Magníficos monstros da rocha da matéria da terra por homens feitos construídos com a matemática do andaime a afiar e uma trupe de escravos a aumentar
Os magníficos a quem se fala pede confia
de quem se roubam as vontades a anima os monstros que rugem ou calam os monstros desumanos por nós inventados que só troam que não falam que bebem e comem mas não costuram
O somdos magníficos
monstros
o queixo a cair por dentro por fora nós ali a querer sentir-nos minúsculos e sem poder ser outra coisa minúsculos
Acordo com cinquenta e tantos anos e não percebo o que é que ainda ando para aqui a fazer, para quê. Vivi tanto. Já sei do amor, do ódio, da raiva, da alegria, da injustiça, da organização, da violência, da mentira, da liberdade, da prisão. Descobri aos quinze anos, com ingenuidade e muitos erros, uma arte e um ofício. E a partir daí tantos outros. Porque quando se estuda um papel não estamos sozinhos mas já em diálogo. E para montar a cena é preciso inventar luzes e cenários e depois montá-los, e falar com o ginásio do bairro para pedir cadeiras. E quando tudo está montado é preciso pintar um cartaz e fazer cola e colá-lo. E ainda escrever textos para os outros a quem vamos mostrar tudo, a contar os caminhos por onde passámos e que fazem a exigência de isto ser feito. E mais as falhas, os pormenores, os imprevistos. Lidar com mais gente, saber as diferenças das relações de uns com outros. Berrar muito nas longas reuniões e nos pequenos passos do dia-a-dia e saber que isso não é ódio nem o fim do mundo. Berrar de morte com aqueles com quem dormimos e com quem acordamos. Quando veio o dia da revolução já tínhamos trinta anos e achámos primeiro que já éramos velhos para aquilo, que aquilo já não era para nós nem ia ser feito por nós. Mas afinal de contas éramos nós aquilo. Afinal os processos em curso chamam-nos, pedem-nos tantas coisas e tudo muda tanto que voltamos a vestir t-shirts que nos deixam as primeiras rugas a descoberto e é a isso que chamamos bonito. E voltamos a acampar pelas terras e a conhecer mais do mundo da província, onde falta fazer tanta coisa e as pessoas nos oferecem vinho de bom grado. E fazemos mais coisas que nunca. E continuamos a discutir de morte com quem dormimos e com quem inventamos o que há para fazer. Depois as coisas começam a andar para trás. Muitos querem o descanso e o conforto da vida normal das telenovelas da noite. É grande o ataque da normalidade e o poder de certos ganhos de alguns. Muitos desistem, tudo desiste, o mundo desistiu. E nós que aprendemos tanto, que transformámos e inventámos as maneiras de fazer as nossas coisas e ainda sonhamos com um mundo às avessas e não sabemos bem o que é sonhar nem dormir, continuamos a tentar fazer as nossas coisas mesmo assim. De maneiras que se tornam cada vez mais estranhas e difíceis, num mundo que já não parece passar pelas nossas mãos. De repente já não há tanta gente à volta. E se alguém prega um prego, e tantas vezes continuo a ser eu, o nome desse alguém tem de vir impresso em letras formatadas pela máquina e já não pintadas à mão com o traço torto dos pincéis gastos de andanças, e o papel tem de ser brilhante e já não papel manteiga ou almaço, e deve dizer: “especialista de pregar pregos CL70: nome próprio e apelido”. E se alguém chega para dar uma mãozinha, isso então chama-se “voluntariado”. Chamam-nos loucos a nós que continuamos a discutir nesta altura do campeonato, vermelhos, as palavras usadas pelo escritor X no poema Y, ou o plano inicial do filme tal, ou as teorias de um pensador do princípio do século passado comparadas com as larachas do opinion maker convidado para ir ao telejornal, ou a ideia disparatada ou incrível que alguém deu na reunião de terça-feira, ou a melhor maneira de montar a exposição e de pendurar o projector do canto. Chamam-nos loucos a nós que nem sabemos como começámos a discutir mas que passamos três horas nisso, levando a sério, demasiadamente a sério, toda e qualquer palavra dita por nós ou por um dos outros. Chamam-nos loucos, alcoólicos, utópicos, rezingões, pequeninos. E às vezes quando acordamos pensamos que já não somos deste mundo, que nada do que fazemos interessa, que já não temos forças, que agora sabia bem aprender com os outros que se reviram nas telenovelas da noite, aprender a descansar, a não ligar, a fechar os olhos, a fazer férias de dois meses nas Caraíbas deitados em redes. Vou deixar de pregar pregos, de escrever livros, de encenar espectáculos, de acartar com móveis, de pintar quadros, de editar panfletos, de mandar cartas, de falar com as pessoas do bairro, de cantar, de inventar, de colar cartazes e puxar cordas, de ter ideias para as reuniões. Vou deixar-me dormir, acordar, comer, ler o jornal uma vez por semana, dar beijos na testa daqueles com quem durmo. E passado um mês ou dois vou perceber o que restou: a camisa aos quadrados, a esferográfica preta na mala, as aguardentes depois do almoço e do jantar, os cigarros, a memória das datas e uma úlcera a nascer no estômago.
