Quando eu ia a tua casa
e me sentia em tua casa
e isso do cheiro que disseste
envolvendo tudo uma calma enorme
grande
contente
os sorrisos e os risos que disseste
nada a ver os nossos corpos
nada a ver
a calma é sempre do tamanho das tuas mãos
atiro o medo em flechas
para dentro dos teus olhos
e quando falas e cantas
ressoam-me os ossos
já não sei não saber o som do teu nome
queria viver assim
mas paira aqui um ar de flamingo em bicos de pés numa pata sobre bola de bowling
então vendo os olhos
cinco escudos
e sigo sem me importar se há chão
as pedras da calçada são gelo quando há frio
e fervem ao sol
qualquer coisa não há-de perder-se nunca respiro tudo
terça-feira, 8 de maio de 2012
folgambafu
O dragão foi morto pelo príncipe.
A menina chora ao lado do seu dragão assassinado.
O príncipe parte em busca
de novas meninas.
O dragão que voava e rugia e lançava chamas
criador dos poemas e da música
das labaredas do amor e do combate
foi morto.
A menina era apaixonada pelo dragão.
O dragão era também a menina.
A menina odiou
quando o príncipe chegou.
O príncipe decidiu chegar de repente
e pôr-se a matar dragões.
E a transformar meninas em princesas.
A menina não queria ser princesa.
Queria ser dragão.
O dragão não tinha querer.
Vivia até que foi morto.
Já não há dragões para nada.
O dragão expeliu a menina pela boca
transfigurou a língua em príncipe
e com roupa de príncipe partiu em busca
de novas meninas.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Sai prá rua!
Programa que passou na noite de 24 de Abril de 2012 na Zona Franca (Bartô, Lisboa), com locução de Diana Dionísio.
A primeira parte é um conjunto de sugestões de músicas-de-sair-prá-rua, escolhidas por várias pessoas: Antonino Solmer, Daniela Gama, Diana Póvoas, João Rodrigues, Marta Raposo, Miguel Castro Caldas, Pedro Rodrigues, Pedro Soares, Regina Guimarães, Smith, Susana Baeta e Youri Paiva.
A segunda parte (que começa aos 1:01:17) é dedicada ao projecto es.col.a da Fontinha, então desalojado, entretanto reocupado no dia seguinte (25 de Abril), e novamente despejado.
Sai prá rua!
:: Os volumes não estão nivelados :: Em breve haverá uma nova versão com os volumes mais iguais uns aos outros ::
A primeira parte é um conjunto de sugestões de músicas-de-sair-prá-rua, escolhidas por várias pessoas: Antonino Solmer, Daniela Gama, Diana Póvoas, João Rodrigues, Marta Raposo, Miguel Castro Caldas, Pedro Rodrigues, Pedro Soares, Regina Guimarães, Smith, Susana Baeta e Youri Paiva.
A segunda parte (que começa aos 1:01:17) é dedicada ao projecto es.col.a da Fontinha, então desalojado, entretanto reocupado no dia seguinte (25 de Abril), e novamente despejado.
Sai prá rua!
:: Os volumes não estão nivelados :: Em breve haverá uma nova versão com os volumes mais iguais uns aos outros ::
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Já não dá
Já não dá para aguentar
à beira do abismo
a temer a recear
que agora mesmo haja um sismo
fartos de viver
sobreviver a suspirar
não de alívio ou de encanto mas de pranto
de estar ao canto
de falar esperanto para paredes
de querer falar e não ter voz
de ter pernas que não correm
parecer que mesmo a lutar os sonhos morrem
não querer pensar
um minuto sem pensar
um minuto um minuto
mas eu não posso não pensar
não dizer
para dentro para fora
o que me revolta
o que agonia
que dá azia
porque se tu andas a foder tudo
como se não houvesse amanhã
eu ando a masturbar-me
como se não houvesse amanhã
a tentar inventar prazer na vida
viver uma vida vivida
que não seja só trabalho e comida
que seja transformada
que tenha palavra cantada
pintada
subversiva e divergente
palavras de gente
que se pintem às cores
com pincéis dos mais gordos
no meio das ruas no meio das vidas
nos prédios nos correios
nas entradas e saídas
que tem que haver
que temos de pintar e escancarar pr' acontecer
já não dá para acreditar
que não há nada a fazer
à beira do abismo
a temer a recear
que agora mesmo haja um sismo
fartos de viver
sobreviver a suspirar
não de alívio ou de encanto mas de pranto
de estar ao canto
de falar esperanto para paredes
de querer falar e não ter voz
de ter pernas que não correm
parecer que mesmo a lutar os sonhos morrem
não querer pensar
um minuto sem pensar
um minuto um minuto
mas eu não posso não pensar
não dizer
para dentro para fora
o que me revolta
o que agonia
que dá azia
porque se tu andas a foder tudo
