quinta-feira, 25 de junho de 2009
terça-feira, 23 de junho de 2009
Desarrumação
Tem bicos, tem cores, tem rugosidades diferentes umas das outras. Tem palavras e tem sons. Tem instrumentos de muitos tipos, tem zumbidos e vozes de vários animais. A desarrumação é ruidosa.
Tem o que caíu e o que se colocou. O que lá está pela beleza e o que lá está porque se jantou. O tambor ao lado da estante, a estante ao lado do copo, o copo ao lado da camisola, a camisola ao lado do prego, o prego ao lado da cama, a cama ao lado do globo, o globo ao lado do sono, o sono ao lado da tesoura. A tesoura dentro da canção. O cartão do maço a fazer de filtro de cigarro, o dinheiro dentro do Capital, o bilhete picado colado na porta.
A desarrumação fala. Nunca está calada.
A desarrumação tem falta de amnésia.
A desarrumação tem bicos. Tem madeira, tem papel, tem alumínio; tem quadrados, tem esferas, tem bolsas de ar; brinquedos, talheres, sapatos, peças, fragmentos, Tem livros inteiros e cascas de banana que apodrecem rodeadas de moscas-moscatel.
A desarrumação é um espaço vivido. Há pequenas clareiras para pôr cada pé. Pode encher-nos a cabeça com coisas a mais. Pode sufocar-nos. Ou pode fazer sentir-nos em casa. Exactamente na nossa sala.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
cachimbo (a pensar no do Mário Dionísio)

sabe mal
e a paz fuma-se
(ele mais do que ela)
o escritor desenha
agora é por isso que escreve
não é pela injustiça
vamos pôr sem imagem
lápis de cera e colagem
e as nuvens subindo a parede
sabe mal e rimo-nos
e a paz debate-se
com outra guerra
desenha o escritor
não pinta
não sabe nada da tinta
inclina o que arde
o tabaco sim, o papel não
só ficaram os livros
cinzentos - nas telas
ele sabe
do conflito da unidade
o mundo numa pincelada
todo
todo dissonante
domingo, 14 de junho de 2009
poema para a mulher que trabalha de sol a sol
e o sol to leva
essa carga
não leves
A enxada é carga
mulher tu não podes
esse peso
não pedes
Pesa-te o trabalho
a carga que levas
mulher
não caves
A enxada pára
mulher não é leve
a ela
não cedas
Noutra arma pega
mulher é mais leve
com ela
fere
Essa arma leva
mulher o seu peso
nega
o medo
Fiama Hasse Pais Brandão, Barcas Novas
terça-feira, 9 de junho de 2009
a excepção e a regra
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Bancos e bancos
há bancos de sentar
e há bancos de depositar
há bancos de madeira
e bancos de oiro
há bancos e bancos,
há bancos e bancos.
Há bancos de três pernas
e bancos a quatro mãos
há bancos para rabos
e bancos para roubos
bancos para descansar
bancos para descascar.
Há bancos e bancos
pretos e brancos
há bancos de sentar
e há bancos de levantar
há bancos seguros
e bancos de juros
há bancos das pessoas
e bancos contra nós.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Artaud sobre loucura
É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceite (que nunca é o sentido real e vivo, instrínseco das coisas), em vez de trair uma determinada ideia superior de honra humana.
Assim, a sociedade manda estrangular nos seus manicómios todos aqueles dos quais quer desembaraçar-se ou defender-se porque se recusam a ser seus cúmplices em certas enormidades.
Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis.

Neste caso, a reclusão não é sua única arma e a conspiração social tem outros meios para triunfar sobre as vontades que deseja esmagar.
Há grandes sessões de enfeitiçamento global das quais participa, periodicamente, a consciência em pânico.
Assim por ocasião de uma guerra, de uma revolução, de um transtorno social ainda latente, a consciência colectiva é interrogada e questiona-se para emitir um julgamento. (No circular teatro-fantasma onde a vida é apenas simulada e não vivida, onde o homem se torna mais máquina do que as próprias máquinas criadas por ele próprio).
Essa consciência também pode ser provocada e despertada por certos casos individuais particularmente flagrantes.
Assim foi que houve feitiços colectivos nos casos de Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval, Nietzsche, Kierkgaard, Fraz Kanfka, Gregório Delgado, e também Vang Gogh.
É assim que poucas pessoas lúcidas e de boa vontade que se debatem sobre a terra já se viram tragadas pela profundeza de autênticos pesadelos em vigília e rodeadas por uma poderosa sucção, pela poderosa opressão tentacular (nazi) de um tipo de magia cívica e psíquica, que já se vê a aparecer nos costumes de modo manifesto.
