Quando eu descobrir o segredo
Quando tu me vires no futebol
Quando o céu escurecer
Quando eu morrer
terça-feira, 11 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
quando
quando os pássaros voltarem a ser livres
e os sonhos forem mãos a desenhar
as gaiolas deixarão de ter sentido
saberás o que água quer dizer
a mudança há-de ser imperceptível
para aqueles que só gostam de morrer
mas as coisas já não servem para o jugo
as bocas vão ter fome de outro dia
e os sonhos forem mãos a desenhar
as gaiolas deixarão de ter sentido
saberás o que água quer dizer
a mudança há-de ser imperceptível
para aqueles que só gostam de morrer
mas as coisas já não servem para o jugo
as bocas vão ter fome de outro dia
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Ofereço a letra

L'avion rose
Fechado aberto o pulmão de CORAÇÃO
O MEU CORAÇÃO DE PULMÃO
A SANGUE FRIO A RESPIRAR EM LATA
FECHADO ABERTO AS PESTANAS
RESPIRAR
O ALÍVIO DA NOITE EM CIMA
EM SEXTO ANDAR
EM DUAS EM DUAS E OITO
Fechar abrir os olhos o programa a resposta
mudar o erro emendá-lo nunca possível
As peças de vidro e líquido já se sabiam buscar sozinhas
sobe-se ao banco não se pede à mãe
sem amigo de sorriso
sem a rede da corda de corda sem coração
Os carros em baixo a mais de mil e duzentos
como ondas do mar da natureza da sintra longinquíssima
mistiquíssima demais
A fala
a que cala
a que despe a pala
e nua se mostra se abre a prometer mel
em fúria
sem rasgo de sinal para onde possa ir
quem querer o mel
sinais soltos num papel de gordura
As casas criadas com tanta segurança
o nojo do ódio do rico da pança
e aquela máscara de ódio
O medo
Fugia-se do medo sempre a sete patas
quando a noite estreitava assim as cinturas
e dilatava as ideias
deformando
e aconchegava com vidro com pulmão
decoração
azeite por cima sempre a gritar ao óleo
eu é que sou!
Os travões amigos aconchego com guinadas
o mar dos carros
o sopro do vento que hoje não se ouvia
mas que fazia parte das janelas
E a tua voz a desculpar o outro a admirá-lo a sê-lo também tão bem
e eu a saber que então também te tenho asco porque és assim
porque são iguais:
o amor o amante o pai o filho que nunca quero ter porque mais é demais
Lesbos era uma ilha que se delineava ao longe e acenava alguém de lá
e sempre a nossa jangada a via ao longe
e sempre levada seria pela mesma corrente da saga raga
E as palavras queria que alguém as pegasse
e saberia desde início que eram impegáveis
as palavras as palavras
com que queria gritar-te a vida a tua a minha a dos que cá bebem
em suas caixinhas
e afinal nada sabia eu disso tudo e não queria saber
queria só cantá-las
e não arranhava uma corda de nenhum instrumento de sopro
rasgar grunhos antigos restava bastava assava
mas não saía paria azevia
acenar e gritar esgarçar ruliminar
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
poema para o desenho vinte e um de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
O paquete Nyassa tinha a âncora agarrada ao casco
e o casco de ferro como convém aos piquetes que não levam a paz
Era grande de chaminés e apitos fumegantes
e esburacado de furos para os canos de fogo
Os arames e os cabos sem velas
a casota blindada e pessoas nem vê-las
Só tem pátria o piquete paquete Nyassa
só tem mar à volta e uma lanterna vermelha
O paquete imponente como se aguenta na água?
Não afunda não afunda nem na maré vaza
Será que não afunda? tem retorno torna a casa?
e o casco de ferro como convém aos piquetes que não levam a paz
Era grande de chaminés e apitos fumegantes
e esburacado de furos para os canos de fogo
Os arames e os cabos sem velas
a casota blindada e pessoas nem vê-las
Só tem pátria o piquete paquete Nyassa
só tem mar à volta e uma lanterna vermelha
O paquete imponente como se aguenta na água?
Não afunda não afunda nem na maré vaza
Será que não afunda? tem retorno torna a casa?
