Daí para aqui
a força vai e vem e engrossa na viagem
os pós da tua luta aí chegam cá
e vou-te mandando sons daqui
A luz chega mais rápido
mas os sons amadurecem enquanto vibram no ar
De cá para aí
daí para aqui
se passeio e sorrio a tanta gente e troco as notícias por outras
faço um mundo mais redondo
pontilhado cada vez mais de formas cada vez mais diversas
arrisco pedir-te uma arte que ainda não provaste
arrisco provocar-te e tu
arriscas provocar-me
Com o que há aí
e eu faço com o que há aqui e mudo tudo mais uma vez
aqui sem acento nem frio
aqui com sol e pedras da calçada
aí com outros cafés e outros sapatos
aí contigo e mais quem te dá força e mãos
Puxamos muito o cotovelo para trás e para cima
e lançamo-nos uns para os outros e
tocamo-nos e misturamo-nos
Não saberei fazer nada aqui sem ouvir esse grito
já em eco
e sei então que também precisas de remessas do meu formigueiro
Que outra forma haveria de viver
e mudar os gestos?
Diana das origens
perseguida por faisões
faisões que coaxam e incham
e batem as asas
estalam as asas
Diana a trotar
à procura do arco
à procura do cio da terra
Cacilheiro, Joana, autocarro, laranja, Alcântara-pai, Paço de Arcos, Richard, tamanho, Parede, ginecologista, S. Pedro, casas, avós, prima, tios, S. João, avó Arlete, casa, cheiro, criança, linha, som, criança, S. Pedro de Moel, relâmpagos, acampar, mar, Porto Covo
Mulheres que param e sorriem
fogem
das zonas agitadas
de famílias e adolescentes
olham-no e ao horizonte
e sorriem
Vale sempre a pena vir ver o mar. Nunca desilude. É sublime. Embriaga-nos. Despe-nos as angústias com as ondas-garra. Puxa como um ancinho. Oferece-nos maresia ao mesmo tempo, para garantir que não dói. O mar tem sempre segredos com as pessoas. Com cada uma. E nunca conta nada a ninguém.
Quero dedicar-te metade do meu tempo, mar. Vir aos sítios em que és mais como eu te vejo. E na outra metade serei archeira, também - mas nos pinhais. Abriu a época de estivar ânimos.
E nesses bancos respirarei. Os avós, os amigos, os amores, as casas, as viagens, os cheiros, os sons, as memórias com objectos, as contra-regras, os contrários, a exody, as linhas, a linha do horizonte, a linha que não é uma linha, ou então imaginar de repente que vivemos num prato e um grande gigante nos pode comer a qualquer momento.
Poder beber o sumo todo antes da comida. Deitar fora o leite e aquelas roupas. Ter coragem. Disto e daquilo. Perceber que a Inês anda comigo. Lembrar da coluna. Dar ar ao tórax.
Viva o youtube, que tem vídeos sobre os peixes voadores. E agradeço ao café ter pão do rijo, e só levar uma salsicha. O mundo parece belo, de repente. Vamo-nos esquecer da mentira. Um bocadinho. Outra rapariga sorri ao ver o mar. E tira fotos aos avós iguais às da minha avó. Aqui vive-se diferente, parece.
Chegaram agora as gaivotas de prancha. São negras em contraluz. Não tenho horas. As horas dos outros são muitos cães e crianças. Não me dão inveja. Ainda sou, ou já, a mulher que sorri quando chega ao mar.
E depois havia tudo o resto, ainda mais intratável. Os dois fenómenos mágicos. O anoitecer e o amanhecer. Que carradas de coisas. Não dava para explicar.
E então era só trocar os horários. Combinar outras coisas com o tempo. Mas o mais difícil, era mudar o ritmo da respiração. E aquilo da coluna.