Diante dessa sordidez unânime que de um lado se baseia no sexo e de outra nos ritos psíquicos, não há delírio em passear à noite com um chapéu coroado por doze velas para pintar uma paisagem natural; pois como faria o pobre Van Gogh para iluminar-se, e pintar suas paisagens, em pleno século XIX?
Antonin ARTAUD, Van Gogh, O suicidado da sociedade
sábado, 23 de maio de 2009
terça-feira, 19 de maio de 2009
sábado, 16 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Gelado de morango
250 g de morangos
250 g de natas
125 g de açúcar
Confecção:
Passe os morangos por um passador.
Adicione o açúcar e misture.
Bata levemente as natas e junte-as ao preparado anterior.
Bata a mistura durante 2 minutos e ponha no congelador.
Uma hora depois retire o preparado do congelador e bata-o energicamente.
Volte a pô-lo no congelador até à altura de servir.
Enfeite com morangos e natas.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
saltare ad tibicinis modos
sexta-feira, 8 de maio de 2009
quinta-feira, 7 de maio de 2009
com gente
se não houvesse pessoas nas casas
não queria saber das casas
se as casas não tivessem pessoas
queria saber do copo e da telha
e dos raios encurtados do som
e fim
depois vinham ideias, palavras,
matemáticas e maus fígados
e muitos outros dos seres bípedes
daqui
isso de casas sem gente
eu sei lá o que isso é
terça-feira, 5 de maio de 2009
segunda-feira, 30 de março de 2009
Os melhores filmes contra a precariedade - como quem faz um par de sapatos
Situação de contratação de Maria da Luz
Situação de renovação de vínculo da Francisca
quarta-feira, 25 de março de 2009
de biciclete
segunda-feira, 16 de março de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
terça-feira, 10 de março de 2009
voz
Federico Garcia Lorca, «Santa Luzia e São Lázaro», Anjo e duende. Lisboa: Assírio e Alvim. 2007.
quarta-feira, 4 de março de 2009
oito
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O João faz anos!
é só uma vez que fazes 64
e pensamos nós com vontade de dar:
já chega de livros, de discos, de vinhos
já chega de objectos e de bibelôzinhos
desta vez é só sorriso, beijinho, canção
ou um poema ou um aperto de mão
que valem mais do que consumíveis
e bichos e lixos reprodutíveis
e dizer assim porque sim:
então parabéns!

ar e água, escher
domingo, 8 de fevereiro de 2009
não alinhe com as meninas que ficaram yesterday
rapidíssima visita
para dizer à menina pires
que tem de começar a ter
mais sentido crítico
senão vai alinhar
com as meninas de antigamente
que ficaram yesterday
o metro está a chegar
decisão
pode escolher
opção ou destino
menino
menina
menina
menino
seja menina
mas não seja menina
mantenha a silhueta de menina
menina
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Faculdade fechada
trancas à porta
daqui não se passa
nem pé d'aluno nem pé de beata
nem pé de ganhão
a garra que se finca hoje
deixará história mesmo sem vitória
arranhará gravatas
rasgando a pelica
e a faixa atravessa-se e grita
e os tambores que não vêm?
onde estão os tambores?
alguém esganiça a voz
outro responde para trás
a beata empenha-se
um táxi buzina para não atropelar a bailarina
a discussão cai na poça
pois
os tambores, os tambores
que falta, os tambores!
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
um poema de Manuel Canário
Sempre fui um operário
Em duas profissões
Mas nunca fui lacaio
Para mestres e patrões
Trinta anos de censura
Vinte de caixas sindicais
Quarenta anos de ditadura
Ena porra que é demais
Primeiro de Maio ganhámos
Para bem de quem trabalha
Tantos anos lutámos
P’ra vencer esta batalha
Sou pobre mas sou honesto
Nunca trabalhei a roubar
Há quem diga que não presto
Por não saber engraxar
Muita gente passou mal
Actualmente se esqueceu
Que havia um Tarrafal
E boa gente lá morreu
Sempre fui um operário
Agora deixei de ser
Hoje não tenho horário
Nem patrão para obedecer
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
A li(cita)ção - situação do Ensino Superior
PERSONAGENS:
Leiloeir@
Paulo Teixeira Pinto
Francisco Murteira Nabo
João Picoito
Charles Buchanan Jr
Alun@
Assistente d@ leiloeir@
Leiloeir@ – Boa tarde! Estamos hoje aqui, a pedido do Engenheiro José Sócrates, para leiloar a tão estimada Universidade de Lisboa, devido à falta de financiamento por parte do governo. A partir do próximo ano, a U.L. vai ter um défice de 6 milhões de euros, tornando impossível a gestão pública desta instituição. Estão abertas desde já as licitações. Agradeço que os licitadores não só proponham um valor para a compra, como também se apresentem, especificando por que razão seriam os melhores gestores desta Universidade. O senhor aí, por favor.