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
como descer aos infernos provando que a vida não está escrita

os dois a cair por uma ribanceira a cair a cair sem rede
sem ser bom
e depois no fim chegámos mesmo lá abaixo
e lá em baixo descobriste que havia uma escada por onde tudo seria mais fácil
uma escada
com degraus com estrutura com construção
feita pelo Homem
"nos sonhos é-se vivo não se morre
aliás essa é a única vantagem"
cá na vida já nos estatelámos
terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
outros olhos
eu acho que o amor move montanhas, faz girar o mundo
o ideal, mas sobretudo o correspondido
que se traduz depois nas coisas práticas
em tudo
e não vejo coisa mais interessante no mundo que as relações entre pessoas
não fosse isso e nada disto tinha interesse
nada disto me dava para pensar
ou para divagar, ou para fazer canções e escrever poemas
e conversar e beber copos e dançar
se não fosse isso
das relações entre as pessoas
do amor e do ódio
das aproximações e afastamentos
dos pactos de relação, românticos ou empresariais
desvendar isso, experimentar isso, arriscar, descobrir a forma mais livre, saber as formas mais opressivas ou emaranhadas
ver os outros, pensar os outros, pensar em nós, pensar nós com os outros que já têm relações uns com os outros
tentar mudar isso, mudar o mundo, fazer a luta juntos
("não se pode ser feliz sozinho")
se não fosse isso éramos antílopes ruminantes no cimento e no silêncio
mas não somos
estamos cá para mudar isso
estamos cá porque não somos isso
nunca fomos isso
se vemos isso noutras pessoas ao lado
é porque temos de mudar o mundo
as relações como andam a ser feitas
os casamentos mudos
as rotinas
as relações desiguais autoritárias hierárquicas sufocantes
repetidas desinteressantes não produtivas
tudo o que a nossa nunca foi
a nossa que interrogou tanto isso o tempo todo
a nossa que criou novos objectos
novas relações novos caminhos novas ideias
a nossa que juntou pessoas que mudou outras pessoas
que mudou formas de fazer as coisas à nossa volta
a nossa é que mudava o mundo
o ideal, mas sobretudo o correspondido
que se traduz depois nas coisas práticas
em tudo
e não vejo coisa mais interessante no mundo que as relações entre pessoas
não fosse isso e nada disto tinha interesse
nada disto me dava para pensar
ou para divagar, ou para fazer canções e escrever poemas
e conversar e beber copos e dançar
se não fosse isso
das relações entre as pessoas
do amor e do ódio
das aproximações e afastamentos
dos pactos de relação, românticos ou empresariais
desvendar isso, experimentar isso, arriscar, descobrir a forma mais livre, saber as formas mais opressivas ou emaranhadas
ver os outros, pensar os outros, pensar em nós, pensar nós com os outros que já têm relações uns com os outros
tentar mudar isso, mudar o mundo, fazer a luta juntos
("não se pode ser feliz sozinho")
se não fosse isso éramos antílopes ruminantes no cimento e no silêncio
mas não somos
estamos cá para mudar isso
estamos cá porque não somos isso
nunca fomos isso
se vemos isso noutras pessoas ao lado
é porque temos de mudar o mundo
as relações como andam a ser feitas
os casamentos mudos
as rotinas
as relações desiguais autoritárias hierárquicas sufocantes
repetidas desinteressantes não produtivas
tudo o que a nossa nunca foi
a nossa que interrogou tanto isso o tempo todo
a nossa que criou novos objectos
novas relações novos caminhos novas ideias
a nossa que juntou pessoas que mudou outras pessoas
que mudou formas de fazer as coisas à nossa volta
a nossa é que mudava o mundo
smother love
Crass - Smother Love, from Penis Envy.
Smother Love.
The true romance is the ideal repression, that you seek,
That you dream of, that you look for in the streets,
That you find in the magazines, the cinema, the glossy shops,
And the music spins you round and round looking for the props.
The silken robe, the perfect little ring,
Will gives you the illusion when it doesn't mean a thing,
Step outside into the street and staring from the wall
Is perfection of the happiness that makes you feel so small.
Romance, can you dance? D'you fit the right description?
Do you love me? Do you love me? Do you want me for your own?
Do you love me? Say you need me, say you know that I'm the one,
Tell me I'm your everything, let us build a home.
We can build a house for us, with little ones fellow,
The proof of our normality that justifies tomorrow.
Romance, romance. Do you love me? Say you do,
We can leave the world behind and make it just for two.
Love don't make the world go round, it holds it right in place,
Keeps us thinking love's too pure to see another face.
Love's another skin-trap, another social weapon,
Another way to make men slaves and women at their beckon.
Love's another sterile gift, another shit condition,
That keeps us seeing just the one and others not existing.
Woman is a holy myth, a gift of mans expression,
She's sweet, defenceless, golden-eyed, a gift of gods repression.
If we didn't have these codes for love, of tokens and positions,
We'd find ourselves as lovers still, not tokens of possessions.
It's a natural, it's a romance, without the power and greed,
We can fight to lift the cover if you want to sow and seed.
Do you love me? Do you? Do you? Don't you see they aim to smother
The actual possibilities of seeing all the others?
Do you love me? Do you? Do you? Don't you see they aim to smother
The actual possibilities of seeing all the others?
