A música não fará as pazes com a fúria
nem se zangará com Alecto
A música ocupar-se-á do tempo seguinte
sem expulsar os cinzentos
A música terá os olhos vermelhos
de tanto enfrentar a violência
com sentidos novos
A música saberá que vai
insatisfeita, não se retira
Fica sem parar
como o lume
Tem serpentes no cabelo
como Alecto
O pássaro ou ela itinerando
- é demasiada liberdade
para os deuses concordarem
Juno não quer mais disso,
diz que seja qual for a luta que está para vir
ela mesma tratará do assunto
Despede Alecto então
que só arranja confusão
em todas as grécias
A música começará,
outra vez aguda
A música gritará baixinho
para orelhas moucas
A música
desrespeitará o pacto da tirania
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A vida está toda à tua espera
Sou o tempo das desrazões, proponho todos os dias que
acordes sem saber do futuro e tenhas de te submeter às oportunidades
inexistentes da serpente, enquanto os dedos se assustam. O teu caminho será
solitário e penoso, até chegares à fronteira. Daí para diante és livre, e podes
recusar a vida de cão à vontadinha, desde que desembolses o suficiente para as
despesas. Como é evidente, tens de mostrar os documentos.
Chama-se letra morta, é a promessa que nunca será cumprida,
são os teus sapatos rotos que pisam o sangue e a pedra. Melhor, são as mentiras
dos teus antepassados vividas por ti, enquanto respiras. A canção que melhor
condiz cantou-a um homem baixote no beco de maria da guerra:
A vida está toda à tua espera
Sósias teus em todas as esquinas
Fazem saltar as sombras
No meu corpo de fantasma
A vida está toda à tua espera
Os amigos são dobrados pela renda
Apanham cacetadas
Em páginas de jornais
A vida está toda à tua espera
Antes de avançares olha os bandidos
Vou tirar o jugo
Antes que seja tarde
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Se eu fosse hipocondríaco
Estaria hoje com uma doença nova, muito rara
que me impediria de trabalhar no mesmo sentido
nestes dias obscuros
em que a opressão avança passo a passo.
Seria obrigado a um tratamento longo nos ares da praia
nos dias claros...
- Comece já.
O médico proibir-me-ia de aceitar ordens superiores
de ir tão cedo para o escritório
se fosse num escritório que eu trabalhasse
se eu não estivesse a enganar o desemprego com obras de burocracia
se eu não estivesse a enganar a preguiça com as tarefas longas
que provocam azia.
Claro que a doença exigiria
que eu fizesse de duas em duas horas
um descanso na rede
- assobie muita música, duas colheres de indisciplina
e banhos de piscina
quando a praia fechar, privatizada,
vá para o campo apanhar ar
leia à vontade
esqueça a literatura
e não cumpra nem as minhas prescrições, diria ele.
Procure a felicidade antes de deitar
e acorde para a saudar:
olá.
Se eu fosse hipocondríaco
teria essa doença de certeza e queixava-me muito a toda a gente
porque essa doença não me deixaria aceitar
as condições propostas pelos pulhas
as torturas ao mundo com agulhas
o incendiário da guerra seria desmentido com a mão fechada
desautorizaria os autores dos crimes maiores:
os que nos impedem de fazer o dia
Essa doença rara far-me-ia amar ainda mais a liberdade
estaria convencido de ter a doença e então, preocupado, eu iria procurar
gente com os mesmos sintomas
gente que faz greve
gente que se bate
e não desiste de um amigo
gente que combate
e não desiste do que ama
gente livre
gente que não faz de séria.
Desconfiem dessa gente tão séria, disse-me a mulher -
- ela deve ter a doença rara que eu teria,
teria de certeza, se calhar até já tenho,
já me sinto adoentado com a doença rara que eu teria.
que me impediria de trabalhar no mesmo sentido
nestes dias obscuros
em que a opressão avança passo a passo.
Seria obrigado a um tratamento longo nos ares da praia
nos dias claros...
- Comece já.
O médico proibir-me-ia de aceitar ordens superiores
de ir tão cedo para o escritório
se fosse num escritório que eu trabalhasse
se eu não estivesse a enganar o desemprego com obras de burocracia
se eu não estivesse a enganar a preguiça com as tarefas longas
que provocam azia.
Claro que a doença exigiria
que eu fizesse de duas em duas horas
um descanso na rede
- assobie muita música, duas colheres de indisciplina
e banhos de piscina
quando a praia fechar, privatizada,
vá para o campo apanhar ar
leia à vontade
esqueça a literatura
e não cumpra nem as minhas prescrições, diria ele.
Procure a felicidade antes de deitar
e acorde para a saudar:
olá.
Se eu fosse hipocondríaco
teria essa doença de certeza e queixava-me muito a toda a gente
porque essa doença não me deixaria aceitar
as condições propostas pelos pulhas
as torturas ao mundo com agulhas
o incendiário da guerra seria desmentido com a mão fechada
desautorizaria os autores dos crimes maiores:
os que nos impedem de fazer o dia
sem as correias que prendem o pensamento à reverência.
Eu teria de cantar enquanto partilhava
o tempo e a ferramenta
enquanto fabricava uma máquina livre,
porque faz parte do tratamento de quem tem isso
fabricar qualquer coisa que nos ajude
no trabalho mais belo - derrubar as cadeias
e abrir de novo a mão depois de bem erguida a cabeça
o punho e a ponte levantada.
Essa doença rara far-me-ia amar ainda mais a liberdade
estaria convencido de ter a doença e então, preocupado, eu iria procurar
gente com os mesmos sintomas
gente que faz greve
gente que se bate
e não desiste de um amigo
gente que combate
e não desiste do que ama
gente livre
gente que não faz de séria.