Paulo Teixeira Pinto – Então muito boa tarde, o meu nome é Paulo Teixeira Pinto e, como o resto das personalidades aqui presentes, foi-me reconhecido o mérito para estar presente na Assembleia Estatutária que decidirá os destinos desta instituição. Como devem saber, recebi ainda há pouco tempo uma reforma choruda do banco que geria, o BCP, como reconhecimento do meu esforçado trabalho durante vários anos…
Charles Buchanan – (com pronúncia inglesada) Boa tarde, eu sou o Charles Buchanan Jr e sou o Presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, cargo para o qual fui directamente nomeado pela excelentíssima Administração Norte-Americana, presidida pelo senhor George W. Bush. Ofereço 6 milhões de euros e uma ligação privilegiada às grandes multinacionais norte-americanas, na condição de explorarmos todas as patentes produzidas na universidade. Posso não ter tanto currículo, mas sem dúvida tenho muito mais power!
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Eduarda Dionísio sobre João Martins Pereira
2. É verdade que JMP sempre acreditou mais em si como homem de saber (preciso), de pensamento (claro) e de escrita (concisa) do que como «actor» de sessões públicas, ecrãs e microfones. E de cargos. A passagem por uma Secretaria de Estado foi uma grande e curta excepção. Aguardo, ansiosa, que alguém se ponha a estudar a sua agenda de trabalho, que ele depositou no CD 25 de Abril.
JMP é um caso raro. Arrisco: o único intelectual de esquerda do pós-guerra, nesta terra, sem qualquer sedução pelo «estrelato», o reverso da vedeta. Um homem das economias, formado nas engenharias, para quem as artes existiam – literatura, evidentemente; cinema, muito; teatro, algum; pintura também.
3. Lembro-me bem da sua caligrafia miúda e da paginação do que escrevia à mão, com margem certa, mais rigoroso do ninguém, entregue sempre a horas, para publicação (no Combate de uma certa altura, nos Cadernos do Elefante, edições mais «marginais» do que outra coisa) ou para ajudar os outros (uma fui eu) a escrever sobre assuntos de que ele sabia mais – disponibilidade sem medida.
4. Sem ele, nunca teria tido uma relativa segurança quando me meti em «aventuras».
É difícil de descrever e avaliar a sua invisível participação na 1ª campanha das Europeias do PSR, em 1987, quando se tratava de dizer que a Europa não era aquela, com vários independentes, entre os quais ele: a sua atenção e rigor limparam e enriqueceram (factos, parênteses, números, ideias) os textos inicialmente escritos a duas mãos, pelo Jorge Silva Melo e por mim.
Nunca os 10 anos da Abril em Maio teriam sido aqueles que foram, se não tivesse sido ele a escrever a convocatória para os dois fins-de-semana de festa onde a Abril em Maio nasceu.
5. Escrevi muitos papéis, anónimos, colectivos, quando ele não estava ou já não estava ali, a pensar «como é que o JMP escreveria isto?» ou «o que é o JMP pensará disto?»
Por isso, não sei como é possível andar-se pelas esquerdas sem nunca ter lido O Reino dos Falsos Avestruzes ou como se JMP não o tivesse escrito.
JMP (que não acreditava em frentes com inimigos de raiz tornados amigos de superfície) foi e continuará a ser para mim uma referência que não morre. Sou quase incapaz de escrever sem citar umas frases suas que dizem o que não sei dizer de outra maneira: que os dois anos do chamado PREC foram os únicos em que milhões de pessoas viveram no verdadeiro sentido da palavra; que não é possível confundir «empenhados» e «alistados».
Aprendi com ele que o «não me apetece» é o maior critério para as recusas – o apetite e o não apetite têm política dentro.
6. De há um tempo para cá, tenho tido saudades do JMP e agora vou ter mais ainda. A sua morte abre um grande buraco, que se acrescenta a outros. Gostava de ter pelos menos 50 páginas à disposição para poder falar dele.