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Corte de cabelo e pratos partidos
Foi vista nas salas do youtube a silhueta da menina pires, que - enquanto roubava e passava material - ameaçou cortar a cabeça mas resolveu apenas cortar o cabelo. A fraca.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
só o que se espera ardentemente nos chama
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Á cido
doi-me tudo
não tenho ossos que não doam
sons que não doam palavras que não doam
não tenho pele que não doa de dormência
não tenho sono que durma à noite de dia
doi-me a vida doi-me os pés cheiram a dor
doi-me a cansaço
os pés doem-me a dormecer
lateja-me o estômago o peito
cansam-me os olhos
os sons apitam-me as caras fujo-as
falta-me o ar
cinto a cinza da nuvem carregada
a massa das nuvens maciças
opacas
o ar insuflado opressor máquina de medir a tensão
aparelho de encher colchão
saga sina açaime acena encena para sempre
encena a sempre a perna as costas
não vivo
vivem-me uns parasitas de agarrar peles e energias e gestos
violáceas vivas víboras esventram varrem
com vassouras duras
escovas de ferro
vergo-me de vómito
extinguir-me difícil tanto moroso lânguido cruel
isto não esvazia
não tenho ossos que não doam
sons que não doam palavras que não doam
não tenho pele que não doa de dormência
não tenho sono que durma à noite de dia
doi-me a vida doi-me os pés cheiram a dor
doi-me a cansaço
os pés doem-me a dormecer
lateja-me o estômago o peito
cansam-me os olhos
os sons apitam-me as caras fujo-as
falta-me o ar
cinto a cinza da nuvem carregada
a massa das nuvens maciças
opacas
o ar insuflado opressor máquina de medir a tensão
aparelho de encher colchão
saga sina açaime acena encena para sempre
encena a sempre a perna as costas
não vivo
vivem-me uns parasitas de agarrar peles e energias e gestos
violáceas vivas víboras esventram varrem
com vassouras duras
escovas de ferro
vergo-me de vómito
extinguir-me difícil tanto moroso lânguido cruel
isto não esvazia
terça-feira, 23 de agosto de 2011
terça-feira, 16 de agosto de 2011
sem título
Durássemos nós infinitamente
e tudo se transformaria
mas como somos finitos
fica muito do velho
(Bertolt Brecht)
e tudo se transformaria
mas como somos finitos
fica muito do velho
(Bertolt Brecht)
sábado, 13 de agosto de 2011
Usos da CIDADE de Augusto de Campos (1963)
atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciproustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité
cidade
city
cité
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
já houve uns que decidiram fazer juntos a sua luta neste mundo torpe, chamavam-se "companheiros"
1
Quando nasci
- de pouco valeu estarem os campos cheios de flores -
uma garra disforme
deixou-me a sua marca negra até ao sangue.
Sorriu o pai e a mãe
do destino do menino venturoso.
Eu próprio ri de segurança e de vitória.
Mas a cada minuto, a cada passo,
a segurança e a vitória foram sendo mentira.
(Basta eu chegar para que tudo se perturbe.
Aliás nem ninguém nem nada se perturba:
só eu sou sempre afinal o perturbado.)
Mas não desisto.
Insisto.
Procuro chegar, entrar.
Procuro, como um faminto de sacola na mão,
essa alegria de toda aquela gente,
que diz sem sobressaltos: aqui estou.
Mas isso sim. Basta eu chegar:
lá vem o grito fatal de: cão danado!
É escusado teimar.
Todas as portas me estarão fechadas,
deixando escorrer um fio de luz
ou um fio de palavras...
E não desisto.
Insisto.
Mas se a mão negra me marcou para sempre,
a que vem este desejo inferior
de lá chegar?
2
Olha: tu que me és única,
mais valia nunca teres poisado o teu olhar
nas minhas mãos,
nos meus cabelos
e nos meus olhos agora e para sempre cheios de ti.
Ter-te-ia sido preferível afinal.
Assim só eu corria pelas ruas
apedrejado às esquinas
como sucede sempre a um bom cão danado.
Não sofrias,
não choravas,
não te martirizavas tanto em cada hora.
Assim, enrodilhada sem querer no meu fracasso,
perdeste talvez aquilo que não volta a repetir-se.
Mais te valia nunca me encontrares,
a mim, o sempre trôpego em todas as passadas,
coberto de miséria, de grotesco,
ridículo!
3
Eis-nos boiando, aflitos,
só as narinas e os braços fora de água,
prestes a sucumbir.
E a terra tam perto cheia de gente alegre...
Um gente endinheirada e bruta,
pisando todas as flores.
Já nem sabemos se as lágrimas
serão gotas do mar que nos envolve,
se é o mar a água das nossas próprias lágrimas.
E a terra tam perto,
cheia daquela gente endinheirada e bruta,
pisando todas as flores...
E nós para aqui boiando,
escorraçados afinal da própria casa,
como quem não paga a renda.
Ah que é como um país nosso invadido por estrangeiros!
E, narinas abertas numa ânsia de vida,
miseráveis, covardes,
sem a coragem de nos deixarmos sucumbir,
cair prò fundo, acabar!
4
Deixa lá, companheira!
Que havemos de fazer?
Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.
Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.
Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés
e tu farás sarar as minhas mãos.
Para lá da última casa ainda há terra
e céu e água e luz...
Ainda há vida para lá.
Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas
e a luxúria do oiro.
Ainda há vida para lá.
O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.
A nossa voz mais rica em cada instante.
O nosso querer mais certo em cada instante.
Ainda há vida para lá.
Sigamos nossa rota, companheira.
Enxugarei teu rosto com cuidado.
Tu farás o meu canto.
E para além das barreiras do tempo
milhões de homens nos esperam com os braços abertos,
que desde a primeira hora serão braços de irmãos.
Mário Dionísio
Quando nasci
- de pouco valeu estarem os campos cheios de flores -
uma garra disforme
deixou-me a sua marca negra até ao sangue.