Desconfiem dessa gente tão séria, disse-me a mulher -
- ela deve ter a doença rara que eu teria,
teria de certeza, se calhar até já tenho,
já me sinto adoentado com a doença rara que eu teria.
domingo, 14 de outubro de 2012
Se eu fosse uma secretária
pensavam pensavam
que estava com uma doencita
mas ele era náuseas, vómitos, diarreia, desconforto abdominal, dor, espasmos, tonturas, vertigens, sonolência, dor de cabeça, convulsões, disrupção dos sentidos de olfacto e paladar, fezes moles, flatulência, anorexia, perturbações digestivas, reacções alérgicas, prurido, erupção cutânea, artralgia, vaginite, trombocitopenia, anemia hemolítica, reduções ligeiras e transitórias do número de neutrófilos, agressão, agitação, ansiedade, nervosismo, despersonalização, delírio, parestesia, síncope, astenia, insónia, hiperactividade, lesões nos ouvidos, audição debilitada, surdez, zunido nos ouvidos, palpitações, arritmia, taquicardia ventricular, obstipação, descoloração da língua, pancreatite, descoloração dos dentes, colite pseudomembranosa, hepatite, icterícia colestástica, necrose hepática, insuficiência hepática, edema angioneurótico, urticária, fotosensibilidade, reacções cutâneas graves, eritema multiforme, necrólise epidérmica tóxica, nefrite intersticial, insuficiência renal aguda, anafilaxia, astenia, candidíase e inflamação dos testamentos.
que estava com uma doencita
mas ele era náuseas, vómitos, diarreia, desconforto abdominal, dor, espasmos, tonturas, vertigens, sonolência, dor de cabeça, convulsões, disrupção dos sentidos de olfacto e paladar, fezes moles, flatulência, anorexia, perturbações digestivas, reacções alérgicas, prurido, erupção cutânea, artralgia, vaginite, trombocitopenia, anemia hemolítica, reduções ligeiras e transitórias do número de neutrófilos, agressão, agitação, ansiedade, nervosismo, despersonalização, delírio, parestesia, síncope, astenia, insónia, hiperactividade, lesões nos ouvidos, audição debilitada, surdez, zunido nos ouvidos, palpitações, arritmia, taquicardia ventricular, obstipação, descoloração da língua, pancreatite, descoloração dos dentes, colite pseudomembranosa, hepatite, icterícia colestástica, necrose hepática, insuficiência hepática, edema angioneurótico, urticária, fotosensibilidade, reacções cutâneas graves, eritema multiforme, necrólise epidérmica tóxica, nefrite intersticial, insuficiência renal aguda, anafilaxia, astenia, candidíase e inflamação dos testamentos.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Se eu fosse uma mesa
Se eu fosse uma mesa podia ter uma perna, duas pernas, três pernas ou quatro pernas.
Se eu fosse uma mesa podia ser pesada de mármore, maciça de carvalho ou ter telhados de vidro.
Podia ser desmontável ou não passar na porta. Podia ter bicos e lados e não deixar casar, ou ser redonda, ou ampliar. Se eu fosse uma mesa podia estar à janela ou fechada numa salinha interior, ou então podia ser uma mesa de jardim para jogar às cartas. Podia ser uma mesa para comer ou para escrever, ou então para as duas coisas, ou ser uma mesa de mistura. Podia ter um presidente ou lançarem-me pontos de ordem. Se eu fosse uma mesa tinha um lado vertical e um horizontal. Se eu fosse uma mesa tinha partes duras ou à pressão. Podia estar posta ou não. Se eu fosse uma mesa estava farta de cadeiras. Se eu fosse uma mesa não tinha nome e só os loucos falavam comigo. Se eu fosse uma mesa talvez juntasse o útil ao agradável. Podia ter manchas, pregos e cola, e pastilhas debaixo do tampo. Se eu fosse uma mesa não falava, mas podia ranger ou cair e podiam-me bater e lavar. Ainda não sei bem se gostava ou não de ser uma mesa.
sábado, 8 de setembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
o arco ressonante
Diz-se que naquela passagem, mesmo ali, no arco, quem disser o seu nome ouve o eco da sua voz. Vamos lá. Oiçam. Um de cada vez, um de cada vez.
há verão
vamos os dois passear
de carro vamos ver
portugal a arder
eucaliptos de carvão
e lambemos
calipos de limão
oh que bom sair
da cidade à natureza
carvão oh sim beleza
há mar para apagar
no som dos carros a passar
e livrem-me do betão
das paredes que pedem óculos
pra míope
e ninguém pega nestes poemas
pra fazer canções
de carro vamos ver
portugal a arder
eucaliptos de carvão
e lambemos
calipos de limão
oh que bom sair
da cidade à natureza
carvão oh sim beleza
há mar para apagar
no som dos carros a passar
e livrem-me do betão
das paredes que pedem óculos
pra míope
e ninguém pega nestes poemas
pra fazer canções
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
água ar dente
a bílis o álcool o cloreto de sódio um mar
no chuveiro ia o mar que assim confundia-se tudo
e não havia ninguém a ver nem o próprio
o fígado e a humidade solução dissolução nadar
sem olhar
na ponta dos dedos um depósito a gritar
mudo
corro
corroente
corrosiva coerciva
incisiva
indecisa
no saibro
mato-me mais uma vez dramática com gritos
tapas os ouvidos ou diverges desvias-te da verdade escancarada
desisto
no chuveiro ia o mar que assim confundia-se tudo
e não havia ninguém a ver nem o próprio
o fígado e a humidade solução dissolução nadar
sem olhar
na ponta dos dedos um depósito a gritar
mudo
corro
corroente
corrosiva coerciva
incisiva
indecisa
no saibro
mato-me mais uma vez dramática com gritos
tapas os ouvidos ou diverges desvias-te da verdade escancarada
desisto
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
retrato
Encomendaram-me um retrato
com olhos nariz e boca
as pregas todas no vestido
e uma rosa
nas mãos ou no cabelo
Se fantasia é forçosa
que se limite ao fundo e muito pouca
Um reposteiro ou umas flores
Que um retrato é um retrato E para sê-lo
tem de ficar rigoroso
e acima de tudo parecido
E enquanto estico a tela escrupuloso
e mecânicamente escolho cores
a mim mesmo pergunto indiferente
De que fala esta gente?
Mário Dionísio
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
silhueta da cidade montra
quando a cidade se começou a vender, deixei de usar qualquer
café na minha rua porque o café não era para mim, porque o café custava um
balúrdio e as mesas não eram feitas para ficar a ler o jornal
quando a cidade se começou a vender, as ruas já não tinham
um desenho para eu chegar onde queria facilmente, as ruas passaram a dar saída
só para museus, monumentos e lojas de galos de barcelos
quando a cidade se vendeu, já nem os anúncios eram para mim,
porque a cidade não se vendeu para mim, porque eu não a podia comprar
quando a cidade se vendeu, os bilhetes de autocarro e de
metro e de eléctrico e a gasolina, o gasóleo e os parquímetros passaram a custar
um preço que se ria a bandeiras despregadas dos trocos que eu levo no bolso
quando a cidade se vendeu, os jardins deixaram de ter
árvores e arbustos e lagos e bichos e passaram a ter o chão liso, duro e branco,
e brancos eram os bancos, e continuavam a chamar àquilo jardim, porque jardim é
uma palavra bonita
quando a cidade se vendeu, os parques infantis e as lojas e as
garagens e os ginásios e os correios estavam forrados em todas as arestas de
protecções contra os assaltos
quando a cidade se vendeu, as pessoas que lá viviam
começaram a deixar o centro por ordem das classes sociais a que pertenciam
quando a cidade se vendeu, passou a ser um parque de
diversões para turistas, e quem ainda lá morava escondia-se em casa porque as
ruas e os cafés não eram feitos para si, e era uma chatice para os senhores importantes
e os arquitectos urbanísticos quando as bichas da loja do cidadão saíam pela
porta e davam a volta às esquinas
já não sei se a cidade se vendeu ontem ou se foi hoje, ou se
é amanhã
domingo, 26 de agosto de 2012
L'info má
pas de nouvelles bonnes nouvelles?