Eduarda Dionísio
14-11-08
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
a menina pires diz que há uma hipótese
fazendo uma mise
ultrapassar os espanhóis
no consumo de caracóis
escrever cem vezes numa folha
as leis da rolha
combater o desemprego
com mais polícia
acabar com o emprego
com mais perícia
dar à crise financeira
uma vaca leiteira
e quando faltar dinheiro
pagar o jantar ao banqueiro
sermos mais tolerantes
como éramos dantes
pôr na televisão fado
e revivalismo furtado
avançar com o despedimento
para viver o momento
sair da cauda da europa
e ir para os dentes da europa
o país desaparece
e com ele o iérreésse
e por fim descansados
no monitor sentados
acender virtualmente a lareira
pôr a manta e a joelheira
clicar no progresso
e chorar o último impresso
domingo, 5 de outubro de 2008
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Rita Canário
a cabeça que atirava para o lado
a voz rouca o riso contido
uns “não é?” no fim das frases
vi-a também a chorar
e também com muito muito álcool
uns “não é?” muito doces às vezes
com a voz a ficar mais grave e sincera
muito computador e números
e sei lá mais o que estou para aqui a dizer
o que estou para aqui a dizer
sem dizer em voz alta
dantes naquela altura
eu fazia uns jogos que podiam dar por exemplo:
«A Rita dança ao sol com o Olímpio no planeta Asteróide B612 e diz “porquê?”»
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
a rocha grande, o atalho,
a grande plantação de malmequeres,
o alcatrão demasiado liso,
um farol a apontar para trás
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
o lixo, a pergunta, a esquizofrenia,
a polissemia das ideias,
o regato fresco em horas de sol,
a cancela e o cartaz a dizer:
«detido pelos detentores»
Por isso é que o caminho não é sempre em frente
o ar, os aviões, as nuvens
as cavernas de estalactites
até ao coração quente da terra
e buracos negros
sábado, 16 de agosto de 2008
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
C. C.
Venha calçado.
Tape várias partes do corpo.
Traga dinheiro ou um cartão bancário.
Apague o seu cigarro e entre.
Deixe o cão na rua.
Se não tiver telemóvel traga trocos para as cabines.
Ande.
De trás para a frente, de um lado para o outro.
Não se sente nas escadas.
Não corra nos corredores.
Coma e compre.
Beba e babe-se.
Saia e acenda o seu cigarro.
Revolução
É o melhor para o amor
É o melhor para a alegria
Veja isto por favor
Tem abertura fácil
Tão prática e barata
Tem muitas cores
Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar
É útil, excitante, indispensável
É urgente, importante, homem e mulher
Toda a gente quer
Mas tem receio de experimentar
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
terça-feira, 29 de julho de 2008
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Falta de amnésia
o presente é um muro
duro
É preciso esquecer para
lembrar o que vai
acontecer
Abre-se a reminiscência
o parto luminoso
aprender
Não existe o espírito eterno
é só brilho ideal e parte
da ignorância
Não podes reencarnar
mas podes convidar filósofos
para jantar
E assim uma mentira grega
pode ajudar a esquecer
a esquecer a verdade
segunda-feira, 21 de julho de 2008
O sextos da Kylakäncra
I
tu numa carcaça vermelha
semi-recheada de estruturas
com bases anti-raio de ligação ao mundo
juntas as pestanas em ralenti
acalmas o tambor do peito
abres os canais e eles quase latejam
queres a estrela só reflexo
articulando a asa está frio
acendes depois de tudo um cigarro
tu numa carcaça vermelha
ela de olhos fechados
ela a dormir e tu não consegues
não és uma máquina
não tens motor
o vermelho grito afinal é teu
II
quatro luzes na ribalta
a luz dos que gritam
a luz dos que sorriem
a luz dos normais
a dos amigos dos animais
a força vem da primeira
a dúvida vem da segunda
o rangedor é na terceira
o veneno vem da última de todas
III
se grande se escreve
com letra pequena
e pequena
se escreve com letra pequena
temos duas pequenas:
uma pequena e outra grande
IIII
o papel mas
no outro sentido
no outro sentido
as letras no mesmo
quando já se virou o sentido
do papel
também se podia virar
o sentido das letras
é tão raro
IIIII
páginas aos sextos mal vincadas
os tímpanos quase furados
um subproduto humano a ajudar
para quê descrever o quadro?
e se um grão de terra do chão
se começar a mexer?
um som a crescer?
de repente
voltaram os tímpanos
seria para durar?
dormir
dor-mir é que era bom
IIIIII
sempre que aquele cão se aproxima
o outro rosna.
é preciso que se afaste um cão do outro!
devem chamar-se muitos cães
e aumentar a confusão;
que a matilha seja um labirinto
para o cão que se aproxima
e para o cão que rosna!
é preciso apaziguá-los
domá-los
catequizá-los!
E que ninguém rosne neste país!
IIIIIII
ouve
quero sair daqui
quero ir-me embora, partir, sumir
fugir
deixa-me fugir contigo
e para onde formos que seja longe
longe mas quente
e as minhas têmporas aí amolecerão
contigo e mar a brilhar em frente
ou então por todos os poros
o mar