Sorriu o pai e a mãe
do destino do menino venturoso.
Eu próprio ri de segurança e de vitória.
Mas a cada minuto, a cada passo,
a segurança e a vitória foram sendo mentira.
(Basta eu chegar para que tudo se perturbe.
Aliás nem ninguém nem nada se perturba:
só eu sou sempre afinal o perturbado.)
Mas não desisto.
Insisto.
Procuro chegar, entrar.
Procuro, como um faminto de sacola na mão,
essa alegria de toda aquela gente,
que diz sem sobressaltos: aqui estou.
Mas isso sim. Basta eu chegar:
lá vem o grito fatal de: cão danado!
É escusado teimar.
Todas as portas me estarão fechadas,
deixando escorrer um fio de luz
ou um fio de palavras...
E não desisto.
Insisto.
Mas se a mão negra me marcou para sempre,
a que vem este desejo inferior
de lá chegar?
2
Olha: tu que me és única,
mais valia nunca teres poisado o teu olhar
nas minhas mãos,
nos meus cabelos
e nos meus olhos agora e para sempre cheios de ti.
Ter-te-ia sido preferível afinal.
Assim só eu corria pelas ruas
apedrejado às esquinas
como sucede sempre a um bom cão danado.
Não sofrias,
não choravas,
não te martirizavas tanto em cada hora.
Assim, enrodilhada sem querer no meu fracasso,
perdeste talvez aquilo que não volta a repetir-se.
Mais te valia nunca me encontrares,
a mim, o sempre trôpego em todas as passadas,
coberto de miséria, de grotesco,
ridículo!
3
Eis-nos boiando, aflitos,
só as narinas e os braços fora de água,
prestes a sucumbir.
E a terra tam perto cheia de gente alegre...
Um gente endinheirada e bruta,
pisando todas as flores.
Já nem sabemos se as lágrimas
serão gotas do mar que nos envolve,
se é o mar a água das nossas próprias lágrimas.
E a terra tam perto,
cheia daquela gente endinheirada e bruta,
pisando todas as flores...
E nós para aqui boiando,
escorraçados afinal da própria casa,
como quem não paga a renda.
Ah que é como um país nosso invadido por estrangeiros!
E, narinas abertas numa ânsia de vida,
miseráveis, covardes,
sem a coragem de nos deixarmos sucumbir,
cair prò fundo, acabar!
4
Deixa lá, companheira!
Que havemos de fazer?
Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.
Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.
Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés
e tu farás sarar as minhas mãos.
Para lá da última casa ainda há terra
e céu e água e luz...
Ainda há vida para lá.
Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas
e a luxúria do oiro.
Ainda há vida para lá.
O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.
A nossa voz mais rica em cada instante.
O nosso querer mais certo em cada instante.
Ainda há vida para lá.
Sigamos nossa rota, companheira.
Enxugarei teu rosto com cuidado.
Tu farás o meu canto.
E para além das barreiras do tempo
milhões de homens nos esperam com os braços abertos,
que desde a primeira hora serão braços de irmãos.
Mário Dionísio
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Visa pour les beaux jours
Visa pour les beaux jours
Céline Dion
Composição : Paroles: Eddy Marnay. Musique: C. Loigerot, T. Geoffroy "Tellement j'ai d'amour"
Le feux vert avale un feu rouge
Mon moteur est plus fou que moi
Aujourd'hui je prends l'autoroute
Qui me mène à n'importe quoi
Je me sens libre Je me sens libre
Direction: aucune importance
Pile ou face le sud ou le nord
J'ai déjà une roue en France
L'autre roue qui roule dehors
Je me sens libreJe me sens libre
Ouvrez tous les chemins de la terre
Ouvrez tous les verrous des frontières
Moi j'ai mon visa pour les beaux jours
J'ai mon passeport couleur de l'amour
Libre
Libre
J'ai envie de tout ce qui danse
J'ai envie de tout ce qui brille
Si je tombe en panne d'essence
Je vivrai de mon énergie
Je me sens libreJe me sens libre
Venez tous les garçons et les filles
Venez nous chanterons en famille
Moi j'ai mon visa pour les beaux jours
J'ai mon passeport couleur de l'amour
Je me sens libre comme une bulle de champagne
Libre d'escalader les montagnes
Moi j'ai mon visa pour les folies
J'ai mon passeport couleur de la vie
Je me sens libre comme une fusée spatiale
Libre de dévorer des étoiles
Moi j'ai mon visa pour les beaux jours
J'ai mon passeport couleur de l'amour
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
tudo em aberto
Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento
Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã
Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós
Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos
Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
terça-feira, 9 de agosto de 2011
dos Mler ife Dada, mas podia ser doutros
Na pandra bomba ainda jinga a hidra samba
Conga tom-tom bambu, num mundo pandra
Na sala zomba o quadro do canto
E a pedra bomba rebenta num espanto
Na pandra bomba ainda joga a vida bamba
Pandra de pau, tabu, magia zanga
No quarto grita o rádio do canto
E a pedra bomba rebenta num espanto
Zig zig zebra zeze e pó daqui
Espiral em arco-íris só para mim
Na sombra branca ainda brinca a pandra bomba
Sangra surucucu jingando a ganga
Na rua canta a estátua dum santo
E a pedra bomba rebenta num espanto.