passo de novas notícias
anúncio não anunciado
as interrogações as mesmas?
manipulados pelas aparências, ambiências, hortênsias
funicular
passo de novas notícias
anúncio não anunciado
as interrogações as mesmas?
manipulados pelas aparências, ambiências, hortênsias
funicular
sábado, 25 de agosto de 2012
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
É possível
É possível
ficares aqui
connosco
Esse tempo
neste tempo
é provável
Resiste,
ó resistente:
é necessário
ficares aqui
connosco
Esse tempo
neste tempo
é provável
Resiste,
ó resistente:
é necessário
fragmento de Melville encontrado na rua
To enjoy bodily warmth, some small part of you must be cold, for there is no quality in this world that is not what it is merely by contrast. Nothing exists in itself.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
carapauzinhos com arroz de censura
vieram-me dizer que tua casa acabava depois de amanhã
agarra o mapa e o pedal e o chouriço
a correr a ver o mar a correr a tropeçar na falésia
a tua barriga a gemer como a minha de fazer e de pensar
vem vamos agora assim com sol e cinza e facas de frio
a tentar temer desplanear
que as terras por que passo nas ruas conhecidas
anunciam carapauzinhos com arroz de censura
a tua mão sobre o lado direito o coração na mão
oh se a minha vida igual à tua não dava dois filmes
do outro lado do mundo ou noutro planeta o mordomo do papa contém a respiração
e a gente a correr a correr devagar a fazer isto girar
já lianas e fios tão longos que sorrio a desenhá-los e choro a vê-los
a tornear as dores bonitas e simples as fundas rir-nos delas
é de mapa é de papel que é preciso as rugas de quando se dobra
e vai de arco e flecha se me desapareces
agarra o mapa e o pedal e o chouriço
a correr a ver o mar a correr a tropeçar na falésia
a tua barriga a gemer como a minha de fazer e de pensar
vem vamos agora assim com sol e cinza e facas de frio
a tentar temer desplanear
que as terras por que passo nas ruas conhecidas
anunciam carapauzinhos com arroz de censura
a tua mão sobre o lado direito o coração na mão
oh se a minha vida igual à tua não dava dois filmes
do outro lado do mundo ou noutro planeta o mordomo do papa contém a respiração
e a gente a correr a correr devagar a fazer isto girar
já lianas e fios tão longos que sorrio a desenhá-los e choro a vê-los
a tornear as dores bonitas e simples as fundas rir-nos delas
é de mapa é de papel que é preciso as rugas de quando se dobra
e vai de arco e flecha se me desapareces
a menina pires queria estar onde não está
Um terrível desejo de partir de uma vez para sempre
Uma horrível necessidade de viajar e não voltar
Uma estranha vontade de não estar onde se está
Um querer de outro sítio, já não chega a praia
Um precisar de ti, mas não saber quem és
Uma fuga sem saída, fugir para dentro do livro
Um prato de horizontes, o mundo plano
Uma sombra que não me acompanhasse a toda a parte
Uma busca em minha casa, à procura do crime
Uma horrível necessidade de viajar e não voltar
Uma estranha vontade de não estar onde se está
Um querer de outro sítio, já não chega a praia
Um precisar de ti, mas não saber quem és
Uma fuga sem saída, fugir para dentro do livro
Um prato de horizontes, o mundo plano
Uma sombra que não me acompanhasse a toda a parte
Uma busca em minha casa, à procura do crime
do filme O Bobo, de José Álvaro Morais
- O que é que julgas poder ser fora daqui senão caricatura?
- Mas combinámos sair de Portugal, não foi?
- Pensas que vale a pena ser a caricatura desta terra noutra
terra? Pensas que nos achavam graça?
- Não faço ideia, Rita, não sei. Podíamos tentar.
- Podíamos, mas não ia ajudar muito.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Aprendendo a ser delicada
a menina Loisa
viu o pássaro ainda vivo
voava vivo cheio de nervos
atento medroso ignorante
desenhava fios invisíveis
depois de inerte
de patas para o ar
asas de encontro à mesa
queria tocar-lhe para saber como era
isso de já não mexer
isso de se ter estragado
e tocava-lhe nos sovacos das asas
agora que podia
sempre em silêncio
a conter a respiração
não fosse ele acordar de repente
ou alguém vir intrometer-se
numa investigação só dela
tocava piano no pássaro
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
p/b
um ponto em comum
não resistir ao preto e branco
se é um tabuleiro, jogam xadrez
se é uma passadeira, atravessam a estrada
se é um piano, tocam modinhas
se é um jornal, lêem notícias
se é uma bola, jogam futebol
se é um animal, chamam-lhe zebra
ó mãe
mas de que cor é que era o sangue quando as pessoas eram a preto e branco?
não resistir ao preto e branco
se é um tabuleiro, jogam xadrez
se é uma passadeira, atravessam a estrada
se é um piano, tocam modinhas
se é um jornal, lêem notícias
se é uma bola, jogam futebol
se é um animal, chamam-lhe zebra
ó mãe
mas de que cor é que era o sangue quando as pessoas eram a preto e branco?
sexta-feira, 27 de julho de 2012
secura
a arritmia é contagiosa
o calor não se comanda
as vozes aqui gritam outras línguas
os meandros não entendem
hipnotizados pelos músculos grandes capitalistas que esboroam dos prédios das cidades
sentimos-lhes o cheiro da baba acre-morango
vêm silêncio e pássaros
todas as contradições e o peso da calmaria do sol
agosto de quem?
chamo-te e empurro-te e grito e tu não percebes nada
piscam o olho os manicómios
assegura-se sempre o circo em redor
porque insuportável pode ser a dor
se não a pisarmos com todas as solas calos e narizes vermelhos
agá agá os gagos
repetitivos mas não contagiosos
como alguns sonhos que não contagiam os dias
como jogar muito às cartas nas férias que já não tenho e dormir entre ouros e paus
em copas com espadas
verão
hei-de esfaquear-te
o calor não se comanda
as vozes aqui gritam outras línguas
os meandros não entendem
hipnotizados pelos músculos grandes capitalistas que esboroam dos prédios das cidades
sentimos-lhes o cheiro da baba acre-morango
vêm silêncio e pássaros
todas as contradições e o peso da calmaria do sol
agosto de quem?
chamo-te e empurro-te e grito e tu não percebes nada
piscam o olho os manicómios
assegura-se sempre o circo em redor
porque insuportável pode ser a dor
se não a pisarmos com todas as solas calos e narizes vermelhos
agá agá os gagos
repetitivos mas não contagiosos
como alguns sonhos que não contagiam os dias
como jogar muito às cartas nas férias que já não tenho e dormir entre ouros e paus
em copas com espadas
verão
hei-de esfaquear-te
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Ou então...