como se não houvesse amanhã
eu ando a masturbar-me
como se não houvesse amanhã
a tentar inventar prazer na vida
viver uma vida vivida
que não seja só trabalho e comida
que seja transformada
que tenha palavra cantada
pintada
subversiva e divergente
palavras de gente
que se pintem às cores
com pincéis dos mais gordos
no meio das ruas no meio das vidas
nos prédios nos correios
nas entradas e saídas
que tem que haver
que temos de pintar e escancarar pr' acontecer
já não dá para acreditar
que não há nada a fazer
sexta-feira, 13 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Solo
tu deixa-me fazer esta linha melo-melódica por mim
tu deixa-me
inventar os meus trinados
seguir em frente ou para o lado e bater
com as teclas na corda
com a cabeça nas paredes
deixa-me ranger
agora sou eu
e não tens de me ouvir
ninguém tem de me ouvir
só tenho de tocar de tocar de me tocar tocar
nas coisas na lama nas rugas feias
dos poços malcheirosos
nos gritos escuros dos estrangulados nos canais
da miséria dos polícias do desespero
da não-solução
da prisão do entulho da faca com sumo de limão
peixe a rolar sobre si próprio
a morder anzóis sem os olhar bem
este peixe no torvelinho
feio a ganir
legume d'água a escarnar
tragédia de cabelos de cobras a gritar-se ao espelho
camisa de forças de cordelinhos desatados
ventos
guinadas
dilúvios
alhos e vinagres
e depois talvez silêncio talvez
ou a orquestra toda a voltar a juntar-se
ó ilusão
tu deixa-me
inventar os meus trinados
seguir em frente ou para o lado e bater
com as teclas na corda
com a cabeça nas paredes
deixa-me ranger
agora sou eu
e não tens de me ouvir
ninguém tem de me ouvir
só tenho de tocar de tocar de me tocar tocar
nas coisas na lama nas rugas feias
dos poços malcheirosos
nos gritos escuros dos estrangulados nos canais
da miséria dos polícias do desespero
da não-solução
da prisão do entulho da faca com sumo de limão
peixe a rolar sobre si próprio
a morder anzóis sem os olhar bem
este peixe no torvelinho
feio a ganir
legume d'água a escarnar
tragédia de cabelos de cobras a gritar-se ao espelho
camisa de forças de cordelinhos desatados
ventos
guinadas
dilúvios
alhos e vinagres
e depois talvez silêncio talvez
ou a orquestra toda a voltar a juntar-se
ó ilusão
domingo, 8 de abril de 2012
Sol
sol só já não se sabe se há estações
aqui sol e maravilha no mundo de guerras
árvores belas bem desenhadas
luz que doura gato que curte
corpo cheio de prazer
nada e tudo por fazer
cigarro é desnecessário e néctar
é crime e está feito como tudo o que matamos
o necessário é estar só e ter domingos de páscoa
com baterias carregadas de força
para podermos estar longe como
achamos que queremos
aqui sol e maravilha no mundo de guerras
árvores belas bem desenhadas
luz que doura gato que curte
corpo cheio de prazer
nada e tudo por fazer
cigarro é desnecessário e néctar
é crime e está feito como tudo o que matamos
o necessário é estar só e ter domingos de páscoa
com baterias carregadas de força
para podermos estar longe como
achamos que queremos
sábado, 7 de abril de 2012
Só
Ninguém pode comigo
nem o meu gato, nem o meu amigo
Ninguém já suporta
nem que eu esteja aqui, nem que eu esteja à porta
Se não és louca
não finjas que és
e usa d'etiqueta da cabeça aos pés
modos e trejeitos
de estar acompanhado
ritos e normas
d'animal bem educado
Sonho
com suicídios e prisões
nem o meu gato, nem o meu amigo
Ninguém já suporta
nem que eu esteja aqui, nem que eu esteja à porta
Se não és louca
não finjas que és
e usa d'etiqueta da cabeça aos pés
modos e trejeitos
de estar acompanhado
ritos e normas
d'animal bem educado
Sonho
com suicídios e prisões
quinta-feira, 5 de abril de 2012
úsculo
júpiter vénus
mercúrio vénus
terra
marte júpiter
saturno urano neptuno plutão
vénus é feita de espelhos
por isso brilha assim
júpiter grande longe
lua pequena perto
marte
vermelho
mercúrio vénus
terra
marte júpiter
saturno urano neptuno plutão
vénus é feita de espelhos
por isso brilha assim
júpiter grande longe
lua pequena perto
marte
vermelho
quarta-feira, 21 de março de 2012
outras
quando as árvores estiverem cansadas
não cansadas de viver
mas cansadas do sítio em que vivem
vão querer voar
e encerrar o sítio
mas os sítios são como as coisas e as pessoas
têm muitos lados, arestas, sabores
e há locus a menos nos sítios
e não se deixa assim um sítio
que já se quis tanto
e construiu
