terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Discernimento


Geraldo teve o discernimento de passar a bola antes de bater com os cornos na baliza, ao poste.

nome + nome


A árvore seguiu o seu caminho ignorando as juras de amor.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A nova escola da Fontinha - Rio gasta 200 mil euros a tentar lavar a cara e mostra mais uma vez que é uma besta


O presidente da Câmara do Porto visitou esta sexta-feira o novo Centro de Recursos Sociais da cidade, um investimento autárquico de "200 mil euros" na antiga escola da Fontinha, ocupada pelo movimento Es.Col.A até ao despejo camarário de abril. 

"Este é o projeto social que estava na nossa mente desde sempre. É um edifício que acolhe diversas instituições de caráter social, da sociedade e da autarquia", descreveu Rui Rio, no fim de uma visita ao novo equipamento.

No espaço estão agora várias instituições ligadas ao apoio a mulheres, ao endividamento, a crianças autistas, ao combate à SIDA, e à inserção profissional, para começar a funcionar "em pleno" a partir de 1 de fevereiro, adiantou o autarca. 

A 19 de abril, a Câmara do Porto despejou da antiga escola primária da Fontinha os ocupantes do movimento Es.Col.A, numa ação que provocou confrontos com a polícia e levou três pessoas a tribunal.

"O que estava pensado para aqui foi sempre isto. Acho que isto é adequado. É uma boa ideia, é útil para a sociedade. Espero que, nas suas mais diversas vertentes, possa apoiar devidamente a população", frisou.

As obras custaram à autarquia "200 mil euros" e demoraram "pelo menos" mais "um mês" do que o previsto porque o espaço foi várias vezes "vandalizado", lamentou o autarca, em declarações aos jornalistas. 

"Houve um atraso porque isto foi permanentemente vandalizado e roubado. É lamentável e mostra que os movimentos em torno disto não eram os melhores. Acho que ninguém ganhou nada com isso. Nenhum portuense ganhou com isso, mas enfim, são mentalidades", frisou.

Rio disse que a passagem pelo local não foi "bem uma inauguração" mas "uma visita às instalações que ficaram prontas há 15 dias ou três semanas". 

"O que manda o bom senso é não fazer grandes anúncios que deem para grandes espetáculos. Manda a prudência que o fizesse de forma discreta para não provocar as pessoas, se é que elas se achariam provocadas", esclareceu.

O edil admitiu ter feito a visita "com mais discrição do que o que costume" para "evitar espetáculos degradantes, eventualmente".

A presença da polícia foi também justificada por razões "de elementar bom senso".

Já depois de Rio ter abandonado o local, alguns populares tentaram pacificamente entrar nas instalações mas foram impedidos pela polícia de o fazer.

A APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, a Associação Portuguesa para a Reeducação em Matéria de Endividamento, a Associação de Defesa dos Interesses e da Igualdade das Mulheres e o Instituto de Emprego e Formação Profissional são algumas das entidades presentes no novo equipamento.

As instituições têm a cargo "uma renda simbólica" e todos os ocupantes, incluindo as entidades ligadas à autarquia pagam condomínio, esclareceu o edil. 

O despejo de abril de 2012 foi justificado pela autarquia com a recusa do Es.Col.A em formalizar um contrato de cedência e o pagamento de uma renda simbólica de 30 euros.

Durante as celebrações populares do 25 de abril de 1974, milhares de pessoas juntaram-se aos elementos do movimento para reocupar a escola, onde o Es.Col.A se tinha instalado em abril de 2011. 

Em maio a autarquia despejou os ocupantes, mas a contestação popular levou a Câmara a "ceder" a escola até ao fim de dezembro de 2011.

[Tirado do Jornal de Notícias]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Só te digo Apollinaire


Só te digo apollinaire

Só te digo em voo em dias
de vertigem certa

Hoje por exemplo abri a pestana apollinaire
 como quem abre champanhe triste.
 Só te digo. Digo-te apollinaire.
Abri a pestana e era
a era triste de dizer isto
 é velho tudo e eu farto.

Sempre soube que isto da tristeza se pega
como mitológica doença venérea
depois de muita leitura na cama.

Vou pelos ares do meio do século.
Fugir logo de manhã do quarto alugado
 meter pelas ruas à procura de rampas
que são os miradouros mais modernos.