Zig zig zebra zeze e pó daqui
Espiral em arco-íris só para mim
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Chanson du Geôlier, de Jacques Prévert
CHANSON DU GEÔLIER
Où vas-tu beau geôlier
Avec cette clé tachée de sang
Je vais délivrer celle que j'aime
S'il en est encore temps
Et que j'ai enfermée
Tendrement cruellement
Au plus secret de mon désir
Au plus profond de mon tourment
Dans les mensonges de l'avenir
Dans les bêtises des serments
Je veux la délivrer
Je veux qu'elle soit libre
Et même de m'oublier
Et même de s'en aller
Et même de revenir
Et encore de m'aimer
Ou d'en aimer un autre
Si un autre lui plaît
Et si je reste seul
Et elle en allée
Je garderai seulement
Je garderai toujours
Dans mes deux mains en creux
Jusqu'à la fin des jours
La douceur de ses seins modelés par l'amour.
Où vas-tu beau geôlier
Avec cette clé tachée de sang
Je vais délivrer celle que j'aime
S'il en est encore temps
Et que j'ai enfermée
Tendrement cruellement
Au plus secret de mon désir
Au plus profond de mon tourment
Dans les mensonges de l'avenir
Dans les bêtises des serments
Je veux la délivrer
Je veux qu'elle soit libre
Et même de m'oublier
Et même de s'en aller
Et même de revenir
Et encore de m'aimer
Ou d'en aimer un autre
Si un autre lui plaît
Et si je reste seul
Et elle en allée
Je garderai seulement
Je garderai toujours
Dans mes deux mains en creux
Jusqu'à la fin des jours
La douceur de ses seins modelés par l'amour.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Julho
As paredes têm olhos
as árvores têm olhos
as pedras da calçada
as luzes
os sons têm olhos
os écrãs têm imans
o peito tem quebras
a garganta tem pedras
os amigos têm bombas
As rugas das paredes têm beijos
as folhas das árvores têm beijos
a cair nas pedras da calçada
os raios das luzes
certos sons têm beijos
As sirenes têm medo
as gargalhadas têm medo
os zumbidos
os joelhos
as malas têm medo
O corpo prende
o ritmo estrangula
a cabeça ameaça
a palavra corta a garganta
o orgulho passa
as árvores têm olhos
as pedras da calçada
as luzes
os sons têm olhos
os écrãs têm imans
o peito tem quebras
a garganta tem pedras
os amigos têm bombas
As rugas das paredes têm beijos
as folhas das árvores têm beijos
a cair nas pedras da calçada
os raios das luzes
certos sons têm beijos
As sirenes têm medo
as gargalhadas têm medo
os zumbidos
os joelhos
as malas têm medo
O corpo prende
o ritmo estrangula
a cabeça ameaça
a palavra corta a garganta
o orgulho passa
quarta-feira, 13 de julho de 2011
poema para o desenho vinte de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
Sabe-se lá o que faz ele
Na guerra
lá na guerra que tanto engrandece
os homens homens
E para além dos postais que manda
ou que não manda
o que faz ele na guerra?
Na guerra espaço
na guerra tempo
na guerra situação
na guerra fábrica
na guerra longe
E ela que fica
com os pratos e os filhos e as tapeçarias
ao piano
a fazer vida
- isso é de somenos importância
Em todo o caso
está no coração
Ao longe
Na guerra
lá na guerra que tanto engrandece
os homens homens
E para além dos postais que manda
ou que não manda
o que faz ele na guerra?
Na guerra espaço
na guerra tempo
na guerra situação
na guerra fábrica
na guerra longe
E ela que fica
com os pratos e os filhos e as tapeçarias
ao piano
a fazer vida
- isso é de somenos importância
Em todo o caso
está no coração
Ao longe
quinta-feira, 7 de julho de 2011
poema para o desenho dezanove de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
Maria Julieta Goulart Parreira Monteiro
toca piano o dia inteiro
doméstica, educada
com mãos de fada
a dar música às paredes da casa.
O vaso de flores periclitante
em cima do móvel imóvel instrumento
olha a mesinha mais abaixo
com tinteiros, bibelots e um retrato.
Maria Julieta Goulart Parreira Monteiro
de costas direitas e o grande nariz
chegaria aos 60 sem saber o que diz
mas com a memória nos dedos
dos saltos pelas teclas
cumprindo os compassos...
Mas a morte prematura espreita
sem dó a esposa de Romeu.
E a nota final fica
aqui no desenho do orfão.
toca piano o dia inteiro
doméstica, educada
com mãos de fada
a dar música às paredes da casa.
O vaso de flores periclitante
em cima do móvel imóvel instrumento
olha a mesinha mais abaixo
com tinteiros, bibelots e um retrato.
Maria Julieta Goulart Parreira Monteiro
de costas direitas e o grande nariz
chegaria aos 60 sem saber o que diz
mas com a memória nos dedos
dos saltos pelas teclas
cumprindo os compassos...