Soy tu madre, soy tu hija, soy tu amante, soy la chica que limpia tu casa.
Soy la esclava de tu vida, soy la dulce y educada que siempre dice que sí.
Soy aquella a la que buscas cuando tienes un problema y quieres un abrazo.
Soy aquella a l...a que tocas por las noches cuando duerme aunque te diga que no. Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú. Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo? soy aquella a la que mientes cuando quieres conservar tus privilegios, soy aquella a la que silvas por la calle, a la que tratas como objeto sin cerebro o corazón. Soy tu amiga y compañera a la que acosas en las fiestas de los centros liberados. Soy aquella que te mira cuando bajas la cabeza si alguien te llama agresor.
Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú. Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo?
Soy aquella a la que juzgas por quedar con sus amigas y formar un colectivo, "colectivo de mujeres, ¡Qué carajo, vaya nazis!, ¿porqué no puedo entrar yo?" Como un ente omnipresente crees tener razon en todo y hablas de lo que no sabes, te escudas en tus misterios, tus secretos y tu cuerpo y andas con seguridad.
Turururu tutu tururu tuuu, en el mundo existes tú. Turururu tutu tururu tuuu, ¿dónde quedo yo?
Y se te llena la boca hablando de mis derechos y de feminismo. Te agarras a mi discurso, te lo aprendes, te lo quedas para hablar de tu opresión (pobrecito) Seas hippy, libertario, lleves rastas, lleves cresta o si vives okupando Seas terco o reformista que se cuelga la chapita, tengas un grupo de hombres o seas anarkopunk.
ME DA IGUAAAAAAL! piensa en lo que digo, ME DA IGUAAAAAAAAL! No vayas de listo por la vida por favor...
grevista e amarelo conversam animadamente sobre o sistema um diz que é injusto assim outro diz que é injusto, e é mesmo assim um diz que podemos pegar nisso outro diz que podemos perder o emprego se pegarmos nisso um diz que emprego já estamos a perder outro diz que há muita coisa aí para fazer um tem receio de que não chegue outro tem medo de que seja demais um acha que já vai tarde outro acha que ainda é cedo ambos 99% insatisfeitos com o capitalismo enquanto um terceiro capitaliza a insatisfação - juro o caso é verídico grevista e amarelo distraem-se conversando no café debatendo a greve e nenhum deles trabalha um não atende os clientes outro nem sequer vai fazer o piquete de greve e um pombo come os restos do pão no café
gostava de saber o título de ver a legenda uma mulher a jogar futebol é um fragmento com seu cabelo armado que afinal ela nasceu foi para agradar ao homem que afinal ela nasceu foi para estar em casa para fazer montes de exercício físico mas às escondidas não em espectáculo que afinal ela também tem ginástica na escola e também sabe chutar uma bola mas o que ela tem é de ter o cabelo penteado mas também tem o dever de ter um corpo são mas ai dela que caia ao chão que afinal ela nasceu foi para ser enfermeira que afinal ela nasceu foi para ser secretária que afinal ela nasceu foi para levar a cerveja aos
espectadores gostava de saber se é uma aula porque finda a escola nunca mais toca numa bola porque com trinta anos já vive em casa para sempre porque andamos para aqui para que os homens brilhem e o trabalho de sapa faz-se às escondidas e o lixo e as retretes e os curativos e as secas vão sempre ser feitos pelas bonecas cem anos depois
alentejano o nariz de vinho vermelho o vinho vermelho no nariz do alentejano o barrete de ribatejano no alentejano o capote alentejano no do barrete ribatejano o cajado e o capote e o nariz vermelho a gravata e as botas e os olhos pegados tortos a ver só o vinho à frente sem profundidade nem perspectiva que as pessoas do campo e do alentejo são tristes de vinho e têm pouco pra pensar só na morte da bezerra branca de ontem e nada de cooperativas que eu ainda sou miúdo e ainda vivemos na ditadura e o povinho ainda é alentejano de nariz de vinho com barrete de ribatejano eh toiro lá nos campos as pessoas são todas assim
eu sei muito bem como são os holandeses são uns senhores de socas que fumam cachimbo enquanto tratam da terra com um ancinho no livro do meu tio os holandeses têm calças às riscas e gorros na cabeça por causa do frio