Fugir logo de manhã e saber
 que há boticários para quase tudo
 há prospectos de venenos a vapor
 agora menos ruidosos mais de bolso

Há passeios organizados entre as colunas
 de óbitos e há seguramente poesia nisso
 e em passar pelo suspiro ronco das sirenes
 e ficar à conversa em surdina.
Sirenes sirenes
as minhas as matutinas
 e as outras
mas hoje a mim nada me canta.

Nada de ascensores dos que engendram
rosas ruidosas para oferecer aos passantes
 e dizer olhem-me para estas belas sirenes.

Já cansa as coisas serem por todo o lado.

Olha uma rampa.
 É apanhar o jeito e deixar o solo.
É a cair que faço a minha melhor imitação de alarme.
 É fácil
como a desgraça o autoclismo
ou meter as mãos à garganta para soluçar
 é barato como andar para trás escorregar
beleza abaixo na minha trotineta

é perigoso como andar
por aí a ganhar tempo
e apanhar um bocado de ar
mesmo no meio da testa
e daí o cabelo assim para trás
que é moderno
em suma é fácil
como não encontrar o caminho para casa
 depois de um século às voltas e no fundo
faz-me mal ler-te porra Apollinaire

Não estás vivo
 e eu estou farto disto lá isso
e hoje os automóveis não se parecem com nada

ah em suma isso era dantes
 e depois dizer adeus
é difícil como fazer pela vida
em voo mesmo quando se apanha
um daqueles miradouros jeitosos
 num bairro dos mais finos.

A verdade é que não há miradouros jeitosos
 ou eu já não sei ganhar balanço.

É que no fundo a poesia disto é poucochinha.

Eu tentei apollinaire
só te digo apollinaire
 era voltares e ias ver.

eu gostaria de não ter de te dizer
mas é

em suma isto

e vá há de vez
em quando
uma rampa aqui e ali de jeito
 no fim de um verso

por isso volto ao quarto e digo-te apollinaire
 a ver se apanho a tristeza quando ela fôr a subir.

                                                  Miguel Cardoso

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A menina pires descobriu este ano palavras novas em várias línguas


jagaragatui
parajanatova
frotibulicã
tingelimatuta
dregolunovu
espartuba
bretunha
asperitiva
honildestão
grefunta
labirástero
cuçada
pinda
mersibuntes
xunia
nedaguita
sergambado
vertasgaio
wigi
quotrida
zaúl
rejosfanda
deçassas
julim
tinior
balaúm
opergunde
gareg
dubindal
bertiles
vordip
lubab
numbed
erggen
xalú
poió
linfutra
egasax
trishtoño

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A música não fará as pazes

A música não fará as pazes com a fúria
nem se zangará com Alecto
A música ocupar-se-á do tempo seguinte
sem expulsar os cinzentos
A música terá os olhos vermelhos
de tanto enfrentar a violência
com sentidos novos

A música saberá que vai
insatisfeita, não se retira
Fica sem parar
como o lume
Tem serpentes no cabelo
como Alecto

O pássaro ou ela itinerando
- é demasiada liberdade
para os deuses concordarem

Juno não quer mais disso,
diz que seja qual for a luta que está para vir
ela mesma tratará do assunto

Despede Alecto então
que só arranja confusão
em todas as grécias

A música começará,
outra vez aguda
A música gritará baixinho
para orelhas moucas
A música
desrespeitará o pacto da tirania

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A vida está toda à tua espera


Sou o tempo das desrazões, proponho todos os dias que acordes sem saber do futuro e tenhas de te submeter às oportunidades inexistentes da serpente, enquanto os dedos se assustam. O teu caminho será solitário e penoso, até chegares à fronteira. Daí para diante és livre, e podes recusar a vida de cão à vontadinha, desde que desembolses o suficiente para as despesas. Como é evidente, tens de mostrar os documentos.

Chama-se letra morta, é a promessa que nunca será cumprida, são os teus sapatos rotos que pisam o sangue e a pedra. Melhor, são as mentiras dos teus antepassados vividas por ti, enquanto respiras. A canção que melhor condiz cantou-a um homem baixote no beco de maria da guerra:

A vida está toda à tua espera
Sósias teus em todas as esquinas
Fazem saltar as sombras
No meu corpo de fantasma

A vida está toda à tua espera
Os amigos são dobrados pela renda
Apanham cacetadas
Em páginas de jornais

A vida está toda à tua espera
Antes de avançares olha os bandidos
Vou tirar o jugo
Antes que seja tarde

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

domingo, 4 de novembro de 2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Se eu fosse hipocondríaco

Estaria hoje com uma doença nova, muito rara
que me impediria de trabalhar no mesmo sentido
nestes dias obscuros
em que a opressão avança passo a passo.