Da feiura não tenho medo. Mas o belo dá força.
erros teus, péssima fortuna, amor confuso
todos os dias os mortos matutam
e enquanto muda a vida, a vida muda
mas
todos os lugares se conjuraram
lembrando-se dela de repente
enquanto o dia, minha perdição, desata aos gritos
o tempo troça dos recomeços
e o ar abafado prevê verões difíceis
desabafar assim não vale a pena - quase nada:
sonho ardido, astros desesperados...
não não não não não não NÃO
o destino rasga-se de gente
(resistir agora é crime aqui ao lado)
e a raiva ali mesmo ama
ao passo que a saliva salta
se é livre canta
(...)
quem me dera
o mar mais simples
com belas ondas
e música
a morte derrotada por ippon
outra vez amanhã
outra vez até ao fim
Quando eu ia a tua casa
e me sentia em tua casa
e isso do cheiro que disseste
envolvendo tudo uma calma enorme
grande
contente
os sorrisos e os risos que disseste
nada a ver os nossos corpos
nada a ver
a calma é sempre do tamanho das tuas mãos
atiro o medo em flechas
para dentro dos teus olhos
e quando falas e cantas
ressoam-me os ossos
já não sei não saber o som do teu nome
queria viver assim
mas paira aqui um ar de flamingo em bicos de pés numa pata sobre bola de bowling
então vendo os olhos
cinco escudos
e sigo sem me importar se há chão
as pedras da calçada são gelo quando há frio
e fervem ao sol
qualquer coisa não há-de perder-se nunca respiro tudo
O dragão foi morto pelo príncipe.
A menina chora ao lado do seu dragão assassinado.
O príncipe parte em busca
de novas meninas.
O dragão que voava e rugia e lançava chamas
criador dos poemas e da música
das labaredas do amor e do combate
foi morto.
A menina era apaixonada pelo dragão.
O dragão era também a menina.
A menina odiou
quando o príncipe chegou.
O príncipe decidiu chegar de repente
e pôr-se a matar dragões.
E a transformar meninas em princesas.
A menina não queria ser princesa.
Queria ser dragão.
O dragão não tinha querer.
Vivia até que foi morto.
Já não há dragões para nada.
O dragão expeliu a menina pela boca
transfigurou a língua em príncipe
e com roupa de príncipe partiu em busca
de novas meninas.
Programa que passou na noite de 24 de Abril de 2012 na Zona Franca (Bartô, Lisboa), com locução de Diana Dionísio.
A primeira parte é um conjunto de sugestões de músicas-de-sair-prá-rua, escolhidas por várias pessoas: Antonino Solmer, Daniela Gama, Diana Póvoas, João Rodrigues, Marta Raposo, Miguel Castro Caldas, Pedro Rodrigues, Pedro Soares, Regina Guimarães, Smith, Susana Baeta e Youri Paiva.
A segunda parte (que começa aos 1:01:17) é dedicada ao projecto es.col.a da Fontinha, então desalojado, entretanto reocupado no dia seguinte (25 de Abril), e novamente despejado.
Sai prá rua!
:: Os volumes não estão nivelados :: Em breve haverá uma nova versão com os volumes mais iguais uns aos outros ::
Já não dá para aguentar à beira do abismo a temer a recear que agora mesmo haja um sismo fartos de viver sobreviver a suspirar não de alívio ou de encanto mas de pranto de estar ao canto de falar esperanto para paredes de querer falar e não ter voz de ter pernas que não correm parecer que mesmo a lutar os sonhos morrem não querer pensar um minuto sem pensar um minuto um minuto mas eu não posso não pensar não dizer para dentro para fora o que me revolta o que agonia que dá azia porque se tu andas a foder tudo como se não houvesse amanhã eu ando a masturbar-me como se não houvesse amanhã a tentar inventar prazer na vida viver uma vida vivida que não seja só trabalho e comida que seja transformada que tenha palavra cantada pintada subversiva e divergente palavras de gente que se pintem às cores com pincéis dos mais gordos no meio das ruas no meio das vidas nos prédios nos correios nas entradas e saídas que tem que haver que temos de pintar e escancarar pr' acontecer já não dá para acreditar que não há nada a fazer
tu deixa-me fazer esta linha melo-melódica por mim
tu deixa-me
inventar os meus trinados
seguir em frente ou para o lado e bater
com as teclas na corda