You are the one For me for me for me Formidable You are my love Very very very Véritable
Et je voudrais pouvoir un jour Enfin te le dire Te l'écrire Dans la langue de Shakespeare My daisy daisy daisy Désirable Je suis malheureux D'avoir si peu de mots à T'offrir en cadeau Darling I Love you love you Darling I want you Et puis c'est à peu près tout
You are the one For me for me for me Formidable
You are the one For me for me for me Formidable But how can you See me see me see me Si minable
Je ferais mieux d'aller choisir Mon vocabulaire Pour te plaire Dans la langue de Molière Toi Tes eyes ton nose tes lips adorables Tu n'as pas compris Tant pis Ne t'en fais pas Et viens t'en dans mes bras Darling I Love you love you Darling I want you Et puis le reste on s'en fout
You are the one For me for me for me Formidable Je me demande même pourquoi je t'aime Toi qui te moques de moi et de tout Avec ton air canaille canaille canaille How can I love you
sangue do nariz da orelha das unhas dos lábios sangue dos dentes úlceras ignotas o trabalho imparável torturoso forçado das plaquetas a dor, o rasgo, os cortes, as feridas os mucos do ataque e da defesa o ardor a lambidela o alívio a vergonha a introversão querer meter-se o corpo do avesso e dormir dois meses no casulo a criar carapaça
«dedicado a tod@s @s indignados que subiram ontem as escadarias de são bento e disseram basta de canibalismo social (capitalismo+racismo+machismo+mais outros ismos). não pagamos!» Chullage (via facebook)
quando os pássaros voltarem a ser livres e os sonhos forem mãos a desenhar as gaiolas deixarão de ter sentido saberás o que água quer dizer a mudança há-de ser imperceptível para aqueles que só gostam de morrer mas as coisas já não servem para o jugo as bocas vão ter fome de outro dia
Fechado aberto o pulmão de CORAÇÃO O MEU CORAÇÃO DE PULMÃO A SANGUE FRIO A RESPIRAR EM LATA FECHADO ABERTO AS PESTANAS RESPIRAR O ALÍVIO DA NOITE EM CIMA EM SEXTO ANDAR EM DUAS EM DUAS E OITO Fechar abrir os olhos o programa a resposta mudar o erro emendá-lo nunca possível As peças de vidro e líquido já se sabiam buscar sozinhas sobe-se ao banco não se pede à mãe sem amigo de sorriso sem a rede da corda de corda sem coração Os carros em baixo a mais de mil e duzentos como ondas do mar da natureza da sintra longinquíssima mistiquíssima demais A fala a que cala a que despe a pala e nua se mostra se abre a prometer mel em fúria sem rasgo de sinal para onde possa ir quem querer o mel sinais soltos num papel de gordura As casas criadas com tanta segurança o nojo do ódio do rico da pança e aquela máscara de ódio O medo
Fugia-se do medo sempre a sete patas quando a noite estreitava assim as cinturas e dilatava as ideias deformando e aconchegava com vidro com pulmão decoração azeite por cima sempre a gritar ao óleo eu é que sou! Os travões amigos aconchego com guinadas o mar dos carros o sopro do vento que hoje não se ouvia mas que fazia parte das janelas
E a tua voz a desculpar o outro a admirá-lo a sê-lo também tão bem e eu a saber que então também te tenho asco porque és assim porque são iguais: o amor o amante o pai o filho que nunca quero ter porque mais é demais Lesbos era uma ilha que se delineava ao longe e acenava alguém de lá e sempre a nossa jangada a via ao longe e sempre levada seria pela mesma corrente da saga raga
E as palavras queria que alguém as pegasse e saberia desde início que eram impegáveis as palavras as palavras com que queria gritar-te a vida a tua a minha a dos que cá bebem em suas caixinhas e afinal nada sabia eu disso tudo e não queria saber queria só cantá-las e não arranhava uma corda de nenhum instrumento de sopro rasgar grunhos antigos restava bastava assava mas não saía paria azevia acenar e gritar esgarçar ruliminar
O paquete Nyassa tinha a âncora agarrada ao casco e o casco de ferro como convém aos piquetes que não levam a paz Era grande de chaminés e apitos fumegantes e esburacado de furos para os canos de fogo Os arames e os cabos sem velas a casota blindada e pessoas nem vê-las Só tem pátria o piquete paquete Nyassa só tem mar à volta e uma lanterna vermelha O paquete imponente como se aguenta na água? Não afunda não afunda nem na maré vaza Será que não afunda? tem retorno torna a casa?