Seria obrigado a um tratamento longo nos ares da praia
nos dias claros...

- Comece já.

O médico proibir-me-ia de aceitar ordens superiores
de ir tão cedo para o escritório
se fosse num escritório que eu trabalhasse
se eu não estivesse a enganar o desemprego com obras de burocracia
se eu não estivesse a enganar a preguiça com as tarefas longas
que provocam azia.

Claro que a doença exigiria
que eu fizesse de duas em duas horas
um descanso na rede
- assobie muita música, duas colheres de indisciplina
e banhos de piscina
quando a praia fechar, privatizada,
vá para o campo apanhar ar
leia à vontade
esqueça a literatura
e não cumpra nem as minhas prescrições, diria ele.

Procure a felicidade antes de deitar
e acorde para a saudar:
olá.

Se eu fosse hipocondríaco
teria essa doença de certeza e queixava-me muito a toda a gente
porque essa doença não me deixaria aceitar
as condições propostas pelos pulhas
as torturas ao mundo com agulhas
o incendiário da guerra seria desmentido com a mão fechada
desautorizaria os autores dos crimes maiores:
os que nos impedem de fazer o dia

sem as correias que prendem o pensamento à reverência.

Eu teria de cantar enquanto partilhava
o tempo e a ferramenta
enquanto fabricava uma máquina livre,
porque faz parte do tratamento de quem tem isso
fabricar qualquer coisa que nos ajude
no trabalho mais belo - derrubar as cadeias
e abrir de novo a mão depois de bem erguida a cabeça
o punho e a ponte levantada.

Essa doença rara far-me-ia amar ainda mais a liberdade
estaria convencido de ter a doença e então, preocupado, eu iria procurar
gente com os mesmos sintomas
gente que faz greve
gente que se bate
e não desiste de um amigo
gente que combate
e não desiste do que ama
gente livre
gente que não faz de séria.

Desconfiem dessa gente tão séria, disse-me a mulher -
- ela deve ter a doença rara que eu teria,
teria de certeza, se calhar até já tenho,
já me sinto adoentado com a doença rara que eu teria.






domingo, 14 de outubro de 2012

Se eu fosse uma secretária

pensavam pensavam
que estava com uma doencita
mas ele era náuseas, vómitos, diarreia, desconforto abdominal, dor, espasmos, tonturas, vertigens, sonolência, dor de cabeça, convulsões, disrupção dos sentidos de olfacto e paladar, fezes moles,  flatulência, anorexia, perturbações digestivas, reacções alérgicas, prurido, erupção cutânea, artralgia,  vaginite, trombocitopenia, anemia hemolítica, reduções ligeiras e transitórias do número de neutrófilos, agressão, agitação, ansiedade, nervosismo, despersonalização, delírio, parestesia, síncope, astenia, insónia, hiperactividade, lesões nos ouvidos,  audição debilitada, surdez, zunido nos ouvidos, palpitações, arritmia, taquicardia ventricular, obstipação, descoloração da língua, pancreatite, descoloração dos dentes, colite pseudomembranosa, hepatite, icterícia colestástica, necrose hepática, insuficiência hepática, edema angioneurótico, urticária, fotosensibilidade, reacções cutâneas graves, eritema multiforme, necrólise epidérmica tóxica, nefrite intersticial, insuficiência renal aguda, anafilaxia, astenia, candidíase e inflamação dos testamentos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Se eu fosse uma mesa