Mas a morte prematura espreita
sem dó a esposa de Romeu.
E a nota final fica
aqui no desenho do orfão.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
La mort d'un rêve
Hervé Masson, Nue au poisson mauveLa mort d'un rêve
il était une fois
il était un rêve
il était un rêve parce-que c'était une histoire impossible
le rêve existait dès toujours
car l'impossibilité vient de loin
le rêve est né
il grandissait
toujours en mouvement comme la fumée
le rêve
avec des couleurs
le rêve
avec des formes
le rêve
avec des cris
le rêve coule
le rêve
trop beau
le rêve
trop bien
le rêve
la vie la voix le sourire
trop
trop
impossible
le rêve possible
il se tourne soudain
il ouvre ses yeux
il les ouvre bien
il voit la peur
il a peur
il se recroqueville
il se rétrécit
il devient couleur de boue
son chapeau tombe
sur une flaque
ridicule
il n'inspire plus
il blesse les nus
il nous rend confus
c'est un abus
il était une fois
il était un rêve
il était un rêve parce-que c'était une histoire impossible
le rêve existait dès toujours
car l'impossibilité vient de loin
le rêve est né
il grandissait
toujours en mouvement comme la fumée
le rêve
avec des couleurs
le rêve
avec des formes
le rêve
avec des cris
le rêve coule
le rêve
trop beau
le rêve
trop bien
le rêve
la vie la voix le sourire
trop
trop
impossible
le rêve possible
il se tourne soudain
il ouvre ses yeux
il les ouvre bien
il voit la peur
il a peur
il se recroqueville
il se rétrécit
il devient couleur de boue
son chapeau tombe
sur une flaque
ridicule
il n'inspire plus
il blesse les nus
il nous rend confus
c'est un abus
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Futurologia sim!
O futuro deve ser estudado
cuidadosamente
escolhendo
Quem me dera agora
Dizem que não sabem
para não dizer o que sabem
e não deixar escolher
Dizem que não sabem
mas sabem
que têm de esconder
para não dizer o que sabem
e não deixar escolher
Desembrulha o presente
Improvisa
Agindo
Todos os dias Quem me dera hoje
cuidadosamente
escolhendo
Quem me dera agora
Dizem que não sabem
para não dizer o que sabem
e não deixar escolher
Dizem que não sabem
mas sabem
que têm de esconder
para não dizer o que sabem
e não deixar escolher
Desembrulha o presente
Improvisa
Agindo
Todos os dias Quem me dera hoje
sexta-feira, 6 de maio de 2011
presa
presa
à defesa
na mesa
em casa
sem asa
vaza
tesa
na represa
sem pena
sem gota
sem tinta
seca
no beco
a seco
verde seco
com olhos
com molhos
molhos d'olhos
com ferrolhos
como repolho
apodrecido
à defesa
na mesa
em casa
sem asa
vaza
tesa
na represa
sem pena
sem gota
sem tinta
seca
no beco
a seco
verde seco
com olhos
com molhos
molhos d'olhos
com ferrolhos
como repolho
apodrecido
terça-feira, 3 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
poema para o desenho dezoito de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
Para desenhar as pessoas da áfrica
usa-se o lápis preto.
Na áfrica as árvores têm folhas recortadas.
As árvores que eu sei que há em áfrica são as palmeiras.
Os homens pintam-se com o lápis preto e põem-se ao lado
de uma árvore de folhas despenteadas
e então estamos na áfrica.
Os homens da áfrica também têm bengalas
como os senhores de lisboa
ou cajados de caminhada como os escoteiros
mas não são comprados nas lojas
e polidos e envernizados.
São paus das árvores.
Tortos como os ramos crescem nas árvores.
Os homens de áfrica andam de calções.
Porque está calor
ou porque não há pudores
ou porque não sabem o que são calças.
Lá em áfrica estão muitos portugueses
porque aquilo é nosso.
Mas eu nunca lá fui.
Diz que é longe.
E é assim uma espécie de parque com árvores
e homens pretos
que eu acho que andam descalços.
usa-se o lápis preto.
Na áfrica as árvores têm folhas recortadas.
As árvores que eu sei que há em áfrica são as palmeiras.
Os homens pintam-se com o lápis preto e põem-se ao lado
de uma árvore de folhas despenteadas
e então estamos na áfrica.
Os homens da áfrica também têm bengalas
como os senhores de lisboa
ou cajados de caminhada como os escoteiros
mas não são comprados nas lojas
e polidos e envernizados.
São paus das árvores.
Tortos como os ramos crescem nas árvores.
Os homens de áfrica andam de calções.
Porque está calor
ou porque não há pudores
ou porque não sabem o que são calças.
Lá em áfrica estão muitos portugueses
porque aquilo é nosso.
Mas eu nunca lá fui.
Diz que é longe.