saem então com laivos de fúria
e ares de teatro nas folhas dos cabelos
agitando os ramos
fingindo arrancar umas raízes
e voam
e deixam a porta entreaberta
tudo sem olhar para trás
e deixam a porta entreaberta
voltar para trás tantas vezes
enquanto ainda está quente
as castanhas sabem bem quando cozidas
quando assadas com manteiga
se tiverem erva-doce
não cansadas de viver
mas cansadas do sítio em que vivem
vão querer voar
e encerrar o sítio
mas os sítios são como as coisas e as pessoas
têm muitos lados, arestas, sabores
e há locus a menos nos sítios
e não se deixa assim um sítio
que já se quis tanto
e construiu
saem então com laivos de fúria
e ares de teatro nas folhas dos cabelos
agitando os ramos
fingindo arrancar umas raízes
e voam
e deixam a porta entreaberta
tudo sem olhar para trás
e deixam a porta entreaberta
voltar para trás tantas vezes
enquanto ainda está quente
as castanhas sabem bem quando cozidas
quando assadas com manteiga
se tiverem erva-doce
inauguraçao
quando os homens forem árvores
e fizerem o pino mais vezes
as dúvidas vao-se dissipar
e vao entrar na máquina do tempo
com mil milhoes de ratos
quando os ratos voltarem aos buracos
nós vamos sair
encontraremos campos negros
para a mao semear com braços de árvore
e ramos de absinto
quando a guerra acabar
vou comprar uns calçoes para ir jogar com os meus amigos
ao jogo do quereres
e o conflito será livre
e saboroso
quando o aberto
estiver presente
as faltas
hao-de ser
vidas
quando o teu amor
mudar de nome
as liçoes vao ser de novo
inesperadas
e aquáticas
quando as mulheres puderem ser
o que tem medo de ser
e o objecto nao esmagar
a nossa mao inteira
entao tudo será mais de metade
quando a gente carregando os tronos
tirar os quatro pés ao mesmo tempo
os ratos vao devolver o queijo
e nao restam dúvidas
o que vai a gente inaugurar
e fizerem o pino mais vezes
as dúvidas vao-se dissipar
e vao entrar na máquina do tempo
com mil milhoes de ratos
quando os ratos voltarem aos buracos
nós vamos sair
encontraremos campos negros
para a mao semear com braços de árvore
e ramos de absinto
quando a guerra acabar
vou comprar uns calçoes para ir jogar com os meus amigos
ao jogo do quereres
e o conflito será livre
e saboroso
quando o aberto
estiver presente
as faltas
hao-de ser
vidas
quando o teu amor
mudar de nome
as liçoes vao ser de novo
inesperadas
e aquáticas
quando as mulheres puderem ser
o que tem medo de ser
e o objecto nao esmagar
a nossa mao inteira
entao tudo será mais de metade
quando a gente carregando os tronos
tirar os quatro pés ao mesmo tempo
os ratos vao devolver o queijo
e nao restam dúvidas
o que vai a gente inaugurar
o raio indeciso
os abrigos estao prontos
mas tao mal construídos
dentro deles a minhoca
cava a terra por nada
a sul duas varandas
com camisas
a norte estar sozinho
no cheiro da manada
para oeste uma viagem
impossível
a leste a revolta
amada enraivecida
na margem a vida
o raio indeciso
e no centro a comida
mas tao mal construídos
dentro deles a minhoca
cava a terra por nada
a sul duas varandas
com camisas
a norte estar sozinho
no cheiro da manada
para oeste uma viagem
impossível
a leste a revolta
amada enraivecida
na margem a vida
o raio indeciso
e no centro a comida
terça-feira, 20 de março de 2012
As frases escritas na noite d'Ontem Tornei-me uma Viúva Alegre
No passado dia 25 de Fevereiro, houve um jogo de palavras musical na sede dos Precários Inflexíveis (Lisboa): Ontem Tornei-me uma Viúva Alegre. Dessa noite de música escolhida pelos djs Patáááu!, Ihihih..., Woohoo! e Grrrr..., e a partir das palavras que foram sendo afixadas na parede, nasceram estas frases (clica nas imagens para ficarem maiores):
segunda-feira, 19 de março de 2012
coraggio?
sentada
a azedar
a amargura
fel ácida de cor escura
e a enterrar
já esbracejei o que podia
a pedir urga e carne viva
já os ombros chiam
cala-te boca
agora cerro-te
com chave de parafusos
fel ácida de cor escura
e a enterrar
já esbracejei o que podia
a pedir urga e carne viva
já os ombros chiam
cala-te boca
agora cerro-te
com chave de parafusos
pantera adormecida
(...)
É toda a força contida
e evidente sem disfarce,
o salto que há-de formar-se
da pantera adormecida.
(...)
(António Gedeão, versos do poema "Foguete de lágrimas, de "Teatro do mundo", 1958)
É toda a força contida
e evidente sem disfarce,
o salto que há-de formar-se
da pantera adormecida.
(...)