com a cabeça nas paredes
deixa-me ranger
agora sou eu
e não tens de me ouvir
ninguém tem de me ouvir
só tenho de tocar de tocar de me tocar tocar
nas coisas na lama nas rugas feias
dos poços malcheirosos
nos gritos escuros dos estrangulados nos canais
da miséria dos polícias do desespero
da não-solução
da prisão do entulho da faca com sumo de limão
peixe a rolar sobre si próprio
a morder anzóis sem os olhar bem
este peixe no torvelinho
feio a ganir
legume d'água a escarnar
tragédia de cabelos de cobras a gritar-se ao espelho
camisa de forças de cordelinhos desatados
ventos
guinadas
dilúvios
alhos e vinagres
e depois talvez silêncio talvez
ou a orquestra toda a voltar a juntar-se
ó ilusão
sol só já não se sabe se há estações aqui sol e maravilha no mundo de guerras árvores belas bem desenhadas luz que doura gato que curte corpo cheio de prazer nada e tudo por fazer cigarro é desnecessário e néctar é crime e está feito como tudo o que matamos o necessário é estar só e ter domingos de páscoa com baterias carregadas de força para podermos estar longe como achamos que queremos
quando as árvores estiverem cansadas
não cansadas de viver
mas cansadas do sítio em que vivem
vão querer voar
e encerrar o sítio
mas os sítios são como as coisas e as pessoas
têm muitos lados, arestas, sabores
e há locus a menos nos sítios
e não se deixa assim um sítio
que já se quis tanto
e construiu
saem então com laivos de fúria
e ares de teatro nas folhas dos cabelos
agitando os ramos
fingindo arrancar umas raízes
e voam
e deixam a porta entreaberta
tudo sem olhar para trás
e deixam a porta entreaberta
voltar para trás tantas vezes
enquanto ainda está quente
as castanhas sabem bem quando cozidas
quando assadas com manteiga
se tiverem erva-doce
No passado dia 25 de Fevereiro, houve um jogo de palavras musical na sede dos Precários Inflexíveis (Lisboa): Ontem Tornei-me uma Viúva Alegre. Dessa noite de música escolhida pelos djs Patáááu!, Ihihih..., Woohoo! e Grrrr..., e a partir das palavras que foram sendo afixadas na parede, nasceram estas frases (clica nas imagens para ficarem maiores):
La vertu principale dont nous avons besoin est le courage. Cela n'est pas universellement le cas: dans d'autres circonstances, d'autres vertus peuvent être requises de façon prioritaire. Ainsi à l'époque de la guerre révolutionnaire en Chine, c'est la patience qui a été promue par Mao comme vertu cardinale. Mais aujourd'hui, c'est incontestablement le courage. Le courage est la vertu qui se manifeste, sans égard pour les lois du monde, par l'endurance de l'impossible. Il s'agit de tenir le point impossible sans avoir à rendre compte de l'ensemble de la situation : le courage, en tant qu'il s'agit de traiter le point comme tel, est une vertu locale. Il relève d'une morale du lieu, avec pour horizon la lente réinstallation de l'hypothèse communiste. (Alain Badiou, "Le courage du présent", Le Monde, 15 Février 2010)
(em inglês) The main virtue which we are in need of is courage. This is not the case universally: in other circumstances, other virtues may be required as a priority. Thus, at the time of the revolutionary war in China, Mao promoted patience as a cardinal virtue. But nowadays it is courage. Courage is the virtue that manifests itself, regardless of the laws of the world, through the endurance of the impossible. The thing to do is to maintain the impossible point without accounting for the situation as a whole: courage, inasmuch as it is a question of treating the point as such, is a local virtue. It arises from a local morality, and its horizon is the slow reinstallation of the communist hypothesis. (Alain Badiou, “The Courage of the Present” is an article from Le Monde, February 15/2010)
Agitatevi perché avremo bisogno di tutto il vostro coraggio. Organizzatevi perché avremo bisogno di tutta la vostra forza. Studiate perché avremo bisogno di tutta la vostra intelligenza. (Antonio Gramsci)
O ciclope só tinha um olho ou tinha três? Eu acho que só um.