E é assim uma espécie de parque com árvores
e homens pretos
que eu acho que andam descalços.
poema para o desenho dezassete de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
o escuteiro escoteiro
de vara na mão para facilitar a caminhada
qual caminhada?
o escoteiro escuteiro
tem farda e é gordinho
e só tem perfil
e é feliz na sua farda
mas o escoteiro escuteiro
não sabe do coração que traz no chapéu
porque não o vê
- vai em cima da cabeça...
a mala a tiracolo
o lenço
os calções
e os objectos humanos para sobreviver na selva
qual selva?
é um modelo de desenho
como o polícia, tem farda
identifica-se
não é só um menino
é um escoteiro ou um escuteiro
de vara na mão para facilitar a caminhada
qual caminhada?
o escoteiro escuteiro
tem farda e é gordinho
e só tem perfil
e é feliz na sua farda
mas o escoteiro escuteiro
não sabe do coração que traz no chapéu
porque não o vê
- vai em cima da cabeça...
a mala a tiracolo
o lenço
os calções
e os objectos humanos para sobreviver na selva
qual selva?
é um modelo de desenho
como o polícia, tem farda
identifica-se
não é só um menino
é um escoteiro ou um escuteiro
sábado, 30 de abril de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
poema para o desenho dezasseis de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
os charlots e os tatis e os patetas sempre a contar com o gato e o rato sempre a contar com o fogo no rabo e cordéis e cordas que puxam objectos consigo que se emaranham em postes e fios e com quedas, desequilíbrios, grandes pilhas tortas voos dos chapéus escorradelas em azeite mangas mal vestidas tropeções em sapatos largos jogos olímpicos de improviso filmes mudos de riso
terça-feira, 22 de março de 2011
poema para o desenho quinze de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
Para o que a polícia serve
é para tirar a cor da pele à nossa cara
para nos fazer circular no rosto
em confusão e suor
verde roxo e azul
com perguntas pequenas
pedidos de contas
os seus documentos por favor
o que é que está a fazer aqui a esta hora
não sabe que é proibido dizer
palavrões na frente de mulheres e crianças
nomes de organizações clandestinas
mal do nosso ditador
certas palavras estrangeiras
que língua é essa
onde aprendeu essa língua
tem algum familiar nesse país
já saiu do país
como conseguiu
tem o passaporte em ordem
levou a sua mulher
levou a sua mulher ou a sua amante
entrou no moulin rouge
o que estava a fazer nesta esquina
sabe a multa que dá urinar na via pública
sabe que dá prisão
não sabe que não se pode sacudir a toalha à janela
antes das nove da noite
não sabe respeitar a ordem
a autoridade
os dez mandamentos
os valores
não tem vergonha
não tem vergonha do que estava a fazer
não tem vergonha de ser assim
não tem vergonha de existir
o seu cartão
o seu selo
o seu bilhete
a sua licença
o seu registo
o seu imposto
o seu chip
a sua conta no banco
a sua segurança social
as análises das suas fezes
as suas fezes cheiram bem
cheiram mal
são castanhas
pois agora passaram a ser verdes, roxas e azuis
veja logo à noite se não é verdade
circule
é para tirar a cor da pele à nossa cara
para nos fazer circular no rosto
em confusão e suor
verde roxo e azul
com perguntas pequenas
pedidos de contas
os seus documentos por favor
o que é que está a fazer aqui a esta hora
não sabe que é proibido dizer
palavrões na frente de mulheres e crianças
nomes de organizações clandestinas
mal do nosso ditador
certas palavras estrangeiras
que língua é essa
onde aprendeu essa língua
tem algum familiar nesse país
já saiu do país
como conseguiu
tem o passaporte em ordem
levou a sua mulher
levou a sua mulher ou a sua amante
entrou no moulin rouge
o que estava a fazer nesta esquina
sabe a multa que dá urinar na via pública
sabe que dá prisão
não sabe que não se pode sacudir a toalha à janela
antes das nove da noite
não sabe respeitar a ordem
a autoridade
os dez mandamentos
os valores
não tem vergonha
não tem vergonha do que estava a fazer
não tem vergonha de ser assim
não tem vergonha de existir
o seu cartão
o seu selo
o seu bilhete
a sua licença
o seu registo
o seu imposto
o seu chip
a sua conta no banco
a sua segurança social
as análises das suas fezes
as suas fezes cheiram bem
cheiram mal
são castanhas
pois agora passaram a ser verdes, roxas e azuis
veja logo à noite se não é verdade
circule
poema para o desenho catorze de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
vai um homem com uma faca na mão
prestes a zucla trucla na barriga do Gregório
o homem tem um lenço à volta da fuça
ao outro salta o chapéu de coco
as janelas da porta cinquenta e dois
abrem-se de par em par e
os vizinhos gritam como se houvesse incêndio
a agitar os braços no ar
o homem com a faca na mão prestes
a zucla trucla na barriga do Gregório
grita a casa a prestações
grita o anúncio da Coke
grita a Vera Sergine e O az no Teatro S. Luiz
grita o candeeiro de rua que se acende de verde e vermelho
gritamos nós deste lado testemunhas de tudo
gritam as pedras grandes da rua
que se sentem nas solas dos pés através das botas mais rijas