(António Gedeão, versos do poema "Foguete de lágrimas, de "Teatro do mundo", 1958)
domingo, 11 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
soneta
outro soneta é rapidamente
como quem põe a cinza na garrafa
com acentos porque a máquina safa
e a lua só cheia é que não mente
já não vejo os desenhos animados
no dia de manha às 7 e meia
passou o tempo de dormir na teia
agora tens de decidir os fados
querem sempre ver ali no escuro luz
querem sempre ver ali na luz a amada
querem ter o mundo menos confuso
querem agir sozinhos catrapuz
querem dizer da guerra uma almofada
querem que a vida inútil tenha uso
como quem põe a cinza na garrafa
com acentos porque a máquina safa
e a lua só cheia é que não mente
já não vejo os desenhos animados
no dia de manha às 7 e meia
passou o tempo de dormir na teia
agora tens de decidir os fados
querem sempre ver ali no escuro luz
querem sempre ver ali na luz a amada
querem ter o mundo menos confuso
querem agir sozinhos catrapuz
querem dizer da guerra uma almofada
querem que a vida inútil tenha uso
quinta-feira, 8 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
coragem 4
invocada em vão deuses a coragem
que faz da liberdade os impossíveis
quotidianamente irascíveis
é como o burro dia-a-dia na linguagem
assim tu na revolta vais dobrando
agitando urgentes campaínhas
mas para quem cozinha nas cozinhas
não se ouve nem o bule suspirando
será então questão de responder
perserverantes na refrega endiabrada
ao lobo que aí vem e não desiste
mas não se trata do culto do sofrer
nem dos galões da valentia desvairada
talvez seja só não estar assim tão triste
que faz da liberdade os impossíveis
quotidianamente irascíveis
é como o burro dia-a-dia na linguagem
assim tu na revolta vais dobrando
agitando urgentes campaínhas
mas para quem cozinha nas cozinhas
não se ouve nem o bule suspirando
será então questão de responder
perserverantes na refrega endiabrada
ao lobo que aí vem e não desiste
mas não se trata do culto do sofrer
nem dos galões da valentia desvairada
talvez seja só não estar assim tão triste
coragem 2 - l'endurance de l'impossible (para debate)
La vertu principale dont nous avons besoin est le courage. Cela n'est pas universellement le cas: dans d'autres circonstances, d'autres vertus peuvent être requises de façon prioritaire. Ainsi à l'époque de la guerre révolutionnaire en Chine, c'est la patience qui a été promue par Mao comme vertu cardinale. Mais aujourd'hui, c'est incontestablement le courage. Le courage est la vertu qui se manifeste, sans égard pour les lois du monde, par l'endurance de l'impossible. Il s'agit de tenir le point impossible sans avoir à rendre compte de l'ensemble de la situation : le courage, en tant qu'il s'agit de traiter le point comme tel, est une vertu locale. Il relève d'une morale du lieu, avec pour horizon la lente réinstallation de l'hypothèse communiste.
(Alain Badiou, "Le courage du présent", Le Monde, 15 Février 2010)

(em inglês)
The main virtue which we are in need of is courage. This is not the case universally: in other circumstances, other virtues may be required as a priority. Thus, at the time of the revolutionary war in China, Mao promoted patience as a cardinal virtue. But nowadays it is courage. Courage is the virtue that manifests itself, regardless of the laws of the world, through the endurance of the impossible. The thing to do is to maintain the impossible point without accounting for the situation as a whole: courage, inasmuch as it is a question of treating the point as such, is a local virtue. It arises from a local morality, and its horizon is the slow reinstallation of the communist hypothesis.
(Alain Badiou, “The Courage of the Present” is an article from Le Monde, February 15/2010)
(Alain Badiou, "Le courage du présent", Le Monde, 15 Février 2010)

(em inglês)
The main virtue which we are in need of is courage. This is not the case universally: in other circumstances, other virtues may be required as a priority. Thus, at the time of the revolutionary war in China, Mao promoted patience as a cardinal virtue. But nowadays it is courage. Courage is the virtue that manifests itself, regardless of the laws of the world, through the endurance of the impossible. The thing to do is to maintain the impossible point without accounting for the situation as a whole: courage, inasmuch as it is a question of treating the point as such, is a local virtue. It arises from a local morality, and its horizon is the slow reinstallation of the communist hypothesis.
(Alain Badiou, “The Courage of the Present” is an article from Le Monde, February 15/2010)
coraggio (coragem)
quinta-feira, 1 de março de 2012
100 olhos
O ciclope só tinha um olho ou tinha três? Eu acho que só um.
Havia ainda que falar sobre os amblíopes, os cegos, os estrábicos, os míopes...
Mas ficamo-nos pelo Argos Panoptes.
Havia ainda que falar sobre os amblíopes, os cegos, os estrábicos, os míopes...
Mas ficamo-nos pelo Argos Panoptes.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
(prossegue o debate)
civilização é só saber as maneiras...
...ter cultura - mas isso tem-se?
não é ser sábio, é ser livre
...ter cultura - mas isso tem-se?
não é ser sábio, é ser livre
o centro do mundo
Esta manhã tão fria
Tem aqueles camiões de fumo
A sair da cidade
E eu respiro nevoeiro
Os escritores antigos sabiam
Alguns sabiam
Que pesa toneladas a leveza
Os matemáticos antigos sabiam
Que a dúzia é múltiplo de dois, três e quatro
E isso continua a saber-se
No autocarro
No metro
No chão
E debaixo
Que não é exacta a área do círculo
Porque dá muitas voltas o mundo o mundo
Sabem que todos os dias
É como ir para a escola
Mas quem aprende o quê?
Aprender tudo, escolhendo
Copérnico primeiro
Pois o mundo o mundo
o mundo não é o centro
Tem aqueles camiões de fumo
A sair da cidade
E eu respiro nevoeiro
Os escritores antigos sabiam
Alguns sabiam
Que pesa toneladas a leveza
Os matemáticos antigos sabiam
Que a dúzia é múltiplo de dois, três e quatro
E isso continua a saber-se
No autocarro
No metro
No chão
E debaixo
Que não é exacta a área do círculo
Porque dá muitas voltas o mundo o mundo
Sabem que todos os dias
É como ir para a escola
Mas quem aprende o quê?