os dois a cair por uma ribanceira a cair a cair sem rede sem ser bom e depois no fim chegámos mesmo lá abaixo e lá em baixo descobriste que havia uma escada por onde tudo seria mais fácil uma escada com degraus com estrutura com construção feita pelo Homem
"nos sonhos é-se vivo não se morre aliás essa é a única vantagem"
eu acho que o amor move montanhas, faz girar o mundo o ideal, mas sobretudo o correspondido que se traduz depois nas coisas práticas em tudo e não vejo coisa mais interessante no mundo que as relações entre pessoas não fosse isso e nada disto tinha interesse nada disto me dava para pensar ou para divagar, ou para fazer canções e escrever poemas e conversar e beber copos e dançar se não fosse isso das relações entre as pessoas do amor e do ódio das aproximações e afastamentos dos pactos de relação, românticos ou empresariais desvendar isso, experimentar isso, arriscar, descobrir a forma mais livre, saber as formas mais opressivas ou emaranhadas ver os outros, pensar os outros, pensar em nós, pensar nós com os outros que já têm relações uns com os outros tentar mudar isso, mudar o mundo, fazer a luta juntos ("não se pode ser feliz sozinho") se não fosse isso éramos antílopes ruminantes no cimento e no silêncio mas não somos estamos cá para mudar isso estamos cá porque não somos isso nunca fomos isso se vemos isso noutras pessoas ao lado é porque temos de mudar o mundo as relações como andam a ser feitas os casamentos mudos as rotinas as relações desiguais autoritárias hierárquicas sufocantes repetidas desinteressantes não produtivas tudo o que a nossa nunca foi a nossa que interrogou tanto isso o tempo todo a nossa que criou novos objectos novas relações novos caminhos novas ideias a nossa que juntou pessoas que mudou outras pessoas que mudou formas de fazer as coisas à nossa volta a nossa é que mudava o mundo
Smother Love. The true romance is the ideal repression, that you seek, That you dream of, that you look for in the streets, That you find in the magazines, the cinema, the glossy shops, And the music spins you round and round looking for the props. The silken robe, the perfect little ring, Will gives you the illusion when it doesn't mean a thing, Step outside into the street and staring from the wall Is perfection of the happiness that makes you feel so small. Romance, can you dance? D'you fit the right description? Do you love me? Do you love me? Do you want me for your own? Do you love me? Say you need me, say you know that I'm the one, Tell me I'm your everything, let us build a home. We can build a house for us, with little ones fellow, The proof of our normality that justifies tomorrow. Romance, romance. Do you love me? Say you do, We can leave the world behind and make it just for two.
Love don't make the world go round, it holds it right in place, Keeps us thinking love's too pure to see another face. Love's another skin-trap, another social weapon, Another way to make men slaves and women at their beckon. Love's another sterile gift, another shit condition, That keeps us seeing just the one and others not existing. Woman is a holy myth, a gift of mans expression, She's sweet, defenceless, golden-eyed, a gift of gods repression. If we didn't have these codes for love, of tokens and positions, We'd find ourselves as lovers still, not tokens of possessions. It's a natural, it's a romance, without the power and greed, We can fight to lift the cover if you want to sow and seed. Do you love me? Do you? Do you? Don't you see they aim to smother The actual possibilities of seeing all the others? Do you love me? Do you? Do you? Don't you see they aim to smother The actual possibilities of seeing all the others?
Foi vista nas salas do youtube a silhueta da menina pires, que - enquanto roubava e passava material - ameaçou cortar a cabeça mas resolveu apenas cortar o cabelo. A fraca.
"...só o que se espera ardentemente nos chama, sobretudo nas épocas de perplexidade, onde a força da desilusão e do desencanto não é comparável senão à da expectativa renovada de que não sabemos desistir."
Mário Dionísio, Conflito e unidade da arte contemporânea (conferência na SNBA, 1957)
doi-me tudo
não tenho ossos que não doam
sons que não doam palavras que não doam
não tenho pele que não doa de dormência
não tenho sono que durma à noite de dia
doi-me a vida doi-me os pés cheiram a dor
doi-me a cansaço
os pés doem-me a dormecer
lateja-me o estômago o peito
cansam-me os olhos
os sons apitam-me as caras fujo-as
falta-me o ar
cinto a cinza da nuvem carregada
a massa das nuvens maciças
opacas
o ar insuflado opressor máquina de medir a tensão
aparelho de encher colchão
saga sina açaime acena encena para sempre
encena a sempre a perna as costas
não vivo
vivem-me uns parasitas de agarrar peles e energias e gestos
violáceas vivas víboras esventram varrem
com vassouras duras
escovas de ferro
vergo-me de vómito
extinguir-me difícil tanto moroso lânguido cruel
isto não esvazia