Ou então a revolta organiza-se em lava e o vulcão põe a
andar os cangalheiros. Vitória? Não, eles voltam sempre, como nos saltimbancos.
Mas aí saberemos da alegria fervilhante da luta e já não desistimos. Mas era
preciso quereres comigo um pouco disso. A beleza da encosta pelo menos.
Calcides
Calcides
fronta na purina ao passo que indespiga. Unha cota ínclita e tresfeia o zanté.
Tamora rechaca o choco e tira Unha de Calcides.
terça-feira, 10 de julho de 2012
das campanhas dos (o)buses
que a gazela é animal delicado frágil
em humano seria uma senhoramas note-se que é a gazela consciente
consciente do planeta
- que é um problema secundário, como todos sabem
não é assunto de homens
que esses são realmente inteligentes e fortes
e o que lhes interessa é o mercado, o lucro, as empresas e o poder
assunto de gazelas é a verdura do mundo
a pureza a beleza a respiração com cheiro a flores
- a gazela consciente
a ser
não uma impulsionadora de mudança no mundo
(mundo)
mas sim um ser esquisito no meio do mundo
um ser de utopias ridicularizáveis
um pateta animal colorido
no meio do cinzentismo devido suposto querido
e o que fazer?
primeiro que tudo
- tão óbvio que nem se explica oficialmente -
aceitar que haja menos autocarros e carreiras e que os preços da carris aumentem exponencialmente
numa palavra, valide verde
http://greensavers.sapo.pt/2012/06/26/carris-e-nacoes-unidas-juntas-na-promocao-do-transporte-sustentavel/
quinta-feira, 5 de julho de 2012
cu média
Zenuíno distreme das fagulhas e objacta que tuta. Mazinho
transgruda na bota colessionada parapar. E entretanto Lunícia distelha a
mulice, acafa Mazinho e florece Zenuíno.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
caruncho
imaginava que eras de repente aquela pele por trás do pelo ressequida e mais perto dos ossos os ossos a agarrarem a pele a puxarem e os pelos a ficarem lassos de pouca carne os postiços a cair
no chão da rua
e a ficar o corpo de dentro de tudo isto a contar e o que contava era
o susto o medo o pavor porque batiam à porta e não estava ninguém do outro lado quando se abria porque as vozes das crianças se queriam recusar afastava-se o corpo do homem por si propositadamente e pela maneira de ser como o dos bichos que vão morrer longe
fugia o homem de ser visto a sofrer mais do que do sofrimento em si e ao pensar em si e nisto sofria mais e mais a pele se encostava aos ossos e os olhos se esbugalhavam mas sem esperar
ou à espera
não se espera assim por isso há-de haver uma reacção à dor dos ossos e da pele e à dor de tudo o que os olhos passam a trazer-nos à cabeça e ainda à dor imaginada dos outros depois e antes e durante e
saber falar?
ainda há tempo para aprender a falar mas ainda haveria tempo para aprender que há coisas mais bonitas que o orgulho do pirata
no chão da rua
e a ficar o corpo de dentro de tudo isto a contar e o que contava era
o susto o medo o pavor porque batiam à porta e não estava ninguém do outro lado quando se abria porque as vozes das crianças se queriam recusar afastava-se o corpo do homem por si propositadamente e pela maneira de ser como o dos bichos que vão morrer longe
fugia o homem de ser visto a sofrer mais do que do sofrimento em si e ao pensar em si e nisto sofria mais e mais a pele se encostava aos ossos e os olhos se esbugalhavam mas sem esperar
ou à espera
não se espera assim por isso há-de haver uma reacção à dor dos ossos e da pele e à dor de tudo o que os olhos passam a trazer-nos à cabeça e ainda à dor imaginada dos outros depois e antes e durante e
saber falar?
ainda há tempo para aprender a falar mas ainda haveria tempo para aprender que há coisas mais bonitas que o orgulho do pirata
terça-feira, 26 de junho de 2012
Um cubo de três lados
Quadrado 1 - As ridículas
Eram as hipotéticas as futuras
porque ainda não estavam escritas
mas já se adivinhava
tudo o que de ridículo haveria nelas
e que se haviam de rasgar depois ou queimar ou guardar dobradas
dentro ainda dos envelopes originais
em caixas e gavetas e cantinhos das casas
Seriam amarfanhadas ou vincadas em linhas que iam gastar a tinta das letras
seriam recordadas
guardadas só para serem recordadas
queimadas só para serem recordadas
sempre efémeras
que o amor felizmente nunca é eterno
Uma resma delas
Mais vale não as escrever e deitá-las já no lixo
deitá-las já no caixote
ficar a olhar para elas
não escritas já deitadas fora
Pegava-se fogo depois ou antes?
Quadrado 2 - Corte de cabelo organizado
A corda é corda
emaranhada
confusa
áspera e resistente
bonita quando inútil em modo escultura
sempre harmónica
simples e rude
Com a tesoura fica outra coisa
fica laços que têm de se cortar
enforcados que têm de cair
pedaços que têm de ter medidas para usar para isto e para aquilo
Façam-se as medidas
cortem-se as pontas
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
Faz-se um jogo
que assim resumido se torna fordismo
e se fosse cabelo seria daqueles cortes mais compridos à esquerda que à direita
o fordismo depois não leva a lado nenhum
é beco sem saída
só com revoluções é que...