Aprender tudo, escolhendo
Copérnico primeiro
Pois o mundo o mundo
o mundo não é o centro
Fala da voz da Roby
Porque quando tu te ris, ris-te toda. E acho isso tão belo. Porque eu já não sou assim. Sou cínica, amarga, céptica, ácida, crua, fria, dura, azeda, desalentada, sarcástica e corroo. Destilo ódio ou desilusão.
Nos panelões da tinta vermelho-escura de carne viva me mergulharam. Voltei à superfície da terra ainda pingante e fumegante e com a goela aberta em grito de münch.
Bateram-me as carnes com o martelo de ferro das cozinhas sobre tábua de madeira, outras vezes.
E tu pareces saber de tudo isso que há no mundo e mesmo assim continuas a saber resplandecer. E olhas para as coisas nos olhos das coisas. Eu já não foco.
A tinta de carne viva é agora crosta e a carne viva é agora fóssil. O que ainda vive em mim está muito mais para dentro. E inatingível. Já não posso falar com a minha carne viva. Nem tu.
Nos panelões da tinta vermelho-escura de carne viva me mergulharam. Voltei à superfície da terra ainda pingante e fumegante e com a goela aberta em grito de münch.
Bateram-me as carnes com o martelo de ferro das cozinhas sobre tábua de madeira, outras vezes.
E tu pareces saber de tudo isso que há no mundo e mesmo assim continuas a saber resplandecer. E olhas para as coisas nos olhos das coisas. Eu já não foco.
A tinta de carne viva é agora crosta e a carne viva é agora fóssil. O que ainda vive em mim está muito mais para dentro. E inatingível. Já não posso falar com a minha carne viva. Nem tu.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Feriado
Ela tinha umas botas azuis e enterrou-as na areia, e uns jeans azuis feitos com areia. Tinha uma caneta que escrevia a azul e uma camisola castanha.
Não pensava porque o cansaço do trabalho e dos prazeres não deixavam capacidades para o pensamento. E não sabia o que escrever porque não pensava.
Fumava porque tinha vontade de ocupar a boca. Falar exigia muito esforço do corpo: desde o cérebro encontrar palavras até à ginástica da língua e dos maxilares.
Estava na praia porque precisava do som das ondas e do cheiro. E porque naquele Fevereiro faziam mais de dez graus. A praia era ao pé de Lisboa. Lisboa tinha-se esquecido de que era uma praia, uma praia fluvial. Então tinha de se fugir de Lisboa.
Os cães e as bolas iam circulando à sua volta e ela não queria que se metessem com ela. As bolas porque rolavam muito e eram incontroláveis. Os cães por causa da baba e do ladrar que furava os tímpanos.
Os namorados namoravam de amor verdadeiro e ela não tinha inveja. Parecia-lhe muito bem que isso existisse no mundo. Nem conseguia perceber que não houvesse amor numa praia. Sorria porque as pessoas tinham escolhido a areia em vez das montras do centro comercial.
O vento arrepiava e, embora o sol acariciasse, ela pensava em voltar para a esplanada.
Na esplanada havia sumos e computadores e as pessoas falavam mais baixo do que na areia, quando falavam. A areia era muito mais simpática mas ela não sabia permitir-se um prazer por muito tempo. Arranjava na ideia impaciências de coisas por tratar. Mas não pensava.
Cuscava os namorados que tinham uma relação a três. Ele, ela e a máquina fotográfica. Corriam, saltavam muitas vezes um para cima do outro, riam-se e gritavam. Tinham corpos mais ou menos soltos. O mais solto possível dentro dos corpos que já traziam do mundo da cidade.
Não trabalhar era uma liberdade.
Por que não havia toda a gente de trabalhar só três horas por dia? Acabava o desemprego e a seriedade cinzenta. E quem sabe o que nasceria a mais no mundo depois disso... Ninguém se ia arrepender. Só os poderosos e endinheirados de hoje.
Só ia continuar na areia se lhe desse para fazer a roda ou o pino. Mas não ia fazer.
Também não tinha um ele e uma máquina fotográfica para fixar todos os beijos. Nem uma bola ou um cão.
Quando o vento parava, agarrar na areia às mãos cheias era o maior dos prazeres. Depois o vento voltava, não muito convincente, e ela pensava voltar para a esplanada.
As horas do dia iam correr assim. Iam fugir assim. À noite as paredes e as caras voltavam a ser as mesmas. Talvez ela conseguisse recomeçar a pensar. Desenterrar o azul da areia, durante o beijo mais longo dos três.
Na esplanada as pessoas falavam mais baixo mas estavam mais perto. Também havia hamburgers com queijo e wireless. O vento sentia-se menos do que junto ao mar.
Ela pediu um café e pensou decorar o pires com maionese. Pensava nestas coisas e depois não as fazia.
Já as gaivotas roubavam tangerinas às pessoas e depois roubavam a tangerina umas às outras e toda a gente parava a olhar. E a rir.
Ó senhora gaivota, não me quer vir aqui ao pires, decorá-lo com maionese? Mas com cautela...
De repente as pessoas eram menos e as gaivotas eram mais. Ainda havia avós iguais às netas e muitos sobre rodas. A areia crescia e a luz descia. E ela passado um bocado também se ia embora.
A pensar: aquela família é um prato chinês.
Texto esquecido no café e respigado do lixo duas marginais depois.
Não pensava porque o cansaço do trabalho e dos prazeres não deixavam capacidades para o pensamento. E não sabia o que escrever porque não pensava.
Fumava porque tinha vontade de ocupar a boca. Falar exigia muito esforço do corpo: desde o cérebro encontrar palavras até à ginástica da língua e dos maxilares.
Estava na praia porque precisava do som das ondas e do cheiro. E porque naquele Fevereiro faziam mais de dez graus. A praia era ao pé de Lisboa. Lisboa tinha-se esquecido de que era uma praia, uma praia fluvial. Então tinha de se fugir de Lisboa.
Os cães e as bolas iam circulando à sua volta e ela não queria que se metessem com ela. As bolas porque rolavam muito e eram incontroláveis. Os cães por causa da baba e do ladrar que furava os tímpanos.
Os namorados namoravam de amor verdadeiro e ela não tinha inveja. Parecia-lhe muito bem que isso existisse no mundo. Nem conseguia perceber que não houvesse amor numa praia. Sorria porque as pessoas tinham escolhido a areia em vez das montras do centro comercial.
O vento arrepiava e, embora o sol acariciasse, ela pensava em voltar para a esplanada.
Na esplanada havia sumos e computadores e as pessoas falavam mais baixo do que na areia, quando falavam. A areia era muito mais simpática mas ela não sabia permitir-se um prazer por muito tempo. Arranjava na ideia impaciências de coisas por tratar. Mas não pensava.
Cuscava os namorados que tinham uma relação a três. Ele, ela e a máquina fotográfica. Corriam, saltavam muitas vezes um para cima do outro, riam-se e gritavam. Tinham corpos mais ou menos soltos. O mais solto possível dentro dos corpos que já traziam do mundo da cidade.
Não trabalhar era uma liberdade.
Por que não havia toda a gente de trabalhar só três horas por dia? Acabava o desemprego e a seriedade cinzenta. E quem sabe o que nasceria a mais no mundo depois disso... Ninguém se ia arrepender. Só os poderosos e endinheirados de hoje.
Só ia continuar na areia se lhe desse para fazer a roda ou o pino. Mas não ia fazer.
Também não tinha um ele e uma máquina fotográfica para fixar todos os beijos. Nem uma bola ou um cão.
Quando o vento parava, agarrar na areia às mãos cheias era o maior dos prazeres. Depois o vento voltava, não muito convincente, e ela pensava voltar para a esplanada.
As horas do dia iam correr assim. Iam fugir assim. À noite as paredes e as caras voltavam a ser as mesmas. Talvez ela conseguisse recomeçar a pensar. Desenterrar o azul da areia, durante o beijo mais longo dos três.
Na esplanada as pessoas falavam mais baixo mas estavam mais perto. Também havia hamburgers com queijo e wireless. O vento sentia-se menos do que junto ao mar.
Ela pediu um café e pensou decorar o pires com maionese. Pensava nestas coisas e depois não as fazia.
Já as gaivotas roubavam tangerinas às pessoas e depois roubavam a tangerina umas às outras e toda a gente parava a olhar. E a rir.
Ó senhora gaivota, não me quer vir aqui ao pires, decorá-lo com maionese? Mas com cautela...
De repente as pessoas eram menos e as gaivotas eram mais. Ainda havia avós iguais às netas e muitos sobre rodas. A areia crescia e a luz descia. E ela passado um bocado também se ia embora.
A pensar: aquela família é um prato chinês.
Texto esquecido no café e respigado do lixo duas marginais depois.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
sim, dá

volta-se atrás
e encontram-se papéis no lixo
sujos com manchas
não dá para lavar
anda-se para a frente
e encontram-se sonhos
pintalgados de cores
não dá para apagar
olha-se para o lado
e encontram-se ruas
cheias de mentiras
não dá para varrer
olha-se para o outro lado
e encontram-se casas
com gente adormecida
não dá para acordar
ouve-se para dentro
e encontram-se dores de barriga
com fome de comida
sim dá para jantar
mas dessa sopa não
por favor
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
System

(fotografia de Tina Modotti)
"System", de Robert Louis Stevenson
Every night my prayers I say,
And get my dinner every day;
And every day that I've been good,
I get an orange after food.
The child that is not clean and neat,
With lots of toys and things to eat,
He is a naughty child, I'm sure--
Or else his dear papa is poor.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
oiço bem a conversa

Oiço bem a conversa
Mas estou na outra ponta da sala
Um deles diz que sim que mais também
Sempre foi assim e assim há-de ser
Talvez isso lhe baste
Ela acha que as pessoas querem coisas erradas
Fúteis
E que só mudando a mentalidade
Ai, estas máquinas, tinha de ser a escola...
Outra, ao lado dela, nao acredita que as pessoas mudem
Mas pensa possível haver progressos
Através de leis que proíbam a maldade e defendam
A bondade
Há ainda dois
Um calado parece olhar cínico a televisao
Outra estrebuchando aponta para outros lados mas com fracas armas
Levantando os braços
Para tentar mostar que nao vem tudo de cima
Entornando copos
Nada de grave
Entre risos e rissóis
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Que poeira leve... (ainda uma última solidão)
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefo...
E no meu descompasso
O riso dela
Na vida quem perdeu o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de SOluço em SOluço esperar
O SOl que SObe na cama
E acende o lenÇOl
SÓ lhe chamando
SOlicitando
SOlidão
Que poeira leve...
Se ela nascesse rainha
Se o mundo pudesse agüentar
Os pobres ela pisaria
E os ricos iria humilhar
Milhares de guerras faria
Pra se deleitar
Por isto eu prefiro
Chorar sozinho
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefone tocou, foi engano
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
E no meu descompasso
passo
O riso dela
I'm so alone
domingo, 29 de janeiro de 2012
respirar fundo
Adormecer nos teus braços
a cheirar-te os poros
a acertar as minhas batidas
com as tuas tão calmas
Poder adormecer segura e simples
com o meu irmão
sem incesto
sem complicação
só estar muito perto
estender o carinho
respirar fundo
dar descanso ao corpo e à cabeça
Respirar-te respirar-me
perder a consciência
perder o peso
sonhar à vontade
dormir
Sem amanhã
gozar o caminho
unir-me
ser nós
este bocadinho.
a cheirar-te os poros
a acertar as minhas batidas
com as tuas tão calmas
Poder adormecer segura e simples
com o meu irmão
sem incesto
sem complicação
só estar muito perto
estender o carinho
respirar fundo
dar descanso ao corpo e à cabeça
Respirar-te respirar-me
perder a consciência
perder o peso
sonhar à vontade
dormir
Sem amanhã
gozar o caminho
unir-me
ser nós
este bocadinho.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
mas à noite havia disto, apetecia só dormir
eram duas torres
era tudo grande
eram ligadas a meio nos vários andares
havia escadas, elevadores
e amigos em toda a parte porque era a minha festa de anos
ou os meus dias eram todos assim
com amigos em todos os cantos
de todos os lados
a visitarem-me
em festa
sem trabalho
e eu podia estar contigo deitada na relva do topo das torres
e na relva da base das torres
e tudo era possível
e tudo sabia bem
havia bolos que apareciam não sei de que cozinhas
e os materiais das torres não tinham nada a ver comigo
espelhos, mármores, linhas rectilíneas
mas era a minha casa
e toda a gente se sentia bem em minha casa
os braços na mesa
pouso os braços na mesa
cansada de equilibrar a vassoura
amanhã na rua se rirão
não vão perceber nada
mas eu farei de surda e atenta
seguirei apenas a música
e a batalha todos os dias
até que a acção seja irmã do sonho
tirem-me os feriados
que eu descanso na mesma
os braços na mesa
e amanhã na rua...
cansada de equilibrar a vassoura
amanhã na rua se rirão
não vão perceber nada
mas eu farei de surda e atenta
seguirei apenas a música
e a batalha todos os dias
até que a acção seja irmã do sonho
tirem-me os feriados
que eu descanso na mesma
os braços na mesa
e amanhã na rua...
aqui estou eu, o vosso palhaço, usem-me até eu rebentar
Vero palhaço
Nascer, o vir à vida, a caminhada
A alegria, a tristeza, o desengano
É o que sentimos a cada passada
De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói
Há choros que esbarram em gargalhar
De vez em quando a mágoa que corrói
À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida
Pesares abrem nalma uma ferida
Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando
Enquanto vive a vida caminhando
Vero palhaço, ri o seu penar.
Gilson Nascimento
*
Acrobata da dor
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas daço. . .
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
João da Cruz e Sousa
*
Pelos Palcos da Vida
Fantasia de palhaço, sempre termina
Quando a luz do palco pisca
E a cortina de sonhos se abaixa.
Feito máscara derretida
Que confunde minha alma dourada
Com o gosto amargo do dia
E da lágrima que teima em cair.
Pelos palcos, pela vida,
Pelas suas bocas pintadas
Pela dor de um palhaço sem circo
Pelo mistério da mágica
Que sai de mim.
Por todos os palcos do mundo
Encenando a vida de forma errada
Por todos os cantos calados
Que explodiram de bocas fechadas
Ah, você... não saia de mim...
Fique comigo, doce querubim.
Se eu pudesse, lhe daria,
A magia e o sonho em que vivo
A alegria que eu não sabia
Que ainda existe em mim
Ah, eu lhe daria...
A amargura de ser só palhaço
A angústia de circo fechado
Para balanço de uma "doce vida"
A que existe em mim.
Luiza Albuquerque
*
Raimundo
(Perfil de um cidadão comum)
Raimundo
imundo perfil do mundo
(aos olhos de quem se faz surdo)
e não ouve do profundo os gritos
soturnos de fé.
Raimundo
imundo perfil do mundo
mundo que se fez muro
e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo
te busca; no dia a dia
dos vagabundos
nos palhaços dos olhos
escuros
cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo
e Raimundo é apenas o perfil imundo
aos olhos de quem é surdo.
Mário Donizete Massari
*
Poema da Utopia
A noite
caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.
