terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

o centro do mundo

Esta manhã tão fria
Tem aqueles camiões de fumo
A sair da cidade
E eu respiro nevoeiro

Os escritores antigos sabiam
Alguns sabiam
Que pesa toneladas a leveza

Os matemáticos antigos sabiam
Que a dúzia é múltiplo de dois, três e quatro
E isso continua a saber-se

No autocarro
No metro
No chão
E debaixo

Que não é exacta a área do círculo
Porque dá muitas voltas o mundo o mundo

Sabem que todos os dias
É como ir para a escola
Mas quem aprende o quê?

Aprender tudo, escolhendo
Copérnico primeiro
Pois o mundo o mundo
o mundo não é o centro

Fala da voz da Roby

Porque quando tu te ris, ris-te toda. E acho isso tão belo. Porque eu já não sou assim. Sou cínica, amarga, céptica, ácida, crua, fria, dura, azeda, desalentada, sarcástica e corroo. Destilo ódio ou desilusão.
Nos panelões da tinta vermelho-escura de carne viva me mergulharam. Voltei à superfície da terra ainda pingante e fumegante e com a goela aberta em grito de münch.
Bateram-me as carnes com o martelo de ferro das cozinhas sobre tábua de madeira, outras vezes.
E tu pareces saber de tudo isso que há no mundo e mesmo assim continuas a saber resplandecer. E olhas para as coisas nos olhos das coisas. Eu já não foco.
A tinta de carne viva é agora crosta e a carne viva é agora fóssil. O que ainda vive em mim está muito mais para dentro. E inatingível. Já não posso falar com a minha carne viva. Nem tu.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Feriado

Ela tinha umas botas azuis e enterrou-as na areia, e uns jeans azuis feitos com areia. Tinha uma caneta que escrevia a azul e uma camisola castanha.
Não pensava porque o cansaço do trabalho e dos prazeres não deixavam capacidades para o pensamento. E não sabia o que escrever porque não pensava.
Fumava porque tinha vontade de ocupar a boca. Falar exigia muito esforço do corpo: desde o cérebro encontrar palavras até à ginástica da língua e dos maxilares.
Estava na praia porque precisava do som das ondas e do cheiro. E porque naquele Fevereiro faziam mais de dez graus. A praia era ao pé de Lisboa. Lisboa tinha-se esquecido de que era uma praia, uma praia fluvial. Então tinha de se fugir de Lisboa.
Os cães e as bolas iam circulando à sua volta e ela não queria que se metessem com ela. As bolas porque rolavam muito e eram incontroláveis. Os cães por causa da baba e do ladrar que furava os tímpanos.
Os namorados namoravam de amor verdadeiro e ela não tinha inveja. Parecia-lhe muito bem que isso existisse no mundo. Nem conseguia perceber que não houvesse amor numa praia. Sorria porque as pessoas tinham escolhido a areia em vez das montras do centro comercial.
O vento arrepiava e, embora o sol acariciasse, ela pensava em voltar para a esplanada.
Na esplanada havia sumos e computadores e as pessoas falavam mais baixo do que na areia, quando falavam. A areia era muito mais simpática mas ela não sabia permitir-se um prazer por muito tempo. Arranjava na ideia impaciências de coisas por tratar. Mas não pensava.
Cuscava os namorados que tinham uma relação a três. Ele, ela e a máquina fotográfica. Corriam, saltavam muitas vezes um para cima do outro, riam-se e gritavam. Tinham corpos mais ou menos soltos. O mais solto possível dentro dos corpos que já traziam do mundo da cidade.
Não trabalhar era uma liberdade.
Por que não havia toda a gente de trabalhar só três horas por dia? Acabava o desemprego e a seriedade cinzenta. E quem sabe o que nasceria a mais no mundo depois disso... Ninguém se ia arrepender. Só os poderosos e endinheirados de hoje.
Só ia continuar na areia se lhe desse para fazer a roda ou o pino. Mas não ia fazer.
Também não tinha um ele e uma máquina fotográfica para fixar todos os beijos. Nem uma bola ou um cão.
Quando o vento parava, agarrar na areia às mãos cheias era o maior dos prazeres. Depois o vento voltava, não muito convincente, e ela pensava voltar para a esplanada.
As horas do dia iam correr assim. Iam fugir assim. À noite as paredes e as caras voltavam a ser as mesmas. Talvez ela conseguisse recomeçar a pensar. Desenterrar o azul da areia, durante o beijo mais longo dos três.
Na esplanada as pessoas falavam mais baixo mas estavam mais perto. Também havia hamburgers com queijo e wireless. O vento sentia-se menos do que junto ao mar.
Ela pediu um café e pensou decorar o pires com maionese. Pensava nestas coisas e depois não as fazia.
Já as gaivotas roubavam tangerinas às pessoas e depois roubavam a tangerina umas às outras e toda a gente parava a olhar. E a rir.
Ó senhora gaivota, não me quer vir aqui ao pires, decorá-lo com maionese? Mas com cautela...
De repente as pessoas eram menos e as gaivotas eram mais. Ainda havia avós iguais às netas e muitos sobre rodas. A areia crescia e a luz descia. E ela passado um bocado também se ia embora.
A pensar: aquela família é um prato chinês.

Texto esquecido no café e respigado do lixo duas marginais depois.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

sim, dá


volta-se atrás
e encontram-se papéis no lixo
sujos com manchas

não dá para lavar

anda-se para a frente
e encontram-se sonhos
pintalgados de cores

não dá para apagar

olha-se para o lado
e encontram-se ruas
cheias de mentiras

não dá para varrer

olha-se para o outro lado
e encontram-se casas
com gente adormecida

não dá para acordar

ouve-se para dentro
e encontram-se dores de barriga
com fome de comida

sim dá para jantar

mas dessa sopa não
por favor

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

System


(fotografia de Tina Modotti)

"System", de Robert Louis Stevenson

Every night my prayers I say,
And get my dinner every day;
And every day that I've been good,
I get an orange after food.

The child that is not clean and neat,
With lots of toys and things to eat,
He is a naughty child, I'm sure--
Or else his dear papa is poor.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

oiço bem a conversa


Oiço bem a conversa
Mas estou na outra ponta da sala
Um deles diz que sim que mais também
Sempre foi assim e assim há-de ser
Talvez isso lhe baste
Ela acha que as pessoas querem coisas erradas
Fúteis
E que só mudando a mentalidade
Ai, estas máquinas, tinha de ser a escola...
Outra, ao lado dela, nao acredita que as pessoas mudem
Mas pensa possível haver progressos
Através de leis que proíbam a maldade e defendam
A bondade
Há ainda dois
Um calado parece olhar cínico a televisao
Outra estrebuchando aponta para outros lados mas com fracas armas
Levantando os braços
Para tentar mostar que nao vem tudo de cima
Entornando copos
Nada de grave
Entre risos e rissóis

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Que poeira leve... (ainda uma última solidão)



Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefo...
E no meu descompasso
O riso dela
Na vida quem perdeu o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de SOluço em SOluço esperar
O SOl que SObe na cama
E acende o lenÇOl
SÓ lhe chamando
SOlicitando
SOlidão
Que poeira leve...
Se ela nascesse rainha
Se o mundo pudesse agüentar
Os pobres ela pisaria
E os ricos iria humilhar
Milhares de guerras faria
Pra se deleitar
Por isto eu prefiro
Chorar sozinho
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefone tocou, foi engano
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
E no meu descompasso
passo
O riso dela

I'm so alone

i'm so alone 1



i'm so alone 2



i'm so alone 3



i'm so alone 4

 
i'm so alone 5



i'm so alone 6



i'm so alone 7

cuidado com os transgénicos

domingo, 29 de janeiro de 2012

respirar fundo

Adormecer nos teus braços
a cheirar-te os poros
a acertar as minhas batidas
com as tuas tão calmas
Poder adormecer segura e simples
com o meu irmão
sem incesto
sem complicação
só estar muito perto
estender o carinho
respirar fundo
dar descanso ao corpo e à cabeça
Respirar-te respirar-me
perder a consciência
perder o peso
sonhar à vontade
dormir
Sem amanhã
gozar o caminho
unir-me
ser nós
este bocadinho.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

mas à noite havia disto, apetecia só dormir

eram duas torres
era tudo grande
eram ligadas a meio nos vários andares
havia escadas, elevadores
e amigos em toda a parte porque era a minha festa de anos
ou os meus dias eram todos assim
com amigos em todos os cantos
de todos os lados
a visitarem-me
em festa
sem trabalho
e eu podia estar contigo deitada na relva do topo das torres
e na relva da base das torres
e tudo era possível
e tudo sabia bem
havia bolos que apareciam não sei de que cozinhas
e os materiais das torres não tinham nada a ver comigo
espelhos, mármores, linhas rectilíneas
mas era a minha casa
e toda a gente se sentia bem em minha casa

As Torres da Cinciberlândia by Xutos & Pontapés on Grooveshark

os braços na mesa

pouso os braços na mesa
cansada de equilibrar a vassoura
amanhã na rua se rirão
não vão perceber nada
mas eu farei de surda e atenta
seguirei apenas a música
e a batalha todos os dias
até que a acção seja irmã do sonho
tirem-me os feriados
que eu descanso na mesma
os braços na mesa
e amanhã na rua...

aqui estou eu, o vosso palhaço, usem-me até eu rebentar


Vero palhaço

Nascer, o vir à vida, a caminhada
A alegria, a tristeza, o desengano
É o que sentimos a cada passada
De uma a outra etapa, ano após ano

Mal o riso se fecha o peito dói
Há choros que esbarram em gargalhar
De vez em quando a mágoa que corrói
À porta da alegria vem chorar

De contrastes assim tece-se a vida
Pesares abrem nalma uma ferida
Há risos a fluir até no olhar

E o homem, ora rindo, ora chorando
Enquanto vive a vida caminhando
Vero palhaço, ri o seu penar.


Gilson Nascimento

*

Acrobata da dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas daço. . .

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

João da Cruz e Sousa

*

Pelos Palcos da Vida

Fantasia de palhaço, sempre termina
Quando a luz do palco pisca
E a cortina de sonhos se abaixa.
Feito máscara derretida
Que confunde minha alma dourada
Com o gosto amargo do dia
E da lágrima que teima em cair.

Pelos palcos, pela vida,
Pelas suas bocas pintadas
Pela dor de um palhaço sem circo
Pelo mistério da mágica
Que sai de mim.

Por todos os palcos do mundo
Encenando a vida de forma errada
Por todos os cantos calados
Que explodiram de bocas fechadas
Ah, você... não saia de mim...
Fique comigo, doce querubim.

Se eu pudesse, lhe daria,
A magia e o sonho em que vivo
A alegria que eu não sabia
Que ainda existe em mim
Ah, eu lhe daria...
A amargura de ser só palhaço
A angústia de circo fechado
Para balanço de uma "doce vida"
A que existe em mim.

Luiza Albuquerque

*

Raimundo
(Perfil de um cidadão comum)

Raimundo
imundo perfil do mundo
(aos olhos de quem se faz surdo)
e não ouve do profundo os gritos
soturnos de fé.

Raimundo
imundo perfil do mundo
mundo que se fez muro
e dividiu vários mundos.

Mundo, todo mundo
te busca; no dia a dia
dos vagabundos
nos palhaços dos olhos
escuros
cujo brilho já muito se perdeu.

Somos todos palhaços do mundo
e Raimundo é apenas o perfil imundo
aos olhos de quem é surdo.


Mário Donizete Massari

*

Poema da Utopia

A noite
caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.


Fernando Namora

*

O Palhaço

Anda-se a rir, a rir dentro de mim,
Com as lívidas faces desbotadas
Um estranho palhaço de cetim,
Rasgando em dor meu peito às gargalhadas!
Sobe aos meus olhos sempre a rir assim -
Espreitando as figuras malsinadas
Que não se vestem nunca de arlequim,
Mas andam pela vida disfarçadas.

Na sombra dos meus cílios, emboscado,
Ri, no meu olhar frio e desolado,
Escondendo-se atónito e surpreso

E quando desce à triste moradia,
Vem mais louco e soberbo de ironia
Na irrisão dum sarcástico desprezo!


Judith Teixeira

*

Canção dos Palhaços by Sérgio Godinho on Grooveshark

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Quem pode poupar?

Voltei a ver o nosso querido Cavaco
a declarar sobre as suas dificuldades
para pagar as suas despesas.
Aquele homem, aquele monstro,
que me aparece à frente desde que nasci, sem eu nunca ter pedido,
com aquela voz,
aquela deficiência na fala
(e de certeza que chegou a ter aulas de dicção entre os anos 80 e os 2010)...
Voltei a vê-lo a falar com os jornalistas,
a dizer coisas que nos chocam,
inventar que é igual a quem não tem dinheiro,
que está na mesma situação
que o moço que agora serve a gasolina em Santa Comba Dão
- ai, enganei-me! - em Boliqueime!
Mas vejamos com atenção
- e tentemos abstrair-nos um pouco
do Rio ao lado que quase não consegue conter o ataque de riso ao ouvir tamanhas mentiras
(ele, o principal aprendiz de mentiras e do descaramento) -
e percebemos
que o Cavaco queria era pôr a tónica sobre isto:
«eu poupei».
Eu poupei, tenho poupanças, vivi como o Salazar me ensinou.
Vocês estão na merda porque não souberam poupar.
Eu e a minha Maria sempre pusemos de lado,
as minhas escrivaninhas são povoadas de porcos mealheiros,
os meus aparadores, os meus psichés,
até a fonte que tenho no jardim lá tem um porco mealheiro sorridente.
Mas quem pode poupar?
Quem pode poupar é porque não anda a contar.

Vai mas é comer bolo-rei, ó bacalhau seco.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Elis Regina morreu há trinta anos

...com 36 anos...
Mas não é o aniversário da morte que impressiona a menina pires, nem o facto de ela ter morrido tão nova.
O que a impressiona é o modo de cantar da menina elis, sua irmã até na silhueta.

Aqui ela canta uma canção do Milton Nascimento.
Nascimento, morte... vem mesmo a propósito, menina.



Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Da cozinha e das suas ferramentas

Martha Rosler's - Semiotics of the kitchen

Hyaena Fierling Reich - Helena you're so domestic

Bezerra da Silva - Garfo no bolso

Frank Zappa - The dangerous kitchen

e a caminho dos sitiados reencontrei os clandestinos

Mais sobre os clandestinos: aqui e aqui.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

o João Aguardela morreu há três anos

e parece que foi ontem
aqui ficam uns soltos sitiados: Naufrágio by Sitiados on Grooveshark

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Os cadáveres-esquisitos escritos da noite d'Os Três da Vida Airada


No passado dia 7 de Janeiro, houve um cadáver esquisito musical na Zona Franca (Bartô, Lisboa): Os Três da Vida Airada. Dessa noite de música, dança e convívio nasceram vários cadáveres esquisitos. O Ladrões de Gado publicou os cadáveres esquisitos desenhados. A silhueta da menina Pires publica os cadáveres esquisitos escritos:






segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

a nomeada

a silhueta da menina pires nomeada nos Blogs do Ano 2011 do Aventar, na secção Livros / Literatura / Poesia.

Sou proactiva

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Dom Pilhas e Sardanisca na orla de um cantinho à beira mar plantado


. Eles estão a chegar para virem connosco pilhar o grande capital!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Challenge:

Create an image out of a word, using only the letters in the word itself. Rule: Use only the graphic elements of the letters without adding outsid...

a Natália de Andrade também não quis impante de voz

a Natália Andrade também não quis implante de voz

domingo, 1 de janeiro de 2012

tempo de (não) vida

as pessoas fecham
escurecem, ficam sem cor
retraem, secam,
endurecem
fazem que esquecem

as pessoas
aprendem a ser infelizes

sábado, 31 de dezembro de 2011

Magníficos monstros

Magníficos monstros
da rocha da matéria da terra
por homens feitos construídos
com a matemática do andaime a afiar
e uma trupe de escravos a aumentar

Os magníficos a quem se fala pede confia
de quem se roubam as vontades
a anima
os monstros que rugem ou calam
os monstros desumanos por nós inventados
que só troam que não falam
que bebem e comem mas não costuram

O som  dos magníficos monstros
o queixo a cair
por dentro por fora
nós ali
a querer sentir-nos minúsculos
e sem poder ser outra coisa
minúsculos

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

domingo, 25 de dezembro de 2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

úlcera

Acordo com cinquenta e tantos anos e não percebo o que é que ainda ando para aqui a fazer, para quê. Vivi tanto. Já sei do amor, do ódio, da raiva, da alegria, da injustiça, da organização, da violência, da mentira, da liberdade, da prisão. Descobri aos quinze anos, com ingenuidade e muitos erros, uma arte e um ofício. E a partir daí tantos outros. Porque quando se estuda um papel não estamos sozinhos mas já em diálogo. E para montar a cena é preciso inventar luzes e cenários e depois montá-los, e falar com o ginásio do bairro para pedir cadeiras. E quando tudo está montado é preciso pintar um cartaz e fazer cola e colá-lo. E ainda escrever textos para os outros a quem vamos mostrar tudo, a contar os caminhos por onde passámos e que fazem a exigência de isto ser feito. E mais as falhas, os pormenores, os imprevistos. Lidar com mais gente, saber as diferenças das relações de uns com outros. Berrar muito nas longas reuniões e nos pequenos passos do dia-a-dia e saber que isso não é ódio nem o fim do mundo. Berrar de morte com aqueles com quem dormimos e com quem acordamos. Quando veio o dia da revolução já tínhamos trinta anos e achámos primeiro que já éramos velhos para aquilo, que aquilo já não era para nós nem ia ser feito por nós. Mas afinal de contas éramos nós aquilo. Afinal os processos em curso chamam-nos, pedem-nos tantas coisas e tudo muda tanto que voltamos a vestir t-shirts que nos deixam as primeiras rugas a descoberto e é a isso que chamamos bonito. E voltamos a acampar pelas terras e a conhecer mais do mundo da província, onde falta fazer tanta coisa e as pessoas nos oferecem vinho de bom grado. E fazemos mais coisas que nunca. E continuamos a discutir de morte com quem dormimos e com quem inventamos o que há para fazer. Depois as coisas começam a andar para trás. Muitos querem o descanso e o conforto da vida normal das telenovelas da noite. É grande o ataque da normalidade e o poder de certos ganhos de alguns. Muitos desistem, tudo desiste, o mundo desistiu. E nós que aprendemos tanto, que transformámos e inventámos as maneiras de fazer as nossas coisas e ainda sonhamos com um mundo às avessas e não sabemos bem o que é sonhar nem dormir, continuamos a tentar fazer as nossas coisas mesmo assim. De maneiras que se tornam cada vez mais estranhas e difíceis, num mundo que já não parece passar pelas nossas mãos. De repente já não há tanta gente à volta. E se alguém prega um prego, e tantas vezes continuo a ser eu, o nome desse alguém tem de vir impresso em letras formatadas pela máquina e já não pintadas à mão com o traço torto dos pincéis gastos de andanças, e o papel tem de ser brilhante e já não papel manteiga ou almaço, e deve dizer: “especialista de pregar pregos CL70: nome próprio e apelido”. E se alguém chega para dar uma mãozinha, isso então chama-se “voluntariado”. Chamam-nos loucos a nós que continuamos a discutir nesta altura do campeonato, vermelhos, as palavras usadas pelo escritor X no poema Y, ou o plano inicial do filme tal, ou as teorias de um pensador do princípio do século passado comparadas com as larachas do opinion maker convidado para ir ao telejornal, ou a ideia disparatada ou incrível que alguém deu na reunião de terça-feira, ou a melhor maneira de montar a exposição e de pendurar o projector do canto. Chamam-nos loucos a nós que nem sabemos como começámos a discutir mas que passamos três horas nisso, levando a sério, demasiadamente a sério, toda e qualquer palavra dita por nós ou por um dos outros. Chamam-nos loucos, alcoólicos, utópicos, rezingões, pequeninos. E às vezes quando acordamos pensamos que já não somos deste mundo, que nada do que fazemos interessa, que já não temos forças, que agora sabia bem aprender com os outros que se reviram nas telenovelas da noite, aprender a descansar, a não ligar, a fechar os olhos, a fazer férias de dois meses nas Caraíbas deitados em redes. Vou deixar de pregar pregos, de escrever livros, de encenar espectáculos, de acartar com móveis, de pintar quadros, de editar panfletos, de mandar cartas, de falar com as pessoas do bairro, de cantar, de inventar, de colar cartazes e puxar cordas, de ter ideias para as reuniões. Vou deixar-me dormir, acordar, comer, ler o jornal uma vez por semana, dar beijos na testa daqueles com quem durmo. E passado um mês ou dois vou perceber o que restou: a camisa aos quadrados, a esferográfica preta na mala, as aguardentes depois do almoço e do jantar, os cigarros, a memória das datas e uma úlcera a nascer no estômago.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

¿dónde quedo yo?


Soy tu madre, soy tu hija, soy tu amante, soy la chica que limpia tu casa.
Soy la esclava de tu vida, soy la dulce y educada que siempre dice que sí.
Soy aquella a la que buscas cuando tienes un problema y quieres un abrazo.
Soy aquella a l...a que tocas por las noches cuando duerme aunque te diga que no.
Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú.
Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo?
soy aquella a la que mientes cuando quieres conservar tus privilegios,
soy aquella a la que silvas por la calle, a la que tratas como objeto sin cerebro o corazón.
Soy tu amiga y compañera a la que acosas en las fiestas de los centros liberados.
Soy aquella que te mira cuando bajas la cabeza si alguien te llama agresor.

Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú.
Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo?

Soy aquella a la que juzgas por quedar con sus amigas y formar un colectivo,
"colectivo de mujeres, ¡Qué carajo, vaya nazis!, ¿porqué no puedo entrar yo?"
Como un ente omnipresente crees tener razon en todo y hablas de lo que no sabes,
te escudas en tus misterios, tus secretos y tu cuerpo y andas con seguridad.

Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú.
Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo?

Y se te llena la boca hablando de mis derechos y de feminismo.
Te agarras a mi discurso, te lo aprendes, te lo quedas para hablar de tu opresión (pobrecito)
Seas hippy, libertario, lleves rastas, lleves cresta o si vives okupando
Seas terco o reformista que se cuelga la chapita, tengas un grupo de hombres o seas anarkopunk.

ME DA IGUAAAAAAL! piensa en lo que digo,
ME DA IGUAAAAAAAAL! No vayas de listo por la vida por favor...

domingo, 27 de novembro de 2011

FMI, Fátima, Futebol e Património Mundial Imaterial

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 22 de novembro de 2011

ocupar a net

temporariamente desocupada

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Elas


O texto, de Maria Velho da Costa, já tinha a sua silhueta aqui.

grevista e amarelo

grevista e amarelo
conversam animadamente
sobre o sistema
um diz que é injusto assim
outro diz que é injusto, e é mesmo assim
um diz que podemos pegar nisso
outro diz que podemos perder o emprego se pegarmos nisso
um diz que emprego já estamos a perder
outro diz que há muita coisa aí para fazer
um tem receio de que não chegue
outro tem medo de que seja demais
um acha que já vai tarde
outro acha que ainda é cedo
ambos 99% insatisfeitos com o capitalismo
enquanto um terceiro capitaliza a insatisfação
- juro
o caso é verídico
grevista e amarelo
distraem-se conversando no café
debatendo a greve
e nenhum deles trabalha
um não atende os clientes
outro nem sequer vai fazer o piquete de greve
e um pombo come os restos do pão no café

terça-feira, 8 de novembro de 2011

o último a dormir apaga a lua


[roubado do facebook de Cléo Guingo]

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Eles têm a faca e o queijo na mão...

e nós temos o garfo e a marmelada.



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

poema para o fragmento de vinte e três desenhos e um fragmento de MD

gostava de saber o título de ver a legenda
uma mulher a jogar futebol é um fragmento
com seu cabelo armado
que afinal ela nasceu foi para agradar ao homem
que afinal ela nasceu foi para estar em casa
para fazer montes de exercício físico mas às escondidas
não em espectáculo
que afinal ela também tem ginástica na escola
e também sabe chutar uma bola
mas o que ela tem é de ter o cabelo penteado
mas também tem o dever de ter um corpo são
mas ai dela que caia ao chão
que afinal ela nasceu foi para ser enfermeira
que afinal ela nasceu foi para ser secretária
que afinal ela nasceu foi para levar a cerveja aos espectadores
gostava de saber se é uma aula
porque finda a escola nunca mais toca numa bola
porque com trinta anos já vive em casa para sempre
porque andamos para aqui para que os homens brilhem
e o trabalho de sapa faz-se às escondidas
e o lixo e as retretes e os curativos e as secas
vão sempre ser feitos pelas bonecas
cem anos depois

poema para o desenho vinte e três de vinte e três desenhos e um fragmento de MD

alentejano o nariz de vinho vermelho
o vinho vermelho no nariz do alentejano
o barrete de ribatejano no alentejano
o capote alentejano no do barrete ribatejano
o cajado e o capote e o nariz vermelho
a gravata e as botas e os olhos pegados
tortos a ver só o vinho à frente
sem profundidade nem perspectiva
que as pessoas do campo e do alentejo
são tristes de vinho e têm pouco pra pensar
só na morte da bezerra branca de ontem
e nada de cooperativas que eu ainda sou miúdo
e ainda vivemos na ditadura e o povinho
ainda é alentejano de nariz de vinho
com barrete de ribatejano eh toiro
lá nos campos as pessoas são todas assim

poema para o desenho vinte e dois de vinte e três desenhos e um fragmento de MD

eu sei muito bem como são os holandeses
são uns senhores de socas que fumam cachimbo
enquanto tratam da terra com um ancinho
no livro do meu tio
os holandeses têm calças às riscas e gorros na cabeça
por causa do frio