Havia ainda que falar sobre os amblíopes, os cegos, os estrábicos, os míopes...
Mas ficamo-nos pelo Argos Panoptes.
Porque quando tu te ris, ris-te toda. E acho isso tão belo. Porque eu já não sou assim. Sou cínica, amarga, céptica, ácida, crua, fria, dura, azeda, desalentada, sarcástica e corroo. Destilo ódio ou desilusão.
Nos panelões da tinta vermelho-escura de carne viva me mergulharam. Voltei à superfície da terra ainda pingante e fumegante e com a goela aberta em grito de münch.
Bateram-me as carnes com o martelo de ferro das cozinhas sobre tábua de madeira, outras vezes.
E tu pareces saber de tudo isso que há no mundo e mesmo assim continuas a saber resplandecer. E olhas para as coisas nos olhos das coisas. Eu já não foco.
A tinta de carne viva é agora crosta e a carne viva é agora fóssil. O que ainda vive em mim está muito mais para dentro. E inatingível. Já não posso falar com a minha carne viva. Nem tu.
Ela tinha umas botas azuis e enterrou-as na areia, e uns jeans azuis feitos com areia. Tinha uma caneta que escrevia a azul e uma camisola castanha.
Não pensava porque o cansaço do trabalho e dos prazeres não deixavam capacidades para o pensamento. E não sabia o que escrever porque não pensava.
Fumava porque tinha vontade de ocupar a boca. Falar exigia muito esforço do corpo: desde o cérebro encontrar palavras até à ginástica da língua e dos maxilares.
Estava na praia porque precisava do som das ondas e do cheiro. E porque naquele Fevereiro faziam mais de dez graus. A praia era ao pé de Lisboa. Lisboa tinha-se esquecido de que era uma praia, uma praia fluvial. Então tinha de se fugir de Lisboa.
Os cães e as bolas iam circulando à sua volta e ela não queria que se metessem com ela. As bolas porque rolavam muito e eram incontroláveis. Os cães por causa da baba e do ladrar que furava os tímpanos.
Os namorados namoravam de amor verdadeiro e ela não tinha inveja. Parecia-lhe muito bem que isso existisse no mundo. Nem conseguia perceber que não houvesse amor numa praia. Sorria porque as pessoas tinham escolhido a areia em vez das montras do centro comercial.
O vento arrepiava e, embora o sol acariciasse, ela pensava em voltar para a esplanada.
Na esplanada havia sumos e computadores e as pessoas falavam mais baixo do que na areia, quando falavam. A areia era muito mais simpática mas ela não sabia permitir-se um prazer por muito tempo. Arranjava na ideia impaciências de coisas por tratar. Mas não pensava.
Cuscava os namorados que tinham uma relação a três. Ele, ela e a máquina fotográfica. Corriam, saltavam muitas vezes um para cima do outro, riam-se e gritavam. Tinham corpos mais ou menos soltos. O mais solto possível dentro dos corpos que já traziam do mundo da cidade.
Não trabalhar era uma liberdade.
Por que não havia toda a gente de trabalhar só três horas por dia? Acabava o desemprego e a seriedade cinzenta. E quem sabe o que nasceria a mais no mundo depois disso... Ninguém se ia arrepender. Só os poderosos e endinheirados de hoje.
Só ia continuar na areia se lhe desse para fazer a roda ou o pino. Mas não ia fazer.
Também não tinha um ele e uma máquina fotográfica para fixar todos os beijos. Nem uma bola ou um cão.
Quando o vento parava, agarrar na areia às mãos cheias era o maior dos prazeres. Depois o vento voltava, não muito convincente, e ela pensava voltar para a esplanada.
As horas do dia iam correr assim. Iam fugir assim. À noite as paredes e as caras voltavam a ser as mesmas. Talvez ela conseguisse recomeçar a pensar. Desenterrar o azul da areia, durante o beijo mais longo dos três.
Na esplanada as pessoas falavam mais baixo mas estavam mais perto. Também havia hamburgers com queijo e wireless. O vento sentia-se menos do que junto ao mar.