Quadrado 3 - O mapa
A marca
que com a palavra estrada se repete e prolonga e se torna estrada
leva pneu grande para mim de camião
o pneu rola sem ninguém mandar
quer fazer o seu caminho mas a gente dá-lhe regras
pôe limites
desenha uma curva para ele seguir
sai daqui
nem penses em seguir em frente
desvia-te ó pneu
A marca do meu pé
estará ali e estará segura
ali é a marca do meu pé que eu não quero atropelado
ali se calhar é já a entrada da minha casa
entrei em casa
com os sapatos com que ando na rua e descalcei-os
Uma estadia
uma estada
uma estrada
Um estrado
um estado
um estádio
Andamos
a querer pisar esta história
e forçar-lhe um fim
Eram as hipotéticas as futuras
porque ainda não estavam escritas
mas já se adivinhava
tudo o que de ridículo haveria nelas
e que se haviam de rasgar depois ou queimar ou guardar dobradas
dentro ainda dos envelopes originais
em caixas e gavetas e cantinhos das casas
Seriam amarfanhadas ou vincadas em linhas que iam gastar a tinta das letras
seriam recordadas
guardadas só para serem recordadas
queimadas só para serem recordadas
sempre efémeras
que o amor felizmente nunca é eterno
Uma resma delas
Mais vale não as escrever e deitá-las já no lixo
deitá-las já no caixote
ficar a olhar para elas
não escritas já deitadas fora
Pegava-se fogo depois ou antes?
Quadrado 2 - Corte de cabelo organizado
A corda é corda
emaranhada
confusa
áspera e resistente
bonita quando inútil em modo escultura
sempre harmónica
simples e rude
Com a tesoura fica outra coisa
fica laços que têm de se cortar
enforcados que têm de cair
pedaços que têm de ter medidas para usar para isto e para aquilo
Façam-se as medidas
cortem-se as pontas
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
dez centímetros para a direita
três centímetros para a esquerda
Faz-se um jogo
que assim resumido se torna fordismo
e se fosse cabelo seria daqueles cortes mais compridos à esquerda que à direita
o fordismo depois não leva a lado nenhum
é beco sem saída
só com revoluções é que...
Quadrado 3 - O mapa
A marca
que com a palavra estrada se repete e prolonga e se torna estrada
leva pneu grande para mim de camião
o pneu rola sem ninguém mandar
quer fazer o seu caminho mas a gente dá-lhe regras
pôe limites
desenha uma curva para ele seguir
sai daqui
nem penses em seguir em frente
desvia-te ó pneu
A marca do meu pé
estará ali e estará segura
ali é a marca do meu pé que eu não quero atropelado
ali se calhar é já a entrada da minha casa
entrei em casa
com os sapatos com que ando na rua e descalcei-os
Uma estadia
uma estada
uma estrada
Um estrado
um estado
um estádio
Andamos
a querer pisar esta história
e forçar-lhe um fim
domingo, 24 de junho de 2012
descrição
Elas, com asas de todas as cores, ora azuis, ora brancas,
ora rosas e verdes e amarelas – que nisso eram camaleoas -, já estavam
habituadas a aconchegar o seu corpo entre os piloros e ficar ali adormecidas.
Em certas épocas, pegavam ao sono durante muito tempo. Eram completamente
resistentes aos sucos gástricos e digestivos, por mais ácidos que fossem. Eram
sensíveis, mas imunes à insensibilidade. Depois, em momentos, em segundos, acontecia
que se punham a voar em círculos, sem chocar umas com as outras, fazendo cócegas
com as leves asas nos piloros. Como beijos de pestanas.
terça-feira, 5 de junho de 2012
literatura
Leia cuidadosamente este folheto
antes de tomar
este medicamento
É importante que o leia
mesmo que já tenha tomado aspirina
pois contém
novas informações
Caso ainda tenha dúvidas
fale com o seu médico ou farmacêutico
conserve este folheto
pode ter necessidade
de o ler novamente antes de
terminar a embalagem
Este medicamento foi receitado para si
não deve dá-lo a outros
o medicamento pode ser-lhes
prejudicial
mesmo que apresentem os mesmos sintomas
antes de tomar
este medicamento
É importante que o leia
mesmo que já tenha tomado aspirina
pois contém
novas informações
Caso ainda tenha dúvidas
fale com o seu médico ou farmacêutico
conserve este folheto
pode ter necessidade
de o ler novamente antes de
terminar a embalagem
Este medicamento foi receitado para si
não deve dá-lo a outros
o medicamento pode ser-lhes
prejudicial
mesmo que apresentem os mesmos sintomas
sábado, 2 de junho de 2012
a ferida
eu sou uma ferida
eu sou talvez ou por exemplo a ferida do nariz da minha avó
em vermelho vivo e em vermelho crosta
a escorrer e seca
a arder e a dor muscular
olha-me e pareço bonita
e olha-me mais e sem cegueira não vês as quebras no tecido macerado
as manchas gretadas
não, pode ser que não vejas
a máscara da ferida fica bela e parada em luz de inverno muito nítida
olha-me e pareço parada
e não vês as plaquetas a trabalhar a sair a entrar a coagular-me as arestas
e a dor muscular
não vês por dentro as nódoas negras a pedir punhos cerrados para não sentir a ressaca
a pedir unhas que façam sangue sangue que corra
para parecer viva
a ferida viva
os ossos pedem para ser vistos
o resto da pele a ser branca mais branca pálida
a ferida viva que já não grita
que grita calada
que grita o toque o raspão o rasgão a sina das unhas dos cortes de
x-acto
a ferida que se constrói
que mói que agarra o tempo e o ciclo de sarar
mais e mais massacrada e só calma e calada
entupida sem sons
a entregar-se a ser assim
beija-me que saibo a ferro e ferro dá-te força
tira a força que eu sou só ferida
lambe-me que saibo a ferro e ferro faz armas
tira a espada para ficar só
a ferida
não vês agora que horrorizo que sou carne que sou pêlos
fundo de esgoto centenas de larvas
não vês como sou feia e sem coragem
só feia exposta visão de horror
vês agora que os teus olhos se arregalaram de medo
que os teus pés dão passos atrás imóveis
que as tuas mãos se abriram voltadas para o chão
e é esse o momento em que a ferida começa a cantar com a voz que pediu emprestada à bela sereia
eu sou talvez ou por exemplo a ferida do nariz da minha avó
em vermelho vivo e em vermelho crosta
a escorrer e seca
a arder e a dor muscular
olha-me e pareço bonita
e olha-me mais e sem cegueira não vês as quebras no tecido macerado
as manchas gretadas
não, pode ser que não vejas
a máscara da ferida fica bela e parada em luz de inverno muito nítida
olha-me e pareço parada
e não vês as plaquetas a trabalhar a sair a entrar a coagular-me as arestas
e a dor muscular
não vês por dentro as nódoas negras a pedir punhos cerrados para não sentir a ressaca
a pedir unhas que façam sangue sangue que corra
para parecer viva
a ferida viva
os ossos pedem para ser vistos
o resto da pele a ser branca mais branca pálida