as botas mais rijas
são as da Grande Polícia
que não dá por nada e segue em sentido contrário
prestes a sair de cena
a Grande Polícia que nunca salvará o Gregório de ser apunhalado
cega
pateta
de rabo empinado na sua farda de ofício de nada
como sempre serôdia
prestes a zucla trucla na barriga do Gregório
o homem tem um lenço à volta da fuça
ao outro salta o chapéu de coco
as janelas da porta cinquenta e dois
abrem-se de par em par e
os vizinhos gritam como se houvesse incêndio
a agitar os braços no ar
o homem com a faca na mão prestes
a zucla trucla na barriga do Gregório
grita a casa a prestações
grita o anúncio da Coke
grita a Vera Sergine e O az no Teatro S. Luiz
grita o candeeiro de rua que se acende de verde e vermelho
gritamos nós deste lado testemunhas de tudo
gritam as pedras grandes da rua
que se sentem nas solas dos pés através das botas mais rijas
as botas mais rijas
são as da Grande Polícia
que não dá por nada e segue em sentido contrário
prestes a sair de cena
a Grande Polícia que nunca salvará o Gregório de ser apunhalado
cega
pateta
de rabo empinado na sua farda de ofício de nada
como sempre serôdia
segunda-feira, 7 de março de 2011
colombina, arlequim e pierrot
Mascarim entre as musas
Se queres passar por mim e ficar vendo
os abraços possíveis que há em nós
Se queres a voz também sem ficar sendo
como quem passou por mim sem me ter visto
Vou ao baile baile
não sei o que visto
dá-me o braço braço
com todo o calor
Se alguma coisa falta em tua mão
que te faça as passadas sem temor
e o coração se faz sofreguidão
daquilo de que julgas que desisto
Vem à roda roda
sapato amarelo
levo a voz sardenta
de polichinelo
Se passas e não vês o íntimo clamor
ou não vês mais que gritos sem sentido
nas tantas faces do poeta na tormenta
Mascarim desmaia
tapo a boca Oh
Levas um vestido
sem corpo nem saia
Vai lá ao fundo e verás lá bem no fundo
e bem escondido onde a vida se acalenta
o sentido da hora e o amor do mundo
Papagaio pintado
diz-me lá quem sou
tenho entrada franca
vou de pierrot
Mário Dionísio
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
mercúrio
sábado, 19 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Sonhei que era assassina
Sonhei que era assassina.
De faca.
Já com duas vítimas e arrependimento
nem vê-lo.
Tremia só do pavor de ter deixado rasto.
Aconselhava os cúmplices a viajar para o país do lado
ou para o país ao lado do país do lado.
Vivia ainda as imagens
das facas na nuca e o cabelo de nylon de barbie
e a raiva e a certeza
de não querer a Norah viva nem o outro.
De faca.
Já com duas vítimas e arrependimento
nem vê-lo.
Tremia só do pavor de ter deixado rasto.
Aconselhava os cúmplices a viajar para o país do lado
ou para o país ao lado do país do lado.
Vivia ainda as imagens
das facas na nuca e o cabelo de nylon de barbie
e a raiva e a certeza
de não querer a Norah viva nem o outro.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
engagement décennal
je vous aime
librement
en savant que je suis
pris d'amour pour autant
je suis le prisionier
de cette liberté
je suis le poème
d'amour
c'est ça le thème
je vous aime
tous les jours
toutes les décennies
engagé oui
avec du feu de l'impatience
des siècles toutes les décennies
je fais confiance
je garde au coeur
la couleur la révolution des moeurs
relativement absolu
bien entendu
a toi
poème
et a moi
libre amour j'aime
librement
en savant que je suis
pris d'amour pour autant
je suis le prisionier
de cette liberté
je suis le poème
d'amour
c'est ça le thème
je vous aime
tous les jours
toutes les décennies
engagé oui
avec du feu de l'impatience
des siècles toutes les décennies
je fais confiance
je garde au coeur
la couleur la révolution des moeurs
relativement absolu
bien entendu
a toi
poème
et a moi
libre amour j'aime
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
poema para o desenho treze de vinte e três desenhos e um fragmento de MD
a pequena língua da liguareira que ouve à janela e fala à escada
a grande língua afiada da lambareira
que ouve à escada e fala à janela
torce e retorce e trava e destrava o volume da voz
bate nos dentes e desliza pronta para a curva
atrasa e avança faz mil movimentos ao segundo
e ao longo do dia vai roubando o baton aos lábios
até que lhe chegam aos ouvidos certos impropérios
sobre a sua língua e a sua língua
incha, incha, incha de tanto não poder responder
incha, incha, incha de tanto não poder dançar
e já não cabe na boca
e a linguareira morde a língua
a grande língua afiada da lambareira
que ouve à escada e fala à janela
torce e retorce e trava e destrava o volume da voz
bate nos dentes e desliza pronta para a curva
atrasa e avança faz mil movimentos ao segundo
e ao longo do dia vai roubando o baton aos lábios
até que lhe chegam aos ouvidos certos impropérios
sobre a sua língua e a sua língua
incha, incha, incha de tanto não poder responder
incha, incha, incha de tanto não poder dançar
e já não cabe na boca
e a linguareira morde a língua
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
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