Ela pediu um café e pensou decorar o pires com maionese. Pensava nestas coisas e depois não as fazia.
Já as gaivotas roubavam tangerinas às pessoas e depois roubavam a tangerina umas às outras e toda a gente parava a olhar. E a rir.
Ó senhora gaivota, não me quer vir aqui ao pires, decorá-lo com maionese? Mas com cautela...
De repente as pessoas eram menos e as gaivotas eram mais. Ainda havia avós iguais às netas e muitos sobre rodas. A areia crescia e a luz descia. E ela passado um bocado também se ia embora.
A pensar: aquela família é um prato chinês.
Texto esquecido no café e respigado do lixo duas marginais depois.
Oiço bem a conversa Mas estou na outra ponta da sala Um deles diz que sim que mais também Sempre foi assim e assim há-de ser Talvez isso lhe baste Ela acha que as pessoas querem coisas erradas Fúteis E que só mudando a mentalidade Ai, estas máquinas, tinha de ser a escola... Outra, ao lado dela, nao acredita que as pessoas mudem Mas pensa possível haver progressos Através de leis que proíbam a maldade e defendam A bondade Há ainda dois Um calado parece olhar cínico a televisao Outra estrebuchando aponta para outros lados mas com fracas armas Levantando os braços Para tentar mostar que nao vem tudo de cima Entornando copos Nada de grave Entre risos e rissóis
Solidão Que poeira leve Solidão Olhe a casa é sua O telefo... E no meu descompasso O riso dela Na vida quem perdeu o telhado Em troca recebe as estrelas Pra rimar até se afogar E de SOluço em SOluço esperar O SOl que SObe na cama E acende o lenÇOl SÓ lhe chamando SOlicitando SOlidão Que poeira leve... Se ela nascesse rainha Se o mundo pudesse agüentar Os pobres ela pisaria E os ricos iria humilhar Milhares de guerras faria Pra se deleitar Por isto eu prefiro Chorar sozinho Solidão Que poeira leve Solidão Olhe a casa é sua O telefone tocou, foi engano Solidão Que poeira leve Solidão Olhe a casa é sua E no meu descompasso passo O riso dela
Adormecer nos teus braços
a cheirar-te os poros
a acertar as minhas batidas
com as tuas tão calmas
Poder adormecer segura e simples
com o meu irmão
sem incesto
sem complicação
só estar muito perto
estender o carinho
respirar fundo
dar descanso ao corpo e à cabeça
Respirar-te respirar-me
perder a consciência
perder o peso
sonhar à vontade
dormir
Sem amanhã
gozar o caminho
unir-me
ser nós
este bocadinho.
pouso os braços na mesa cansada de equilibrar a vassoura amanhã na rua se rirão não vão perceber nada mas eu farei de surda e atenta seguirei apenas a música e a batalha todos os dias até que a acção seja irmã do sonho tirem-me os feriados que eu descanso na mesma os braços na mesa e amanhã na rua...
Nascer, o vir à vida, a caminhada A alegria, a tristeza, o desengano É o que sentimos a cada passada De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói Há choros que esbarram em gargalhar De vez em quando a mágoa que corrói À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida Pesares abrem nalma uma ferida Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando Enquanto vive a vida caminhando Vero palhaço, ri o seu penar.
Gilson Nascimento
*
Acrobata da dor
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas daço. . .
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
João da Cruz e Sousa
*
Pelos Palcos da Vida
Fantasia de palhaço, sempre termina
Quando a luz do palco pisca
E a cortina de sonhos se abaixa.
Feito máscara derretida
Que confunde minha alma dourada
Com o gosto amargo do dia
E da lágrima que teima em cair.
Pelos palcos, pela vida,
Pelas suas bocas pintadas
Pela dor de um palhaço sem circo
Pelo mistério da mágica
Que sai de mim.
Por todos os palcos do mundo
Encenando a vida de forma errada
Por todos os cantos calados
Que explodiram de bocas fechadas
Ah, você... não saia de mim...
Fique comigo, doce querubim.
