eu fizesse de duas em duas horas
um descanso na rede
- assobie muita música, duas colheres de indisciplina
e banhos de piscina
quando a praia fechar, privatizada,
vá para o campo apanhar ar
leia à vontade
esqueça a literatura
e não cumpra nem as minhas prescrições, diria ele.
Procure a felicidade antes de deitar
e acorde para a saudar:
olá.
Se eu fosse hipocondríaco
teria essa doença de certeza e queixava-me muito a toda a gente
porque essa doença não me deixaria aceitar
as condições propostas pelos pulhas
as torturas ao mundo com agulhas
o incendiário da guerra seria desmentido com a mão fechada
desautorizaria os autores dos crimes maiores:
os que nos impedem de fazer o dia
Essa doença rara far-me-ia amar ainda mais a liberdade
estaria convencido de ter a doença e então, preocupado, eu iria procurar
gente com os mesmos sintomas
gente que faz greve
gente que se bate
e não desiste de um amigo
gente que combate
e não desiste do que ama
gente livre
gente que não faz de séria.
Desconfiem dessa gente tão séria, disse-me a mulher -
- ela deve ter a doença rara que eu teria,
teria de certeza, se calhar até já tenho,
já me sinto adoentado com a doença rara que eu teria.
que me impediria de trabalhar no mesmo sentido
nestes dias obscuros
em que a opressão avança passo a passo.
Seria obrigado a um tratamento longo nos ares da praia
nos dias claros...
- Comece já.
O médico proibir-me-ia de aceitar ordens superiores
de ir tão cedo para o escritório
se fosse num escritório que eu trabalhasse
se eu não estivesse a enganar o desemprego com obras de burocracia
se eu não estivesse a enganar a preguiça com as tarefas longas
que provocam azia.
Claro que a doença exigiria
que eu fizesse de duas em duas horas
um descanso na rede
- assobie muita música, duas colheres de indisciplina
e banhos de piscina
quando a praia fechar, privatizada,
vá para o campo apanhar ar
leia à vontade
esqueça a literatura
e não cumpra nem as minhas prescrições, diria ele.
Procure a felicidade antes de deitar
e acorde para a saudar:
olá.
Se eu fosse hipocondríaco
teria essa doença de certeza e queixava-me muito a toda a gente
porque essa doença não me deixaria aceitar
as condições propostas pelos pulhas
as torturas ao mundo com agulhas
o incendiário da guerra seria desmentido com a mão fechada
desautorizaria os autores dos crimes maiores:
os que nos impedem de fazer o dia
sem as correias que prendem o pensamento à reverência.
Eu teria de cantar enquanto partilhava
o tempo e a ferramenta
enquanto fabricava uma máquina livre,
porque faz parte do tratamento de quem tem isso
fabricar qualquer coisa que nos ajude
no trabalho mais belo - derrubar as cadeias
e abrir de novo a mão depois de bem erguida a cabeça
o punho e a ponte levantada.
Essa doença rara far-me-ia amar ainda mais a liberdade
estaria convencido de ter a doença e então, preocupado, eu iria procurar
gente com os mesmos sintomas
gente que faz greve
gente que se bate
e não desiste de um amigo
gente que combate
e não desiste do que ama
gente livre
gente que não faz de séria.
Desconfiem dessa gente tão séria, disse-me a mulher -
- ela deve ter a doença rara que eu teria,
teria de certeza, se calhar até já tenho,
já me sinto adoentado com a doença rara que eu teria.
domingo, 14 de outubro de 2012
Se eu fosse uma secretária
pensavam pensavam
que estava com uma doencita
mas ele era náuseas, vómitos, diarreia, desconforto abdominal, dor, espasmos, tonturas, vertigens, sonolência, dor de cabeça, convulsões, disrupção dos sentidos de olfacto e paladar, fezes moles, flatulência, anorexia, perturbações digestivas, reacções alérgicas, prurido, erupção cutânea, artralgia, vaginite, trombocitopenia, anemia hemolítica, reduções ligeiras e transitórias do número de neutrófilos, agressão, agitação, ansiedade, nervosismo, despersonalização, delírio, parestesia, síncope, astenia, insónia, hiperactividade, lesões nos ouvidos, audição debilitada, surdez, zunido nos ouvidos, palpitações, arritmia, taquicardia ventricular, obstipação, descoloração da língua, pancreatite, descoloração dos dentes, colite pseudomembranosa, hepatite, icterícia colestástica, necrose hepática, insuficiência hepática, edema angioneurótico, urticária, fotosensibilidade, reacções cutâneas graves, eritema multiforme, necrólise epidérmica tóxica, nefrite intersticial, insuficiência renal aguda, anafilaxia, astenia, candidíase e inflamação dos testamentos.