a ferida viva que já não grita
que grita calada
que grita o toque o raspão o rasgão a sina das unhas dos cortes de
x-acto
a ferida que se constrói
que mói que agarra o tempo e o ciclo de sarar
mais e mais massacrada e só calma e calada
entupida sem sons
a entregar-se a ser assim
beija-me que saibo a ferro e ferro dá-te força
tira a força que eu sou só ferida
lambe-me que saibo a ferro e ferro faz armas
tira a espada para ficar só
a ferida
não vês agora que horrorizo que sou carne que sou pêlos
fundo de esgoto centenas de larvas
não vês como sou feia e sem coragem
só feia exposta visão de horror
vês agora que os teus olhos se arregalaram de medo
que os teus pés dão passos atrás imóveis
que as tuas mãos se abriram voltadas para o chão
e é esse o momento em que a ferida começa a cantar com a voz que pediu emprestada à bela sereia
sexta-feira, 1 de junho de 2012
ruge
a minha avó tinha uma ferida no nariz que não sarava
o meu vestido é vermelho, o meu computador é vermelho, o meu telemóvel é vermelho
se sabes ler como é que não sabes escrever
se eles não sabem escrever como é que sabem piolhar os documentos dos outros
o sangue quando desce à boca sabe a ferro
ontem quis ver o mar hoje hoje quero vê-lo amanhã
o meu vestido é vermelho, o meu computador é vermelho, o meu telemóvel é vermelho
se sabes ler como é que não sabes escrever
se eles não sabem escrever como é que sabem piolhar os documentos dos outros
o sangue quando desce à boca sabe a ferro
ontem quis ver o mar hoje hoje quero vê-lo amanhã
segunda-feira, 28 de maio de 2012
nem guronsan nem compensan, só benuron
afinal deus tinha de ter sentido estético, para criar o apêndice, afinal deus deus não existia como toda a gente sabia e cristo sabe-se lá, metáforas de colonizadores de cabeças, histórias mágicas para as cabeças das crias colonizadas
eu não as queria colonizadas, eu sonhei um dia que se descolonizavam, sonhei um dia mas mesmo de dia, que dos sonhos que sonho não me lembro, dos sonhos que sonho de noite
não me lembro, não sei se hei-de acreditar, será que isto era sono ou sonho ou estar noutro chão, o chão era outro, o dia era outro ou era este os dias medem-se pelo sol ou por estar acordado os dias são dia-a-dias ou são
catadupas e cascatas na cabeça em descolonização, em descolonização sempre, eu juro eu juro eu juramento sem bandeira descolonizarei, -me, e aos outros, descolonizar-me-ei descolonizar-vos-ei descolonizarmo-nos-emos
e antes de dormir ainda há sempre tanta coisa a fazer
a aurora é o novo ocaso
o dente grita o dente não sabia que a vida eram dois dias mesmo sem dormir as dezasseis horas, o dente raios parta o dente a gritar quero ser vitaminado! mas devia era ser vitalizado desvitalizado queria eu dizer o dente não me deixou dizer
tudo o que ele não deixa dizer
eu não as queria colonizadas, eu sonhei um dia que se descolonizavam, sonhei um dia mas mesmo de dia, que dos sonhos que sonho não me lembro, dos sonhos que sonho de noite
não me lembro, não sei se hei-de acreditar, será que isto era sono ou sonho ou estar noutro chão, o chão era outro, o dia era outro ou era este os dias medem-se pelo sol ou por estar acordado os dias são dia-a-dias ou são
catadupas e cascatas na cabeça em descolonização, em descolonização sempre, eu juro eu juro eu juramento sem bandeira descolonizarei, -me, e aos outros, descolonizar-me-ei descolonizar-vos-ei descolonizarmo-nos-emos
e antes de dormir ainda há sempre tanta coisa a fazer
a aurora é o novo ocaso
o dente grita o dente não sabia que a vida eram dois dias mesmo sem dormir as dezasseis horas, o dente raios parta o dente a gritar quero ser vitaminado! mas devia era ser vitalizado desvitalizado queria eu dizer o dente não me deixou dizer
tudo o que ele não deixa dizer
enganar o dente
a viver de noite
a ver o sol despontar
não acreditar
ter medo de não lembrar
puxar as horas
desprezar o sono
matá-lo de conversa
não parar de falar
fazer mais de três acordes
abrir alargar
dividir alongar
e já de dia outra vez
já de noite
não acreditar
a ver o sol despontar
não acreditar
ter medo de não lembrar
puxar as horas
desprezar o sono
matá-lo de conversa
não parar de falar
fazer mais de três acordes
abrir alargar
dividir alongar
e já de dia outra vez
já de noite
não acreditar
quarta-feira, 23 de maio de 2012
cansaço calor confuso
Que a esta hora o cansaço
já tomara conta dos corpos
e a noite parecia apaziguar
as tensões, os tendões, os artelhos
E a cabeça cansada do desejo
há tantas horas iniciado, sonhado
e há tantas horas prometido
No escuro, no não dizer
parecia descansar, mas era trémito ainda
porque dois corpos vibram mais que um
No escuro da luz apagada, afinal
ouve-se o coração a bater
e não se consegue conter a respiração
E essa súbita mão a emigrar
calor e arrepio e delírio
tão primitiva e tão logo
tão libertação de tudo outra vez
como café no sono
agitadora de gás, resplendorosa
A riscar do mapa do futuro próximo
os filtros da posição que deve ser
deixa a confusão confusa para pensar depois
arrasa agora, arranha agora
e o fim é adiado e querido
cada vez mais próximo, galopante
Adormecer é dizer primeiro a palavra
confuso e não mais querer pensar
Não aconchegar é o medo do medo do medo
despreza-se então, dormindo toda a noite
O desprezo é uma centrifugadora na barriga
que não me deixará dormir tranquila
e para que serve?
já tomara conta dos corpos
e a noite parecia apaziguar
as tensões, os tendões, os artelhos
E a cabeça cansada do desejo
há tantas horas iniciado, sonhado
e há tantas horas prometido
No escuro, no não dizer
parecia descansar, mas era trémito ainda
porque dois corpos vibram mais que um
No escuro da luz apagada, afinal
ouve-se o coração a bater
e não se consegue conter a respiração
E essa súbita mão a emigrar
calor e arrepio e delírio
tão primitiva e tão logo
tão libertação de tudo outra vez
como café no sono
agitadora de gás, resplendorosa
A riscar do mapa do futuro próximo
os filtros da posição que deve ser
deixa a confusão confusa para pensar depois
arrasa agora, arranha agora
e o fim é adiado e querido
cada vez mais próximo, galopante
Adormecer é dizer primeiro a palavra
confuso e não mais querer pensar
Não aconchegar é o medo do medo do medo
despreza-se então, dormindo toda a noite
O desprezo é uma centrifugadora na barriga
que não me deixará dormir tranquila
e para que serve?
terça-feira, 22 de maio de 2012
the fun's in the fight
"So
keep fightin' for freedom and justice, beloveds,
but
don't you forget to have fun doin' it.
Lord,
let your laughter ring forth.
Be
outrageous, ridicule the fraidy-cats,
rejoice
in all the oddities that freedom can produce.
And
when you get through kickin' ass
and
celebratin' the sheer joy of a good fight,
be
sure to tell those who come after
how
much fun it was."
Molly Ivins, from
"The Fun's in the Fight" in Mother
Jones, 1993
quinta-feira, 17 de maio de 2012
friquinismos à parte, esta forma de migração chama-se amor
Daí para aqui
a força vai e vem e engrossa na viagem
os pós da tua luta aí chegam cá
e vou-te mandando sons daqui
A luz chega mais rápido
mas os sons amadurecem enquanto vibram no ar
De cá para aí
daí para aqui
se passeio e sorrio a tanta gente e troco as notícias por outras
faço um mundo mais redondo
pontilhado cada vez mais de formas cada vez mais diversas
arrisco pedir-te uma arte que ainda não provaste
arrisco provocar-te e tu
arriscas provocar-me
Com o que há aí
e eu faço com o que há aqui e mudo tudo mais uma vez
aqui sem acento nem frio
aqui com sol e pedras da calçada
aí com outros cafés e outros sapatos
aí contigo e mais quem te dá força e mãos
Puxamos muito o cotovelo para trás e para cima
e lançamo-nos uns para os outros e
tocamo-nos e misturamo-nos
Não saberei fazer nada aqui sem ouvir esse grito
já em eco
e sei então que também precisas de remessas do meu formigueiro
Que outra forma haveria de viver
e mudar os gestos?
a força vai e vem e engrossa na viagem
os pós da tua luta aí chegam cá
e vou-te mandando sons daqui
A luz chega mais rápido
mas os sons amadurecem enquanto vibram no ar
De cá para aí
daí para aqui
se passeio e sorrio a tanta gente e troco as notícias por outras
faço um mundo mais redondo
pontilhado cada vez mais de formas cada vez mais diversas
arrisco pedir-te uma arte que ainda não provaste
arrisco provocar-te e tu
arriscas provocar-me
Com o que há aí
e eu faço com o que há aqui e mudo tudo mais uma vez
aqui sem acento nem frio
aqui com sol e pedras da calçada
aí com outros cafés e outros sapatos
aí contigo e mais quem te dá força e mãos
Puxamos muito o cotovelo para trás e para cima
e lançamo-nos uns para os outros e
tocamo-nos e misturamo-nos
Não saberei fazer nada aqui sem ouvir esse grito
já em eco
e sei então que também precisas de remessas do meu formigueiro
Que outra forma haveria de viver
e mudar os gestos?
sexta-feira, 11 de maio de 2012
A monte
Diana das origens
perseguida por faisões
faisões que coaxam e incham
e batem as asas
estalam as asas
Diana a trotar
à procura do arco
à procura do cio da terra
Cacilheiro, Joana, autocarro, laranja, Alcântara-pai, Paço de Arcos, Richard, tamanho, Parede, ginecologista, S. Pedro, casas, avós, prima, tios, S. João, avó Arlete, casa, cheiro, criança, linha, som, criança, S. Pedro de Moel, relâmpagos, acampar, mar, Porto Covo
Mulheres que param e sorriem
fogem
das zonas agitadas
de famílias e adolescentes
olham-no e ao horizonte
e sorriem
Vale sempre a pena vir ver o mar. Nunca desilude. É sublime. Embriaga-nos. Despe-nos as angústias com as ondas-garra. Puxa como um ancinho. Oferece-nos maresia ao mesmo tempo, para garantir que não dói. O mar tem sempre segredos com as pessoas. Com cada uma. E nunca conta nada a ninguém.
Quero dedicar-te metade do meu tempo, mar. Vir aos sítios em que és mais como eu te vejo. E na outra metade serei archeira, também - mas nos pinhais. Abriu a época de estivar ânimos.
E nesses bancos respirarei. Os avós, os amigos, os amores, as casas, as viagens, os cheiros, os sons, as memórias com objectos, as contra-regras, os contrários, a exody, as linhas, a linha do horizonte, a linha que não é uma linha, ou então imaginar de repente que vivemos num prato e um grande gigante nos pode comer a qualquer momento.
Poder beber o sumo todo antes da comida. Deitar fora o leite e aquelas roupas. Ter coragem. Disto e daquilo. Perceber que a Inês anda comigo. Lembrar da coluna. Dar ar ao tórax.
Viva o youtube, que tem vídeos sobre os peixes voadores. E agradeço ao café ter pão do rijo, e só levar uma salsicha. O mundo parece belo, de repente. Vamo-nos esquecer da mentira. Um bocadinho. Outra rapariga sorri ao ver o mar. E tira fotos aos avós iguais às da minha avó. Aqui vive-se diferente, parece.
Chegaram agora as gaivotas de prancha. São negras em contraluz. Não tenho horas. As horas dos outros são muitos cães e crianças. Não me dão inveja. Ainda sou, ou já, a mulher que sorri quando chega ao mar.
E depois havia tudo o resto, ainda mais intratável. Os dois fenómenos mágicos. O anoitecer e o amanhecer. Que carradas de coisas. Não dava para explicar.
E então era só trocar os horários. Combinar outras coisas com o tempo. Mas o mais difícil, era mudar o ritmo da respiração. E aquilo da coluna.
Da feiura não tenho medo. Mas o belo dá força.
perseguida por faisões
faisões que coaxam e incham
e batem as asas
estalam as asas
Diana a trotar
à procura do arco
à procura do cio da terra
Cacilheiro, Joana, autocarro, laranja, Alcântara-pai, Paço de Arcos, Richard, tamanho, Parede, ginecologista, S. Pedro, casas, avós, prima, tios, S. João, avó Arlete, casa, cheiro, criança, linha, som, criança, S. Pedro de Moel, relâmpagos, acampar, mar, Porto Covo
Mulheres que param e sorriem
fogem
das zonas agitadas
de famílias e adolescentes
olham-no e ao horizonte
e sorriem
Vale sempre a pena vir ver o mar. Nunca desilude. É sublime. Embriaga-nos. Despe-nos as angústias com as ondas-garra. Puxa como um ancinho. Oferece-nos maresia ao mesmo tempo, para garantir que não dói. O mar tem sempre segredos com as pessoas. Com cada uma. E nunca conta nada a ninguém.
Quero dedicar-te metade do meu tempo, mar. Vir aos sítios em que és mais como eu te vejo. E na outra metade serei archeira, também - mas nos pinhais. Abriu a época de estivar ânimos.
E nesses bancos respirarei. Os avós, os amigos, os amores, as casas, as viagens, os cheiros, os sons, as memórias com objectos, as contra-regras, os contrários, a exody, as linhas, a linha do horizonte, a linha que não é uma linha, ou então imaginar de repente que vivemos num prato e um grande gigante nos pode comer a qualquer momento.
Poder beber o sumo todo antes da comida. Deitar fora o leite e aquelas roupas. Ter coragem. Disto e daquilo. Perceber que a Inês anda comigo. Lembrar da coluna. Dar ar ao tórax.
Viva o youtube, que tem vídeos sobre os peixes voadores. E agradeço ao café ter pão do rijo, e só levar uma salsicha. O mundo parece belo, de repente. Vamo-nos esquecer da mentira. Um bocadinho. Outra rapariga sorri ao ver o mar. E tira fotos aos avós iguais às da minha avó. Aqui vive-se diferente, parece.
Chegaram agora as gaivotas de prancha. São negras em contraluz. Não tenho horas. As horas dos outros são muitos cães e crianças. Não me dão inveja. Ainda sou, ou já, a mulher que sorri quando chega ao mar.
E depois havia tudo o resto, ainda mais intratável. Os dois fenómenos mágicos. O anoitecer e o amanhecer. Que carradas de coisas. Não dava para explicar.
E então era só trocar os horários. Combinar outras coisas com o tempo. Mas o mais difícil, era mudar o ritmo da respiração. E aquilo da coluna.
Da feiura não tenho medo. Mas o belo dá força.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Retrato do irretratável
A ponta de angústia
era uma minhoca da terra
negra e translúcida
flexível e variável
ora fina ora mais gorda
formando ésses e caracóis
De longe às vezes
parecia um cabelo caído
outras vezes uma artéria
uma tromba
um escoamento de barragem
No meio do resto da matéria
dos outros sedimentos
a minhoca desenhava-se assim
em cabelo caído
e podia ser visível com exames de raio x
A ponta de angústia
era um crinóide
lírio do mar
flor na barriga
fel de boca
ulcereta
Os exames de raio x eram caros
e não serviam para nada
era uma minhoca da terra
negra e translúcida
flexível e variável
ora fina ora mais gorda
formando ésses e caracóis
De longe às vezes
parecia um cabelo caído
outras vezes uma artéria
uma tromba
um escoamento de barragem
No meio do resto da matéria
dos outros sedimentos
a minhoca desenhava-se assim
em cabelo caído
e podia ser visível com exames de raio x
A ponta de angústia
era um crinóide
lírio do mar
flor na barriga
fel de boca
ulcereta
Os exames de raio x eram caros
e não serviam para nada
erros teus, péssima fortuna, amor confuso
erros teus, péssima fortuna, amor confuso
todos os dias os mortos matutam
e enquanto muda a vida, a vida muda
mas
todos os lugares se conjuraram
lembrando-se dela de repente
enquanto o dia, minha perdição, desata aos gritos
o tempo troça dos recomeços
e o ar abafado prevê verões difíceis
desabafar assim não vale a pena - quase nada:
sonho ardido, astros desesperados...
não não não não não não NÃO
o destino rasga-se de gente
(resistir agora é crime aqui ao lado)
e a raiva ali mesmo ama
ao passo que a saliva salta
se é livre canta (...)
quem me dera o mar mais simples
com belas ondas
e música
a morte derrotada por ippon
outra vez amanhã
outra vez até ao fim
todos os dias os mortos matutam
e enquanto muda a vida, a vida muda
mas
todos os lugares se conjuraram
lembrando-se dela de repente
enquanto o dia, minha perdição, desata aos gritos
o tempo troça dos recomeços
e o ar abafado prevê verões difíceis
desabafar assim não vale a pena - quase nada:
sonho ardido, astros desesperados...
não não não não não não NÃO
o destino rasga-se de gente
(resistir agora é crime aqui ao lado)
e a raiva ali mesmo ama
ao passo que a saliva salta
se é livre canta (...)
quem me dera o mar mais simples
com belas ondas
e música
a morte derrotada por ippon
outra vez amanhã
outra vez até ao fim
adília
Na nossa relação
eu aumentei de idade
e tu diminuíste.
Tens agora dezasseis.
Estou à espera que faças a tatuagem.
eu aumentei de idade
e tu diminuíste.
Tens agora dezasseis.
Estou à espera que faças a tatuagem.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Ao do quarto ao lado
Quando eu ia a tua casa
e me sentia em tua casa
e isso do cheiro que disseste
envolvendo tudo uma calma enorme
grande
contente
os sorrisos e os risos que disseste
nada a ver os nossos corpos
nada a ver
a calma é sempre do tamanho das tuas mãos
atiro o medo em flechas
para dentro dos teus olhos
e quando falas e cantas
ressoam-me os ossos
já não sei não saber o som do teu nome
queria viver assim
mas paira aqui um ar de flamingo em bicos de pés numa pata sobre bola de bowling
então vendo os olhos
cinco escudos
e sigo sem me importar se há chão
as pedras da calçada são gelo quando há frio
e fervem ao sol
qualquer coisa não há-de perder-se nunca respiro tudo
e me sentia em tua casa
e isso do cheiro que disseste
envolvendo tudo uma calma enorme
grande
contente
os sorrisos e os risos que disseste
nada a ver os nossos corpos
nada a ver
a calma é sempre do tamanho das tuas mãos
atiro o medo em flechas
para dentro dos teus olhos
e quando falas e cantas
ressoam-me os ossos
já não sei não saber o som do teu nome
queria viver assim
mas paira aqui um ar de flamingo em bicos de pés numa pata sobre bola de bowling
então vendo os olhos
cinco escudos
e sigo sem me importar se há chão
as pedras da calçada são gelo quando há frio
e fervem ao sol
qualquer coisa não há-de perder-se nunca respiro tudo
folgambafu
O dragão foi morto pelo príncipe.
A menina chora ao lado do seu dragão assassinado.
O príncipe parte em busca
de novas meninas.
O dragão que voava e rugia e lançava chamas
criador dos poemas e da música
das labaredas do amor e do combate
foi morto.
A menina era apaixonada pelo dragão.
O dragão era também a menina.
A menina odiou
quando o príncipe chegou.
O príncipe decidiu chegar de repente
e pôr-se a matar dragões.
E a transformar meninas em princesas.
A menina não queria ser princesa.
Queria ser dragão.
O dragão não tinha querer.
Vivia até que foi morto.
Já não há dragões para nada.
O dragão expeliu a menina pela boca
transfigurou a língua em príncipe
e com roupa de príncipe partiu em busca
de novas meninas.
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