Se eu pudesse, lhe daria,
A magia e o sonho em que vivo
A alegria que eu não sabia
Que ainda existe em mim
Ah, eu lhe daria...
A amargura de ser só palhaço
A angústia de circo fechado
Para balanço de uma "doce vida"
A que existe em mim.
Luiza Albuquerque
*
Raimundo (Perfil de um cidadão comum)
Raimundo imundo perfil do mundo (aos olhos de quem se faz surdo) e não ouve do profundo os gritos soturnos de fé.
Raimundo imundo perfil do mundo mundo que se fez muro e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo te busca; no dia a dia dos vagabundos nos palhaços dos olhos escuros cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo e Raimundo é apenas o perfil imundo aos olhos de quem é surdo.
Mário Donizete Massari
*
Poema da Utopia
A noite caiu sem manchas e sem culpa. Os homens largaram as máscaras de bons actores. Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo E sonha coalhar de branco as sombras do mundo. Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios. Noite! Se o espectáculo findou Deixa-nos também dormir.
Fernando Namora
*
O Palhaço
Anda-se a rir, a rir dentro de mim, Com as lívidas faces desbotadas Um estranho palhaço de cetim, Rasgando em dor meu peito às gargalhadas! Sobe aos meus olhos sempre a rir assim - Espreitando as figuras malsinadas Que não se vestem nunca de arlequim, Mas andam pela vida disfarçadas.
Na sombra dos meus cílios, emboscado, Ri, no meu olhar frio e desolado, Escondendo-se atónito e surpreso
E quando desce à triste moradia, Vem mais louco e soberbo de ironia Na irrisão dum sarcástico desprezo!
Voltei a ver o nosso querido Cavaco
a declarar sobre as suas dificuldades
para pagar as suas despesas.
Aquele homem, aquele monstro,
que me aparece à frente desde que nasci, sem eu nunca ter pedido,
com aquela voz,
aquela deficiência na fala
(e de certeza que chegou a ter aulas de dicção entre os anos 80 e os 2010)...
Voltei a vê-lo a falar com os jornalistas,
a dizer coisas que nos chocam,
inventar que é igual a quem não tem dinheiro,
que está na mesma situação
que o moço que agora serve a gasolina em Santa Comba Dão
- ai, enganei-me! - em Boliqueime!
Mas vejamos com atenção
- e tentemos abstrair-nos um pouco
do Rio ao lado que quase não consegue conter o ataque de riso ao ouvir tamanhas mentiras
(ele, o principal aprendiz de mentiras e do descaramento) -
e percebemos
que o Cavaco queria era pôr a tónica sobre isto:
«eu poupei».
Eu poupei, tenho poupanças, vivi como o Salazar me ensinou.
Vocês estão na merda porque não souberam poupar.
Eu e a minha Maria sempre pusemos de lado,
as minhas escrivaninhas são povoadas de porcos mealheiros,
os meus aparadores, os meus psichés,
até a fonte que tenho no jardim lá tem um porco mealheiro sorridente.
Mas quem pode poupar?
Quem pode poupar é porque não anda a contar.
...com 36 anos... Mas não é o aniversário da morte que impressiona a menina pires, nem o facto de ela ter morrido tão nova. O que a impressiona é o modo de cantar da menina elis, sua irmã até na silhueta.
Aqui ela canta uma canção do Milton Nascimento. Nascimento, morte... vem mesmo a propósito, menina.
Para quem quer se soltar invento o cais Invento mais que a solidão me dá Invento lua nova a clarear Invento o amor e sei a dor de me lançar Eu queria ser feliz Invento o mar Invento em mim o sonhador Para quem quer me seguir eu quero mais Tenho o caminho do que sempre quis E um saveiro pronto pra partir Invento o cais E sei a vez de me lançar
No passado dia 7 de Janeiro, houve um cadáver esquisito musical na Zona Franca (Bartô, Lisboa): Os Três da Vida Airada. Dessa noite de música, dança e convívio nasceram vários cadáveres esquisitos. O Ladrões de Gado publicou os cadáveres esquisitos desenhados. A silhueta da menina Pires publica os cadáveres esquisitos escritos: