Adormecer nos teus braços
a cheirar-te os poros
a acertar as minhas batidas
com as tuas tão calmas
Poder adormecer segura e simples
com o meu irmão
sem incesto
sem complicação
só estar muito perto
estender o carinho
respirar fundo
dar descanso ao corpo e à cabeça
Respirar-te respirar-me
perder a consciência
perder o peso
sonhar à vontade
dormir
Sem amanhã
gozar o caminho
unir-me
ser nós
este bocadinho.
pouso os braços na mesa cansada de equilibrar a vassoura amanhã na rua se rirão não vão perceber nada mas eu farei de surda e atenta seguirei apenas a música e a batalha todos os dias até que a acção seja irmã do sonho tirem-me os feriados que eu descanso na mesma os braços na mesa e amanhã na rua...
Nascer, o vir à vida, a caminhada A alegria, a tristeza, o desengano É o que sentimos a cada passada De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói Há choros que esbarram em gargalhar De vez em quando a mágoa que corrói À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida Pesares abrem nalma uma ferida Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando Enquanto vive a vida caminhando Vero palhaço, ri o seu penar.
Gilson Nascimento
*
Acrobata da dor
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas daço. . .
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
João da Cruz e Sousa
*
Pelos Palcos da Vida
Fantasia de palhaço, sempre termina
Quando a luz do palco pisca
E a cortina de sonhos se abaixa.
Feito máscara derretida
Que confunde minha alma dourada
Com o gosto amargo do dia
E da lágrima que teima em cair.
Pelos palcos, pela vida,
Pelas suas bocas pintadas
Pela dor de um palhaço sem circo
Pelo mistério da mágica
Que sai de mim.
Por todos os palcos do mundo
Encenando a vida de forma errada
Por todos os cantos calados
Que explodiram de bocas fechadas
Ah, você... não saia de mim...
Fique comigo, doce querubim.
Se eu pudesse, lhe daria,
A magia e o sonho em que vivo
A alegria que eu não sabia
Que ainda existe em mim
Ah, eu lhe daria...
A amargura de ser só palhaço
A angústia de circo fechado
Para balanço de uma "doce vida"
A que existe em mim.
Luiza Albuquerque
*
Raimundo (Perfil de um cidadão comum)
Raimundo imundo perfil do mundo (aos olhos de quem se faz surdo) e não ouve do profundo os gritos soturnos de fé.
Raimundo imundo perfil do mundo mundo que se fez muro e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo te busca; no dia a dia dos vagabundos nos palhaços dos olhos escuros cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo e Raimundo é apenas o perfil imundo aos olhos de quem é surdo.
Mário Donizete Massari
*
Poema da Utopia
A noite caiu sem manchas e sem culpa. Os homens largaram as máscaras de bons actores. Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo E sonha coalhar de branco as sombras do mundo. Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios. Noite! Se o espectáculo findou Deixa-nos também dormir.
Fernando Namora
*
O Palhaço
Anda-se a rir, a rir dentro de mim, Com as lívidas faces desbotadas Um estranho palhaço de cetim, Rasgando em dor meu peito às gargalhadas! Sobe aos meus olhos sempre a rir assim - Espreitando as figuras malsinadas Que não se vestem nunca de arlequim, Mas andam pela vida disfarçadas.
Na sombra dos meus cílios, emboscado, Ri, no meu olhar frio e desolado, Escondendo-se atónito e surpreso
E quando desce à triste moradia, Vem mais louco e soberbo de ironia Na irrisão dum sarcástico desprezo!
Voltei a ver o nosso querido Cavaco
a declarar sobre as suas dificuldades
para pagar as suas despesas.
Aquele homem, aquele monstro,
que me aparece à frente desde que nasci, sem eu nunca ter pedido,
com aquela voz,
aquela deficiência na fala
(e de certeza que chegou a ter aulas de dicção entre os anos 80 e os 2010)...
Voltei a vê-lo a falar com os jornalistas,
a dizer coisas que nos chocam,
inventar que é igual a quem não tem dinheiro,
que está na mesma situação
que o moço que agora serve a gasolina em Santa Comba Dão
- ai, enganei-me! - em Boliqueime!
Mas vejamos com atenção
- e tentemos abstrair-nos um pouco
do Rio ao lado que quase não consegue conter o ataque de riso ao ouvir tamanhas mentiras
(ele, o principal aprendiz de mentiras e do descaramento) -
e percebemos
que o Cavaco queria era pôr a tónica sobre isto:
«eu poupei».
Eu poupei, tenho poupanças, vivi como o Salazar me ensinou.
Vocês estão na merda porque não souberam poupar.
Eu e a minha Maria sempre pusemos de lado,
as minhas escrivaninhas são povoadas de porcos mealheiros,
os meus aparadores, os meus psichés,
até a fonte que tenho no jardim lá tem um porco mealheiro sorridente.
Mas quem pode poupar?
Quem pode poupar é porque não anda a contar.
...com 36 anos... Mas não é o aniversário da morte que impressiona a menina pires, nem o facto de ela ter morrido tão nova. O que a impressiona é o modo de cantar da menina elis, sua irmã até na silhueta.
Aqui ela canta uma canção do Milton Nascimento. Nascimento, morte... vem mesmo a propósito, menina.
Para quem quer se soltar invento o cais Invento mais que a solidão me dá Invento lua nova a clarear Invento o amor e sei a dor de me lançar Eu queria ser feliz Invento o mar Invento em mim o sonhador Para quem quer me seguir eu quero mais Tenho o caminho do que sempre quis E um saveiro pronto pra partir Invento o cais E sei a vez de me lançar
No passado dia 7 de Janeiro, houve um cadáver esquisito musical na Zona Franca (Bartô, Lisboa): Os Três da Vida Airada. Dessa noite de música, dança e convívio nasceram vários cadáveres esquisitos. O Ladrões de Gado publicou os cadáveres esquisitos desenhados. A silhueta da menina Pires publica os cadáveres esquisitos escritos:
Magníficos monstros da rocha da matéria da terra por homens feitos construídos com a matemática do andaime a afiar e uma trupe de escravos a aumentar
Os magníficos a quem se fala pede confia
de quem se roubam as vontades a anima os monstros que rugem ou calam os monstros desumanos por nós inventados que só troam que não falam que bebem e comem mas não costuram
O somdos magníficos
monstros
o queixo a cair por dentro por fora nós ali a querer sentir-nos minúsculos e sem poder ser outra coisa minúsculos
Acordo com cinquenta e tantos anos e não percebo o que é que ainda ando para aqui a fazer, para quê. Vivi tanto. Já sei do amor, do ódio, da raiva, da alegria, da injustiça, da organização, da violência, da mentira, da liberdade, da prisão. Descobri aos quinze anos, com ingenuidade e muitos erros, uma arte e um ofício. E a partir daí tantos outros. Porque quando se estuda um papel não estamos sozinhos mas já em diálogo. E para montar a cena é preciso inventar luzes e cenários e depois montá-los, e falar com o ginásio do bairro para pedir cadeiras. E quando tudo está montado é preciso pintar um cartaz e fazer cola e colá-lo. E ainda escrever textos para os outros a quem vamos mostrar tudo, a contar os caminhos por onde passámos e que fazem a exigência de isto ser feito. E mais as falhas, os pormenores, os imprevistos. Lidar com mais gente, saber as diferenças das relações de uns com outros. Berrar muito nas longas reuniões e nos pequenos passos do dia-a-dia e saber que isso não é ódio nem o fim do mundo. Berrar de morte com aqueles com quem dormimos e com quem acordamos. Quando veio o dia da revolução já tínhamos trinta anos e achámos primeiro que já éramos velhos para aquilo, que aquilo já não era para nós nem ia ser feito por nós. Mas afinal de contas éramos nós aquilo. Afinal os processos em curso chamam-nos, pedem-nos tantas coisas e tudo muda tanto que voltamos a vestir t-shirts que nos deixam as primeiras rugas a descoberto e é a isso que chamamos bonito. E voltamos a acampar pelas terras e a conhecer mais do mundo da província, onde falta fazer tanta coisa e as pessoas nos oferecem vinho de bom grado. E fazemos mais coisas que nunca. E continuamos a discutir de morte com quem dormimos e com quem inventamos o que há para fazer. Depois as coisas começam a andar para trás. Muitos querem o descanso e o conforto da vida normal das telenovelas da noite. É grande o ataque da normalidade e o poder de certos ganhos de alguns. Muitos desistem, tudo desiste, o mundo desistiu. E nós que aprendemos tanto, que transformámos e inventámos as maneiras de fazer as nossas coisas e ainda sonhamos com um mundo às avessas e não sabemos bem o que é sonhar nem dormir, continuamos a tentar fazer as nossas coisas mesmo assim. De maneiras que se tornam cada vez mais estranhas e difíceis, num mundo que já não parece passar pelas nossas mãos. De repente já não há tanta gente à volta. E se alguém prega um prego, e tantas vezes continuo a ser eu, o nome desse alguém tem de vir impresso em letras formatadas pela máquina e já não pintadas à mão com o traço torto dos pincéis gastos de andanças, e o papel tem de ser brilhante e já não papel manteiga ou almaço, e deve dizer: “especialista de pregar pregos CL70: nome próprio e apelido”. E se alguém chega para dar uma mãozinha, isso então chama-se “voluntariado”. Chamam-nos loucos a nós que continuamos a discutir nesta altura do campeonato, vermelhos, as palavras usadas pelo escritor X no poema Y, ou o plano inicial do filme tal, ou as teorias de um pensador do princípio do século passado comparadas com as larachas do opinion maker convidado para ir ao telejornal, ou a ideia disparatada ou incrível que alguém deu na reunião de terça-feira, ou a melhor maneira de montar a exposição e de pendurar o projector do canto. Chamam-nos loucos a nós que nem sabemos como começámos a discutir mas que passamos três horas nisso, levando a sério, demasiadamente a sério, toda e qualquer palavra dita por nós ou por um dos outros. Chamam-nos loucos, alcoólicos, utópicos, rezingões, pequeninos. E às vezes quando acordamos pensamos que já não somos deste mundo, que nada do que fazemos interessa, que já não temos forças, que agora sabia bem aprender com os outros que se reviram nas telenovelas da noite, aprender a descansar, a não ligar, a fechar os olhos, a fazer férias de dois meses nas Caraíbas deitados em redes. Vou deixar de pregar pregos, de escrever livros, de encenar espectáculos, de acartar com móveis, de pintar quadros, de editar panfletos, de mandar cartas, de falar com as pessoas do bairro, de cantar, de inventar, de colar cartazes e puxar cordas, de ter ideias para as reuniões. Vou deixar-me dormir, acordar, comer, ler o jornal uma vez por semana, dar beijos na testa daqueles com quem durmo. E passado um mês ou dois vou perceber o que restou: a camisa aos quadrados, a esferográfica preta na mala, as aguardentes depois do almoço e do jantar, os cigarros, a memória das datas e uma úlcera a nascer no estômago.
Soy tu madre, soy tu hija, soy tu amante, soy la chica que limpia tu casa.
Soy la esclava de tu vida, soy la dulce y educada que siempre dice que sí.
Soy aquella a la que buscas cuando tienes un problema y quieres un abrazo.
Soy aquella a l...a que tocas por las noches cuando duerme aunque te diga que no. Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú. Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo? soy aquella a la que mientes cuando quieres conservar tus privilegios, soy aquella a la que silvas por la calle, a la que tratas como objeto sin cerebro o corazón. Soy tu amiga y compañera a la que acosas en las fiestas de los centros liberados. Soy aquella que te mira cuando bajas la cabeza si alguien te llama agresor.
Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú. Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo?
Soy aquella a la que juzgas por quedar con sus amigas y formar un colectivo, "colectivo de mujeres, ¡Qué carajo, vaya nazis!, ¿porqué no puedo entrar yo?" Como un ente omnipresente crees tener razon en todo y hablas de lo que no sabes, te escudas en tus misterios, tus secretos y tu cuerpo y andas con seguridad.
Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú. Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo?
Y se te llena la boca hablando de mis derechos y de feminismo. Te agarras a mi discurso, te lo aprendes, te lo quedas para hablar de tu opresión (pobrecito) Seas hippy, libertario, lleves rastas, lleves cresta o si vives okupando Seas terco o reformista que se cuelga la chapita, tengas un grupo de hombres o seas anarkopunk.
ME DA IGUAAAAAAL! piensa en lo que digo, ME DA IGUAAAAAAAAL! No vayas de listo por la vida por favor...
grevista e amarelo conversam animadamente sobre o sistema um diz que é injusto assim outro diz que é injusto, e é mesmo assim um diz que podemos pegar nisso outro diz que podemos perder o emprego se pegarmos nisso um diz que emprego já estamos a perder outro diz que há muita coisa aí para fazer um tem receio de que não chegue outro tem medo de que seja demais um acha que já vai tarde outro acha que ainda é cedo ambos 99% insatisfeitos com o capitalismo enquanto um terceiro capitaliza a insatisfação - juro o caso é verídico grevista e amarelo distraem-se conversando no café debatendo a greve e nenhum deles trabalha um não atende os clientes outro nem sequer vai fazer o piquete de greve e um pombo come os restos do pão no café
gostava de saber o título de ver a legenda uma mulher a jogar futebol é um fragmento com seu cabelo armado que afinal ela nasceu foi para agradar ao homem que afinal ela nasceu foi para estar em casa para fazer montes de exercício físico mas às escondidas não em espectáculo que afinal ela também tem ginástica na escola e também sabe chutar uma bola mas o que ela tem é de ter o cabelo penteado mas também tem o dever de ter um corpo são mas ai dela que caia ao chão que afinal ela nasceu foi para ser enfermeira que afinal ela nasceu foi para ser secretária que afinal ela nasceu foi para levar a cerveja aos
espectadores gostava de saber se é uma aula porque finda a escola nunca mais toca numa bola porque com trinta anos já vive em casa para sempre porque andamos para aqui para que os homens brilhem e o trabalho de sapa faz-se às escondidas e o lixo e as retretes e os curativos e as secas vão sempre ser feitos pelas bonecas cem anos depois
alentejano o nariz de vinho vermelho o vinho vermelho no nariz do alentejano o barrete de ribatejano no alentejano o capote alentejano no do barrete ribatejano o cajado e o capote e o nariz vermelho a gravata e as botas e os olhos pegados tortos a ver só o vinho à frente sem profundidade nem perspectiva que as pessoas do campo e do alentejo são tristes de vinho e têm pouco pra pensar só na morte da bezerra branca de ontem e nada de cooperativas que eu ainda sou miúdo e ainda vivemos na ditadura e o povinho ainda é alentejano de nariz de vinho com barrete de ribatejano eh toiro lá nos campos as pessoas são todas assim
eu sei muito bem como são os holandeses são uns senhores de socas que fumam cachimbo enquanto tratam da terra com um ancinho no livro do meu tio os holandeses têm calças às riscas e gorros na cabeça por causa do frio
You are the one For me for me for me Formidable You are my love Very very very Véritable
Et je voudrais pouvoir un jour Enfin te le dire Te l'écrire Dans la langue de Shakespeare My daisy daisy daisy Désirable Je suis malheureux D'avoir si peu de mots à T'offrir en cadeau Darling I Love you love you Darling I want you Et puis c'est à peu près tout
You are the one For me for me for me Formidable
You are the one For me for me for me Formidable But how can you See me see me see me Si minable
Je ferais mieux d'aller choisir Mon vocabulaire Pour te plaire Dans la langue de Molière Toi Tes eyes ton nose tes lips adorables Tu n'as pas compris Tant pis Ne t'en fais pas Et viens t'en dans mes bras Darling I Love you love you Darling I want you Et puis le reste on s'en fout
You are the one For me for me for me Formidable Je me demande même pourquoi je t'aime Toi qui te moques de moi et de tout Avec ton air canaille canaille canaille How can I love you
sangue do nariz da orelha das unhas dos lábios sangue dos dentes úlceras ignotas o trabalho imparável torturoso forçado das plaquetas a dor, o rasgo, os cortes, as feridas os mucos do ataque e da defesa o ardor a lambidela o alívio a vergonha a introversão querer meter-se o corpo do avesso e dormir dois meses no casulo a criar carapaça
«dedicado a tod@s @s indignados que subiram ontem as escadarias de são bento e disseram basta de canibalismo social (capitalismo+racismo+machismo+mais outros ismos). não pagamos!» Chullage (via facebook)