que estava com uma doencita
mas ele era náuseas, vómitos, diarreia, desconforto abdominal, dor, espasmos, tonturas, vertigens, sonolência, dor de cabeça, convulsões, disrupção dos sentidos de olfacto e paladar, fezes moles, flatulência, anorexia, perturbações digestivas, reacções alérgicas, prurido, erupção cutânea, artralgia, vaginite, trombocitopenia, anemia hemolítica, reduções ligeiras e transitórias do número de neutrófilos, agressão, agitação, ansiedade, nervosismo, despersonalização, delírio, parestesia, síncope, astenia, insónia, hiperactividade, lesões nos ouvidos, audição debilitada, surdez, zunido nos ouvidos, palpitações, arritmia, taquicardia ventricular, obstipação, descoloração da língua, pancreatite, descoloração dos dentes, colite pseudomembranosa, hepatite, icterícia colestástica, necrose hepática, insuficiência hepática, edema angioneurótico, urticária, fotosensibilidade, reacções cutâneas graves, eritema multiforme, necrólise epidérmica tóxica, nefrite intersticial, insuficiência renal aguda, anafilaxia, astenia, candidíase e inflamação dos testamentos.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Se eu fosse uma mesa
Se eu fosse uma mesa podia ter uma perna, duas pernas, três pernas ou quatro pernas.
Se eu fosse uma mesa podia ser pesada de mármore, maciça de carvalho ou ter telhados de vidro.
Podia ser desmontável ou não passar na porta. Podia ter bicos e lados e não deixar casar, ou ser redonda, ou ampliar. Se eu fosse uma mesa podia estar à janela ou fechada numa salinha interior, ou então podia ser uma mesa de jardim para jogar às cartas. Podia ser uma mesa para comer ou para escrever, ou então para as duas coisas, ou ser uma mesa de mistura. Podia ter um presidente ou lançarem-me pontos de ordem. Se eu fosse uma mesa tinha um lado vertical e um horizontal. Se eu fosse uma mesa tinha partes duras ou à pressão. Podia estar posta ou não. Se eu fosse uma mesa estava farta de cadeiras. Se eu fosse uma mesa não tinha nome e só os loucos falavam comigo. Se eu fosse uma mesa talvez juntasse o útil ao agradável. Podia ter manchas, pregos e cola, e pastilhas debaixo do tampo. Se eu fosse uma mesa não falava, mas podia ranger ou cair e podiam-me bater e lavar. Ainda não sei bem se gostava ou não de ser uma mesa.
sábado, 8 de setembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
o arco ressonante
Diz-se que naquela passagem, mesmo ali, no arco, quem disser o seu nome ouve o eco da sua voz. Vamos lá. Oiçam. Um de cada vez, um de cada vez.
há verão
vamos os dois passear
de carro vamos ver
portugal a arder
eucaliptos de carvão
e lambemos
calipos de limão
oh que bom sair
da cidade à natureza
carvão oh sim beleza
há mar para apagar
no som dos carros a passar
e livrem-me do betão
das paredes que pedem óculos
pra míope
e ninguém pega nestes poemas
pra fazer canções
de carro vamos ver
portugal a arder
eucaliptos de carvão
e lambemos
calipos de limão
oh que bom sair
da cidade à natureza
carvão oh sim beleza
há mar para apagar
no som dos carros a passar
e livrem-me do betão
das paredes que pedem óculos
pra míope
e ninguém pega nestes poemas
pra fazer canções
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
água ar dente
a bílis o álcool o cloreto de sódio um mar
no chuveiro ia o mar que assim confundia-se tudo
e não havia ninguém a ver nem o próprio
o fígado e a humidade solução dissolução nadar
sem olhar
na ponta dos dedos um depósito a gritar
mudo
corro
corroente
corrosiva coerciva
incisiva
indecisa
no saibro
mato-me mais uma vez dramática com gritos
tapas os ouvidos ou diverges desvias-te da verdade escancarada
desisto
no chuveiro ia o mar que assim confundia-se tudo
e não havia ninguém a ver nem o próprio
o fígado e a humidade solução dissolução nadar
sem olhar
na ponta dos dedos um depósito a gritar
mudo
corro
corroente
corrosiva coerciva
incisiva
indecisa
no saibro
mato-me mais uma vez dramática com gritos
tapas os ouvidos ou diverges desvias-te da verdade escancarada
desisto
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
retrato
Encomendaram-me um retrato
com olhos nariz e boca
as pregas todas no vestido
e uma rosa
nas mãos ou no cabelo
Se fantasia é forçosa
que se limite ao fundo e muito pouca
Um reposteiro ou umas flores
Que um retrato é um retrato E para sê-lo
tem de ficar rigoroso
e acima de tudo parecido
E enquanto estico a tela escrupuloso
e mecânicamente escolho cores
a mim mesmo pergunto indiferente
De que fala esta gente?
Mário Dionísio
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
silhueta da cidade montra
quando a cidade se começou a vender, deixei de usar qualquer
café na minha rua porque o café não era para mim, porque o café custava um
balúrdio e as mesas não eram feitas para ficar a ler o jornal
quando a cidade se começou a vender, as ruas já não tinham
um desenho para eu chegar onde queria facilmente, as ruas passaram a dar saída
só para museus, monumentos e lojas de galos de barcelos
quando a cidade se vendeu, já nem os anúncios eram para mim,
porque a cidade não se vendeu para mim, porque eu não a podia comprar
quando a cidade se vendeu, os bilhetes de autocarro e de
metro e de eléctrico e a gasolina, o gasóleo e os parquímetros passaram a custar
um preço que se ria a bandeiras despregadas dos trocos que eu levo no bolso
quando a cidade se vendeu, os jardins deixaram de ter
árvores e arbustos e lagos e bichos e passaram a ter o chão liso, duro e branco,
e brancos eram os bancos, e continuavam a chamar àquilo jardim, porque jardim é
uma palavra bonita
quando a cidade se vendeu, os parques infantis e as lojas e as
garagens e os ginásios e os correios estavam forrados em todas as arestas de
protecções contra os assaltos
quando a cidade se vendeu, as pessoas que lá viviam
começaram a deixar o centro por ordem das classes sociais a que pertenciam
quando a cidade se vendeu, passou a ser um parque de
diversões para turistas, e quem ainda lá morava escondia-se em casa porque as
ruas e os cafés não eram feitos para si, e era uma chatice para os senhores importantes
e os arquitectos urbanísticos quando as bichas da loja do cidadão saíam pela
porta e davam a volta às esquinas
já não sei se a cidade se vendeu ontem ou se foi hoje, ou se
é amanhã
domingo, 26 de agosto de 2012
L'info má
pas de nouvelles bonnes nouvelles?
passo de novas notícias
anúncio não anunciado
as interrogações as mesmas?
manipulados pelas aparências, ambiências, hortênsias
funicular
passo de novas notícias
anúncio não anunciado
as interrogações as mesmas?
manipulados pelas aparências, ambiências, hortênsias
funicular
sábado, 25 de agosto de 2012
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
É possível
É possível
ficares aqui
connosco
Esse tempo
neste tempo
é provável
Resiste,
ó resistente:
é necessário
ficares aqui
connosco
Esse tempo
neste tempo
é provável
Resiste,
ó resistente:
é necessário
fragmento de Melville encontrado na rua
To enjoy bodily warmth, some small part of you must be cold, for there is no quality in this world that is not what it is merely by contrast. Nothing exists in itself.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
carapauzinhos com arroz de censura
vieram-me dizer que tua casa acabava depois de amanhã
agarra o mapa e o pedal e o chouriço
a correr a ver o mar a correr a tropeçar na falésia
a tua barriga a gemer como a minha de fazer e de pensar
vem vamos agora assim com sol e cinza e facas de frio
a tentar temer desplanear
que as terras por que passo nas ruas conhecidas
anunciam carapauzinhos com arroz de censura
a tua mão sobre o lado direito o coração na mão
oh se a minha vida igual à tua não dava dois filmes
do outro lado do mundo ou noutro planeta o mordomo do papa contém a respiração
e a gente a correr a correr devagar a fazer isto girar
já lianas e fios tão longos que sorrio a desenhá-los e choro a vê-los
a tornear as dores bonitas e simples as fundas rir-nos delas
é de mapa é de papel que é preciso as rugas de quando se dobra
e vai de arco e flecha se me desapareces
agarra o mapa e o pedal e o chouriço
a correr a ver o mar a correr a tropeçar na falésia
a tua barriga a gemer como a minha de fazer e de pensar
vem vamos agora assim com sol e cinza e facas de frio
a tentar temer desplanear
que as terras por que passo nas ruas conhecidas
anunciam carapauzinhos com arroz de censura
a tua mão sobre o lado direito o coração na mão
oh se a minha vida igual à tua não dava dois filmes
do outro lado do mundo ou noutro planeta o mordomo do papa contém a respiração
e a gente a correr a correr devagar a fazer isto girar
já lianas e fios tão longos que sorrio a desenhá-los e choro a vê-los
a tornear as dores bonitas e simples as fundas rir-nos delas
é de mapa é de papel que é preciso as rugas de quando se dobra
e vai de arco e flecha se me desapareces
a menina pires queria estar onde não está
Um terrível desejo de partir de uma vez para sempre
Uma horrível necessidade de viajar e não voltar
Uma estranha vontade de não estar onde se está
Um querer de outro sítio, já não chega a praia
Um precisar de ti, mas não saber quem és
Uma fuga sem saída, fugir para dentro do livro
Um prato de horizontes, o mundo plano
Uma sombra que não me acompanhasse a toda a parte
Uma busca em minha casa, à procura do crime
Uma horrível necessidade de viajar e não voltar
Uma estranha vontade de não estar onde se está
Um querer de outro sítio, já não chega a praia
Um precisar de ti, mas não saber quem és
Uma fuga sem saída, fugir para dentro do livro
Um prato de horizontes, o mundo plano
Uma sombra que não me acompanhasse a toda a parte
Uma busca em minha casa, à procura do crime
do filme O Bobo, de José Álvaro Morais
- O que é que julgas poder ser fora daqui senão caricatura?
- Mas combinámos sair de Portugal, não foi?
- Pensas que vale a pena ser a caricatura desta terra noutra
terra? Pensas que nos achavam graça?
- Não faço ideia, Rita, não sei. Podíamos tentar.
- Podíamos, mas não ia ajudar muito.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Aprendendo a ser delicada
a menina Loisa
viu o pássaro ainda vivo
voava vivo cheio de nervos
atento medroso ignorante
desenhava fios invisíveis
depois de inerte
de patas para o ar
asas de encontro à mesa
queria tocar-lhe para saber como era
isso de já não mexer
isso de se ter estragado
e tocava-lhe nos sovacos das asas
agora que podia
sempre em silêncio
a conter a respiração
não fosse ele acordar de repente
ou alguém vir intrometer-se
numa investigação só dela
tocava piano no pássaro
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
p/b
um ponto em comum
não resistir ao preto e branco
se é um tabuleiro, jogam xadrez
se é uma passadeira, atravessam a estrada
se é um piano, tocam modinhas
se é um jornal, lêem notícias
se é uma bola, jogam futebol
se é um animal, chamam-lhe zebra
ó mãe
mas de que cor é que era o sangue quando as pessoas eram a preto e branco?
não resistir ao preto e branco
se é um tabuleiro, jogam xadrez
se é uma passadeira, atravessam a estrada
se é um piano, tocam modinhas
se é um jornal, lêem notícias
se é uma bola, jogam futebol
se é um animal, chamam-lhe zebra
ó mãe
mas de que cor é que era o sangue quando as pessoas eram a preto e branco?
sexta-feira, 27 de julho de 2012
secura
a arritmia é contagiosa
o calor não se comanda
as vozes aqui gritam outras línguas
os meandros não entendem
hipnotizados pelos músculos grandes capitalistas que esboroam dos prédios das cidades
sentimos-lhes o cheiro da baba acre-morango
vêm silêncio e pássaros
todas as contradições e o peso da calmaria do sol
agosto de quem?
chamo-te e empurro-te e grito e tu não percebes nada
piscam o olho os manicómios
assegura-se sempre o circo em redor
porque insuportável pode ser a dor
se não a pisarmos com todas as solas calos e narizes vermelhos
agá agá os gagos
repetitivos mas não contagiosos
como alguns sonhos que não contagiam os dias
como jogar muito às cartas nas férias que já não tenho e dormir entre ouros e paus
em copas com espadas
verão
hei-de esfaquear-te
o calor não se comanda
as vozes aqui gritam outras línguas
os meandros não entendem
hipnotizados pelos músculos grandes capitalistas que esboroam dos prédios das cidades
sentimos-lhes o cheiro da baba acre-morango
vêm silêncio e pássaros
todas as contradições e o peso da calmaria do sol
agosto de quem?
chamo-te e empurro-te e grito e tu não percebes nada
piscam o olho os manicómios
assegura-se sempre o circo em redor
porque insuportável pode ser a dor
se não a pisarmos com todas as solas calos e narizes vermelhos
agá agá os gagos
repetitivos mas não contagiosos
como alguns sonhos que não contagiam os dias
como jogar muito às cartas nas férias que já não tenho e dormir entre ouros e paus
em copas com espadas
verão
hei-de esfaquear-te
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Ou então...
Ou então a revolta organiza-se em lava e o vulcão põe a
andar os cangalheiros. Vitória? Não, eles voltam sempre, como nos saltimbancos.
Mas aí saberemos da alegria fervilhante da luta e já não desistimos. Mas era
preciso quereres comigo um pouco disso. A beleza da encosta pelo menos.
Calcides
Calcides
fronta na purina ao passo que indespiga. Unha cota ínclita e tresfeia o zanté.
Tamora rechaca o choco e tira Unha de Calcides.
terça-feira, 10 de julho de 2012
das campanhas dos (o)buses
que a gazela é animal delicado frágil
em humano seria uma senhoramas note-se que é a gazela consciente
consciente do planeta
- que é um problema secundário, como todos sabem
não é assunto de homens
que esses são realmente inteligentes e fortes
e o que lhes interessa é o mercado, o lucro, as empresas e o poder
assunto de gazelas é a verdura do mundo
a pureza a beleza a respiração com cheiro a flores
- a gazela consciente
a ser
não uma impulsionadora de mudança no mundo
(mundo)
mas sim um ser esquisito no meio do mundo
um ser de utopias ridicularizáveis
um pateta animal colorido
no meio do cinzentismo devido suposto querido
e o que fazer?
primeiro que tudo
- tão óbvio que nem se explica oficialmente -
aceitar que haja menos autocarros e carreiras e que os preços da carris aumentem exponencialmente
numa palavra, valide verde
http://greensavers.sapo.pt/2012/06/26/carris-e-nacoes-unidas-juntas-na-promocao-do-transporte-sustentavel/
quinta-feira, 5 de julho de 2012
cu média
Zenuíno distreme das fagulhas e objacta que tuta. Mazinho
transgruda na bota colessionada parapar. E entretanto Lunícia distelha a
mulice, acafa Mazinho e florece Zenuíno.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
caruncho
imaginava que eras de repente aquela pele por trás do pelo ressequida e mais perto dos ossos os ossos a agarrarem a pele a puxarem e os pelos a ficarem lassos de pouca carne os postiços a cair
no chão da rua
e a ficar o corpo de dentro de tudo isto a contar e o que contava era
o susto o medo o pavor porque batiam à porta e não estava ninguém do outro lado quando se abria porque as vozes das crianças se queriam recusar afastava-se o corpo do homem por si propositadamente e pela maneira de ser como o dos bichos que vão morrer longe
fugia o homem de ser visto a sofrer mais do que do sofrimento em si e ao pensar em si e nisto sofria mais e mais a pele se encostava aos ossos e os olhos se esbugalhavam mas sem esperar
ou à espera
não se espera assim por isso há-de haver uma reacção à dor dos ossos e da pele e à dor de tudo o que os olhos passam a trazer-nos à cabeça e ainda à dor imaginada dos outros depois e antes e durante e
saber falar?
ainda há tempo para aprender a falar mas ainda haveria tempo para aprender que há coisas mais bonitas que o orgulho do pirata
no chão da rua
e a ficar o corpo de dentro de tudo isto a contar e o que contava era
o susto o medo o pavor porque batiam à porta e não estava ninguém do outro lado quando se abria porque as vozes das crianças se queriam recusar afastava-se o corpo do homem por si propositadamente e pela maneira de ser como o dos bichos que vão morrer longe
fugia o homem de ser visto a sofrer mais do que do sofrimento em si e ao pensar em si e nisto sofria mais e mais a pele se encostava aos ossos e os olhos se esbugalhavam mas sem esperar
ou à espera
não se espera assim por isso há-de haver uma reacção à dor dos ossos e da pele e à dor de tudo o que os olhos passam a trazer-nos à cabeça e ainda à dor imaginada dos outros depois e antes e durante e
saber falar?
ainda há tempo para aprender a falar mas ainda haveria tempo para aprender que há coisas mais bonitas que o orgulho do pirata
terça-feira, 26 de junho de 2012
Um cubo de três lados
Quadrado 1 - As ridículas
Eram as hipotéticas as futuras
porque ainda não estavam escritas
mas já se adivinhava
tudo o que de ridículo haveria nelas
e que se haviam de rasgar depois ou queimar ou guardar dobradas
dentro ainda dos envelopes originais
em caixas e gavetas e cantinhos das casas
Seriam amarfanhadas ou vincadas em linhas que iam gastar a tinta das letras
seriam recordadas
guardadas só para serem recordadas
queimadas só para serem recordadas
sempre efémeras
que o amor felizmente nunca é eterno
Uma resma delas
Mais vale não as escrever e deitá-las já no lixo
deitá-las já no caixote
ficar a olhar para elas
não escritas já deitadas fora
Pegava-se fogo depois ou antes?
Quadrado 2 - Corte de cabelo organizado
A corda é corda
emaranhada
confusa
áspera e resistente
bonita quando inútil em modo escultura
sempre harmónica
simples e rude
Com a tesoura fica outra coisa
fica laços que têm de se cortar
enforcados que têm de cair
pedaços que têm de ter medidas para usar para isto e para aquilo
Façam-se as medidas
cortem-se as pontas
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
Faz-se um jogo
que assim resumido se torna fordismo
e se fosse cabelo seria daqueles cortes mais compridos à esquerda que à direita
o fordismo depois não leva a lado nenhum
é beco sem saída
só com revoluções é que...
Quadrado 3 - O mapa
A marca
que com a palavra estrada se repete e prolonga e se torna estrada
leva pneu grande para mim de camião
o pneu rola sem ninguém mandar
quer fazer o seu caminho mas a gente dá-lhe regras
pôe limites
desenha uma curva para ele seguir
sai daqui
nem penses em seguir em frente
desvia-te ó pneu
A marca do meu pé
estará ali e estará segura
ali é a marca do meu pé que eu não quero atropelado
ali se calhar é já a entrada da minha casa
entrei em casa
com os sapatos com que ando na rua e descalcei-os
Uma estadia
uma estada
uma estrada
Um estrado
um estado
um estádio
Andamos
a querer pisar esta história
e forçar-lhe um fim
Eram as hipotéticas as futuras
porque ainda não estavam escritas
mas já se adivinhava
tudo o que de ridículo haveria nelas
e que se haviam de rasgar depois ou queimar ou guardar dobradas
dentro ainda dos envelopes originais
em caixas e gavetas e cantinhos das casas
Seriam amarfanhadas ou vincadas em linhas que iam gastar a tinta das letras
seriam recordadas
guardadas só para serem recordadas
queimadas só para serem recordadas
sempre efémeras
que o amor felizmente nunca é eterno
Uma resma delas
Mais vale não as escrever e deitá-las já no lixo
deitá-las já no caixote
ficar a olhar para elas
não escritas já deitadas fora
Pegava-se fogo depois ou antes?
Quadrado 2 - Corte de cabelo organizado
A corda é corda
emaranhada
confusa
áspera e resistente
bonita quando inútil em modo escultura
sempre harmónica
simples e rude
Com a tesoura fica outra coisa
fica laços que têm de se cortar
enforcados que têm de cair
pedaços que têm de ter medidas para usar para isto e para aquilo
Façam-se as medidas
cortem-se as pontas
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
Faz-se um jogo
que assim resumido se torna fordismo
e se fosse cabelo seria daqueles cortes mais compridos à esquerda que à direita
o fordismo depois não leva a lado nenhum
é beco sem saída
só com revoluções é que...
Quadrado 3 - O mapa
A marca
que com a palavra estrada se repete e prolonga e se torna estrada
leva pneu grande para mim de camião
o pneu rola sem ninguém mandar
quer fazer o seu caminho mas a gente dá-lhe regras
pôe limites
desenha uma curva para ele seguir
sai daqui
nem penses em seguir em frente
desvia-te ó pneu
A marca do meu pé
estará ali e estará segura
ali é a marca do meu pé que eu não quero atropelado
ali se calhar é já a entrada da minha casa
entrei em casa
com os sapatos com que ando na rua e descalcei-os
Uma estadia
uma estada
uma estrada
Um estrado
um estado
um estádio
Andamos
a querer pisar esta história
e forçar-lhe um fim
domingo, 24 de junho de 2012
descrição
Elas, com asas de todas as cores, ora azuis, ora brancas,
ora rosas e verdes e amarelas – que nisso eram camaleoas -, já estavam
habituadas a aconchegar o seu corpo entre os piloros e ficar ali adormecidas.
Em certas épocas, pegavam ao sono durante muito tempo. Eram completamente
resistentes aos sucos gástricos e digestivos, por mais ácidos que fossem. Eram
sensíveis, mas imunes à insensibilidade. Depois, em momentos, em segundos, acontecia
que se punham a voar em círculos, sem chocar umas com as outras, fazendo cócegas
com as leves asas nos piloros. Como beijos de pestanas.
terça-feira, 5 de junho de 2012
literatura
Leia cuidadosamente este folheto
antes de tomar
este medicamento
É importante que o leia
mesmo que já tenha tomado aspirina
pois contém
novas informações
Caso ainda tenha dúvidas
fale com o seu médico ou farmacêutico
conserve este folheto
pode ter necessidade
de o ler novamente antes de
terminar a embalagem
Este medicamento foi receitado para si
não deve dá-lo a outros
o medicamento pode ser-lhes
prejudicial
mesmo que apresentem os mesmos sintomas
antes de tomar
este medicamento
É importante que o leia
mesmo que já tenha tomado aspirina
pois contém
novas informações
Caso ainda tenha dúvidas
fale com o seu médico ou farmacêutico
conserve este folheto
pode ter necessidade
de o ler novamente antes de
terminar a embalagem
Este medicamento foi receitado para si
não deve dá-lo a outros
o medicamento pode ser-lhes
prejudicial
mesmo que apresentem os mesmos sintomas
sábado, 2 de junho de 2012
a ferida
eu sou uma ferida
eu sou talvez ou por exemplo a ferida do nariz da minha avó
em vermelho vivo e em vermelho crosta
a escorrer e seca
a arder e a dor muscular
olha-me e pareço bonita
e olha-me mais e sem cegueira não vês as quebras no tecido macerado
as manchas gretadas
não, pode ser que não vejas
a máscara da ferida fica bela e parada em luz de inverno muito nítida
olha-me e pareço parada
e não vês as plaquetas a trabalhar a sair a entrar a coagular-me as arestas
e a dor muscular
não vês por dentro as nódoas negras a pedir punhos cerrados para não sentir a ressaca
a pedir unhas que façam sangue sangue que corra
para parecer viva
a ferida viva
os ossos pedem para ser vistos
o resto da pele a ser branca mais branca pálida
a ferida viva que já não grita
que grita calada
que grita o toque o raspão o rasgão a sina das unhas dos cortes de
x-acto
a ferida que se constrói
que mói que agarra o tempo e o ciclo de sarar
mais e mais massacrada e só calma e calada
entupida sem sons
a entregar-se a ser assim
beija-me que saibo a ferro e ferro dá-te força
tira a força que eu sou só ferida
lambe-me que saibo a ferro e ferro faz armas
tira a espada para ficar só
a ferida
não vês agora que horrorizo que sou carne que sou pêlos
fundo de esgoto centenas de larvas
não vês como sou feia e sem coragem
só feia exposta visão de horror
vês agora que os teus olhos se arregalaram de medo
que os teus pés dão passos atrás imóveis
que as tuas mãos se abriram voltadas para o chão
e é esse o momento em que a ferida começa a cantar com a voz que pediu emprestada à bela sereia
eu sou talvez ou por exemplo a ferida do nariz da minha avó
em vermelho vivo e em vermelho crosta
a escorrer e seca
a arder e a dor muscular
olha-me e pareço bonita
e olha-me mais e sem cegueira não vês as quebras no tecido macerado
as manchas gretadas
não, pode ser que não vejas
a máscara da ferida fica bela e parada em luz de inverno muito nítida
olha-me e pareço parada
e não vês as plaquetas a trabalhar a sair a entrar a coagular-me as arestas
e a dor muscular
não vês por dentro as nódoas negras a pedir punhos cerrados para não sentir a ressaca
a pedir unhas que façam sangue sangue que corra
para parecer viva
a ferida viva
os ossos pedem para ser vistos
o resto da pele a ser branca mais branca pálida
a ferida viva que já não grita
que grita calada
que grita o toque o raspão o rasgão a sina das unhas dos cortes de
x-acto
a ferida que se constrói
que mói que agarra o tempo e o ciclo de sarar
mais e mais massacrada e só calma e calada
entupida sem sons
a entregar-se a ser assim
beija-me que saibo a ferro e ferro dá-te força
tira a força que eu sou só ferida
lambe-me que saibo a ferro e ferro faz armas
tira a espada para ficar só
a ferida
não vês agora que horrorizo que sou carne que sou pêlos
fundo de esgoto centenas de larvas
não vês como sou feia e sem coragem
só feia exposta visão de horror
vês agora que os teus olhos se arregalaram de medo
que os teus pés dão passos atrás imóveis
que as tuas mãos se abriram voltadas para o chão
e é esse o momento em que a ferida começa a cantar com a voz que pediu emprestada à bela sereia
sexta-feira, 1 de junho de 2012
ruge
a minha avó tinha uma ferida no nariz que não sarava
o meu vestido é vermelho, o meu computador é vermelho, o meu telemóvel é vermelho
se sabes ler como é que não sabes escrever
se eles não sabem escrever como é que sabem piolhar os documentos dos outros
o sangue quando desce à boca sabe a ferro
ontem quis ver o mar hoje hoje quero vê-lo amanhã
o meu vestido é vermelho, o meu computador é vermelho, o meu telemóvel é vermelho
se sabes ler como é que não sabes escrever
se eles não sabem escrever como é que sabem piolhar os documentos dos outros
o sangue quando desce à boca sabe a ferro
ontem quis ver o mar hoje hoje quero vê-lo amanhã
segunda-feira, 28 de maio de 2012
nem guronsan nem compensan, só benuron
afinal deus tinha de ter sentido estético, para criar o apêndice, afinal deus deus não existia como toda a gente sabia e cristo sabe-se lá, metáforas de colonizadores de cabeças, histórias mágicas para as cabeças das crias colonizadas
eu não as queria colonizadas, eu sonhei um dia que se descolonizavam, sonhei um dia mas mesmo de dia, que dos sonhos que sonho não me lembro, dos sonhos que sonho de noite
não me lembro, não sei se hei-de acreditar, será que isto era sono ou sonho ou estar noutro chão, o chão era outro, o dia era outro ou era este os dias medem-se pelo sol ou por estar acordado os dias são dia-a-dias ou são
catadupas e cascatas na cabeça em descolonização, em descolonização sempre, eu juro eu juro eu juramento sem bandeira descolonizarei, -me, e aos outros, descolonizar-me-ei descolonizar-vos-ei descolonizarmo-nos-emos
e antes de dormir ainda há sempre tanta coisa a fazer
a aurora é o novo ocaso
o dente grita o dente não sabia que a vida eram dois dias mesmo sem dormir as dezasseis horas, o dente raios parta o dente a gritar quero ser vitaminado! mas devia era ser vitalizado desvitalizado queria eu dizer o dente não me deixou dizer
tudo o que ele não deixa dizer
eu não as queria colonizadas, eu sonhei um dia que se descolonizavam, sonhei um dia mas mesmo de dia, que dos sonhos que sonho não me lembro, dos sonhos que sonho de noite
não me lembro, não sei se hei-de acreditar, será que isto era sono ou sonho ou estar noutro chão, o chão era outro, o dia era outro ou era este os dias medem-se pelo sol ou por estar acordado os dias são dia-a-dias ou são
catadupas e cascatas na cabeça em descolonização, em descolonização sempre, eu juro eu juro eu juramento sem bandeira descolonizarei, -me, e aos outros, descolonizar-me-ei descolonizar-vos-ei descolonizarmo-nos-emos
e antes de dormir ainda há sempre tanta coisa a fazer
a aurora é o novo ocaso
o dente grita o dente não sabia que a vida eram dois dias mesmo sem dormir as dezasseis horas, o dente raios parta o dente a gritar quero ser vitaminado! mas devia era ser vitalizado desvitalizado queria eu dizer o dente não me deixou dizer
tudo o que ele não deixa dizer
Subscrever:
Mensagens (Atom)