Fernando Namora
*
O Palhaço
Anda-se a rir, a rir dentro de mim,
Com as lívidas faces desbotadas
Um estranho palhaço de cetim,
Rasgando em dor meu peito às gargalhadas!
Sobe aos meus olhos sempre a rir assim -
Espreitando as figuras malsinadas
Que não se vestem nunca de arlequim,
Mas andam pela vida disfarçadas.
Na sombra dos meus cílios, emboscado,
Ri, no meu olhar frio e desolado,
Escondendo-se atónito e surpreso
E quando desce à triste moradia,
Vem mais louco e soberbo de ironia
Na irrisão dum sarcástico desprezo!
Judith Teixeira
*
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Quem pode poupar?
Voltei a ver o nosso querido Cavaco
a declarar sobre as suas dificuldades
para pagar as suas despesas.
Aquele homem, aquele monstro,
que me aparece à frente desde que nasci, sem eu nunca ter pedido,
com aquela voz,
aquela deficiência na fala
(e de certeza que chegou a ter aulas de dicção entre os anos 80 e os 2010)...
Voltei a vê-lo a falar com os jornalistas,
a dizer coisas que nos chocam,
inventar que é igual a quem não tem dinheiro,
que está na mesma situação
que o moço que agora serve a gasolina em Santa Comba Dão
- ai, enganei-me! - em Boliqueime!
Mas vejamos com atenção
- e tentemos abstrair-nos um pouco
do Rio ao lado que quase não consegue conter o ataque de riso ao ouvir tamanhas mentiras
(ele, o principal aprendiz de mentiras e do descaramento) -
e percebemos
que o Cavaco queria era pôr a tónica sobre isto:
«eu poupei».
Eu poupei, tenho poupanças, vivi como o Salazar me ensinou.
Vocês estão na merda porque não souberam poupar.
Eu e a minha Maria sempre pusemos de lado,
as minhas escrivaninhas são povoadas de porcos mealheiros,
os meus aparadores, os meus psichés,
até a fonte que tenho no jardim lá tem um porco mealheiro sorridente.
Mas quem pode poupar?
Quem pode poupar é porque não anda a contar.
Vai mas é comer bolo-rei, ó bacalhau seco.
a declarar sobre as suas dificuldades
para pagar as suas despesas.
Aquele homem, aquele monstro,
que me aparece à frente desde que nasci, sem eu nunca ter pedido,
com aquela voz,
aquela deficiência na fala
(e de certeza que chegou a ter aulas de dicção entre os anos 80 e os 2010)...
Voltei a vê-lo a falar com os jornalistas,
a dizer coisas que nos chocam,
inventar que é igual a quem não tem dinheiro,
que está na mesma situação
que o moço que agora serve a gasolina em Santa Comba Dão
- ai, enganei-me! - em Boliqueime!
Mas vejamos com atenção
- e tentemos abstrair-nos um pouco
do Rio ao lado que quase não consegue conter o ataque de riso ao ouvir tamanhas mentiras
(ele, o principal aprendiz de mentiras e do descaramento) -
e percebemos
que o Cavaco queria era pôr a tónica sobre isto:
«eu poupei».
Eu poupei, tenho poupanças, vivi como o Salazar me ensinou.
Vocês estão na merda porque não souberam poupar.
Eu e a minha Maria sempre pusemos de lado,
as minhas escrivaninhas são povoadas de porcos mealheiros,
os meus aparadores, os meus psichés,
até a fonte que tenho no jardim lá tem um porco mealheiro sorridente.
Mas quem pode poupar?
Quem pode poupar é porque não anda a contar.
Vai mas é comer bolo-rei, ó bacalhau seco.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Elis Regina morreu há trinta anos
...com 36 anos...
Mas não é o aniversário da morte que impressiona a menina pires, nem o facto de ela ter morrido tão nova.
O que a impressiona é o modo de cantar da menina elis, sua irmã até na silhueta.
Aqui ela canta uma canção do Milton Nascimento.
Nascimento, morte... vem mesmo a propósito, menina.
Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar
Mas não é o aniversário da morte que impressiona a menina pires, nem o facto de ela ter morrido tão nova.
O que a impressiona é o modo de cantar da menina elis, sua irmã até na silhueta.
Aqui ela canta uma canção do Milton Nascimento.
Nascimento, morte... vem mesmo a propósito, menina.
Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Da cozinha e das suas ferramentas
Bezerra da Silva - Garfo no bolso
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Os cadáveres-esquisitos escritos da noite d'Os Três da Vida Airada
No passado dia 7 de Janeiro, houve um cadáver esquisito musical na Zona Franca (Bartô, Lisboa): Os Três da Vida Airada. Dessa noite de música, dança e convívio nasceram vários cadáveres esquisitos. O Ladrões de Gado publicou os cadáveres esquisitos desenhados. A silhueta da menina Pires publica os cadáveres esquisitos escritos:
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
a nomeada
a silhueta da menina pires nomeada nos Blogs do Ano 2011 do Aventar, na secção Livros / Literatura / Poesia.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Dom Pilhas e Sardanisca na orla de um cantinho à beira mar plantado
. Eles estão a chegar para virem connosco pilhar o grande capital!
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Challenge:
Create an image out of a word, using only the letters in the word itself. Rule: Use only the graphic elements of the letters without adding outsid...
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
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