Se eu fosse uma mesa podia ter uma perna, duas pernas, três pernas ou quatro pernas. Se eu fosse uma mesa podia ser pesada de mármore, maciça de carvalho ou ter telhados de vidro. Podia ser desmontável ou não passar na porta. Podia ter bicos e lados e não deixar casar, ou ser redonda, ou ampliar. Se eu fosse uma mesa podia estar à janela ou fechada numa salinha interior, ou então podia ser uma mesa de jardim para jogar às cartas. Podia ser uma mesa para comer ou para escrever, ou então para as duas coisas, ou ser uma mesa de mistura. Podia ter um presidente ou lançarem-me pontos de ordem. Se eu fosse uma mesa tinha um lado vertical e um horizontal. Se eu fosse uma mesa tinha partes duras ou à pressão. Podia estar posta ou não. Se eu fosse uma mesa estava farta de cadeiras. Se eu fosse uma mesa não tinha nome e só os loucos falavam comigo. Se eu fosse uma mesa talvez juntasse o útil ao agradável. Podia ter manchas, pregos e cola, e pastilhas debaixo do tampo. Se eu fosse uma mesa não falava, mas podia ranger ou cair e podiam-me bater e lavar. Ainda não sei bem se gostava ou não de ser uma mesa.

sábado, 8 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

o arco ressonante

Diz-se que naquela passagem, mesmo ali, no arco, quem disser o seu nome ouve o eco da sua voz. Vamos lá. Oiçam. Um de cada vez, um de cada vez.

há verão

vamos os dois passear
de carro vamos ver
portugal a arder
eucaliptos de carvão
e lambemos
calipos de limão

oh que bom sair
da cidade à natureza
carvão oh sim beleza
há mar para apagar
no som dos carros a passar

e livrem-me do betão
das paredes que pedem óculos
pra míope
e ninguém pega nestes poemas
pra fazer canções

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

peixe ao espelho

a nadar em loop junto ao vidro do aquário balão

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

água ar dente

a bílis o álcool o cloreto de sódio um mar
no chuveiro ia o mar que assim confundia-se tudo
e não havia ninguém a ver nem o próprio
o fígado e a humidade solução dissolução nadar
sem olhar

na ponta dos dedos um depósito a gritar
mudo

corro
corroente
corrosiva coerciva
incisiva
indecisa
no saibro

mato-me mais uma vez dramática com gritos
tapas os ouvidos ou diverges desvias-te da verdade escancarada
desisto

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

retrato


Encomendaram-me um retrato
com olhos nariz e boca
as pregas todas no vestido
e uma rosa
nas mãos ou no cabelo

Se fantasia é forçosa
que se limite ao fundo e muito pouca
Um reposteiro ou umas flores

Que um retrato é um retrato E para sê-lo
tem de ficar rigoroso
e acima de tudo parecido

E enquanto estico a tela escrupuloso
e mecânicamente escolho cores
a mim mesmo pergunto indiferente

De que fala esta gente?

                                 Mário Dionísio

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

silhueta da cidade montra


quando a cidade se começou a vender, deixei de usar qualquer café na minha rua porque o café não era para mim, porque o café custava um balúrdio e as mesas não eram feitas para ficar a ler o jornal

quando a cidade se começou a vender, as ruas já não tinham um desenho para eu chegar onde queria facilmente, as ruas passaram a dar saída só para museus, monumentos e lojas de galos de barcelos

quando a cidade se vendeu, já nem os anúncios eram para mim, porque a cidade não se vendeu para mim, porque eu não a podia comprar

quando a cidade se vendeu, os bilhetes de autocarro e de metro e de eléctrico e a gasolina, o gasóleo e os parquímetros passaram a custar um preço que se ria a bandeiras despregadas dos trocos que eu levo no bolso

quando a cidade se vendeu, os jardins deixaram de ter árvores e arbustos e lagos e bichos e passaram a ter o chão liso, duro e branco, e brancos eram os bancos, e continuavam a chamar àquilo jardim, porque jardim é uma palavra bonita

quando a cidade se vendeu, os parques infantis e as lojas e as garagens e os ginásios e os correios estavam forrados em todas as arestas de protecções contra os assaltos

quando a cidade se vendeu, as pessoas que lá viviam começaram a deixar o centro por ordem das classes sociais a que pertenciam

quando a cidade se vendeu, passou a ser um parque de diversões para turistas, e quem ainda lá morava escondia-se em casa porque as ruas e os cafés não eram feitos para si, e era uma chatice para os senhores importantes e os arquitectos urbanísticos quando as bichas da loja do cidadão saíam pela porta e davam a volta às esquinas

já não sei se a cidade se vendeu ontem ou se foi hoje, ou se é amanhã

domingo, 26 de agosto de 2012

L'info má

pas de nouvelles bonnes nouvelles?
passo de novas notícias
anúncio não anunciado
as interrogações as mesmas?
manipulados pelas aparências, ambiências, hortênsias
funicular

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

É possível

É possível
ficares aqui
connosco

Esse tempo
neste tempo
é provável

Resiste,
ó resistente:
é necessário

always bear in mind...


fragmento de Melville encontrado na rua

To enjoy bodily warmth, some small part of you must be cold, for there is no quality in this world that is not what it is merely by contrast. Nothing exists in itself.

menina pires fights for her silhouette



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

carapauzinhos com arroz de censura

vieram-me dizer que tua casa acabava depois de amanhã
agarra o mapa e o pedal e o chouriço
a correr a ver o mar a correr a tropeçar na falésia
a tua barriga a gemer como a minha de fazer e de pensar
vem vamos agora assim com sol e cinza e facas de frio
a tentar temer desplanear
que as terras por que passo nas ruas conhecidas
anunciam carapauzinhos com arroz de censura
a tua mão sobre o lado direito o coração na mão
oh se a minha vida igual à tua não dava dois filmes
do outro lado do mundo ou noutro planeta o mordomo do papa contém a respiração
e a gente a correr a correr devagar a fazer isto girar
já lianas e fios tão longos que sorrio a desenhá-los e choro a vê-los
a tornear as dores bonitas e simples as fundas rir-nos delas
é de mapa é de papel que é preciso as rugas de quando se dobra
e vai de arco e flecha se me desapareces

a menina pires queria estar onde não está

Um terrível desejo de partir de uma vez para sempre
Uma horrível necessidade de viajar e não voltar
Uma estranha vontade de não estar onde se está
Um querer de outro sítio, já não chega a praia
Um precisar de ti, mas não saber quem és
Uma fuga sem saída, fugir para dentro do livro
Um prato de horizontes, o mundo plano
Uma sombra que não me acompanhasse a toda a parte
Uma busca em minha casa, à procura do crime

do filme O Bobo, de José Álvaro Morais

  
     - O que é que julgas poder ser fora daqui senão caricatura?
     - Mas combinámos sair de Portugal, não foi?

    - Pensas que vale a pena ser a caricatura desta terra noutra terra? Pensas que nos achavam graça?
    - Não faço ideia, Rita, não sei. Podíamos tentar.
    - Podíamos, mas não ia ajudar muito.




terça-feira, 14 de agosto de 2012

Aprendendo a ser delicada



a menina Loisa
viu o pássaro ainda vivo
voava vivo cheio de nervos
atento medroso ignorante
desenhava fios invisíveis

depois de inerte
de patas para o ar
asas de encontro à mesa
queria tocar-lhe para saber como era
isso de já não mexer
isso de se ter estragado
e tocava-lhe nos sovacos das asas
agora que podia

sempre em silêncio
a conter a respiração
não fosse ele acordar de repente
ou alguém vir intrometer-se
numa investigação só dela

tocava piano no pássaro

terça-feira, 31 de julho de 2012

segunda-feira, 30 de julho de 2012

p/b

um ponto em comum
não resistir ao preto e branco

se é um tabuleiro, jogam xadrez
se é uma passadeira, atravessam a estrada
se é um piano, tocam modinhas
se é um jornal, lêem notícias
se é uma bola, jogam futebol
se é um animal, chamam-lhe zebra

ó mãe
mas de que cor é que era o sangue quando as pessoas eram a preto e branco?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

secura

a arritmia é contagiosa
o calor não se comanda
as vozes aqui gritam outras línguas
os meandros não entendem
hipnotizados pelos músculos grandes capitalistas que esboroam dos prédios das cidades
sentimos-lhes o cheiro da baba acre-morango

vêm silêncio e pássaros
todas as contradições e o peso da calmaria do sol
agosto de quem?

chamo-te e empurro-te e grito e tu não percebes nada
piscam o olho os manicómios
assegura-se sempre o circo em redor
porque insuportável pode ser a dor
se não a pisarmos com todas as solas calos e narizes vermelhos

agá agá os gagos
repetitivos mas não contagiosos
como alguns sonhos que não contagiam os dias
como jogar muito às cartas nas férias que já não tenho e dormir entre ouros e paus
em copas com espadas

verão
hei-de esfaquear-te

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ou então...


Ou então a revolta organiza-se em lava e o vulcão põe a andar os cangalheiros. Vitória? Não, eles voltam sempre, como nos saltimbancos. Mas aí saberemos da alegria fervilhante da luta e já não desistimos. Mas era preciso quereres comigo um pouco disso. A beleza da encosta pelo menos.

Calcides


Calcides fronta na purina ao passo que indespiga. Unha cota ínclita e tresfeia o zanté. Tamora rechaca o choco e tira Unha de Calcides.


terça-feira, 10 de julho de 2012

das campanhas dos (o)buses


que a gazela é animal delicado frágil
em humano seria uma senhora
mas note-se que é a gazela consciente
consciente do planeta
- que é um problema secundário, como todos sabem
não é assunto de homens
que esses são realmente inteligentes e fortes
e o que lhes interessa é o mercado, o lucro, as empresas e o poder
assunto de gazelas é a verdura do mundo
a pureza a beleza a respiração com cheiro a flores
- a gazela consciente
a ser
não uma impulsionadora de mudança no mundo
(mundo)
mas sim um ser esquisito no meio do mundo
um ser de utopias ridicularizáveis
um pateta animal colorido
no meio do cinzentismo devido suposto querido

e o que fazer?
primeiro que tudo
- tão óbvio que nem se explica oficialmente -
aceitar que haja menos autocarros e carreiras e que os preços da carris aumentem exponencialmente

numa palavra, valide verde

http://greensavers.sapo.pt/2012/06/26/carris-e-nacoes-unidas-juntas-na-promocao-do-transporte-sustentavel/

quinta-feira, 5 de julho de 2012

cu média


Zenuíno distreme das fagulhas e objacta que tuta. Mazinho transgruda na bota colessionada parapar. E entretanto Lunícia distelha a mulice, acafa Mazinho e florece Zenuíno.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

caruncho

imaginava que eras de repente aquela pele por trás do pelo ressequida e mais perto dos ossos os ossos a agarrarem a pele a puxarem e os pelos a ficarem lassos de pouca carne os postiços a cair
no chão da rua
e a ficar o corpo de dentro de tudo isto a contar e o que contava era
o susto o medo o pavor porque batiam à porta e não estava ninguém do outro lado quando se abria porque as vozes das crianças se queriam recusar afastava-se o corpo do homem por si propositadamente e pela maneira de ser como o dos bichos que vão morrer longe
fugia o homem de ser visto a sofrer mais do que do sofrimento em si e ao pensar em si e nisto sofria mais e mais a pele se encostava aos ossos e os olhos se esbugalhavam mas sem esperar
ou à espera

não se espera assim por isso há-de haver uma reacção à dor dos ossos e da pele e à dor de tudo o que os olhos passam a trazer-nos à cabeça e ainda à dor imaginada dos outros depois e antes e durante e
saber falar?

ainda há tempo para aprender a falar mas ainda haveria tempo para aprender que há coisas mais bonitas que o orgulho do pirata

terça-feira, 26 de junho de 2012

Um cubo de três lados

Quadrado 1 - As ridículas

Eram as hipotéticas as futuras
porque ainda não estavam escritas
mas já se adivinhava
tudo o que de ridículo haveria nelas
e que se haviam de rasgar depois ou queimar ou guardar dobradas
dentro ainda dos envelopes originais
em caixas e gavetas e cantinhos das casas

Seriam amarfanhadas ou vincadas em linhas que iam gastar a tinta das letras
seriam recordadas
guardadas só para serem recordadas
queimadas só para serem recordadas
sempre efémeras
que o amor felizmente nunca é eterno

Uma resma delas

Mais vale não as escrever e deitá-las já no lixo
deitá-las já no caixote
ficar a olhar para elas
não escritas já deitadas fora

Pegava-se fogo depois ou antes?


Quadrado 2 - Corte de cabelo organizado

A corda é corda
emaranhada
confusa
áspera e resistente
bonita quando inútil em modo escultura
sempre harmónica
simples e rude

Com a tesoura fica outra coisa
fica laços que têm de se cortar
enforcados que têm de cair
pedaços que têm de ter medidas para usar para isto e para aquilo

Façam-se as medidas
cortem-se as pontas
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda

Faz-se um jogo
que assim resumido se torna fordismo
e se fosse cabelo seria daqueles cortes mais compridos à esquerda que à direita
o fordismo depois não leva a lado nenhum
é beco sem saída
só com revoluções é que...


Quadrado 3 - O mapa

A marca
que com a palavra estrada se repete e prolonga e se torna estrada
leva pneu grande para mim de camião
o pneu rola sem ninguém mandar
quer fazer o seu caminho mas a gente dá-lhe regras
pôe limites
desenha uma curva para ele seguir
sai daqui
nem penses em seguir em frente
desvia-te ó pneu

A marca do meu pé
estará ali e estará segura
ali é a marca do meu pé que eu não quero atropelado
ali se calhar é já a entrada da minha casa
entrei em casa
com os sapatos com que ando na rua e descalcei-os

Uma estadia
uma estada
uma estrada

Um estrado
um estado
um estádio

Andamos
a querer pisar esta história
e forçar-lhe um fim

domingo, 24 de junho de 2012

descrição


Elas, com asas de todas as cores, ora azuis, ora brancas, ora rosas e verdes e amarelas – que nisso eram camaleoas -, já estavam habituadas a aconchegar o seu corpo entre os piloros e ficar ali adormecidas. Em certas épocas, pegavam ao sono durante muito tempo. Eram completamente resistentes aos sucos gástricos e digestivos, por mais ácidos que fossem. Eram sensíveis, mas imunes à insensibilidade. Depois, em momentos, em segundos, acontecia que se punham a voar em círculos, sem chocar umas com as outras, fazendo cócegas com as leves asas nos piloros. Como beijos de pestanas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

literatura

Leia cuidadosamente este folheto
antes de tomar
este medicamento

É importante que o leia
mesmo que já tenha tomado aspirina
pois contém
novas informações

Caso ainda tenha dúvidas
fale com o seu médico ou farmacêutico
conserve este folheto
pode ter necessidade
de o ler novamente antes de
terminar a embalagem

Este medicamento foi receitado para si
não deve dá-lo a outros
o medicamento pode ser-lhes
prejudicial
mesmo que apresentem os mesmos sintomas

sábado, 2 de junho de 2012

a ferida

eu sou uma ferida
eu sou talvez ou por exemplo a ferida do nariz da minha avó
em vermelho vivo e em vermelho crosta
a escorrer e seca
a arder e a dor muscular
olha-me e pareço bonita
e olha-me mais e sem cegueira não vês as quebras no tecido macerado
as manchas gretadas
não, pode ser que não vejas
a máscara da ferida fica bela e parada em luz de inverno muito nítida
olha-me e pareço parada
e não vês as plaquetas a trabalhar a sair a entrar a coagular-me as arestas
e a dor muscular
não vês por dentro as nódoas negras a pedir punhos cerrados para não sentir a ressaca
a pedir unhas que façam sangue sangue que corra
para parecer viva
a ferida viva
os ossos pedem para ser vistos
o resto da pele a ser branca mais branca pálida
a ferida viva que já não grita
que grita calada
que grita o toque o raspão o rasgão a sina das unhas dos cortes de
x-acto
a ferida que se constrói
que mói que agarra o tempo e o ciclo de sarar
mais e mais massacrada e só calma e calada
entupida sem sons
a entregar-se a ser assim
beija-me que saibo a ferro e ferro dá-te força
tira a força que eu sou só ferida
lambe-me que saibo a ferro e ferro faz armas
tira a espada para ficar só
a ferida
não vês agora que horrorizo que sou carne que sou pêlos
fundo de esgoto centenas de larvas
não vês como sou feia e sem coragem
só feia exposta visão de horror
vês agora que os teus olhos se arregalaram de medo
que os teus pés dão passos atrás imóveis
que as tuas mãos se abriram voltadas para o chão
e é esse o momento em que a ferida começa a cantar com a voz que pediu emprestada à bela sereia
Entre a Flor e a Enxada by Shila on Grooveshark

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ruge

a minha avó tinha uma ferida no nariz que não sarava
o meu vestido é vermelho, o meu computador é vermelho, o meu telemóvel é vermelho
se sabes ler como é que não sabes escrever
se eles não sabem escrever como é que sabem piolhar os documentos dos outros
o sangue quando desce à boca sabe a ferro
ontem quis ver o mar hoje hoje quero vê-lo amanhã

segunda-feira, 28 de maio de 2012

nem guronsan nem compensan, só benuron

afinal deus tinha de ter sentido estético, para criar o apêndice, afinal deus deus não existia como toda a gente sabia e cristo sabe-se lá, metáforas de colonizadores de cabeças, histórias mágicas para as cabeças das crias colonizadas
eu não as queria colonizadas, eu sonhei um dia que se descolonizavam, sonhei um dia mas mesmo de dia, que dos sonhos que sonho não me lembro, dos sonhos que sonho de noite
não me lembro, não sei se hei-de acreditar, será que isto era sono ou sonho ou estar noutro chão, o chão era outro, o dia era outro ou era este os dias medem-se pelo sol ou por estar acordado os dias são dia-a-dias ou são
catadupas e cascatas na cabeça em descolonização, em descolonização sempre, eu juro eu juro eu juramento sem bandeira descolonizarei, -me, e aos outros, descolonizar-me-ei descolonizar-vos-ei descolonizarmo-nos-emos

e antes de dormir ainda há sempre tanta coisa a fazer

a aurora é o novo ocaso

o dente grita o dente não sabia que a vida eram dois dias mesmo sem dormir as dezasseis horas, o dente raios parta o dente a gritar quero ser vitaminado! mas devia era ser vitalizado desvitalizado queria eu dizer o dente não me deixou dizer

tudo o que ele não deixa dizer

enganar o dente

a viver de noite
a ver o sol despontar
não acreditar
ter medo de não lembrar
puxar as horas
desprezar o sono
matá-lo de conversa
não parar de falar
fazer mais de três acordes
abrir alargar
dividir alongar
e já de dia outra vez
já de noite
não acreditar

quarta-feira, 23 de maio de 2012

cansaço calor confuso

Que a esta hora o cansaço
já tomara conta dos corpos
e a noite parecia apaziguar
as tensões, os tendões, os artelhos
E a cabeça cansada do desejo
há tantas horas iniciado, sonhado
e há tantas horas prometido
No escuro, no não dizer
parecia descansar, mas era trémito ainda
porque dois corpos vibram mais que um
No escuro da luz apagada, afinal
ouve-se o coração a bater
e não se consegue conter a respiração
E essa súbita mão a emigrar
calor e arrepio e delírio
tão primitiva e tão logo
tão libertação de tudo outra vez
como café no sono
agitadora de gás, resplendorosa
A riscar do mapa do futuro próximo
os filtros da posição que deve ser
deixa a confusão confusa para pensar depois
arrasa agora, arranha agora
e o fim é adiado e querido
cada vez mais próximo, galopante
Adormecer é dizer primeiro a palavra
confuso e não mais querer pensar
Não aconchegar é o medo do medo do medo
despreza-se então, dormindo toda a noite
O desprezo é uma centrifugadora na barriga
que não me deixará dormir tranquila
e para que serve?

terça-feira, 22 de maio de 2012

the fun's in the fight


"So keep fightin' for freedom and justice, beloveds,
but don't you forget to have fun doin' it.
Lord, let your laughter ring forth.
Be outrageous, ridicule the fraidy-cats,
rejoice in all the oddities that freedom can produce.
And when you get through kickin' ass
and celebratin' the sheer joy of a good fight,
be sure to tell those who come after
how much fun it was."

Molly Ivins, from "The Fun's in the Fight" in Mother Jones, 1993

quinta-feira, 17 de maio de 2012

friquinismos à parte, esta forma de migração chama-se amor

Daí para aqui
a força vai e vem e engrossa na viagem
os pós da tua luta aí chegam cá
e vou-te mandando sons daqui
A luz chega mais rápido
mas os sons amadurecem enquanto vibram no ar
De cá para aí
daí para aqui
se passeio e sorrio a tanta gente e troco as notícias por outras
faço um mundo mais redondo
pontilhado cada vez mais de formas cada vez mais diversas
arrisco pedir-te uma arte que ainda não provaste
arrisco provocar-te e tu
arriscas provocar-me
Com o que há aí
e eu faço com o que há aqui e mudo tudo mais uma vez
aqui sem acento nem frio
aqui com sol e pedras da calçada
aí com outros cafés e outros sapatos
aí contigo e mais quem te dá força e mãos
Puxamos muito o cotovelo para trás e para cima
e lançamo-nos uns para os outros e
tocamo-nos e misturamo-nos
Não saberei fazer nada aqui sem ouvir esse grito
já em eco
e sei então que também precisas de remessas do meu formigueiro
Que outra forma haveria de viver
e mudar os gestos?